O Amor É Cego - Brittana
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Aquela era mais uma manhã como as outras. Ela não sabia ao certo dizer se era noite ou se era dia, visto que o alarme não havia tocado. Essa, além de tantas outras, era uma das coisas que ela mais odiava na cegueira. Ela não sabia ao certo se o que via era preto ou se era branco, pois nunca havia visto nenhuma das duas cores, nem qualquer outra. Sua irmã já tentara ensina-la a diferenciar, mas como se explica as cores para quem já nasceu cego? Na opinião de Santana, era um tanto quanto impossível. Era o mesmo que ensinar um cachorro a ler.
Ela levantou, ignorando a sensação que sempre sentia ao levantar antes do despertador tocar. Incerteza. E se ainda fosse muito cedo? Bem, de qualquer forma, ela estava completamente desperta.
Tateou por sua escrivaninha até encontrar o relógio. O aparelho anunciou sete e meia da manhã. Perfeito. Já estava na hora de levantar.
Com sua bengala e seu fiel escudeiro, Scooby, ao seu lado, caminhou pelos corredores já decorados até o banheiro. Ligou o chuveiro enquanto despia-se lentamente. Podia sentir o vapor preenchendo o banheiro quando entrou no Box. Deixou que a água morna corresse por sua pele, tirando qualquer vestígio de sono que pudesse ter.
Saiu do banho, agora a parte mais complicada. Caminhou até seu closet e passou o dedo pelas etiquetas de suas roupas. Em braile, o nome de cada uma das cores. Para ela, isso era uma besteira. Podia muito bem estar apenas numeradas, como a camisa um com a calça um. Não faria a menor diferença, ela não sabe o que está vestindo.
Já arrumada, pegou seus óculos escuros e caminhou até a mesa do café. Comeu sua tigela de cereais em silêncio, ouvindo apenas o mastigar escandaloso que seu cachorro fazia enquanto devorava a ração.
Quando finalmente estava pronta para sair, chamou um taxi, o que vinha sempre busca-la quando ela precisava sair, e saiu com Scooby em direção à academia de dança.
Não demorou muito para chegar lá. Era perto de sua casa, na verdade. Ela, de certa forma, estava ansiosa para ter a segunda aula. A dança era algo mágico para ela. Era um modo de expressão corporal com o qual ela nunca achou que talvez um dia tivesse a capacidade de poder praticar.
Entrou no estúdio e foi guiada por Scooby até uma das cadeiras da recepção. Sorriu para Tina, a secretária que a cumprimentara. Ou ao menos achava que havia sido para ela o seu sorriso.
- Santana? – Sentiu um toque delicado em seu ombro.
- Oi? – ela chamou, girando o rosto.
- É a Brittany. – a loira identificou-se, e logo a morena reconheceu sua voz.
- Sim, certo. – Ela balançou a cabeça. – Bom dia.
- Bom dia. – Brittany cumprimentou. – Podemos ir?
- Mhm. – ela assentiu, deixando que Brittany a levasse em direção à sala.
Brittany fechou a porta e voltou-se para Santana, tirando a bengala de suas mãos e encaminhando-se para as costas da morena. A loira vestia uma regata e calças de moletom escuras, que eram as roupas perfeitas na concepção de Brittany para ir trabalhar.
- Eu vou retomar os passos da última aula com você, ok? Depois vou mostrar alguns passos novos. – Brittany avisou, antes de posicionar as mãos na cintura de Santana.
Elas executaram juntas os passos da aula anterior, e depois Brittany começou a criar novas coreografias com Santana. Um sorriso enorme havia tomado lugar no rosto de Santana. Brittany o observava no espelho, abrindo um tão grande quanto o dela.
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- Você foi ótima, Santana! – Brittany cumprimentou, sentando-se ao lado da morena. – Eu não imaginava que você tivesse tanta facilidade assim para dança.
A morena corou violentamente, mas abriu um sorriso envergonhado. Brittany olhou para a janela enquanto brincava com as orelhas de Scooby. A chuva caía cada vez mais forte na cidade, e o vento dava a impressão de que se saísse para a rua, iria acabar voando. Brittany agora se perguntava se havia fechado a janela do quarto.
- Sua amiga vem buscar você? – Brittany perguntou.
- Na verdade, hoje não. – Santana confessou. – Será que você poderia chamar um táxi para mim?
- Nem pensar. – Brittany respondeu, sorrindo ao ver a forma com que as sobrancelhas da morena se contraiam confusas. – Eu vou te dar uma carona.
- Não precisa, — Santana respondeu. – eu não quero tirar você da aula.
- Está literalmente caindo o mundo lá fora. – Brittany disse. – Você não vai achar nenhum táxi agora. Minha próxima aula é só à uma, e eu preciso voltar pra casa de qualquer jeito. E mais, eu bem que gostaria de tomar um café agora. Você me acompanha?
- Tudo bem.
Um sorriso formou-se nos lábios de Brittany. Ela segurou a mão de Santana e a guiou em direção ao estacionamento, ajudando-a a entrar no carro. Logo, as duas haviam se dirigido ao Starbucks, e estavam apenas esperando seus pedidos.
- Eu amo esse cheiro. – Santana murmurou, fechando os olhos por um segundo.
- Café? – Brittany perguntou.
- Isso. – ela assentiu. – É simplesmente maravilhoso.
- Eu gosto também. – a loira disse, sorrindo. – Na verdade, é até melhor do que o gosto.
Santana riu. Só então, Brittany parou um segundo para olhar melhor para Santana. Havia algo de diferente nela hoje. Ela estava ainda mais bonita, o que Brittany podia jurar ser impossível.
- Você fica linda de vermelho. – Antes que pudesse perceber, já havia dito.
Santana sorriu, envergonhada. Nunca recebia elogios. Não contava os de sua mãe, nem os de Beth. Achava que eram simplesmente para agrada-la. Mas, ao ouvir um deles escapando tão espontaneamente dos lábios de Brittany, sentiu um calor tomar conta do seu rosto.
- O-o-obrigada. – gaguejou. – Na verdade, eu nem sei direito que cor é essa.
- Você nasceu cega? – Brittany perguntou.
- Mhm. – ela concordou. – Acho que isso dificulta um pouco a minha seleção de roupas.
- Eu gosto. – Brittany disse, com uma verdade transparente. – Ficam bem em você.
Santana sorriu novamente. Não conseguia evitar. Brittany causava essa sensação, essa vontade de querer sorrir o tempo todo. Ela era simplesmente contagiante.
Tomaram seus cafés, conversando sobre os assuntos mais aleatórios possíveis. Tinham pouco em comum, mas ao mesmo tempo, pareciam ter tudo. O assunto fluía com naturalidade entre as duas, e assim continuou até o caminho para a casa de Santana.
- Número 564? – Brittany perguntou, e a morena assentiu. – Então chegamos.
Ela estacionou o carro em frente ao prédio e desceu antes de Santana, correndo para abrir a porta para ela.
- Eu… eu posso te pedir uma coisa? – Santana perguntou, um pouco apreensiva. – Não precisa fazer, se ficar desconfortável.
- Claro que pode. – A loira confirmou.
- Eu… eu posso ver o seu rosto? – ela questionou. – É mais fácil de lembrar depois.
Brittany sorriu e segurou as mãos de Santana, guiando-as para o seu rosto. A morena redesenhou os traços de Brittany, passando os dedos pelos lábios finos.
- Deus, você é linda. – ela murmurou antes que pudesse se controlar.
Brittany baixou a cabeça envergonhada. Tornou a erguer o rosto para Santana alguns segundos depois. Ela inclinou o rosto e beijou a bochecha da morena. Santana sorriu e beijou o rosto de Brittany, murmurando uma rápida despedida antes de virar as costas e subir junto de Scooby em direção ao seu apartamento.
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Santana subiu em direção ao seu apartamento, jogando suas coisas em cima da mesa. Sua bochecha ainda queimava onde Brittany havia a beijado. Era uma sensação boa.
Ela caminhou em direção ao sofá e deitou, encostando a cabeça no braço do mesmo. Sentiu Scooby subir e deitar-se aos seus pés. Ela estendeu a mão e começou a acariciar sua orelha. O animal soltou um grunhido satisfeito, fazendo um sorriso surgir nos lábios da latina.
- Eu gosto dela, Scooby. – ela murmurou para o cachorro.
Em questão de minutos, adormeceu. Dormiu abraçada ao cachorro, em um sono profundo e repleto de sonhos. Sorrisos inconscientes se formavam em seu rosto cada vez que ela ouvia a voz de Brittany ecoando em sua cabeça.
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