Severo Snape tentou cobrir os ouvidos para abafar os gritos, mas nem assim eles desapareceram. Ao fundo conseguia ouvir os móveis sendo quebrados por sua mãe nervosa, e sua voz ressoando e ocupando toda a casa; um grito – ou melhor, vários gritos – saindo de sua boca. Igualmente seu pai, com sua voz mais grave, e seus olhos frios e negros, mas com um ponto de emoção – raiva – neles. Ele levantava a mão, e sua mãe se encolhia, mas ele realmente não tinha coragem de bater nela. Mas, com palavras, é claro que indiretamente eles ofendiam um ao outro. Lizzy Snape, a irmã trouxa de Severo – e a única trouxa da família Snape – estava nervosa também, batia as mãos na mesa desgastada – porém nobre – de madeira que estava na família Snape a gerações. Talvez ela estivesse tentando parar com a briga, talvez só chamar a atenção, embora claramente não estivesse conseguindo nenhuma das duas coisas – os pais claramente não davam atenção a ela.

Os pais de Severo e Lizzy estavam brigando. De novo. Qual seria o motivo dessa vez? Da última vez — Severo bem se lembrava da noite anterior – a briga fora devido a um bule de chá. Um bule de chá quebrado, por acidente ou não, pelo pai de Severo, Tobias Snape. E sua mãe neurótica, Eileen Prince Snape, é claro que deu um ataque e os dois encontraram esse motivo insignificante para brigarem. Parecia que gostavam disso. E dessa vez, Severo nem se atrevera a prestar atenção, por isso não sabia o assunto da discutição, só tinha certeza de que novamente era por alguma coisa insignificante. É claro que a briga dos dois era difícil de ignorar, mas Severo juntara forças e desligara seu cérebro. Era difícil. A raiva começava a dominá-lo. Ele estava cansado principalmente de ouvir a irmã de pele amarelada – assim como a sua – batendo na mesa.

E então, em um rompante, ninguém esperava o que aconteceria em seguida. A mesa nobre que ficava no centro da sala de estar dos Snape se partiu em duas e sua irmã mais nova caiu em cima dos destroços fagulhados da mesa. Ela começou a chorar, é óbvio, porém os pais finalmente pararam de discutir. Severo por um lado ficara aliviado com isso, por outro, sentiu uma vozinha gritar em sua mente: ‘’ Corra, ou você vai morrer! Você está frito!’’

Severo decidiu obedecer à vozinha; saiu pela janela da casa mais rápido que um raio, sabendo o que aconteceria em seguida. Seus pais moravam em uma casinha pobre na Rua da Fiação, perto do rio. Eles moravam entre trouxas, pois seu pai, por mais que fosse bruxo, odiava mágica. E eles tinham que se camuflar, não chamar muita atenção, abdicar do luxo, morar em um endereço pouco viável, em uma casa pobre. Uma das únicas coisas bonitas na casa era aquela mesa. E ele, com raiva da impertinência da irmã trouxa, a quebrara. Além de ter quebrado a mesa preferida de seu pai, havia usado magia. Se não fugisse dali agora, morreria.

Mas conseguiu despistar seu pai. Com magia, é claro. Entrou em um beco escuro e pouco viável, e ficou ali, sentado e estremecendo. E se seu pai o achasse, o pegasse pela gola e o castrasse? Não pense em bobagens, disse Severo a si mesmo. Se seu pai tivesse que te encontrar já teria feito isso. Ou... estava esperando Severo virar a esquina do beco para pegar-lhe de surpresa e dar-lhe um bote.

Foi então que ouviu vozezinhas. Não eram aquelas vozezinhas da sua cabeça, eram... Diferentes. Agudas. Temerosas. Próximas, mas ao mesmo tempo, distantes. E, sobretudo, reais.

– Tem certeza, Túnia? – Severo ouviu a voz mais bonita e suave que ouviria em sua vida, mais linda e melodiosa do que uma canção em uma ópera, e sentiu uma sensação enervante de que essa voz marcaria sua vida e suas lembranças.

– Tenho. – respondeu uma voz firme, aguda e feminina como a anterior, mas rude e hostil, completamente comum, sem nenhuma especialidade e interesse de qualquer pessoa que a ouvisse. Mas Severo ficou estranhamente incomodado com o modo como a voz petulante o afetou. Ele não queria deixar a voz rude falar daquele modo com a voz suave e bonita. – Eu acho. – admitiu a voz hostil, meio temerosa e hesitante, mas sem se deixar por vencer. – Não estamos perdidas. – afirmou, por fim.

Severo captou de onde as vozezinhas estavam vindo. Do fundo do beco, do outro lado de onde ele estava. Pareciam vozes de crianças, mais ou menos com a idade dele; talvez... nove ou dez anos, quem sabe? A única saída para aonde elas estavam indo era onde ele estava ou se dessem a volta por onde haviam vindo.

– Talvez seja melhor voltarmos. – sugeriu a voz bonita, hesitante, porém confiante, mas sem tentar contradizer a outra voz.

Um silêncio prolongou-se. – Não! – a voz rude calou a outra e ecoou no beco. – Eu sei... o que estou fazendo, ok? – disse, tentando convencer a si mesma. – Mas se tivéssemos um pouco de luz...

De repente, uma luz brilhou no beco escuro, e iluminou as duas garotinhas. Severo olhou bem para a garotinha da qual a luz irradiava principalmente. Era linda, e esperava fervorosamente que essa fosse a voz gentil que ouvira. Ele não tinha conseguido analisá-la completamente, mas sua pele era bem branca, mas rosada nas bochechas, como se estivesse acostumada a corar com frequência, ou talvez só tivesse corrido demais. Seu cabelo, ele havia percebido, era ruivo, cor de fogo, e seus olhos tinham uma cor vibrante, um olhar, que por mais que não tivesse olhado em seus olhos, ele reconheceria em qualquer lugar. Já a garota ao lado era o oposto, completamente normal, cabelos castanhos escuros, a testa franzida, os olhos castanhos escuros zangados. Mas Severo não demorou muito seu olhar nela, voltou o olhar para a garotinha dos cabelos ruivos, tentando descobrir a fonte da luz que irradiava e que permitira Severo olhar os rostos das duas garotinhas.

– Você trouxe uma lâmpada com você? – perguntou a voz rude, que vinha da garota dos cabelos cor castanhos escuros, provavelmente a Túnia.

– Não – respondeu a garotinha de cabelos ruivos, claramente confusa, se perguntando da onde vinha a luz, se não havia nenhuma lanterna ali. Parecia estranhamente irradiar de seus dedos...

Porém, a luz apagou-se. – Vamos embora daqui. – disse agora a garota dos cabelos ruivos, pegando a mão de Túnia e saindo por onde tinham entrado. Não parecia exigente, só assustada. Severo imaginou que estaria assim porque era completamente impossível que uma trouxa como ela irradiasse luz de seus dedos justo quando ela estava precisando. Talvez ela tivesse pensado que o lugar era amaldiçoado e quisesse dar o fora dali. Severo estava claramente curioso. Mas mais do que qualquer coisa: queria reencontrar a menininha dos cabelos ruivos, por uma razão que não conseguia compreender, e por isso, enquanto aparentava andar com seus pais pela rua em um dia comum, estaria procurando seu paradeiro.