O Amigo do Casaco Negro.
3 Um quebra-cabeça chamado amigo.
Notas iniciais
A diversão acabara. O dia seguinte fora longo, mas as crianças ainda queriam ficar aproveitando o sol, o mar, a areia e enfim.
De volta à Twilight Town...
-Roxas, nós estamos indo para casa. –Disse Hayner abandonando a estação.
-Tudo bem, irei descansar um pouco no topo da torre. Não se preocupe, de noite já estarei em casa.
Como dito, Roxas subiu até o topo da torre. Sentou-se na beira da torre e disse mesmo sozinho:
-Axel... Sei que está ai. –Com um sorriso marcante.
-Como você sabia? –Disse andando devagar, virando a quina para se sentar ao lado do loiro.
-Eu não sei... Só sei. –Disse confiante.
-... E aí, como foi na praia? –Perguntou olhando para o horizonte.
-Ah, sei lá, foi bom. Descobrimos uma caverna. Com um tesouro. –Apoiou os braços no joelho.
-Sério?
-É... Mas acabei convencendo-os a não aproveitarem do tesouro. Então deixamos lá. –Pausou. –Mas sabe, além do tesouro, uma coisa interessante aconteceu. Primeiro...
-...
-O que foi? –Disse com as sobrancelhas arqueadas.
-Continue. –Ainda com o olhar fixo para o céu.
-Eu conheci alguém. –Disse do mesmo jeito; olhando para o céu.
-Qual era seu nome?
-Eu não sei. –Riu de lado.
-Como assim?
-Ele não falava, não se mexia, não estava acordado.
-Fez amizade com um cadáver?
-Não –Riu novamente.
-Então o que é? –Disse Axel alisando o cabelo.
-Ele estava dentro de uma cúpula.
Por uma fração de segundo –instável- Axel arregalou os olhos. Mas nada que Roxas fosse capaz de perceber.
Então o loiro continuou:
-Então dei um nome a ele. Ele era moreno... Parecia usar roupas apertadas para seu corpo, e bem, seus olhos... Não pude ver. Eles estavam fechados. Mas de volta ao nome... Eu lhe dei o nome de Sora.
-... –Axel deu um riso de deboche.
-O que foi? –Novamente, suas sobrancelhas arquearam.
-He... Nada não. –Pausou. –E o que mais descobriu? –Disse com um tom como se já tivesse ido lá.
-Bem, eu vi treze altares com alturas diferentes. Eram muito altos...
Axel queria rir por dentro. Mas conteve-se.
-E depois... Nada demais.
-Só isso? Fora uma pessoa inconsciente, você não conheceu ninguém? –Disse novamente como se já tivesse ido lá.
-Bem, conheci duas pessoas... –Analisou Axel. –Com um casaco igual ao seu.
Axel virou o rosto.
-Era você... Não era? –Disse com um sorriso surpreendente.
-Não. –Ao contrário de Roxas, Axel disse o mais rude possível.
-Nah, tudo bem.
-Sabe o que me intriga? –Axel disse mudando de assunto.
-O quê? –Perguntou interessado.
-Por que pode me ver?
-Como assim? Eu não sou cego. –Disse estranhamente.
-Não é isso... Ninguém pode me ver.
-Nah, eu não sei. Talvez os outros devam ter um problema nos olhos. –Roxas tentou imitar o deboche de Axel, com sucesso.
-Como se fosse simples assim... –Axel finalizou sério.
-Bom, eu preciso ir. –Concluiu ignorando-o.
O ruivo nada mais disse.
Então, Roxas desceu a torre, e enfim, foi para casa.
“Aqui não há lugar para os que não são bons. Os que não possuem um bom coração não poderão desfrutar deste lugar. São apenas cegos.”
Você pode me ouvir?
-AH! –Roxas acordara de um sono profundo.
Desculpe.
-Ah, Sora? –Disse abrindo a janela de seu quarto, dando a vista para a linda cidade do crepúsculo.
Olá.
-Ah, oi. –Sentou-se na cama, balançando as pernas.
A resposta nunca era tão rápida. Fazia parecer que pensava nas suas palavras.
Você vem me visitar hoje?
-Ah... É verdade. Eu prometi. –Abaixou a cabeça num tom de culpa. –Desculpe. Eu não posso ir. Não tenho dinheiro para ficar indo e voltando para a praia.
Roxas não escutou a voz do amigo por um bom tempo. Decidiu trocar de roupa e sair de casa.
Andou tranquilamente até a torre do relógio. Parou numa lojinha no caminho para lá e comprou dois sorvetes.
Subiu a torre e sentou-se na beira.
-Ele não está aqui... –Disse triste.
Porque insiste em visita-lo?
-Desculpe Sora. É que para vê-lo eu não preciso gastar dinheiro.
Como não? Olhe para suas mãos.
-... Desculpe. O sorvete é barato em comparação a passagem de trem.
Gostaria de conhecer um pouco mais de mim?
-Claro.
Só que eu preciso de sua confiança.
-Pode falar.
Para entrar no despertar, você precisa pular da torre.
-Como é que é? –Disse num tom inexplicável. –Você quer me matar, não é?
Eu sou você. Porque eu há de mata-lo?
-...
Por favor. Confie em mim.
Alguns segundos de pensamentos passaram-se pela mente de Roxas. Ele queria poder acreditar, mas a vida era um dom único que não poderia se desperdiçar. Será que aquela voz era realmente seu amigo? Impossível. As coisas agora pareciam mais suspeitas do que nunca.
O garoto então fez. Levantou-se e manteve se de pé em cima da beira da torre do relógio.
Por favor.
-Farei isso por você. Espero não estar errado.
Jamais.
E como um vulto, Roxas deixou-se cair perante a enorme torre do relógio. Como em câmera lenta, a torre passava diante dos seus olhos. Ínfimos detalhes eram observados enquanto o loiro caía em dúvidas. Caía pensando se o que fez era certo. Não era em vão, pois antes que chegasse ao chão, foi recebido com um enorme mar a sua volta. Como se estivesse caindo na água. E então, nesse profundo mar, seu corpo afundava inconsciente, que aos poucos, ia abrindo os olhos, e se virando, chegando a um grande plano negro. Uma grande plataforma. Uma plataforma banhada de negritude.
Você conhecera a história do coração.
E a sua volta, pétalas de rosa se distanciavam, mostrando uma grande plataforma colorida. Uma vidraça. Isso, uma enorme vidraça que sustentava seus pés. Uma vidraça circular.
A plataforma tinha o desenho de um garoto de olhos fechados, segurando uma arma. Uma chave... Não... Uma espada. Não... Uma espada-chave, idêntica a do loiro.
E em volta? Em volta havia rostos diferentes... Nunca vistos antes. Uma garota de cabelos curtos e ruivos. Um garoto sério de cabelos longos e grisalhos... Um cachorro, um pato. Um camundongo com um casaco que cobria suas orelhas. E até o próprio Roxas.
E imensos detalhes.
Roxas não pronunciava uma palavra.
Dois brilhos surgiram em direções opostas, logo apresentando um baú nas duas luzes.
Duas escolhas. Seja cuidadoso... Duas escolhas opostas.
Dos dois lados, os baús pareciam iguais. Então qual escolher?
Roxas se dirigiu ao primeiro, e abriu-o devagar.
Um brilho surgiu e deu origem a uma arma. Uma espada-chave.
Keyblade.
-Keyblade... –Olhou para a arma atento.
Uma série de degraus apareceu. Como tudo ali, apareceu do nada.
A escolha é sua.
Roxas seguiu adiante. Subiu a série de escadas e se deparou com outro andar. Outra plataforma, outra vidraça. Já nesta, Roxas aparecia. Aparecia num casaco negro. Segurando uma Keyblade. Parecia inconsciente também. E ao redor, vários rostos também haviam de aparecer. Um ruivo de olhar confiante, uma morena de cabelos negros e curtos, uma loira de cabelos médios e olhos azuis. E mais ao fundo... Onze rostos obscuros, escondidos num manto negro. A plataforma parecia alaranjada, como o crepúsculo. E pequenos detalhes ao fundo. Vários prédios negros, várias criaturas negras completavam a plataforma de vidraça.
Desperta-te.
E aos poucos, Roxas foi subindo as plataformas dando origem a outras. Algumas apresentavam algumas criaturas negras que eram facilmente derrotadas. Outras apenas eram contempladas.
E ao final, uma enorme plataforma surgiu.
Uma muito diferente das outras. Tinha duas divisões. Uma divisão era clara e aparecia o moreno acompanhado de seus amigos. Na outra divisão, Roxas, Axel e outros se mostravam em plena escuridão.
Uma divisão não muito aparente.
Chegou a minha hora.
Um brilho incendiou os olhos de Roxas, que aos poucos, foi sumindo, dando origem a um corpo, um ser, um garoto. Um garoto de cabelos morenos e olhos azuis. Um garoto de vestes brancas e vermelhas, pequenas para seu corpo. Uma Keyblade, igual a sua.
-Sora! –O loiro se aproximou do moreno, que lhe apontou sua arma.
Roxas não entendera. Torceu o olhar examinando minuciosamente o garoto, vendo se havia algo de errado, e após, olhou para sí mesmo.
Ele não era o mesmo.
Percebeu que portava um casaco negro, -Assim como Axel- e que o capuz cobria seu rosto. A Keyblade em sua mão se equivocou e fez um movimento sozinha, como se estivesse pronta para lutar.
-Eu não vou lutar com você. –Disse olhando em seus olhos azuis profundos.
Lute comigo, é a única maneira de se libertar.
-Como assim?
Se libertares de mim, terás um coração.
-Eu tenho um coração.
Você que acha.
-Claro que tenho!
Você consegue senti-lo?
Roxas não conseguia responder. Ele tinha razão. O loiro não tinha um coração.
Eu menti para você. Eu não sou você.
-...
Você sou eu.
-O que quer dizer com isso?
Você não tem coração por que eu tenho. Se quiser ser um alguém, deverás me derrotar. Estou lhe dando esta chance.
-Mentira!
Eu posso provar.
Pausa.
Eu não posso acordar com você acordado. Você nunca poderá me ver na realidade. Você e eu precisamos estar juntos para meu corpo despertar.
-E o que eu estou vendo então?
Sua alma, sua memória, permitiu que eu aparecesse na sua frente.
-Irônico.
Acorda-te.
-Eu estou acordado! –Jogou a arma no chão. –E porque para tudo é necessário lutar? Se eu realmente sou você... Eu só gostaria de pedir mais algum tempo.
Como disse? Não quer viver?
As palavras não pareciam sair da boca do garoto a sua frente. Apenas surgiam na mente do loiro.
-Eu acredito no que diz. Mas eu não entendo. Por que é preciso nos juntarmos?
Eu e você somos um. Você é um ninguém.
-Um... Ninguém?
Nobody.
-... –O loiro não tinha palavras.
A Keyblade que estava no chão, se desfez e refez-se em sua mão novamente.
O loiro se aproximou do moreno, e estendeu a mão.
O que quer com isso?
-Te prometo que, em breve, você acordará. Só lhe peço algum tempo. Só mais algum tempo.
Mas Roxas... Você não quer viver? Não quer ser alguém?
-Eu devo fazer o que é certo. Você é meu amigo. Eu sou você. Se isso é o certo a fazer, não devo temer a me unir a você. Eu sei que mesmo junto a você, muitas coisas ainda continuaram as mesmas. Mesmo que no interior.
Tudo bem... Você saberá a hora de se juntar a mim. Minhas memórias irão invadir sua mente, e aos poucos irão completar 100%.
-Tudo bem.
E então, ‘Sora’ cumprimentou Roxas, sumindo de sua frente.
A visão do loiro embranquecera. Logo, estava de volta à cidade do crepúsculo.
-Sora... Desculpe. Mas antes, eu preciso me despedir de um amigo.
Roxas caminhou até o centro da pequena cidadezinha e novamente comprou dois sorvetes.
Subiu a torre do relógio e sentou-se na beira do enorme monumento.
Axel... Você parece gostar muito dele.
-Sora? –Roxas perguntou acostumado com vozes em sua mente.
Não... Olhe para baixo.
O loiro o fez.
Olhou para baixo e avistou uma menina loira com um vestido branco e sandálias igualmente brancas.
-Suba aqui! –Disse acenando para ela, mesmo sem a conhecer.
A loira subiu como solicitado.
-Olá. –Sentou-se ao seu lado.
-Oi. Meu nome é Roxas, e o seu? –Disse oferecendo o sorvete.
-Naminé. –Disse aceitando o picolé. –Parece que seu amigo não vem mais visita-lo.
-Ele não é meu amigo. –Disse olhando para baixo.
Naminé expressou uma face confusa.
-Ele nunca disse que não era seu amigo. –Disse a loira com um enorme sorriso.
-Mas ele nunca disse que era. –Olhou para Naminé. –Ele nunca mais voltara. Ele nunca sorriu, apenas riu de mim como se soubesse algo.
-Dê a ele uma chance.
-Nós só nos vimos duas vezes. Não sei se posso confiar em alguém assim.
-Será mesmo? –Disse com um sorriso tranquilizador.
-Não entendo o que quer dizer. A minha vida ultimamente tem se tornado um tanto estranha. Keyblade, nobody, coração...
-Não tema. Tudo no final dará certo.
-Assim espero. Mas eu só vim aqui para me despedir. –Disse comendo o sorvete.
-Por quê? Vai se mudar?
-Para sempre. Eu irei me unir a meu somebody, Sora, para que ele desperte.
-Entendo. –Disse apreciando a cor do picolé. –Mas, e seus amigos, Hayner, Pence e Ollete?
-Eu não sei se eles iriam aceitar bem. Eu os amo, mas gostaria de fazer com que eles não sofressem. Aliás, eles não sabem de toda essa história de não ter um coração. Eles não iriam acreditar. Eu apenas queria me despedir de Axel. –Abaixou a cabeça em tom de decepção.
-E se ele voltar? –Ela disse balançando as pernas, como se quisesse pular dali.
-Nah, ele não vai voltar. –Disse contemplando o céu com um sorriso no rosto.
-Como sabe? –Apoiou os braços para trás, com o picolé em sua boca.
-Eu sei. Ele não é normal. –Terminado o sorvete, observou que havia de estar escrito “Vencedor”.
-E se eu puder trazê-lo de volta? –Disse terminando o sorvete em seguida também.
-Você pode? –Disse virando-se para ela com a surpresa em seus olhos.
-Sabe... Eu posso conversar com ele, mas...
-Não tem problema. –Olhou para o horizonte novamente. –Mesmo indo embora, sei que ele nem saberá mais meu nome.
Naminé riu de lado.
-Você nunca irá embora. E nem ele. –Disse apontando para seu coração. –Você sempre estará no coração dele e ele no seu.
-Eu não tenho coração.
-Eu também não. Mas não é por isso que não lembrarás mais de mim.
Roxas olhou em seus profundos olhos azuis, logo, sorriu.
-Obrigado. –Disse jogando o palito para frente. –Parece que meus amigos são um quebra-cabeça. Todos se conectam de uma maneira estranha.
-Eu posso trazê-lo. Mas nunca mais me verá. –Disse a loira. –Gostaria de se despedir de mim? –Disse com um riso inocente.
Roxas não disse nada.
-Nah, tudo bem. Eu o trarei. Mas lembre-se de mim, ok? –Disse com um sorriso tão gratificante, tão sincero, era inútil pensar que ela estava sendo falsa.
O loiro se virou para Naminé e pronunciou devagar:
-Eu acho que nos conheceremos novamente.
A loira se levantou e foi embora após um aceno.
Roxas levantou-se após algum tempo, e voltou para sua pequena casa.
Adormeceu.
Uma ilha. Três amigos. Uma descoberta. Uma Keyblade.
Um garoto. Um prédio. Vários prédios negros. Várias pessoas de casaco negro.
E apenas um garoto a sua frente.
Sora.
Roxas havia de se levantar assustado recentemente.
Muitas coisas estranhas apareciam em sua mente, e seus antigos amigos – Hayner, Pence, Ollete – Não apareciam faz um tempo.
Roxas tirou seu pijama e colocou sua roupa. E como sempre, passou no centro e comprou dois picolés. Como sempre.
Com perseverança, ele acreditava na menina.
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