O Andarilho e a Feiticeira
1 O Andarilho e a Feiticeira
Em uma longa e deserta estrada percorria um jovem andarilho, de vestes cinzas e surradas, cabelos sujos, carregando em uma das mãos um cajado para auxiliá-lo na caminhada e em outra, uma bolsa de pele de coelho para carregar seus poucos pertences. No caminho, se depara com uma misteriosa figura. Uma mulher, vestindo longos panos de cor púrpura, que deixavam a mostra apenas seus encantadores olhos negros, acompanhada de um burro que trazia em suas costas várias bolsas e quinquilharias.
Curioso, o andarilho se aproxima e pergunta — Com licença. Se me permite perguntar, o que uma moça tão linda como você faz num lugar deserto como este?
A mulher ri e o responde em seguida — Sou o que chamam por aí de "feiticeira" ou "bruxa". Minha magia permite que eu fabrique poções e realize feitos magníficos, então, viajo de vila em vila, oferecendo meus serviços.
Ainda mais curioso, o homem novamente a questiona — Se é tão poderosa, poderia ser imensamente rica e ter impérios aos seus pés. O que faz num lugar como este?
— Não sou assim tão poderosa quanto diz. E infelizmente, este meu dom também é minha maldição. Meus poderes não possuem efeito algum em mim, não posso utilizá-los em meus próprios interesses. Mas e o senhor? Tanto indagou mas não se apresentou.
Desconsertado, o andarilho se prontificou a respondê-la — Sou apenas um jovem vagabundo. Fracassei em tudo que tentei, e hoje apenas vago por aí, tentando me encaixar em algum lugar.
Olhando-o com interesse, a feiticeira fala — Gostei de você, então, gostaria de ajudá-lo como posso.
A feiticeira anda até seu burro, procura algo em uma de suas bolsas e dela retira uma pequena caixa. Ela se volta para o andarilho e abre a caixa em sua frente, revelando um pequeno frasco que portava um liquido laranja vívido.
— O que é isso? — O jovem pergunta.
— Isso, meu caro, é minha obra prima, tão poderosa quanto perigosa. Tão difícil de ser feita, que até hoje, fui capaz de produzir apenas uma. E é toda sua.
— Para mim? E o que fiz para merecê-la? O que terei de fazer em troca? — Questiona, estupefato.
— Absolutamente nada. Esta uma poção extremamente poderosa para ser dada ou vendido a qualquer idiota por aí. Como eu disse antes, me sensibilizei por sua história, e conheço uma história verdadeira e uma pessoa sincera quando as vejo. Sei que fará bom uso dela. Esta poção é toda sua, caso queira.
— E o que ela faz?
— Eu a chamo de Glória Efêmera. Quem bebê-la, terá imenso sucesso em absolutamente tudo que fizer e alcançará de que almejar. Porém...
— Sempre existe um porém... — Comenta o jovem, com um tom de conformação.
— Seu tempo de vida reduzirá drasticamente. Em algum momento, não se sabe quando, irá adoecer e, lamentavelmente, irá morrer.
O andarilho engole em seco e, relutante, pega o frasco da caixa. — Bom... O que é que eu tenho a perder? — Ele tira a rolha do frasco e num gole só, bebe toda a poção.
— Boa escolha. Agora, tenho que seguir meu rumo. Foi bom conhecê-lo, "andarilho". — A feiticeira vai até seu burro, e segue caminho, afastando-se. Depois de voltar a si, o jovem faz o mesmo.
Depois daquele encontro, sua vida jamais foi a mesma. Em cada lugar que passava, o jovem andarilho conquistava seguidores, dominava inimigos e vencia duelos. Em poucos anos, se tornou o mais poderoso imperador vivo. Conhecido, admirado e, principalmente, temido. Seus feitos são entoados por bardos em todos os cantos do mundo.
As mulheres mais lindas e ambiciosas ajoelhavam aos seus pés, entretanto, nenhuma delas o interessava. Até que certo dia, conheceu uma mulher tão incrível como jamais viu antes. Estava completamente cego de amor e fez de tudo para tê-la para si. Apesar de tanto rejeitar, ela acabou cedendo e se apaixonando.
Os dois se casaram, contudo, não se dispuseram de muito tempo para aproveitar o casamento. O fatídico dia se aproximava cada vez mais. A noticia de que o impassível imperador adoecera espalhava-se como gafanhotos em um pomar. Os mais conhecidos curandeiros se prontificavam a tentar curá-lo, todavia, sem sucesso. O profecia estava se concretizando. Logo, o imperador teria seu fim.
Sem filhos ou amigos de verdade, o ainda jovem soberano tinha consigo em seu leito de morte apenas sua amada esposa. Porém, o que deveria ser um momento de conformidade e paz se tornou pior dia de sua inquieta vida. Com um cruel sorriso no rosto, sua esposa o observava e depois de tanto o intimidar, finalmente falou, em tom de deboche, o que seriam as últimas palavras o jovem ouviria em vida.
— Tolo... Mesmo depois de todos esses anos, não foi capaz de me reconhecer? Sua ganância e paixão o cegou e o levou a desgraça. Quando, há muito tempo, falei que meus poderes não faziam efeito em mim, eu falava a verdade. Mas acreditar que não utilizaria para meus próprios interesses? Não pensei que seria tão burro. Agora morra, sabendo que toda sua vida foi pura ilusão, e que não passou de uma mera ferramenta para minha ascensão.
Fale com o autor