O Amor É Uma Farsa

11 Eu não quero resistir


E eu não sei, não sei mais quem sou, nem o que faço aqui. Não sei por que recebi uma segunda chance, e muito menos porque me salvei de perde-la. O que eu sou? Por que há algo ou alguém querendo que eu me dê bem? Se é que há. Eu posso estar enganada, mas sinto que há algo estranho nessa minha história de vida. Eu sei que fui assassinada pela pessoa que eu mais confiava, e que isso pode gerar uma certa pena aos povos do céu, ou sei lá. Droga, eu nem sei mais o que estou pensando. Só estou buscando um entendimento para o que ocorreu ontem. Por que Victor não me matou? Por quê?

Eu precisava descobrir essa resposta, eu estava louca, parecia uma doente de tanto pensar no que poderia ter acontecido naquele momento. Passei a noite inteira acordada, eu nem poderia dormir, a duvida e os pensamentos me faziam passar longe do que era considerada uma boa noite de sono.

– Ariel? – Chamei ainda dentro do meu quarto, acreditando que esse era o caminho da resposta. – Preciso falar com você.

– Sim querida? – Ela apareceu atrás de mim, e eu nem queria imaginar de que buraco ela havia saído.

– Eu não consigo Ariel, não sozinha. – Falei parecendo desesperada, e a verdade é que eu estava. – Tem muita coisa errada.

– É claro que consegue querida, eu nem deveria estar aqui, não posso ajuda-la, não posso descer a terra, essa deve ser a ultima vez que venho, você precisa...

– Eu sei disso. – A interrompi. – Mas por favor, me responde só uma coisa.

– Não posso Annabelle, eu gostaria muito de ajudar, gostaria mesmo.

– Mas é importante, e eu não aguento mais pensar nisso. – Falei deixando algumas lágrimas rolarem. – Eu não aguento mais isso aqui.

– O que aconteceu querida?

– Victor, como sempre ele. – Falei tentando enxugar as lágrimas. – Ele ia me matar ontem.

– Que bom que conseguiu escapar, você precisa ter cuidado.

– Não escapei por mim. – As lágrimas insistiam em cair. – Ele não me matou, e eu não aguento mais tentar saber o porquê disso.

– Ele não lhe matou? Como assim?

– Eu não sei, ele estava prestes a me matar, mas começou a se debater do nada, dizendo que não quer, não consegue, ou sei lá, não ouvi direito.

– Espere um instante, preciso ver uma coisa. – Ariel disse e logo saiu da minha vista.

E eu de fato não aguentava mais. Não aguentava mais ter que ficar sozinha, não aguentava mais pensar no que havia acontecido, não aguentava mais viver essa nova vida. Talvez fosse melhor que Victor tivesse me matado, ia acabar logo com isso, não teria mais sofrimento, apesar de não saber para onde eu iria depois de morrer. Mas isso não importava, eu só não queria estar aqui. Mudei a vida de Stella, transformei na minha, e pensei que seria fácil vive-la, mas não é, cada dia vai ficando pior. Dizem que temos que deixar o by Browse to Save\">tempo apagar as lembranças, mas isso está errado, o tempo não apaga nada, o tempo faz a gente fingir que esqueceu. E é isso que eu tento fazer todos os dias, fingir que eu nunca fui ferida, fingir que eu nunca morri, mas eu morri, e ontem eu estava perto de uma segunda morte, se é que isso existe.

– Não acredito. – Ariel disse assim que voltou ao meu quarto, ela estava pálida, parecia congelada, assustada com algo. – Isso é impossível.

– O que aconteceu? Onde você estava? – Perguntei assustada com a aparência preocupante de Ariel. Ela era um anjo, e nunca havia ficado daquele jeito.

– Eu vi o que aconteceu, e eu sei o porquê daqui. – Ela disse me assustando mais ainda.

– Me conte, por favor.

– Sinto muito Annabelle, não posso. – Ela disse, e logo em seguida perdeu a aparência assustada que estava e sorriu. – Só não desista, ainda não.

– O que eu mais quero é desistir, não vou conseguir Ariel, não assim, sem respostas.

– Não desista, lute, tente, nada é impossível, eu torço pra que você consiga Annabelle, torço muito. – Ariel disse dando um beijo cuidadoso em meu rosto e partindo em seguida.

Nada é impossível? O que ela quis dizer com isso? O que não é impossível nessa minha vida?

Eu me apaixonar de novo e viver a vida tranquilamente? Ou eu me apaixonar de novo por Victor e ele se apaixonar por mim também?

Com toda certeza do mundo, a segunda opção era impossível, então me restava apenas a primeira, ou não, ou havia alguma opção escondida que Ariel não podia me falar.

Mas por que a cara assustada dela? Será que é algo ruim?

Pela cara que ela havia feito com certeza era algo ruim, mas e depois ela sorriu, pareceu feliz e me disse para não desistir, o que mostra o contrário de algo ruim.

Definitivamente Ariel deveria vir para me ajudar a achar as respostas, e acabou me deixando mais confusa ainda.

– Rachel já acordou? – Perguntei a meu pai assim que desci as escadas de meu quarto.

– Sim. – Ele disse comendo seu pão com queijo tradicional de café da manhã. – E já saiu.

– Para onde? – Perguntei estranhando. – Nós temos aula hoje.

– Justamente. – Ele mordeu uma parte de seu pão. – Ela foi para o colégio.

– Sem mim? – Arregalei os olhos, surpresa por minha irmã ter saído sem mim, ela nunca ia ao colégio sem mim.

– Sim, foi com aquele mesmo rapaz.

– Isso não está certo. – Reclamei.

– Deixe sua irmã Annabelle, ela deve saber o que faz.

– Claro que não sabe, ela só tem...

– 16 anos? – Ele me interrompeu. – Não acha que ela está na idade de viver a vida dela? Sozinha?

Ele tinha razão, eu me preocupava demais com Rachel, já estava na hora de eu deixa-la descobrir como a vida era. Eu não podia mantê-la em um conto de fadas, a vida não era assim, não era mesmo, a vida era complicada, e eu temia que a de Rachel fosse como a minha, que ela se apaixonasse por esse tal de Arthur, e ele não fosse o que ela pensava. Tenho medo que ela se machuque, e que não exista mais formas para ela se curar, da mesma forma que acontece comigo. Eu temo por Rachel, por isso essa preocupação toda, mas eu sei que ela precisa descobrir as coisas sozinha, por mais que eu deteste essa palavra, eu precisava deixa-la fazer um pouco parte da vida de Rachel.

– Seu ex veio para o colégio hoje, parece menos triste. – Megan disse para mim assim que terminamos nossa primeira aula.

– Fico feliz por ele. – Respondi bebendo meu refrigerante.

– Mas você parece meio longe do mundo real. – Ela sorriu analisando minhas expressões.

– Queria eu estar. – Respondi brevemente.

– O que aconteceu?

– Tive uma discussão com Victor ontem. – Era melhor falar discussão do que: ‘’ Meu ex tentou me matar ontem, mas relaxa, ele ta sempre tentando fazer isso.’’

– Isso já é rotina. – Ela riu. – O que te abalou dessa vez?

– Tudo. – Falei lembrando-me do momento. – Ele não foi grosso dessa vez, foi mais tranquilo.

– Está voando nos pensamentos ai por que ele foi tranquilo?

– Sim. – Eu não podia dizer outra coisa, então era o melhor que eu podia dizer.

– Só você mesmo. – Ela riu. – Onde está Rachel?

– Com Arthur.

– Olha só, pelo que parece teremos um casalzinho.

– Ou já temos.

– Que fofos. – Ela riu, tentando me provocar.

– Que ridículos. – Revidei.

– Ciúmes de você, ciúmes de você. – Megan cantou, rindo da minha cara após isso.

– Não é ciúmes, é proteção.

– Chame como quiser senhorita Annabelle.

– Chata. – Falei dando língua para Megan.

– Ciumenta. – Ela revidou.

– Irritante.

– Estressada.

– Retardada.

– Também te amo. – Ela disse sorrindo.

– Eu sei. – Retribui o sorriso, e a abracei em seguida.

Eu adorava Megan, se uma coisa havia sido boa nessa nova vida, foi ter encontrado a amizade dela. Megan era diferente das outras meninas, ela era inteligente, carinhosa, brincalhona e tinha um senso de humor que contagiava a todos em sua volta. Ela sim merecia ser feliz nessa vida. É claro que não só ela, mas outras pessoas que eu aprendi a gostar nessa nova vida também, como Nohan e Rachel, pessoas que eu gosto muito, na mesma intensidade que gosto de Megan. Eram pessoas que eu temia perder, os únicos que me faziam ter vontade de ficar nessa vida, de lutar por ela, de não desistir. Só por eles.

Terminei de falar com Megan e fui ao banheiro rapidamente antes que começasse minha próxima aula, mas me surpreendi com uma cena diferente, uma cena que eu não veria muitas vezes. Era Victor, caído no chão perto ao banheiro masculino, ele estava desolado, parecia não ter dormido, se é que ele dormia. Sua aparência era assustadora, ele estava acabado, não era o Victor aparentemente forte. Talvez tenha acontecido o mesmo que aconteceu comigo, ele não dormiu direito pensando no que havia acontecido ontem, ou pior, ou o que aconteceu com ele foi tão forte que o deixou assim, mas o que era?

– Victor? – Falei me aproximando dele, eu realmente não tinha noção do perigo, mas tinha muita noção curiosa. – O que aconteceu?

– O que você quer? – Sua voz era grossa e rouca, como se ele tivesse gritado a noite inteira.

– Quero saber o que está acontecendo. – Falei assustada com o estado dele. – O que aconteceu ontem?

– O que quer saber? Você é burra ou o que? – Ele disse levantando a cabeça para me olhar. – Eu te deixei viver.

– Não porque você quis. – Falei revidando. – Você mesmo disse que me mataria depois.

– E vou matar.

– E por que não matou ontem? – Eu não devia estar ali falando com ele, mas eu precisava das respostas.

– Eu não podia. – Ele disse me olhando profundamente, e eu vi, havia dor em seus olhos. Eu nunca tinha visto os olhos deles daquele jeito.

– Por que não?

– Sai daqui Annabelle. – Ele ignorou minha pergunta. – Só saia.

– Só sairei quando me disser o que aconteceu. – Eu estava brincando com fogo, mas naquele momento não tive medo, Victor não me trazia medo daquele jeito, não com aquela aparência.

– Por que te importa tanto? Você está viva, tem que pensar na próxima vez para ter mais cuidado.

– Por isso me importa, quero saber por que estou viva.

– Porque eu quis que você ficasse, há algo que não...

– Que não?

– Que não me deixa te fazer mal.

– O que é?

Ele apenas me olhou, parecia pensar se deveria contar ou não. Eu encarava bem fundo em seus olhos, esperando pela resposta, mas tive que desviar o olhar. Os olhos dele estavam diferentes, não eram mais aqueles olhos assustadores, ele não tinha mais aquele olhar de monstro, era apenas um olhar com medo, um olhar de alguém que precisava de ajuda, era como um olhar assustado, um olhar de quem sentia dor. E ele parecia mesmo sentir dor, mas o que lhe causava dor? Quem fazia isso a ele?

– Anna? – Ouvi alguém me chamar assim que Victor pretendia me contar.

– Sim? – Me virei e vi que era Nohan.

– O que faz aqui? A aula já começou. – Ele disse analisando Victor, ele não ia com a cara dele, com toda razão, e logo fechou a cara.

– Eu já estou indo.

– Pode vir comigo se quiser. – Ele queria mesmo que eu saísse de perto dele.

– Tudo bem. – Apenas concordei, Nohan não sairia dali e Victor consequentemente não me contaria.

Dei uma ultima olhada para Victor que agora encarava Nohan, e logo fui me virei para Nohan para irmos a sala de aula. Comecei caminhando a seu lado lentamente, pensando no que Victor havia me dito, até que ouço alguém me tirar de meus pensamentos.

– Annabelle? – Sua voz era grossa, mas não assustadora, era a sua antiga voz, a voz que eu era apaixonada, a voz que ele usou para me iludir.

– Victor. – Me virei, e o encarei de longe, não tanto, era o suficiente para que eu pudesse vê-lo bem, e ouvi-lo também.

– Eu preciso... – Ele não terminou a frase.

– Precisa? – Falei andando lentamente até ele, deixando Nohan parado no meio do caminho me olhando cada vez mais me aproximar de Victor novamente.

– Não me deixe, não de novo. – E isso não era o que eu esperava ouvir, fiquei surpresa com o que Victor havia acabado de dizer, e me surpreendi mais ainda com o olhar que ele lançou para mim.

Aquilo fez meu peito doer. Parecia que nada havia acontecido conosco, parecia que éramos aquele casal invejado por todos por haver um amor incondicional situado entre nós. Parecia que ele nunca havia me machucado, parecia que não tinha sido uma ilusão, parecia que ele me amava e que erámos só eu e ele contra o mundo novamente. Aquelas palavras dele fizeram o meu peito doer. Doer como nunca antes. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas aquilo não me fazia bem, aquilo me doía demais. Eu novamente imaginei estar ao lado dele, imaginei que estaríamos juntos, felizes. E aquilo doía porque eu sabia que não era real, eu e ele nunca existiu, e nunca mais vai existir, e quer saber? Eu nem quero que exista, não quero nada que envolva Victor na minha vida, não quero nunca estar com ele, não mais. Por mais que doa ouvi-lo falar aquilo, por mais estranho que seja ele me pedir para não deixa-lo, por mais louco que tudo isso seja, eu ainda o odeio, o odeio mais que tudo na minha vida, e por mim eu o deixaria morrendo ou o que quer que seja que ele esteja passando agora.

– Vamos Nohan. – Falei ignorando Victor, e virando para caminhar com Nohan novamente, dessa vez mais rápido, sem dar chances para que Victor me fizesse parar de novo.

– O que aconteceu com ele? – Nohan perguntou-me enquanto ainda caminhávamos.

– Eu não sei, e não quero saber também. – Respondi seca.

– Tudo bem. – Ele sorriu. – Você está bem?

– Não muito. – Tentei retribuir o sorriso, por mais falso que ele fosse.

– Por causa dele né? – Ele parou de sorrir.

– Sim.

– O que tem com ele? Você o ama?

– Nunca diga essa palavra, eu o odeio. – Respondi repreendendo-o.

– Não é o que parece.

– Mas é a verdade.

– Não acho que seja. – Ele abaixou a cabeça. – Ele ainda ama você não é?

– Ele nunca me amou. – Respondi sentindo uma facada em meu peito.

– Ele não sabe o que perdeu. – Nohan disse me fazendo parar de caminhar e olha-lo atentamente. – Não gosto de você com ele.

– Ciúmes? – Perguntei olhando para Nohan, dando um risinho em seguida por ele estar sentindo ciúmes de Victor.

– Ele não parece o certo para você.

– Ele não é.

– Nem eu.

– Não?

– Não.

– Por que não?

– Porque você não permite que eu seja.

– Não é isso.

– Tudo bem. – Ele tentou sorrir. – Você sabe que não vou desistir, não será fácil se livrar de mim.

– Eu não quero me livrar de você. – Eu o olhei fixamente. – Nunca.

– Você não conseguiria. – Ele riu.

– Quem te garante? – Brinquei junto com ele, conseguindo rir em seguida.

– Eu. – Ele deu um sorriso convencido.

– Quer pagar pra ver?

– Não, sou mais de fazer acontecer. – Ele disse segurando minha nuca, fazendo com que eu me arrepiasse com o seu toque.

– Melhor pagar. – Sorri para ele.

– Eu vou pagar alguém para sequestrar esse Victor e manda-lo para bem longe de você, isso sim. – Ele disse ficando sério novamente, mas logo riu em seguida.

– Deixa de ser ciumento. – Brinquei dando um tapa de leve em seu peito, e depois o abraçando.

Por mais que eu esteja brincando com Nohan, rindo e me divertindo com os ciúmes e brincadeiras que ele fazia, eu não estava bem. Por fora sim, mas por dentro eu estava morrendo, ferida por tudo que aconteceu e que vinha acontecendo. Por que Victor não me matou? Por que ele estava daquele jeito? Por que ele pediu que eu ficasse com ele? O que estava acontecendo?

Eu temia as respostas para essas perguntas, mas mesmo assim a minha curiosidade falava mais alto. Era muito estranho e complicado, nunca tinha visto Victor com aquele olhar, um olhar sofrido e machucado. Ele nunca teve aquele olhar, o que será que estava acontecendo?

Eu precisava descobrir, mesmo sem saber como, eu precisava saber o que estava acontecendo.

– Quer sair comigo hoje? – Nohan me perguntou, tirando-me dos meus pensamentos.

– Estou meio sem cabeça hoje.

– Você não vai precisar usar a cabeça, só a boca. – Ele riu.

– Seu bobo. – Falei rindo junto com ele, era impossível não rir.

– Vai aceitar minha proposta?

– Não. – Dei língua pra ele, aos poucos fui percebendo que nos tornávamos amigos, apesar dele não querer isso.

– Vou ter que te levar a força mesmo? – Ele fez uma careta.

– Você não se atreveria. – Retribui a careta.

– Quer pagar pra ver? – Ele me imitou no momento interior.

– Não, sou mais de fazer acontecer. – Imitei ele também.

– Então vem cá fazer. – Ele disse puxando-me para um beijo, eu tentei evitar, mas não consegui, estava meio complicado evitar os beijos de Nohan. Não por ser de surpresa, e nem por ele ser mais forte, mas sim porque por mais errado que fosse, eu adorava quando ele fazia isso, me pegava de surpresa e me beijava do jeito apaixonado dele. Eu sabia que isso não era certo, mas a cada dia estou gostando mais de estar com ele, e essa é a consequência, quanto mais eu ficava com ele, mas eu ia gostando do jeito dele, e isso me faz não resistir aos beijos dele. E quer saber mais?

Eu não quero resistir.

Notas finais
haha o que acharam do Victor pedindo que ela ficasse? Tem algo ai o.o kkk Pelo menos ela recusou :p
E será a volta do NohAnna? *-* Eles nem ficaram muito tempo separados, será isso algum sinal? ;D
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