O Amante de Sandro
1 Capítulo 1
O amante de Sandro
Sandro sempre foi um doce de rapaz, apesar do seu jeito escrachado de ser, sempre falando e rindo alto, ele na verdade era muito tímido e bem diferente do que queria realmente aparentar.
Não me lembro se foi em uma tarde de sábado ou domingo, mas estávamos, mais uma vez, sentados no portão de Rogério quando ele chegou com seu lindo sorriso e uma bolsa de papel na mão...
— Oi meninas! – Referindo-se a mim e ao Rogério.
— Oi! O que tem na sacola? – Perguntei curiosa.
— Trouxe bobs para dar uma mudada no seu cabelo... o povo já deve ter percebido que esses cachos são falsos.
— Mas isso é claro! Só ficam cacheados nos finais de semana! – Disse Rogério morto de inveja.
— Larga de ser invejosa bicha! O cabelo dela é lindo.
Sandro me arrastou para a garagem e logo que sentamos no chão, ele começou a tirar da tal sacolas bobs enormes, grampos e fixador.
— Pensei em fazer uma toca... mas Jorge me disse que isso era só para alisar os cabelos. – Falou meu doce amigo revirando a sacola.
— Uma vez minha prima Valeria fez em mim e cada fio dos meus cabelos ficaram fora do lugar... todos doeram de uma vez só, foi horrível.
— Porque você tem esse monte de cabelos... porque ele é liso, mas é pesado e são muitos... muitos mesmo!
Sandro adorava escovar meus longos cabelos que naquela época chegavam até a cintura. Eu amava aquele carinho e ele viajava, posso estar enganada, mas aquilo ritual de todo final de semana era sua terapia, sua válvula de escape, seja lá o que for isso.
Sandro escovava meus cabelos com tanto cuidado como se tivesse dois anos e nesta hora em que ficava mais calado, esse era o momento para saber mais sobre ele. Sandro sempre foi de falar de seus relacionamentos abertamente, na maioria das vezes era sempre mentira, mas ele estava diferente por uns meses, os shorts extremamente sujos e curtos deram lugar as bermudas mais comportadas e suas micros blusas agora são camisa de homem mesmo.
— Sandro... – Pensei em perguntar sobre a mudança.
— O que? Não se mexa tanto!
— Por que você mudou?
— Para aonde?
— Sandro, você está diferente, está... mudado... está apaixonado?
Ele franziu a testa ainda escovando meus cabelos...
— Você não é assim fofoqueira... são aquelas bibas que querem saber da minha vida.
— Tudo bem se não quiser não fale... mas tem que entender que é difícil de acreditar que não tem nada se passando com você.... só me diga se esta apaixonado ou não... não contarei aos outros.
— Eu sei que não... você tem mais segredos do que o governo do Estado... é que...
Senti que estava certa e que ele realmente estava apaixonado e isso me deixou mais preocupada ainda... não teria como dar certo, conhecendo Sandro, logo essa paixão seria esquecida e voltaria a farrear com os outros.
— Não precisa me contar se sentir mal. – Louca para que falasse logo.
Sandro ainda passou uns segundos escovando meus cabelos até resolver falar...
— Sim eu tenho um amante! Porque garotos como nós não namoramos... não podemos andar de mãos dadas como vocês, então vivemos à sombra...
Isso realmente estava estranho, não eram palavras dele, alguém havia repetido varias vezes isso para ele ouvir até que entendesse, mas seus olhos não pareciam acreditar no que estava dizendo.
— Estou feliz porque agora não preciso tentar tanto... porque acredito que desta vez encontrei.
— O que?
— Ora a felicidade...
Sandro por mais que tentasse nem a si mesmo acreditaria que tudo que estava vivendo era real ou feliz.
— Ele é mais velho?
— Sim... ele é... casado, tem dois filhos.
Olhei atordoada para ele, não podia entender essas coisas, apesar de conviver com gays durante muito tempo, cada vez os entendia menos.
— Não me olhe assim... ele é muito bom e carinhoso.
— Por que não arrumou alguém de sua idade ou até mais velho, mas livre.
— Claro! Aí poderíamos nos casar e ser feliz para sempre... minha amiga isso só existe na cabeça do Rogério, nunca vamos poder fazer essas coisas, nem os artistas com muito dinheiro conseguem isso... eles estão sempre escondendo sua homossexualidade... não revelam para não serem taxados e fazer vergonha na família.
O pai de Sandro deixou a mãe com os três filhos depois de saber que tinha um filho gay, o homem não agüentou a vergonha, bem... isso era que a mãe falava para todos, acredito que para amenizar a dor dela e aumentar a do filho, mas na verdade o safado abandonou a família para viver com uma muito mais nova.
— Por que você sempre fala assim quando está triste? Você é muito jovem... olha eu acho que como era estava muito errado, porque era uma bicha muito depravada, saia com qualquer um... mas desta forma não está certo... está fazendo mal a uma família e além do mais quando a mulher descobrir vai ser mais uma vergonha na rua.
Muitos dos casos de Sandro terminavam em domínio publico depois que alguma mãe ou mulher sabia e tudo se tornava uma bagunça só e é claro para o meu sofrimento minha mãe sempre ficava sabendo e mais uma vez era proibida de sair de casa... se houvesse encarnação eu com certeza pensaria muito nas minhas amizades da adolescência para não passar toda ela em cárcere privado.
— Ela já descobriu Mona! Foi o pior de todos...
Não fiquei pasma porque mulher descobrindo os casos deles eram coisas que aconteciam sempre, mas a tristeza dele é que me deixou intrigada, já que esse tipo de fofoca ele sempre gostava de falar dando gargalhadas, repetindo as frases das pobres e enganadas mulheres traídas.
— Sandro, se ela já descobriu então como ainda estão juntos... e porque isso não virou motivo de nossas conversas como sempre.
— Ele é meu chefe... lá naquele serviço que tinha na Penha. Ele me tratava bem, sempre almoçávamos juntos, não sozinhos com outros funcionários também...
Pensei em pedir para ele parar de contar, já que parecia ser doloroso para meu amigo, aquela confissão, mas também parecia um alivio poder finalmente contar sobre o que estava entristecendo.
— Ele me levava aos bares depois do trabalho, não parecia querer algo sexual comigo... mas eu sonhava, era tão bonito.
Virei para frente dele, para prestar a atenção que ele merecia naquele momento. Meu amigo me contou que o tal homem, que não me lembro o nome, o levava para sair, jogar bola, o levou até para almoçar na casa dele com a família... isso o encantava... achou que seria uma amizade verdadeira entre um gay e um hétero, ou um namoro de verdade como saídas para passear e curtir a noite.
Sandro já se imaginava indo para cinemas com ele, jantares e todas as coisas que sempre sonhou, mas nunca poderia realizar.
— Só que em uma noite, ele pediu para fazer umas horas extras, porque o serviço estava atrasado e era verdade mesmo... quando todos foram embora eu vi que só ficamos nós dois... pensei agora vai rolar, porque desde que o conheci não saia com mais ninguém estava na seca geral.
— Está me dizendo que era fiel a ele, sem ter nada com ele? – Perguntei pasma, acreditem, pasma!!
— Sim eu sei que isso é novidade para você, confesso que para mim também... fidelidade nunca existiu no nosso vocabulário, porque somos homens de uma forma ou de outra e traição é uma coisa natural... mas eu não sentia atração por outros homens.
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