O Amigo Do Meu Pai
23 Uma maneira, digamos, mais explosiva...
Notas iniciais
Enjoy
-Parece que cheguei num momento importuno... — Disse Chris um tanto duro.
-Não. Você chegou no momento perfeito – respondeu Sam indo se juntar á nós na sala.
Eu olhei para Sam apreensiva, e ele me acalmou com o olhar. Essa era uma das coisas que mais amava em Sam; esse poder de conseguir me acalmar só com um simples olhar.
-Acho que nós três demos muito pra conversar – disse Sam apontando o sofá á meu pai.
Chris concordou com a cabeça, mas não se sentou no sofá ao meu lado, e sim na poltrona que havia de costas á janela, ao lado do sofá. Sam se sentou ao meu lado.
-Então, o que você queria me dizer Chris? — Perguntou Sam quebrando a tensão.
-Queria conversar um pouco sobre os acontecimentos recentes... Sobre a maneira pela qual nós fomos usados – disse meu pai frio, magoando-me. Eu já possuía uma ferida grande, ainda aberta, e ele tinha acabado de abri-la mais ainda.
-Sobre a maneira que você acha que fomos usados – corrigiu Sam, tentando amenizar um pouco.
-Não, pela maneira que de fato fomos usados. Não há um “eu acho” nessa história, e sim um “eu tenho certeza” – disse meu pai calmo, machucando-me um pouco mais.
-Chris, olha, eu sei que você acha que Anne é uma grande farsa, uma impostora, mas dá ao menos pra você trata-la bem? — Pediu Sam com uma leve agressividade na voz, vendo que eu me magoara com as falas de meu pai.
Meu pai me fitou frio. Suspirou, botando os dedos indicador e médio na testa, como uma pinça, apoiando o cotovelo no braço da poltrona.
-Continue... — Pediu Chris, sem mudar de posição.
-Olha Chris, todos sabemos que o teste deu negativo; que, segundo o teste, Anne não é sua filha – começou Sam, olhando para meu pai – Mas me diga, sinceramente, você não sente nada ao vê-la? Você não sente alguma coisa em relação á Anne que palavra alguma pode descrever? Você não sente, ou sentiu, nada ao saber que Anne era sua filha, antes do teste?
Eu olhei para Chris, esperando uma reação dele. Ele continuou na mesma posição durante um tempo após a fala de Sam, mas logo mudou. Ele levantou a cabeça e desapoiou o cotovelo do braço do sofá, estendendo o braço pelo mesmo. Ele fitou Sam em silêncio, depois passou a me fitar.
-Sim, senti – respondeu frio Chris, fitando-me ainda.
-Então? Vai me disser que não foi nada? Que foi enganação sua? — Questionou Sam a meu pai.
-Deve ter sido... Afinal ela não é minha filha – respondeu frio e calmo meu pai, ainda me olhando.
Aquilo me doeu mais ainda. Ele sublinhou a palavra “não" com tanto gosto, e dissera a frase com tanta frieza e calma, que me doeu bastante. Ele estava irredutível quanto ao assunto, conclui. Abaixei minha cabeça, desviando o meu olhar do dele. Não queria chorar, não sentia vontade, mas tinha um imenso vazio no peito que teria o trocado de bom grado pelas lágrimas se essas aliviassem a dor que aquele vazio deixa.
-Deuses! Não acredito que você prefere confiar num pedaço de papel, que é falho algumas vezes, do que nos seus próprios sentimentos! — Disse meio estourado Sam, abaixando a cabeça até os joelhos e passando a mão nos cabelos impaciente.
Nós pairamos durante algum tempo em silencio. Sam continuava na mesma posição, enquanto eu tinha ainda minha cabeça baixa e Chris olhava perdido para um ponto fixo perto da porta. Sam saiu então de sua posição de impaciência e se levantou, virando as costas pra mim e meu pai. Ele continuou mexendo nos cabelos. Tinha uma desconfiança que ele tinha os olhos fechados quando voltou a falar calmamente:
-Chris, por favor, ouve a si mesmo! Eu não acredito que uma droga de pedaço de papel vai fazer você se cegar diante de toda aquela alegria que você sentia em saber que Anne era sua filha.
Eu levantei a cabeça para olhar Sam, mas este continuava de costas. Olhei meu pai e este ainda tinha o olhar distante.
-As pessoas ás vezes se enganam... E o exame quase nunca falha – respondeu Chris sem mudar de posição ou olhar para outra coisa.
-“Quase nunca”... Mas ele pode sim falhar – respondeu Sam se virando.
Ele olhou para mim e eu dei meu sorriso mais triste e amarelo. Ele também deu o dele. Voltamo-nos, os dois, para meu pai.
-O exame não está errado... — Respondeu breve e perdido Chris. Desconfiei que a resposta fosse mais para ele mesmo do que para mim e Sam.
Me cansei daquela negação toda. Foi a minha vez de dizer algo, de agir.
-Está sim errado Chris, e você sabe disso! Droga, será que você não enxerga? Será que nunca fui claro o suficiente? Eu nunca, desde o principio que descobri quem era você, estive interessada em dinheiro ou fama. Nunca. Eu só queria, quero, um pai! E eu tenho mais que 100% de certeza que você é meu pai! Minha mãe me garantiu! Você sabe que pela minha idade e ela época que vocês estiveram juntos eu posso muito bem, e sou, filha de ambos! Tudo que eu quero é só poder ter a figura ausente que nunca tive!
Chris olhou-me, ainda sem mostra nenhuma emoção. Ele, de súbito, deu uma risada irônica. Aquilo ferveu meu sangue e me machucou-me mais do que posso descrever... Não soube definir. Eu olhei sem reação para Sam, que não estava muito diferente de mim.
-Anne, eu sei que você poderia sim ser minha filha... Mas também sei que você não é, pois o exame deu negativo. E só porque eu namorei sua mãe mais ou menos no período que você foi gerada, quer dizer especificamente é minha filha – respondeu irônico, se divertindo, Chris.
Aquilo foi a gota d’água para mim. Eu queria do fundo de meu coração que ele me aceitasse, mas também não iria só abaixar minha cabeça decepcionada por não conseguir convence-lo. Eu iria tentar de novo, só que de uma maneira mais, digamos, explosiva. Levantei do sofá e olhei para ele, espumando, e disse:
-ESCUTA AQUI “PAI”, SE VOCÊ NÃO ACREDITA EM MIM, ÓTIMO! EU ESTOU TENTANDO LHE DIZER, SAM ESTÁ TENTANDO LHE DIZER, QUE ESSSAS DROGAS DE EXAMES FALHAM SIM. E COM MAIS INTENSIDADE DO QUE VOCÊ IMAGINA. MAS SE VOCÊ É BURRO O BASTANTE PARA SE CEGAR DIANTE DISSO, EU LAVO MINHAS MÃOS! CANSEI DE TENTAR LHE CONVENCER QUE SOU SIM SUA FILHA E QUE SÓ QUERO O SEU AFETO E AMOR, COMO VINHA RECEBENDO, E NÃO A DROGA DO SEU DINHEIRO E FAMA, COMO VOCÊ ACHA.
Eu, despois de realmente gritar a meu pai, virei ás costas a ele e Sam e fui até o quarto, me trancando lá dentro. Olhei para a janela e abaixei-me, apoiando minhas mãos nos joelhos, como alguém que se cansou de tanto correr. Suspirei fundo. Voltei ficar ereta e me encostei-me à parede. Deslizei minhas costas por toda ela, até encontrar o chão, sentando-me. Não acreditava que acabar de brigar com meu pai. Mas também, qual outra alternativa tinha? Não iria simplesmente ouvi-lo dizer mais barbaridades e me ferir mais. É como dizem, nunca cutuquem um dragão adormecido. Principalmente se esse dragão estiver ferido. Sentada ao chão, com minhas pernas flexionadas e meus joelhos na altura de minha visão, encostei também minha cabeça á parede e olhei para cima fechando os olhos. Não queria e não tinha necessidade de chorar. Mas em compensação, o vazio de meu coração era latejante. Inspirava e expirava profundamente.
-Bela droga de vida Anne – disse a mim mesmo baixinho.
Ouvi uma batida na porta. Olhei para esta e logo a pessoa que bateu se anunciou.
-Sou eu, Sam.
Eu suspirei e levantei-me, indo destrancar a porta. Fiz isso e voltei a minha mesma posição, enquanto ele entrava no quarto.
-Ele já foi – disse Sam.
Eu balancei minha cabeça afirmativamente, mas continuei de olhos fechados com a cabeça na parede apontada para cima. Sam aproximou-se e se sentou ao meu lado.
-Será que eu não devia desistir? — Perguntei do nada, sem mudar de posição.
-Você quer desistir? — Respondeu-me questionando-me Sam.
Não o respondi, só refleti sobre a pergunta dele. Querer não queria, mas adiantaria continuar? Aí estava o diagrama que complexava minha cabeça e meu coração. Seguir em frente ou tentar convencer alguém certo de algo que não era verdade?
Fale com o autor