No final da tarde Rin voltou para o shiro. Estava decidido: ia morar com Takashi. Ensaiou todas as palavras que diria a Sesshomaru, mas o nervosismo não a deixava decora-las. Quando chegou foi informada de que o senhor daquelas terras não estava presente. Decidiu banhar-se e ir jantar. Comeu sozinha, pois ele não havia chegado, quando estava prestes a dormir ouviu o barulho da porta do quarto que ficava em frente a sua e decidiu acabar de uma vez com aquilo.

Chegou em frente à porta e lembrou-se mais uma vez do que deveria falar. Bateu.

– Entre.

– Sesshoumaru-sama, tenho algo a lhe dizer. — Ele esperou que ela continuasse.

Olhava Rin profundamente nos olhos e estes estavam em fendas. Ele sentiu a presença de Takashi no corpo dela e deduziu o que ela diria.

– Eu tomei a decisão de ir morar com o general Takashi, afinal ele é meu marido, meu filho está lá e eu... eu... eu o amo. — As palavras de Rin atingiram o coração de Sesshoumaru em cheio, mas ele continou inexpressivo.

Ela esperava por uma resposta e ele apenas a olhava. Ele se levantou e caminhou vagarosamente na direção de Rin, sua expressão era assustadora. Ela começou a andar para trás até que alcançou a parede. Estava encurralada.

– Deveria ser eu aquele à quem você ama. Se esta é a sua decisão, faça como quiser. Está livre para ir. — Os olhos de Rin se encheram de lágrimas. Sesshoumaru se esforçou e muito para tentar conquistá-la, mas não conseguiu.

– Sesshoumaru-sama, eu tentei. Eu juro que tentei.

– Seu coração não pertence à mim, nunca pertenceu. Está é a segunda vez que escolhe Takashi. — Aí sim a morena não conteve as lágrimas. — Não chore Rin, esta escolha foi somente sua.

Ela sentiria saudade de tudo aquilo, mas era seu amor em jogo e as palavras de Takashi ditas aquela manhã sondavam sua mente. Só ela poderia dar um fim as investidas de Sesshoumaru e ela deu, só não sabia que seria tão doloroso.

– Nunca pensei que o senhor pudesse me considerar tanto.

– Não a considero Rin, a amo.

– Gomene Sesshoumaru-sama, mas aqui não é o meu lugar. — Sesshoumaru se afastou dela e olhou através da janela.

– Você é livre Rin, vou repetir: faça como quiser. Não se preocupe, afinal este Sesshoumaru não será abalado por uma simples humana. — Ela sorriu em meio ás lágrimas, aquele sim era seu senhor.

– Hai Sesshoumaru-sama. — Ela saiu do quarto e foi para o seu. Seria sua ultima noite ali.

Sesshoumaru continuou olhando pela janela. Ainda procurava pelo cheiro de Rin que pouco a pouco ia se esvaindo do seu quarto. Por mais difícil que fosse admitir, ela era a vida daquele shiro e tudo para ele, mas Takashi era o mundo para ela e ela a razão de sua existência. Por isso não gostava de sentimentos, por isso não gostava de envolvimentos. Mas Rin entrou em sua vida de uma forma inesperada e ele simplesmente não pôde negar ao apelo daqueles olhos que o viam como um ser supremo. De fato ele era um ser supremo, mas Rin o fazia sentir muito mais que aquilo. Ao seu lado ele era imbatível, ao seu lado ele era insuperável. Aos olhos da menina alguém inatingível.

Viver sem o sorriso de Rin ou sem ouvir o seu cantorolar no final da manhã quando recolhe as flores, ou até mesmo não ouvir mais suas falas durante suas noites de sono pesado era algo que Sesshoumaru não queria abrir mão mais uma vez. Nunca em toda a sua vida achou que passaria por tal situação, principalmente por uma humana.

A perda era certa, a aceitação não. O youkai de cabelo prata sabia que tudo o que havia feito uma hora ou outra voltaria para si. A vida era assim e ele teria de se acostumar. Começar outra guerra era inútil. Reconquistá-la era inútil. Ouvir de seus lábios que estaria voltando para aquele que a tomou por mulher e tomou-lhe o coração era penoso.

Pela primeira vez Sesshoumaru sentiu-se derrotado. Nada a traria de volta e nada era mais valioso do que a vida de Rin. Decidiu então ir para o quarto da moça, aquela hora ela já deveria estar dormindo. Abriu a porta e caminhou lentamente. Sentou-se em sua cama e colocou sua mão por sobre o rosto da jovem que dormia com uma expressão triste. Olhou-a por vários minutos, até que decidiu deixar o quarto e ir caminhar pela noite.

Passando pela floresta que ficava próxima a sua casa, ele sentiu um cheiro conhecido que vinha em sua direção. Imediatamente parou, aquele confronto era necessário. O youkai vinha em alta velocidade já sabendo do que provavelmente se passaria ali.

– Sesshoumaru. — Takashi o chamou pelo nome e Sesshoumaru entendeu que ali não falava o senhor e seu subordinado, mas sim o marido da mulher que ele amava.

– Takashi. — O clima era tenso entre eles, Sesshoumaru o olhava e lembrava do corpo de Rin cheirando aquele youkai que tinha os olhos cheios de determinação à sua frente.

– Acredito que ela tenha lhe comunicado e gostaria de acrescentar que ninguém vai nos separar novamente. — Sesshoumaru queria matá-lo, queria lutar corpo-a-corpo por Rin, mas seria inútil.

– Não interferirei em suas vidas.

– Ótimo. Com sua licença. — Fez uma reverência, mostrando que o respeito entre ambos ainda estava presente e retirou-se.

Takashi tomou um rumo totalmente diferente do que havia planejado. Queria correr aquela noite, suas energias estavam sobrando. Desejava que Rin estivesse com ele agora, com certeza estariam amando-se intensamente.

Enquanto corria lembrava-se de cada detalhe de sua amada, todo aquele tempo sem ela ao seu lado era doloroso demais. Ao vê-la acordada, capaz de falar e reconhecer, o mundo de Takashi iluminou-se, mas quando ela não se lembrava de sua face seu mundo tornou a escuridão.

A sua vida era Rin. Se ela o quisesse deixar por vontade própria seria menos torturante, mas perdê-la por uma peça do destino era cruel demais. Logo ele, aquele a quem as mulheres sonhavam como padrão de marido. Todavia, isso não importava mais, pois agora ela estaria com ele para sempre, era só esperar as horas passarem e ir buscá-la.

Rin acordou pela madrugada extremamente assustada. As palavras de Sesshoumaru mexeram profundamente com seu coração. Ela decidiu sentar-se e tentar lembrar de toda a sua vida. Em toda ela, Sesshoumaru era o centro, o universo. Temeu pelo que estava por vir e pelo que deixaria para trás. Pensou na possibilidade de seu casamento com Takashi não dar certo e lembrou-se que no melhor ou no pior era Sesshoumaru que estava ao seu lado.

Tentou afastar todos os pensamentos de sua cabeça e voltar a dormir, mas era impossível. Takashi aprontava-se para ir ao shiro, no final do dia ele havia ordenado que Rin o esperasse no portão pincipal, onde a levaria para seu novo lar. O dia passou rápido para todos. No final da tarde Rin tinha as pernas tremulas. Não sabia o que aconteceria dali pra frente, mas sua decisão estava tomada não poderia voltar atrás.

Takashi parou em frente ao portão principal como combinado, esperava ansiosamente pela vinda de sua amada e esta finalmente apareceu. Havia algo diferente nela que o youkai percebeu quando seus olhares se cruzaram.

"Será?" — Foi o que ele pensou e para seu espanto era.

– Rin...

– Gomenasai Takashi-sama, mas eu não posso. — O sorriso que havia em seu rosto se desfez e a revolta tomou conta de todo o seu corpo.

– Por que Rin?

– Eu não... Eu estou com medo.

– Não minta pra mim. — Takashi tinha uma expressão totalmente diferente da que costumava ter.

– Eu não... Eu não quero.

– Rin. — Sua voz era como a de um demônio.

– Eu só não posso. Não estou pronta para abandonar a minha vida. — Takashi riu debochadamente.

– A sua vida ou Sesshoumaru? — Ela ficou em silêncio. — Responda!

– Takashi-sama se eu o amasse eu não teria... — Ele se aproximou dela e segurou em seu braço.

– Teria o que?!

– Sentido meu coração se partir quando ele disse que me amava.

– Você... Você não merece o meu amor Rin. Você não merece tudo o que eu tenho para lhe oferecer. Sua mimada!

– Mimada?! Eu não sou...

– É sim! Desde muito antes de nos casarmos você pensa que pode oscilar entre Sesshoumaru e eu. O que você pensa? Que estaremos a sua disposição para o resto de sua vida? Que não somos nada além de homens que você pode ter quando quiser?! Está enganada. No final das contas, você é uma humana Rin e sua vida é muito breve. Deveria decidir-se de uma vez, pois pode acabar sozinha.

– Você está sendo injusto comi...

– Eu estou sendo o quê? O quê? Injustiça — Ele apertou o braço. — É alguém passar todo esse tempo te amando e te querendo enquanto você apenas se divertia com quem iria mais longe para lhe conquistar.

– Takashi eu realmente gosto de você, acredito nisso.

– NÃO IREI ACREDITAR — Seus olhos estavam vermelhos, ela se assustou e ele os fechou e respirou fundo para se acalmar. — Não vou acreditar em uma pessoa que me usa como uma criança usa um brinquedo e depois enjoa e joga-o fora. Por que me procurou Rin?! Por que me desejou essa manhã e não hesitou quando eu a toquei?! — A voz de Takashi agora era melancólica.

– Eu o queria e muito. Meu coração e meu corpo pediam por você, porque eu sinto algo por você que não posso conter.

– Entendo. Então é o meu corpo que você deseja. Hoje você me quer e amanhã quem será?! — Ele se colocou ao lado dela. — Eu quero que olhe para o caminho à sua frente e me veja partir para nunca mais voltar e se o que quer é somente prazer, eu te espero.

Por mais grosseiro, asselvajado e indelicado que fosse Takashi estava coberta de razão. Por que o procurou aquela manhã se ainda tinha dúvidas em seu coração? Rin não teve nenhuma reação após aquelas palavras e somente o viu ir embora a passos lentos. Ela não tinha argumentos para discutir e o choque daquela discussão a impediu. Ela sentiu dor em sua cabeça e por mais estranho que fosse teve a sensação de ter vivenciado aquilo antes. Ela procurou por equilíbrio e fingiu a melhor aparência para entrar em casa, mas não sabia que de uma das janelas do shiro Sesshoumaru assistia a tudo.

Notas finais
Takashi finalmente desabafou. Agora ele precisa de um ombro amigo, alguém se habilita?!