O Amor Vai Nos Dilacerar
2 Rhaegar
O Amor Vai Nos Dilacerar
Rhaegar
— Richard ainda deve estar dormindo, aquele bastardo — Myles riu, flexionando os braços para se alongar antes de vestir a armadura. — Se ele sobreviver a essa ressaca, vai ser como um morto-vivo. Ele e o Baratheon viraram mais copos do que eu julgava ser possível.
Rhaegar sorriu, mas não se comoveu tanto quanto seus companheiros. Estava concentrado em trançar os cabelos e tentar se lembrar dos eventos do dia.
— Vossa Graça, seu garanhão já foi selado — Jon aproximou-se dele com Sor Gerold Hightower e as partes de sua armadura. — O senhor seu pai e a Princesa Elia já estão na Arena, esperando pelo início das justas.
— A competição de tiro ao alvo será...? —indagou, levantando-se para que os cavaleiros pudessem ajudá-lo com armadura.
— Amanhã, Vossa Graça, depois das rodadas de luta corpo a corpo — Sor Gerold respondeu, vestindo-o com a placa de peito negra com o brasão da Casa Targaryen.
— Sua primeira justa será com um cavaleiro livre das Terras da Coroa — Jon informou. — Lorde Whent achou por bem que o torneio fosse aberto com a exibição de um contraste.
A armadura foi completada e Myles lhe trouxe o cinto da espada. O manto novo vindo de Myr, debruado com fios de prata e ouro, foi preso em suas ombreiras por uma corrente e presilhas em forma de cabeça de dragão. Jon lhe entregou as manoplas e o elmo de aço negro, garantindo que a nova armadura estava perfeita.
Eles deixaram a tenda para encontrar Arthur Dayne e Richard Lonmouth com os cavalos e os escudeiros. Rhaegar colocou as manoplas no alforje de seu garanhão negro e o montou, pondo o elmo debaixo do braço.
Na cavalgada até a Arena dos Ursos, um dos escudeiros gracejou sobre conseguir o favor de uma senhora. Arthur percebeu que se tratava de sua irmã e ralhou com ele num tom brincalhão. Myles sugeriu que a garota dos Stark era tão bela quanto Ashara, mas menos disputada pelos cavaleiros, o que garantia chances maiores de se conseguir seu favor.
— Lyanna, a donzela-lobo? — Arthur ergueu uma sobrancelha. — Pelo o que eu ouvi, ela o derrubaria do cavalo antes de lhe conceder um favor. Tem o espírito selvagem do Norte, o sangue dos lobos.
— Dizem que as garotas nortenhas podem parecer frias num primeiro momento, mas conseguem fazer um homem pegar fogo numa cama — declarou Richard, sorrindo com malícia. — Mas essa nortenha já está comprometida.
Rhaegar pegou-se ligeiramente interessado na conversa. A senhora que encontrara no bosque sagrado levava um medalhão com o lobo gigante da Casa Stark no colo e com certeza era bonita. O modo como Arthur a descrevera também o fez pensar a personalidade dela, em como tinha brincado com ele tão naturalmente na noite anterior.
Lyanna Stark, que gosta de rosas azuis de inverno. A sombra de um sorriso bailou em seus lábios ao lembrar-se dos comentários dela sobre sua canção. Talvez, se fosse mais jovem e solteiro, teria se dado ao luxo de lhe pedir um favor antes da justa. Porém, mesmo antes de chegar ao castelo com a comitiva real, Rhaegar sabia de quem receberia seu favor.
— Comprometida? — Dayne inquiriu.
— Com Robert Baratheon — Richard deu de ombros —, ele não parava de se gabar que sobre seu futuro casamento com a senhora mais bonita dos Sete Reinos. E pensar que uma garota assim vai ficar presa com um beberrão daqueles pelo resto da vida. Um tremendo desperdício, se quer saber.
A Arena dos Ursos abriu-se para eles numa profusão de cores e sons. As bandeiras das Casas convidadas dançavam na brisa, acompanhadas por fitas brilhantes. Todas as seis fileiras de bancos dentro do perímetro do maciço muro de pedra estavam ocupadas. O estrado real, destinado para os governantes e a família Whent, fazia uma sombra monstruosa na areia, decorado com flores rubras e faixas pintadas. Havia uma seção para os plebeus próxima ao complexo de pavilhões, que reluziam a luz do sol em suas paredes de seda.
Quando chegaram ao pavilhão reservado para o Príncipe e sua comitiva, os companheiros lhe desejaram sorte e um dos escudeiros conduziu seu cavalo até a liça. Jon lhe entregou a lança e mandou que um cavalariço colocasse os protetores na montaria. A plateia explodiu em aplausos ao vê-lo, ofuscando por completo a presença de seu oponente. Rhaegar ergueu a mão para cumprimentá-los e seguiu até estrado do pai num trote elegante.
A esposa estava lá, separada do Rei pelo cadeirão que o esperava nos intervalos das disputas. Vestia-se com as cores da Primavera em panos muito delicados e trazia uma fina coroa de prata sobre os cabelos castanhos. Ele fez uma reverência e levou o cavalo para a grade de madeira que protegia o estrado.
— Senhora — estendeu a lança para ela.
— Que o Guerreiro lhe dê força, Vossa Graça — Elia sorriu com doçura, debruçando-se sobre a grade. Ela marcou uma fita de cetim dourado com um beijo e a prendeu na ponta da lança. — E que a Donzela permita que meu favor lhe seja conveniente.
Rhaegar esboçou um sorriso e agradeceu a esposa silenciosamente.
— Mostre-lhes a força do dragão, meu filho — o Rei tinha um brilho ambicioso e um tanto insano nos olhos.
Atrás dele, Sor Jonothor Darry e Sor Lewyn Martell se entreolharam apreensivos.
— Sim, pai — ele anuiu, voltando o cavalo para a reta da liça.
Colocou o elmo com asas de dragão calmamente e deixou a viseira levantada para vestir as manoplas. O cavaleiro livre do outro lado da arena também terminava de se aprontar com a ajuda de um pajem. Rhaegar passou os olhos pelas arquibancadas, tentando identificar os rostos conhecidos. Seu olhar foi atraído por um manto prateado que praticamente engolia a senhora dentro dele.
Lyanna Stark estava sentada com seus irmãos na seção de bancos de mármore separada para os nortenhos. Seus olhares se cruzaram rapidamente, e foi o bastante para que ela se mostrasse constrangida. Por baixo do elmo, Rhaegar sorriu. Muitas outras senhoras já haviam reagido daquela forma a ele, mas a aparente obstinação de Lyanna mudava tudo.
— Senhor, a justa vai começar — o escudeiro chamou sua atenção.
O Príncipe piscou, baixando a viseira e segurando firme na lança. Seu cavalo bufou pela agitação, arranhando o chão com a pata. No palanque, o arauto o anunciou junto com o outro cavaleiro, porém, os brados da plateia não permitiram que entendesse o nome do oponente.
Os dedos de Rhaegar se enroscaram nas rédeas e, ao sinal do pajem, o salto das botas tocou o lombo do ganharão, instigando-o a correr. Conforme o outro cavaleiro se aproximava, ele analisou o modo como se equilibrava na montaria e procurou as brechas da armadura. A lança se firmou em sua mão, direcionada à placa de peito alheia. Seu oponente tentou bloquear o golpe, mas atrapalhou-se com as rédeas e suas costas penderam para trás.
O garanhão continuou até o final da liça, enquanto o som do metal da armadura encontrando o chão pavimentado com areia chegava aos ouvidos de Rhaegar. O arauto declarou a justa encerrada e um pajem correu para avançar o estandarte real nas chaves da disputa. Seu escudeiro veio receber a lança, enquanto ele agradecia a torcida da plateia. Notou Lyanna batendo palmas animadamente e quase desejou que pudesse provocar os amigos com aquilo.
— O favor da Princesa realmente foi valoroso, não? — Arthur o cumprimentou com um aperto no ombro assim que pôs os pés no pavilhão. — Espero que eu tenha a mesma sorte.
— Sua Graça teria vencido com ou sem favor — Jon rebateu, oferecendo um cálice com água de limão ao Príncipe. — Aquele cavaleiro ainda é um rapaz verde, mal sabia como segurar a lança.
Discretamente, Arthur rolou os olhos com um ar divertido, debochando da devoção do outro.
— Se eu não te conhecesse, diria que está apaixonado por Sua Graça, Connington — Richard caçoou.
— Não seja idiota — Jon rosnou entredentes, com a barba e o cabelo vermelhos acrescentando um ar raivoso à sua face.
Rhaegar distraiu-se com eles nos intervalos entre suas justas, comentando aquelas com cavaleiros que o interessavam e descartando as outras. Quando se deu por encerrada a primeira rodada de disputas, ele se viu entre os campeões juntamente com seus companheiros. Os quatro filhos de Lorde Whent haviam sido derrotados por cavaleiros livres, e o brasão dos morcegos perdeu seu lugar no quadro de combatentes. Em vez dele, avançou o brasão de porco-espinho da Casa Blount.
— Parece que os lobinhos mordem — Myles gracejou, indicando o brasão dos Stark nas chaves. — Tanto Brandon como Eddard estão escalados para o segundo dia.
— Meu palpite é que Lyanna também teria avançado com eles se pudesse competir — Arthur comentou, despindo-se da armadura.
Por um vão na parede de seda do pavilhão, Rhaegar conseguia ver a donzela-lobo com os irmãos no pavilhão dos nortenhos. Aquele não era um lugar para damas, mas ela não parecia se importar com esse mero detalhe. Estava radiante, fazendo o manto esvoaçar enquanto abraçava seus cavaleiros. Tentou imaginá-la defendendo a honra de sua Casa na liça, tão feroz e habilidosamente quanto Brandon e Eddard.
— Vossa Graça, o senhor seu pai pede que se junte a ele no estrado — Sor Lewyn Martell surgiu a seu lado, emendando a mensagem numa reverência singela.
Rhaegar se separou de sua visão com certa relutância, mas seguiu o guarda até o cadeirão forrado que esperava por ele entre o pai e a esposa. O Rei não esboçou reação alguma – embora tivesse o convocado até ali –, mostrando-se completamente diferente do que horas atrás, antes do início das justas. Sua desconfiança infundada era quase palpável.
— Esteve deslumbrante na arena, senhor — Elia voltou-lhe o rosto e sorriu calorosamente.
— Seu favor foi essencial — ele tomou sua mão para depositar um beijo de agradecimento, e esse foi todo o contato que tiveram durante toda a competição de arremesso de peso.
Enquanto os homens iam fazendo suas jogadas, o Príncipe avaliava o peso em sua consciência. Seus pensamentos estavam divididos entre as justas, a loucura do pai e Lyanna Stark. Mesmo que seu olhar sobre ela fosse apenas de admiração, continuar estudando-a ao lado da esposa o deixava desconfortável. No entanto, era difícil se refrear.
Queria confirmar se os boatos a respeito de sua ferocidade e de seu temperamento quente eram verdadeiros. Queria ter a chance de conversar um pouco mais sobre rosas azuis de inverno e canções com ela. Mas em sua posição como homem casado e herdeiro do Trono de Ferro, não podia se dar ao luxo de uma aproximação direta sem um pretexto válido.
Isso está indo para o lado errado, suspirou, pressionando a têmpora com o os dedos. Deveria estar se desfazendo das impressões e curiosidades sobre Lyanna, não procurando meios de descobrir mais coisas.
Porém, seus olhos buscavam por ela toda vez que se descuidava. Observou-a passeando por Harrenhal com outras senhoras, seguindo os irmãos pela área dos pavilhões e se esquivando de Robert Baratheon – o que trouxe um sorriso divertido a seus lábios. Não precisou aproximar-se muito para ver que não era comedida como as outras damas, e nem por isso menos graciosa.
Por três vezes, o Príncipe teve a impressão de que a garota também buscava por ele, mas se censurou severamente por isso. Esforçou-se para enaltecer as qualidades da esposa para si mesmo durante o jantar daquela noite.
Rhaegar pensou que estava fazendo um trabalho muito bom quando foi capaz de se concentrar no jogo de cartas que Myles armara depois do jantar. Riu com os amigos de seu séquito, cantou para eles e escutou suas impressões sobre as disputas do dia e os outros participantes. Richard jurou de pés juntos que havia beijado uma senhora da Campina, mas se recusou a dizer seu nome e os rapazes fizeram graça dele.
O grupo permaneceu unido até que as chamas da fogueira no meio deles começassem a fraquejar. Os escudeiros foram os primeiros a saírem o círculo de troncos e Myles os seguiu poucos minutos depois. Rhaegar não abandonou seu lugar mesmo depois de o fogo ter se extinguido, quando só restava ele, Arthur e Jon – que estava praticamente roncando.
— Algo o aflige, meu amigo?
O Príncipe tirou os olhos da lenha queimada sobressaltado, dando-se conta de que estivera encarando os resquícios de brasa há tempo demais. Arthur tinha os braços apoiados nas coxas e olhava diretamente para ele com um semblante preocupado. Tinham anos de amizade o suficiente para que a pergunta soasse mais como uma afirmação.
— Não — mas ele negou mesmo assim, balançando a cabeça devagar.
— Oh, é mesmo? — Arthur ergueu uma sobrancelha.
Sem a fogueira, toda a luz que tinham vinha da trilha de archotes a dois metros de distância. As sombras obscureciam metade do corpo do cavaleiro, e Rhaegar distraiu-se um momento pensando que a face no breu podia ver através de suas palavras.
— Esteve aéreo o dia inteiro — Arthur fez uma pausa, como se esperasse que ele se defendesse. O ronco abafado de Jon deixou a situação menos tensa, mas também mais esquisita. — Bom, não que você não seja aéreo normalmente.
Rhaegar buscou a harpa apoiada no tronco sob seu corpo e a trouxe para o meio das pernas. Deslizou os dedos pelos rubis procurando algum alento. Nunca fora muito hábil para se esquivar de questionamentos daquele tipo e a coisa só piorava por partir de seu amigo mais próximo.
— Entendo que não encontre muito divertimento nos jogos de luta e que talvez preferisse estar no concurso de cantores — a metade visível do rosto de Arthur abriu um sorriso —, mas... você é o Jovem Dragão, e se espera que participe desses jogos. Ainda não sei o que vem bagunçando sua mente, mas, se me permite a ousadia, aconselho que se concentre mais no torneio. Os lordes gostam de ver determinação e sede de vitória e naturalmente especulam que o herdeiro do Trono de Ferro mostre isso.
— Às vezes você soa como o Selmy — Rhaegar riu.
— E talvez depois você queira me contar o que está acontecendo? — O amigo inclinou a cabeça para o lado, encarando-o com afinco.
— Não é nada demais, Dayne — desconversou, sentindo um cubo de gelo cair em seu estômago. Estava grato por ser uma conversa particular, sem a pressão de manter-se calmo diante dos outros. — O que mais me aflige agora é ter que levar Jon para a cama.
Os dois compartilharam uma gargalhada lânguida no ar pesado de Harrenhal que cheirava a vinho da Árvore e madeira queimada. Pareceu ao Príncipe que se, podia convencer Arthur de que aquilo não era nada demais, era porque realmente não deveria ser nada demais.
No entanto, traiu si mesmo mais uma vez.
O segundo dia do torneio começou com a corrida de cavalos, da qual – Myles o informara – Brandon Stark estava participando. Enquanto os olhos de todos se mantinham fixos nos cavaleiros dando voltas na arena, Rhaegar acompanhava o entusiasmo de Lyanna a uma jarda de distância. Ele nem mesmo sabia quem havia assumido a liderança e não teve ideia do que dizer quando a senhora sua esposa comentou sobre uma das voltas do tio. No final das contas, Brandon venceu Sor Gerold e Sor Lewyn por pouco e levou o prêmio de quatro mil galeões.
— Parece que os herdeiros Whent não têm muita sorte mesmo na corrida de cavalos — Elia curvou-se sobre o braço de seu cadeirão para comentar, ainda batendo palmas aos três vencedores. — Pode-se ver que Lorde Walter não está nada contente com isso.
— Sor Oswell deve compensar no arco e flecha — disse, simplesmente porque não tinha nada para acrescentar sobre a corrida.
— Mas o título de rainha do amor e da beleza já está perdido para a filha do castelo — ela constatou.
Mesmo durante a primeira rodada de justas do dia e a apresentação dos pantomimeiros de Tyrosh, Rhaegar não se mostrou realmente atento. Seus olhos viam, mas sua mente não conseguiu reter muita coisa. Mais tarde, quando Sor Lewyn comentou sobre um número com arcos de fitas, ele sentiu como se tivesse assistido a um espetáculo completamente diferente.
— Vossa Graça, é hora de aprontar-se para as justas — Sor Barristan colocou uma mão em sua ombreira de prata, fazendo-o sobressaltar-se no cadeirão.
O Príncipe respirou fundo, observando a liça ser montada às pressas na arena.
— Espero que meu favor lhe seja útil novamente, senhor — Elia sorriu, tão adorável quanto as princesas nos livros antigos que ele costumava ler em Solarrestival.
— Tenho certeza de que será — Rhaegar curvou-se para carimbar sua fronte com um beijo que era mais respeitoso do que apaixonado.
— Espero que mostre a eles como um filho meu joga — o pai não se dignou a olhá-lo, mas o Príncipe o reverenciou mesmo assim.
Ele seguiu Sor Barristan até o pavilhão real, tentando se mostrar entusiasmado para a competição, como Arthur o advertira. Escutou a comoção dos senhores que levantavam suas apostas e o burburinho das donzelas que discutiam sobre seus favoritos. Nos pavilhões vizinhos, os cavaleiros vestiam as armaduras e cumprimentavam-se com cordialidade. O tempo era agradável e as músicas dos bardos convidavam a sonhar sobre o Verão. Não havia porque não estar entusiasmado.
Jon e os escudeiros o vestiram com sua armadura enquanto os outros comentavam sobre as justas da manhã. O elmo e as manoplas ficaram sob seu braço até que Arthur voltou vitorioso da justa com Eddard Stark e um pajem informou que a próxima era sua. Ele tentou imaginar que expressão Lyanna estaria fazendo pela derrota do irmão, e sentiu ganas de apressar-se até a frente do pavilhão para ver. Mas sua sensatez ainda era própria de um príncipe.
— Como esperado da Espada da Manhã — Rhaegar abraçou Arthur pelos ombros rapidamente.
— O rapaz é bom, mas parece hesitar em ferir o oponente, assim como você — o amigo o atingiu na lateral do corpo, jocoso. — Todos estão vestindo armadura, não há porque hesitar.
Rhaegar aquiesceu, tentando convencer sua parte mais branda de aquilo era uma verdade incontestável – embora ambos soubessem que qualquer um dos jogos estava suscetível a acidentes.
— Boa sorte, Vossa Graça — Arthur fez um floreio e lhe deu espaço para que saísse do pavilhão.
— Do lado direito, Vossa Graça, Rhaegar da Casa Targaryen, Príncipe de Pedra do Dragão e herdeiro do Trono de Ferro — o arauto o anunciou enquanto montava o garanhão sob as palmas eufóricas da plateia. — Do lado esquerdo, Lorde Yohn Royce, chamado Bronze Yohn, Senhor de Pedrarruna do Vale.
O escudeiro esperou que vestisse o elmo e as manoplas para colocar a lança em sua mão. Do outro lado da liça, o cavalo baio de Lorde Royce bufava irritadiço, desconcertando o dono. Ele conseguiu acalmá-lo o suficiente para assumir sua posição na extremidade da liça, permitindo que Rhaegar fizesse o mesmo.
Assim que o pajem deu o sinal, ele colocou-se em movimento – ficando com a impressão de que avançara antes. Seu adversário curvou-se sobre o cavalo com a lança em riste, vindo tão rápido quanto podia sobre a areia. As lanças se chocaram com força e lascas voaram entre os dois, agitando os cavalos. O de Lorde Royce esbarrou na liça no susto, mas continuou galopando até o final.
As palmas chegaram até os ouvidos de Rhaegar abafadas pelo elmo. Calmamente, ele fez o garanhão dar a volta e assumiu o outro lado da liça. Apropriou-se melhor do peso da lança na mão, enquanto calculava sua estratégia para a segunda partida. Lorde Royce não era um cavaleiro inexperiente, nem bambeava por estar enfrentando o herdeiro do Trono como seus oponentes anteriores. Se hesitasse, como Arthur disse que fazia, seria derrubado do cavalo e o brasão real perderia o lugar nas chaves.
Uma arrancada veloz e mais força no braço, estipulou. O cavalo de Lorde Royce relinchou na outra ponta, provavelmente afetado pela dinâmica do combate. Pelo modo como se assustou, não deve ter sido treinado para justas. Se eu pressioná-lo, pode ser que desequilibre seu cavaleiro.
O pajem esperou que Lorde Royce tomasse sua posição para então dar o sinal. Rhaegar atiçou o cavalo num galope afrontoso, preparando-se para o reflexo do impacto. Seu adversário não se intimidou, mantendo-se firme na investida. Quando estavam próximos o suficiente, ele fez o garanhão balançar a liça contra o cavalo baio e impulsionou a lança de encontro à lateral da armadura de Bronze Yohn.
O cavaleiro caiu da sela e a montaria cobriu a extensão da liça sem ele. Rhaegar cumprimentou aqueles que torceram por sua vitória com um aceno de cabeça. Esperou que Lorde Royce se recuperasse para apertarem as mãos e regressou ao pavilhão. Só quando entregou a lança ao escudeiro é que percebeu que a fita de Elia havia se perdido em algum momento da justa. Precisaria de um novo favor para as próximas rodadas.
— Por um momento, fiquei com receio de que Lorde Royce fosse conseguir lhe derrubar, Vossa Graça — Myles admitiu, pondo um cálice de vinho em suas mãos. — Ele é enorme.
— Eu também, Mooton — Rhaegar permitiu-se sorrir, sentindo os ombros relaxarem sob o metal pesado da armadura ao tomar um gole da bebida.
A última justa da rodada chegava ao final – praticamente ganha por Sor Barristan Selmy –, enquanto os escudeiros adicionaram os brasões dos novos campeões nas chaves. Ele distinguiu as torres gêmeas dos Frey, a forquilha dos High e a donzela rosa dos Piper indicando que Richard havia perdido pelo menos duas apostas com os outros cavaleiros noviços.
Estava prestes a provocar o companheiro com a disposição das chaves quando uma comoção na arena reclamou sua atenção. Ele correu para fora do pavilhão, deparando-se com o olhar surpreso da plateia e dos cavaleiros que haviam participado das justas. Sor Jonothor, Sor Gerold e Sor Lewyn estavam a postos no estrado, com os escudos nos braços e as mãos prontas para alcançar as espadas. O pai tinha se encolhido no cadeirão com uma expressão de horror, mas Elia estava aparentemente calma.
Na arena, sobre um cavalo cinzento, um cavaleiro desconhecido se aproximava da liça. Era pequeno como um rapaz verde e vestia uma armadura que mal lhe servia, formada por partes desparelhadas. No braço, trazia um escudo que ostentava o desenho de um represeiro branco com uma cara vermelha sorridente. A despeito dos guardas em alerta, o cavaleiro aproximou-se do estrado e saudou o Rei com a lança. Ninguém o impediu de trotar até o final da liça, na direção dos pavilhões dos campeões, e anunciar que estava propondo um desafio.
Rhaegar se perguntou se estivera tão distraído durante a competição a ponto de não notar aquele cavaleiro. Seu símbolo não aparecera nas chaves em nenhuma das rodadas, era impossível que tivesse estado ali o tempo todo.
— É uma criança? — Ao seu lado, Jon estreitou os olhos para o desconhecido.
— Oh-ho, parece que alguém se inspirou no senhor, Sor Barristan — Arthur cruzou os braços contra a cota de malha, sorrindo.
— Cavaleiros misteriosos costumam aparecer em torneios, não é nenhuma novidade — Sor Barristan deu de ombros, embora estivesse com os olhos muito atentos na pequena figura. Ele mesmo havia se vestido como um cavaleiro misterioso por duas vezes, a primeira delas quando tinha apenas dez anos. — Deve ser apenas mais um menino em busca de seu breve momento de glória. Os meninos têm pressa de crescer, tornar-se um homem-feito e provar aos outros que de fato se é um homem-feito.
— Ele desafiou o Blount, o Frey e o Haigh — Richard observou, acotovelando-se com Myles por um espaço na entrada do pavilhão.
Os escudeiros dos três homens desafiados correram para assisti-los, enquanto o cavaleiro misterioso ditava o preço do desafio. Se vencesse, deveria receber as armaduras e os cavalos dos perdedores.
— O Blount é pelo menos duas cabeças e meia mais alto — Myles apontou para o cavaleiro com o brasão do porco-espinho nas costas do colete.
Nenhum deles contestou. Em vez disso, prenderam a respiração a espera do sinal do pajem. O cavaleiro da Casa Blount tinha um sorriso arrogante antes de fechar o elmo, como se julgasse que a justa já estava ganha.
Rhaegar cruzou os braços contra a placa de peito, intrigado. Tinha a impressão de estar vivendo um dos contos de seus livros sobre cavalaria. Por um instante, desejou que também fosse desafiado para um combate.
No palanque, o arauto buscou o consentimento do Rei para permitir ou não a justa. O Príncipe percebeu o momento em que Sor Jonothor, ligeiramente ao lado do pai, acenou positivamente com a cabeça. Outros cavaleiros murmuravam sobre a injustiça de se aceitar um novo competidor muito depois das preliminares.
— Do lado esquerdo... — o arauto balbuciou, encarando o competidor desconhecido. — Do lado esquerdo, o Cavaleiro da Árvore que Ri.
— Uma alcunha patética — Sor Barristan estalou a língua.
Mas o cavaleiro que a detinha não o era.
O Blount avançou pela liça a galope, erguendo a lança ameaçadoramente. Porém, quando estava pronto para desferir seu golpe, o oponente o acertou na cabeça com a lateral da lança. O Blount escorregou da sela direto para a areia, ao passo que seu cavalo mal se moveu.
Depois dele, os cavaleiros dos Haigh e dos Frey também caíram – embora o último tivesse durado um pouco mais. Nenhum dos três estava entre os campões favoritos, então os plebeus aplaudiram o Cavaleiro da Árvore que Ri com vigor.
— Parece que esse menino conseguiu seu momento de glória, Sor Barristan — Arthur provocou com um sorriso admirado.
Rhaegar estava perplexo, mas manteve-se calado. O pequeno cavaleiro vencera seus oponentes com inteligência, não força. Proporcionara o tipo de espetáculo sobre os quais os bardos faziam canções.
— É injusto entregar nossos bens, uma vez que você nem ao menos era esperado nas justas! — o Frey exasperou-se, desmontando o cavalo.
O Blount e o Haigh já estavam a meio passo de pagar o preço da aposta ao vencedor, despindo-se das armaduras com a ajuda dos escudeiros, mas se detiveram ao ouvir aquele argumento. Fez-se silêncio na arena, enquanto o Cavaleiro da Árvore que Ri voltava-se para seus oponentes.
— Não importa que ele não tenha sido cotado para as justas. Os cavaleiros aceitaram o desafio sabendo o preço da derrota, então devem honrar com sua palavra — Rhaegar pensou alto, dando-se conta de que se fizera ouvir quando Myles o fitou um tanto surpreso.
— É pagar ou perder a honra como cavaleiro — Arthur concordou, dando de ombros.
— Ensinem honra aos seus escudeiros, isso será o suficiente para resgatar seus pertences — o Cavaleiro da Árvore que Ri declarou com uma voz trovejante através do elmo.
O Príncipe direcionou o olhar aos pavilhões, tentando adivinhar quem seriam os escudeiros. O Frey foi o primeiro a abandonar seu cavalo e andar a passos pesados até o garoto que o servia. Ele o puniu severamente, com tabefes no pé da orelha e berros. Seus companheiros seguiram o exemplo, envergonhando seus escudeiros na frente do público.
Havia no ar uma gargalhada uníssona, ressaltada por palmas de aprovação dos convidados. Os plebeus pareceram eleger a cena como o ponto mais alto do torneio até então, dando vivas ao Cavaleiro da Árvore que Ri. Sor Barristan se mostrou impressionado com a escolha da moeda de troca, admitindo que, talvez, o rapaz sob a armadura não fosse tão verde assim.
O Cavaleiro da Árvore que Ri restituiu os bens de seus adversários e fez o cavalo galopar até o estrado real. Ele estava no meio de uma mesura quando Robert Baratheon invadiu a arena.
— Vossa Graça! — berrou, aproximando-se com uma espada de torneio na mão. — Permita que eu enfrente o campeão e mostre a todos o rosto sob o elmo!
Myles abriu a boca para comentar algo aos companheiros, mas calou-se quando Richard abandonou o pavilhão para se colocar ao lado do Baratheon.
— Eu também desejo enfrentá-lo, Vossa Graça!
— Vejam só — Jon cofiou a barba ruiva, achando graça no rumo que as coisas tomavam. — De repente todos querem justar.
— Lonmouth só está querendo vingança por ter perdido na batalha de copos de vinho — Myles debochou.
— Aposto que o garoto não esperava por essa atenção toda — Arthur agachou-se entre eles, mantendo os olhos atentos naquele espetáculo surpreendente.
O que vai fazer agora, Cavaleiro da Árvore que Ri? Rhaegar comprimiu os lábios, cuidando para disfarçar a excitação. O Torneio de Harrenhal se mostra tão incrível quanto o próprio castelo.
— Sim, mais duas justas para o povo! — O Rei Aerys exortou seus cavaleiros, ajeitando-se no cadeirão.
— Ele vai aceitar? — Jon ergueu uma sobrancelha.
— Não — Rhaegar murmurou, vendo o Cavaleiro da Árvore que Ri fazer uma meia reverência diante do estrado e galopar para fora da arena às pressas.
Como um herói de uma história de cavalaria, o Príncipe pensou encantado.
— Rhaegar! Rhaegar! — O pai berrou por ele a plenos pulmões, levantando-se bruscamente.
— Vossa Graça — Arthur murmurou ao seu lado, empurrando-o para frente com gentileza. — O senhor seu pai o chama.
Rhaegar apressou-se para montar o garanhão, adivinhando o que o Rei Aerys pediria. Podia sentir os olhares atentos e ansiosos da plateia em suas costas.
— Sim, Vossa Graça — ele o reverenciou como um súdito. Precisava ter cuidado com o pai, pois, nos últimos tempos, qualquer sussurro era o bastante para fazê-lo mandar o carrasco degolar alguém.
— Vá atrás dele! — Raiva e medo transbordavam das íris púrpuras do Rei. Os fundos sob seus olhos estavam mais escuros e as rugas, ressaltadas. Sua voz, urgente e esganiçada, reverberou violentamente pelos ouvidos do Príncipe. — Aquele cavaleiro é meu inimigo! Vá atrás dele e o arraste de volta até aqui!
— Sim, Vossa Graça.
Elia o fitou preocupada, remexendo-se desconfortavelmente em seu assento. Rhaegar lançou um olhar discreto a Arthur na entrada do pavilhão, recebendo um aceno positivo em resposta. Havia um combinado entre eles e Jon Connington sobre proteger Elia do Rei caso o Príncipe estivesse ausente.
O escudeiro trouxe-lhe a espada e o escudo sem que uma ordem fosse necessária. Rhaegar gostaria também de um cantil com água e um pouco de pão, pois não sabia quanto tempo passaria perseguindo os rastros do Cavaleiro da Árvore que Ri. Porém, com a experiência que acumulara na viagem até Harrenhal, ele entendia que era preciso partir logo, antes que o pai perdesse a paciência.
Depressa, ele afagou o pescoço do garanhão negro. Quanto mais rápido, mais chances de encontrar o cavaleiro. Não havia um plano traçado em sua mente, nem uma vaga ideia do que dizer ao pai se voltasse de mãos vazias. Mais rápido.
Rhaegar atravessou o pátio em direção à Torre dos Fantasmas, galopando velozmente para além do Portão Leste. Quando as sombras dos muros do castelo já não o alcançavam mais, ele pensou que talvez tivesse sido bom perguntar aos guardas sobre qual direção o cavaleiro misterioso tomara. Mas seus instintos pareciam guiá-lo pela margem norte do Olho de Deus, beirando as águas verdes, e então para o bosque da Vila de Harren.
O garanhão penetrou por entre as árvores com passos seguros, mas as raízes que se salientavam da terra o fizeram diminuir a velocidade. Rhaegar crispou os lábios, tentando reprimir a empolgação. Aquela não era uma das histórias de seus livros, era uma missão para seu pai – provavelmente valendo sua pretensão ao Trono de Ferro, ou pior, sua cabeça, ainda que ninguém tivesse falado nada.
— Ali! — O Príncipe sussurrou quase desesperado para o garanhão.
A pelo menos vinte metros à frente, um cavaleiro galopava por entre as árvores. Rhaegar inclinou-se sobre o cavalo, agitando as rédeas mais energicamente. Seu cavalo extinguiu a distância entre eles rapidamente, mas o outro montava com destreza. Em suas costas ia amarrado o escudo com o represeiro sorridente, e não havia dúvidas de que era o cavaleiro certo.
— Pare em nome do Rei!
O som da armadura chacoalhando, da bainha da espada balançando e das patas dos cavalos contra a relva foi tudo o que obteve em resposta. O Cavaleiro da Árvore que Ri não o ouviu, e se ouviu, ignorou a ordem. No entanto, Rhaegar não desistiu, obrigando o garanhão a imprimir mais velocidade no galope. Ele sentia a nuca suando e a trança prateada ricocheteando no metal sobre suas costas. Deu-se conta de que não havia trazido o elmo – ou as manoplas –, sentindo-se quase nu.
O cavaleiro realizou uma curva atrás de uma grande árvore, refreando seu ritmo. Nesse meio tempo, o Príncipe Dragão aproximou-se o bastante para empurrá-lo para fora da sela, derrubando-o de joelhos. Ele desembainhou a espada e pulou para o chão ao mesmo tempo em que o desconhecido se colocava de pé.
— Tenho ordens do Rei de levá-lo de volta para Harrenhal e apresentá-lo na arena — Rhaegar declarou, apontando a espada de aço valiriano para seu adversário. — Você pode se render pacificamente, ou nós podemos duelar.
O elmo de bronze o fitou um segundo, mas nenhuma palavra saiu dele. O Cavaleiro da Árvore que Ri puxou uma espada de torneio e colocou-se em posição de combate. Ele está realmente levando isso a sério?, o Príncipe se perguntou, franzindo o cenho para a arma. O aço valiriano pode fazer isso em pedaços sem esforço algum.
— Vamos duelar então.
As espadas se cruzaram tão logo sua fala foi encerrada. A lâmina valiriana cortou a ponta da outra e ele a chutou para a fora da mão do adversário, que deu um passo para trás. O elmo do pequeno cavaleiro batia na altura de sua placa de peito, e o pobre pareceu ainda menor ao se encolher contra o tronco de uma árvore.
Rhaegar voltou a lhe apontar a espada, procurando sustentar um olhar inflexível e ameaçador – mesmo que não fosse capaz de machucá-lo. O dilema de ter de levar o Cavaleiro da Árvore que Ri para o castelo o incomodava, mas a necessidade de conhecer o rosto sob o elmo era prioridade.
— Se rende?
Seus ouvidos esperavam por um “sim”, porém, o adversário virou o corpo para fugir. O Príncipe agiu quase sem pensar, chutando-lhe os pés. O cavaleiro caiu novamente, perdendo o escudo no processo.
— Vamos, renda-se — soou mais como um pedido do que uma ordem.
Rhaegar teve a impressão de que meia volta de ampulheta havia escoado antes fosse ouvido. O Cavaleiro da Árvore que Ri se sentou sobre as pernas, de costas para ele, e ergueu as mãos até o elmo com certa relutância. Então, sob o sol alaranjado de fim de tarde, o bosque inteiro pareceu se congelar.
O elmo de bronze foi levantado aos poucos, libertando uma trança de cabelos negros que se deitou sobre a armadura. Vagarosamente, o cavaleiro virou-se o bastante para que Rhaegar visse seu rosto.
— Lady Lyanna? — murmurou descrente.
Talvez a euforia da perseguição tivesse afetado sua mente. Mesmo assim, viu-se açoitado pelas palavras dos companheiros a respeito da moça, recordando-se do desejo de pô-la a prova. E ali estava Lyanna Stark, sob a alcunha de Cavaleiro da Árvore que Ri, mostrando-se plenamente digna de ser chamada de donzela-lobo e ostentar um lugar entre os campeões das justas.
Ela levantou-se cautelosamente, girando nos calcanhares com a cabeça baixa e o elmo entre as mãos. Estava envergonhada, tremendo na armadura de partes avulsas que claramente não servia para seu tamanho.
— Vossa Graça — sua voz era um fio, abaixando-se ainda mais à medida que afundava a cabeça no ar numa vênia profunda.
A espada de Rhaegar escorregou por dentre seus dedos e caiu na relva. Não conseguia encontrar uma maneira de estar menos surpreso.
Lyanna levantou o rosto ruborizado para ele com a respiração pesada e os olhos implorando por piedade silenciosamente. Os cabelos estavam desgrenhados, colando em sua testa pelo suor.
— Por quê? — perguntou num murmúrio, deixando as palavras escapulirem de seus lábios naturalmente.
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