O Anjo
1 Capítulo Único.
Notas iniciais
Você foi a primeira mentira que eu me contei.
A segunda foi nós.
A terceira foi que as lágrimas que secavam meu rosto
e o sangue em meus braços
cintilavam era de
felicidade.
Ainda conservo meus lençóis de amante.
Sou auxiliado pelo tempo,
pela memória
e pelo armário,
que o zela
como os sacrários abraçam
as suas sagradas relíquias.
Gosto de pegá-los.
Descobrir de novo o mapa dos nossos corpos,
os seus vales e planícies
onde eu deitava minha cabeça
e escutava as suas palavras como feitiços:
ouvia as árvores cantando à beira da janela,
a água escorregando nas pedras do regato,
o sino da igreja me chamando de longe.
Via o sol me despertando,
as flores acordando,
a grama imitando o mar,
o mar imitando o céu,
o céu imitando seus olhos
e seus olhos imitando Saturno,
com toda a sua gravidade ansiosa e esmagadora.
Olhos sempre amanhecendo,
sempre velados por bruma.
Devia saber que as brumas
anunciam as geadas.
E que as geadas um dia
acordariam meu peito branco.
Congelado.
Você gostava de adivinhar o coração das pessoas.
Mas se o meu sempre foi um vaso,
o seu sempre foi um abat-jour.
Ainda conservo as minhas roseiras de amante.
Gosto de tocá-las.
Sentir a textura da sua pele,
que as pétalas aprenderam a imitar.
As roseiras crescem no jardim,
atrelam-se às arvores
e afundam seus espinhos
nas romãs.
As roseiras crescem nas minhas mãos,
atrelam-se ao meu corpo
e afundam seus espinhos
no meu coração.
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