O Anjo
2 Feitiços
Notas iniciais
O vento cortava a cidade do lado de fora. Era inverno, a neve começava a tomar conta de tudo, isolando todos em suas casas. Mesmo sendo um prédio importante, o aquecimento do Empire State pareceu não funcionar. Talvez alguém não tivesse-o ativado. Porém, Davi achava que era a garota à sua frente que estava causando o frio.
– Você vai ou não nos ajudar? — Ela perguntou, os olhos selvagens.
Ele não sabia direito o que fazer. Devagar, se aproximou dos dois. A garota loira ficou tensa, pareceu querer se afastar, mas sabia que não podia. Como uma criança que tem medo de médicos, apesar de não aguentar de dor.
Davi colocou a mão sobre a testa do mestiço. Sua pele estava pálida e fria, porém ele respirava. Fracamente, mas respirava. Tentando recorrer à sua mente, pensou em todos os lugares que seriam considerados seguros. Havia algo diferente neles. Davi nunca havia visto-os em Idris. Logo, não seria seguro. Porém, muitas criaturas moravam lá. Voltando em suas memórias, lembrou-se de um casarão que sua família possuía. Antigo, isolado, e ninguém ia mais lá.
– Eu sei de um lugar – ele disse, ainda checando os sinais vitais do garoto de cabelos castanhos.
– Onde? — Ela perguntou rapidamente. Suas mãos atadas ao garoto tremiam e estavam sujas. Por um certo momento, Davi sentiu pena dela.
– Em Idris. Conhece?
Ela balançou a cabeça em negativa.
– Uma cidade protegida com feitiços. A cidade é perigosa, mas suas redondezas são um pouco desertas. Assim, quase ninguém vai lá além de...
– Protegida? Sem monstros e demônios? Sem pessoas?
Davi se assustou com a rapidez das perguntas.
– É... Eu posso marcá-los para que ninguém os veja, também.
– Quais são as coordenadas?
Ele franziu a testa.
– Como?
A garota loira lançou-lhe um olhar apavorante. A temperatura pareceu baixar, Davi começou a sentir calafrios. Nunca havia visto alguém fazer uma coisa assim. Com rapidez, ele disse as primeiras coordenadas, mas o elevador abriu-se atrás deles e algumas pessoas entraram. Ao ver os três ai, suas expressões foram do choque à raiva.
– Rápido! — Disse a garota que estava com o mestiço.
Não, você não vai escapar sem explicações – disse uma garota de cabelos escuros e olhos claros. Era uma Nelphilim.
– Você nos prometeu a segurança. Agora, me dê as coordenadas! — A garota loira insistiu.
No mesmo momento que Davi terminou de dizer o último número, sentiu um puxão na barriga. O mundo começou a ficar escuro, não havia nenhum chão aos seus pés.
Depois de alguns instantes estavam no antigo casarão dos Kreenman. Todos.
Davi olhou para os lados, confuso. Estava frio, e havia poeira em todos os locais. A luz da Lua penetrava em pequenas frestas nas janelas, mas ele não precisava de nenhuma luz para se locomover para o casarão. Passava mais tempo lá do que na própria casa. Porém, o fato de estar de repente do outro lado do mundo deixou sua mente em um nó.
Escutando reclamações e vozes raivosas, ele se levantou silenciosamente e começou a andar pelos corredores. O piso era de madeira, porém, ele sabia exatamente onde pisar para não fazer nenhum barulho. Atrás de si, as pessoas estavam começando a ficarem mais alteradas. Davi tinha coragem de saber quem eles eram, mas estava muito mais interessado em saber como havia chego ali. E confiando em seu instinto, tinha a certeza que encontraria aquela garota de cabelos loiros.
Dobrando um corredor, ele viu uma iluminação. Rapidamente, se aproximou e abriu a porta, para fechar rapidamente-a atrás de si. Quando terminou, sentiu um metal frio em sua pele e viu o rosto daquela estranha garota mal iluminado por algumas poucas velas. Seu coração começou a bater mais rapidamente e a respiração falhar. Isso era uma das coisas que nenhum Nelphilim poderia ter: medo. Porém, era humanamente impossível de isso acontecer.
– Vim ajudar – ele disse, tentando não se mexer. Aquela garota encarou-o mais uma vez. Ela apertou o metal gelado em sua garganta mais uma vez, para dizer quem mandava, e então se virou.
– Acenda mais velas – ela disse, com a voz fria.
Davi franziu a testa e olhou à sua volta. Estavam em um quarto simples, com um armário, uma escrivaninha com uma cadeira atrás de si, e uma cama na sua frente. O garoto que havia visto antes estava deitado sobre ela. Ele foi até a escrivaninha e pegou algumas velas, e começou a acendê-las usando a luz das outras.
– Onde eu coloco elas? — Perguntou.
A garota loira apontou alguns pontos, ainda estando de costas. Davi começou a colocá-las em seus lugares.
– Bem, hã... Qual o seu nome? — Ele disse, curioso. Era estranho estar fazendo coisas para uma desconhecida estranha que nem sabia o nome.
– Laurence. Mary Laurence – ela respondeu, mexendo em algo, que segurava nas mãos.
– E o que exatamente você quer fazer?
– Devolver a alma de John – ela respondeu, como se não fosse nada.
Davi estancou.
– Como é que é?
A garota loira – Mary – o olhou.
Ele está sem alma. Eu retirei-a para colocar outra no lugar, para que os monstros e demônios pegassem a alma e a destruíssem, sem que eu pudesse fazer o feitiço. Agora, eu vou colocar a alma de John de volta e fazer o feitiço. Então, tudo isso serás acabado.
Sua voz era fria, porém, Davi sentia que ela estava tensa. Talvez porque o que ela estava falando não fazia o menor sentido. Porém, Davi continuou a fazer o que ela havia lhe pedido sem mais perguntas, graças ao seu altruísmo.
– Agora, permaneça na porta e garanta que ninguém entrará. Faças uma Marca de tranca. Meus poderes não vão conseguir segurar por muito tempo se alguém começar a destruir a porta.
Davi a olhou mais uma vez com os olhos arregalados.
– Como é que é? Poderes? — Sua voz saiu alta.
Mary lançou-lhe um olhar de advertência.
– Faça o que eu disse. — Sua voz foi fria. Então, ela voltou sua atenção para o garoto.
Davi desenhou rapidamente duas Marcas para trancar a porta, e se virou para ver o que aquela garota iria fazer.
Ela colocou uma caixa em cima do tórax de John. O garoto mal respirava. Então, cortou a palma de sua mão e começou a falar em grego arcaico. Davi reconheceu algumas palavras, como ressurreição, almas, Mundo Inferior e Tânatos. Porém, o garoto nunca fora bom em línguas para reconhecer o resto.
Então, o clima começou a esfriar. Uma névoa começou a cobrir o chão, e um medo borbulhou na garganta de Davi. Porém, sem saber o motivo, ele permaneceu ali.
A caixa negra em cima do tórax do garoto se elevou, sem que ninguém tocasse nela. Uma luz arroxeada pairava sobre tal objeto.
A porta atrás de Davi começou a bater.
Mary não parou de cantar, ela nem pareceu perceber.
Mais socos atrás dele. Parecia que começaram querer por a porta abaixo.
A caixinha se abriu. Uma espécie de névoa luminosa e densa desprendeu-se dela, escorrendo para baixo, para o corpo de John. Ela foi, como se tivesse vida própria, migrando pelo tórax e o pescoço dele. Então, parou. Ficou alguns segundos em cima do garoto antes de entrar dentro dele, como se ele fosse uma esponja.
Davi percebeu – mesmo com o barulho incessante das pessoas atrás de si, loucas para entrar – que John estava respirando mais normalmente.
– Não deixe-os entrar – a voz de Mary era fraca.
Ele sentiu a adrenalina tomar conta de seu corpo enquanto assistia a uma espécie de ritual e evitava que pessoas de sua mesma raça estrassem. Mesmo assim, o Nelphilim continuou a fazer o que ela pedia.
Rapidamente, Mary começou a cantar de novo. Sua voz estava clara, e ela cortou novamente, porém, agora fora as palmas das duas mãos. Onde o sangue pingava, a névoa ficava vermelha. Ela continuou a falar, e o clima se tornou tenso. O ar difícil de se respirar, pois estava com cheiro de lixo e pesado, como se fosse chumbo gasoso. Mary continuou a falar.
Algo apareceu atrás dela, não muito perto. Davi abriu a boca para dizer algo, mas a garota foi mais rápida: com um movimento com a mão, a criatura indistinta se contorceu e emitiu um chiado estranho, como ar saindo de um balão. Então sumiu na névoa negra.
Davi não conseguia respirar ao terminar de ver aquela cena. Ele agradeceu profundamente o fato de o local estar iluminado somente com velas, para não ter visto nada mais aterrorizante.
A porta atrás dele começou a balançar com mais violência. O garoto desenhou mais uma Marca de tranca e outra de força, para que as dobradiças não se soltassem. À fraca luz, quase não podia-se ver os desenhos que ele havia feito. O barulho das pessoas esmurrando a porta não cessou, mas ela pareceu um pouco mais firme.
– … et eius quod amina non abstulit. – Mary por fim disse, colocando a faca que usou para cortas as palmas das mãos na boca de John. Davi achou o gesto estranho, mas tal estava resplandente à luz das velas.
Nada a mais aconteceu. Mary suspirou fundo.
– Fique aqui, não deixe com que peguem-o muito menos machuque-o. Entendestes?
Davi balançou a cabeça em um gesto negativo, enquanto via ela arrancar a porta das dobradiças com um movimento de mão e sumir de vista, deixando todos pasmos.
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