O Anônimo
1 Capítulo único
Notas iniciais
– Droga! – Luíza murmurou pra si mesma. Mais uma vez seu celular tinha tocado e imediatamente parou de tocar
Ligações confidenciais, e como todas as outras era só um toque. Às vezes até a cobrar.
Varias vezes a garota recebe essa tal ligação. Parece que quem faz isso não quer falar algo com ela, só quer que a mesma saiba que ele lembrou-se dela, mesmo sem que ela saiba quem ele é.
Ela não costuma passar seu numero para muita gente, e também não tinha muitos amigos- pra não dizer nenhum- então não poderia ser algum conhecido só brincando com ela e que depois se revelaria. Também não têm inimigos, não poderia ser também alguém que a odiasse e quisesse lhe ver irritada, até porque se for, não estaria alcançando seu objetivo.
Mas ela não tem nenhuma suspeita? Tem. Tem sim.
Thomas. Ele é o suspeito. Não é só um julgamento. Essa suspeita se baseia em rastros e falhas dele, se é que é ele.
Não é muito estranho que uma pessoa lhe ligue de vez em quando, simplesmente um toque que não dá tempo atender, quando dá, não dá tempo de falar, exatamente como as ligações confidencias?
Levando em conta que eles não se falam e que Thomas tem dois chips, mas há muito tempo quando ainda se falavam e ele deu seu numero a garota, deu exatamente o que ele não usa pra ligar pra mesma, mesmo que anonimamente?
E também que o outro numero que ele tem, ele disse ser da avó dele e não desconfia que é justamente esse que ela tem gravado no celular?
Não sei se essas coisas podem fazer alguém imaginar o mesmo que ela, que tem a qualidade-defeito de colher todas as pistas. Mas sei que é muito estranho o Thomas ligar pra Luíza, claro que pode ter trocado um numero e ligado pra pessoa errada, normal isso, mas não quando isso acontece mais de uma vez e quando após ela retornar, chamar e ele não atender.
– LUÍSA, VEM LAVAR A LOUÇA – a garota não gosta de lavar louça, mas nesse momento ficou feliz por sua mãe ter lhe feito acordar desses pensamentos.
– TO INDO, MÃE – gritou de volta.
Deu mais uma olhada no registro pra ver as chamadas e guardou o celular no bolso. Ela tem medo que um dia seus pais ouçam seu celular tocar e atendam uma dessas ligações confidencias.
Seu pai acredita que tudo é porque alguém está fazendo ameaças.
Ta em depressão? “tem alguém te ameaçando?”
Ta triste? “tem alguém te ameaçando?”
Ta chorando? “tem alguém te ameaçando?”
Ta tirando notas ruins na escola? “tem alguém te ameaçando?”
Ta comendo pouco? “tem alguém te ameaçando?”
Com certeza eles não podem saber dessas ligações. E com certeza ela não precisa contar. Elas não a assustam. Seja lá quem for, essa pessoa é um covarde, pois assim que Luíza atende ele desliga, mais um motivo pra ela achar que é o Thomas. Ele também é um covarde.
~ no outro dia ~
– Certo, é hoje. Hoje eu crio coragem e deixo as ligações durarem mais tempo. Estamos em um sábado e isso quer dizer que não lhe verei nem hoje, nem amanhã, o que evita que ela associe as vozes. – murmurou
Ele fechou a porta do quarto e sentou-se na cama.
– Oi, Lu. – treinou mudando a voz – Não, não, eu a chamei de Lu quinta-feira, se eu chama-la assim de novo ela vai perceber – falou pra si mesmo – Oi, Luíza. – mudou a voz novamente – Certo agora está bom.
Colocou o numero no confidencial e buscou o numero dela.
– Oi. – no primeiro toque ela atendeu. Ela pareceu já saber quem era, soou muito natural.
– Oi, Luíza.
Ela fez silencio esperando que o anônimo dissesse mais alguma coisa, mas ele também ficou calado – Quem é? – aí ela quebrou o silencio assim e ele desligou decidindo que já estava bom por hoje.
Isso foi o mais longe que o Thomas já foi em suas ligações pra ela.
~ oito dias depois ~
Sábado novamente. Dia de ligação.
Luíza estava dormindo pra aproveitar seu sábado, quando o celular tocou ao seu lado. Seus olhos arderam com a claridade do celular devido à escuridão que estava no quarto naquele momento, e logo o colocou na orelha.
– Alô – sua voz estava muito sonolenta
– Oi, Luíza, tudo bem? – a pessoa falou do outro lado da linha, e a garota notou que a voz era masculina.
– Tudo indo, mas quem é você?
E aí a única coisa que ouviu foi o celular avisando que a ligação foi encerrada com os seus insuportáveis TU’s TU’s.
Colocou o celular no mesmo lugar de antes e voltou a dormir.
Depois de dezessete semanas fazendo ligações que a cada uma delas progredia mais, enfim ele estava pronto pra se declarar.
Da ultima vez ela que fez isso, ela que lhe disse o que sentia. Namoraram, mas um mês depois Thomas disse-lhe que não gostava mais dela.
Foi a maior burrada que ele já fez. Naquele resto de ano ele realmente viveu bem sem a ex, mas no outro ano sentia tudo de novo.
Quando disse lhe que não sentia mais nada por ela, a mesma ainda tentou ser sua amiga, mas nem isso ele quis. Só a ignorava, e depois de um tempo ela começou a fazer o mesmo, não por vingança ou pra mostrar que estava melhor do que ele, mas só em uma tentativa de expulsá-lo do seu coração.
Thomas esperou seus pais irem trabalhar para que quando ligasse a casa estivesse vazia, ele não queria começar a falar tudo que sentia e saber que alguém poderia estar ouvindo coisas “tão gays” vindo dele.
Luíza estava no aniversario de um primo, com todos seus parentes presentes, quando seu telemóvel tocou, ela logo foi pra fora do lugar porque seus parentes com certeza iriam fazer perguntas. Quando ela finalmente saiu já havia varias chamadas do anônimo, coisa rara porque ela sempre se esforçava em atender na primeira chamada, pois provavelmente não iria haver outra.
– Oi, nony! – esquisito, mas ela já tinha se tornado amiga do anônimo sem saber ao menos seu nome.
– Oi, Lu. – Thomas nunca mais lhe chamou de Lu pessoalmente para não levantar suspeitas – Eu tenho algo pra te falar
– Pode dizer.
– Eu vou começar da forma mais pratica, eu te amo.
– Nony, eu nem te conheço...
– Me deixa terminar de falar, Lu. Eu te amo e fui um burro, eu sou alguém que você conhece pessoalmente, alias você me conhece muito bem e eu fui mais burro ainda de ter te dito que não todas as vezes que você dizia que sim. Esse sentimento não foi nutrido pelas ligações, mas não posso negar que elas o aprofundaram.
– Eu nem sei quem é você não tem como eu te dizer algo.
– Thomas.
– Thomas? Rá! Eu sabia! Você deixou varias falhas desde o inicio – ela estava certa e seu coração começou a bater mais forte. Era ele. O que ela iria fazer? Já fazia tanto tempo, será que ela ainda o queria?
– E o que você tem a dizer em relação a tudo que eu te disse?
– Simplesmente que você foi um panaca e mesmo você sendo uma pessoa legal tanto pessoalmente quanto nas ligações, eu ainda não estou pronta para voltarmos pela segunda vez. Tu disseste que não gostava mais de mim, o que me garante que se voltarmos você não vai dizer-me isso de novo daqui um mês?
– Eu não sei...
– Essa é a conclusão. Você não sabe o que senti realmente e isso é o suficiente para não tentarmos novamente.
Fale com o autor