O Amante
14 As histórias de um Uchiha
— Oh, Deus, eles não estão aqui! — Sakura repetiu, sentindo-se repentinamente tonta.
Sasuke segurou-a pela cintura, ajudando-a a manter o equilíbrio. Sentia-se preocupado, claro, por saber que sua irmã não se encontrava em Gloucester, mas ali, diante da porta dos fundos da hospedaria, para onde conseguira trazer Sakura na intenção de voltarem ao quarto, sentia uma sensação inquietante de alegria por imaginar que, diante do fato de Oliver e Emily não se encontrarem em Gloucester, teria de continuar sua viagem ao lado de Sakura. O dever ainda falava mais alto em seu peito, mas era bom poder sentir que ainda teria mais algum tempo ao lado de seu grande amor. Porque sabia que, assim que encontrassem o casal fugitivo, Sakura sairia de sua vida de uma vez por todas, como entrara: de repente, sem avisos.
Não sabia como conciliar o dever para com a família e a intensa paixão que ardia em seu peito, e o pior de tudo era que, mesmo ficando com Sakura, tinha consciência de que seu envolvimento não passaria de uma ligação passageira. A única coisa de que tinha certeza era que precisava esforçar-se para ficar junto dela, se quisesse ser bem-sucedido tanto em encontrar Emily e Oliver quanto em ganhar o amor de Sakura.
Olhou para o cocheiro e, por sua expressão, percebeu que o homem estava prestes a dar mais alguma má notícia.
— No último lugar em que perguntamos sobre eles senhora...
— Pela segunda vez! — interferiu Ned, para que ficasse ainda bem claro que haviam estado em todos os lugares por duas vezes.
O cocheiro prosseguiu como se não tivesse havido nenhuma interrupção:
— Era a hospedaria mais afamada da região, e um dos criados de lá nos garantiu que um casal tinha chegado por volta da hora do jantar, mas que havia alugado outra carruagem porque a sua estava em péssimo estado.
— E esse homem disse para que direção seguiram? — Sakura perguntou ansiosa. Sasuke podia sentir quanto ela tremia.
— Não, senhora. Mas o ferreiro que trabalha para a hospedaria disse que eles partiram assim que a carruagem nova ficou pronta. Contou também que o jovem cavalheiro deu uma boa examinada no veículo antes de prosseguirem viagem.
— Oh, meu Deus, para onde podem ter seguido? — Sakura suspirou. —O que farei agora?!
Ela sabia que precisava de Sasuke. E, percebendo isso também, ele sentiu suas energias se renovarem, apesar do acidente que sofrerá.
— Não podemos fazer nada por algumas horas — disse seguro de si. —Então, vamos usar esse tempo da melhor forma que pudermos. — Virou-se para os criados e ordenou: — Vão dormir um pouco, e obrigado pelo que fizeram esta noite. Foi um bom serviço.
Os homens hesitaram talvez à espera de ordens diretas sua patroa. Mas ela nada disse e os dois se preparavam para afastar-se quando Sasuke acrescentou:
— E obrigado por terem salvado minha vida hoje. Foi uma demonstração de muita coragem.
Ned apenas sorriu, e o Sr. Hixon respondeu, fazendo uma breve mesura:
— Foi um prazer, senhor. Boa noite. Boa noite, senhora.
Os dois criados se foram, seguindo para o pequeno quarto que lhes fora reservado na hospedaria. Uma porta abriu-se, ao fim do corredor, depois se fechou logo, e Sasuke a instigou para a escada:
— Vamos, ou acabaremos acordando todos os hóspedes. Vamos dormir um pouco e pensar no que faremos amanhã.
Sakura apenas assentiu, deixando-se conduzir. Também não resistiu quando entraram no quarto. Sasuke reavivou o fogo da lareira e tornou a pendurar suas roupas para que secassem. Sakura retirou uma camisola de sua mala e foi para trás de um biombo, onde trocou de roupa. Quando voltou, Sasuke já estava deitado, coberto até o peito. Ele bateu no espaço vazio a seu lado, convidando-a:
— Venha. Prometo não tocá-la.
Sakura assim o fez, mas agia com certa reserva, como se temesse cada passo que dava em direção ao leito. Estava calada demais para seu normal, Sasuke avaliou preocupado. Preferia vê-la agitada, como era de seu feitio, muito embora ele sempre tivesse problemas para adaptar-se ao seu temperamento forte. E, agora, aquele silêncio o deixava ainda mais tenso.
Viu-a entrar sob as cobertas muito devagar e ajudou-a a cobrir-se. E não se afastou quando os pés gelados de Sakura buscaram o calor de suas pernas.
— Acho que posso abraçá-la pelo menos para aquecê-la, não? —perguntou, à espera de um sim.
— Sim, mas terá de se comportar.
Sasuke sorriu e a abraçou pelas costas. Então pensou que deveria oferecer-se para seguir atrás de Oliver e Emily sozinho, deixando-a livre para voltar para casa e não mais se preocupar com tudo aquilo. Talvez, como ela já experimentara alguns desconfortos daquela viagem, Sakura estivesse aberta a aceitar tal sugestão. Ainda mais agora que teriam de vasculhar todos os locais pelos quais o casal poderia ter passado.
E, talvez pela primeira vez em sua vida, Sasuke percebia que não se dispunha a seguir o que a responsabilidade lhe mandava fazer. Estava alarmado, sim, com a situação, mas apreciava cada minuto em que podia partilhar aquela cama com Sakura, mesmo que fosse apenas para dormir, como agora.
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Sakura tentava dizer a si mesma que não deveria sentir-se tão bem por dormir com Sasuke novamente, muito menos por esperar acordar em seus braços, como antes. Mas de nada adiantava sua força de vontade. Não estava costumada a negar-se nada. Ao contrário, o dinheiro podia não comprar a felicidade, ponderava, porém podia comprar independência e prazer. E ate recentemente, estivera satisfeita com as duas coisas.
— Imagino que tenhamos de decidir o que fazer agora — Sasuke murmurou junto a seu ouvido, e ela arrepiou-se.
— Confesso que estou perdida — respondeu. — Se não conhecesse aqueles dois tão bem, imaginaria que Oliver e Emily estão agindo assim de propósito, para nos obrigar a persegui-los dessa forma.
Talvez devesse apenas lavar as mãos quanto a seu sobrinho, Sakura ponderou; dar-lhe um pouco de dinheiro e depois esquecer-se dele quando desaparecesse para criar seu filho em paz. Afinal, Oliver não era seu parente de sangue...
Ouviu Sasuke rir de leve e comentar:
— Tenho certeza de que isso tudo é obra de minha irmã. Não me lembro de nenhuma vez em que Emily tenha feito o que se esperava dela. Neste momento, seu pobre sobrinho deve estar desejando que alguém apareça e o salve de ter de se casar com aquela pequena raposa. Ele sempre me pareceu ser do tipo que é o sonho de qualquer babá: calmo, metódico, desde pequeno.
— Você deve estar certo. Mesmo quando vi Oliver pela primeira vez, ele me pareceu solene demais para uma criança.
De alguma forma, aquele menino tranquilo e calado, um tanto negligenciado pela família, conseguira conquistar seu coração. E Sakura sentia que não deveria deixar de zelar por ele agora; gostava do temperamento quieto de Oliver, não importando o trabalho que estava lhe dando agora.
— Lembro-me de quando Kakashi levou Oliver para Trentwell no primeiro dia de férias escolares, depois que nos casamos — disse, lembrando-se muito bem daquele dia. — Eu sentia que o pobre menino estava feliz por se encontrar lá, embora nem ele mesmo me parecesse acostumado a ser feliz. Era como se gostasse do que sentia, mas... Não tivesse confiança em suas sensações.
— Então, o jovem Armitage é sobrinho de seu marido?
— Sim. Filho de minha cunhada Kurenai. Os pais o tinham mandado para a minha casa naquelas férias. Viviam no Japão. Pouco depois, o pai foi morto numa guerra colonial e a mãe faleceu na viagem de volta à Inglaterra. O navio em que vinha naufragou. Pobrezinha.
— Eu não sabia... Pobre menino! Meu cunhado, Naruto Uzumaki, passou por algo semelhante quando nos conhecemos na escola. Possuía pouco dinheiro, não tinha família... E eu o convidei para passar o verão conosco em minha casa porque o coitado não tinha outro lugar para onde ir.
A menção de um ato de bondade para com um colega de escola provou mais uma vez a Sakura quanto Sasuke era gentil. Ele, provavelmente, teria se interessado bem mais por Oliver do que Kakashi se interessara.
— Minha sogra nunca prestou muita atenção a Oliver — contou Sakura. Essa fora uma das razões pelas quais ela se aproximara do menino tão estudioso. — Dizia algumas bobagens sobre sua filha ter se casado com um homem do qual ela não gostava. Imagino que fosse porque o pai de Oliver não possuía a fortuna que ela desejava para a filha e para si mesma.
Sakura pensou por instantes, avaliando a figura da sogra. Então, meneou a cabeça e completou:
— Puxa, não havia nada de agradável naquela mulher. O pai de Oliver não tinha dinheiro suficiente para agradá-la e eu, com tanto dinheiro, não a agradava porque meu dinheiro não vinha da aristocracia, e sim do comércio. Parece que até o dinheiro precisa ser de certo tipo para agradar certas pessoas...
— Essa mulher se daria muito bem com meu pai — Sasuke comentou tentando manter um tom de brincadeira, embora houvesse amargura em sua voz. — Pobre Naruto. Apaixonou-se por minha irmã Hinata naquele verão e quando meu pai percebeu o que estava acontecendo, persuadiu Hinata a não aceitar a corte de Naruto, embora fosse óbvio que ela já o amava perdidamente.
Hinata devia ser como o irmão, Sakura imaginou; devotada de mais ao dever familiar para deixar de obedecer ao pai.
Sasuke continuou agora mais sério:
— Naquela época, eu achava que meu pai estivesse apenas preocupado com o futuro, com a felicidade de minha irmã. Mas depois percebi que ele queria, de fato, casá-la com um homem muito rico para poder, assim, recuperar toda a fortuna que vinha perdendo havia anos. Tinha dívidas incalculáveis e queria pagá-las da forma mais vil e mesquinha que conheço: com dinheiro alheio.
— E no que deu tudo isso? — Sakura quis saber. Interessada, voltou-se para Sasuke. — Você disse que esse rapaz é seu cunhado...
Ele a aceitou entre seus braços e respondeu:
— Bem, pode-se dizer que o destino deu uma segunda chance a Hinata e Naruto. E eles foram espertos o suficiente para agarrarem essa chance com unhas e dentes. É claro que houve certa ajuda minha e de Emily... — Sasuke abafou um bocejo. — Foi uma das grandes alegrias da minha vida ver minha irmã feliz novamente.
Não devia ter sido fácil para Hinata Uchiha e seu marido reencontrarem-se, Sakura analisou, saboreando o terno abraço que a prendia e imaginando por que a felicidade de dois estranhos significava tanto para ela. Um rapaz rejeitado por seu primeiro grande amor e uma jovem que devia ter duvidado da possibilidade de ser perdoada pelo homem amado. Mas eles tinham conseguido se entender e ter um final feliz para o seu romance; ou, talvez, um começo feliz...
Podia ser que o destino estivesse oferecendo também a ela e a Sasuke uma nova oportunidade... Ali, junto dele, sentindo o calor de seu corpo, como duvidar de tal possibilidade? Se pudesse dar-se ao luxo de ter mais tempo para poder ponderar a respeito, se pudesse se distanciar da doce, mas forte atração que Sasuke representava, talvez conseguisse entender seus próprios sentimentos e as opções que tinha diante de si. Talvez uma semana ou duas bem tranquilas em Trentwell, quando aquela loucura de encontrar Oliver e Emily tivesse terminado...
Sentou-se de repente, com uma ideia brilhando em sua mente. E foi inevitável exclamar:
– Trentwell! Mas é claro!
Assustado, Sasuke sentou-se também, indagando:
– Mas o que houve minha querida?
– Nada, nada... Apenas imaginei um lugar onde poderíamos interceptar Oliver e sua irmã: Trentwell! Tenho certeza de que meu sobrinho não passaria tão perto de lá sem parar por algum tempo.
— Acha mesmo? Que bom! — Mas ele não parecia estar tão animado quanto deveria com a nova perspectiva. Sakura imaginava que talvez fosse o sono que o acometia que o deixava assim tão pouco ansioso. — E onde fica Trentwell? Quanto tempo levaríamos para chegar lá?
— Fica em Staffordshire. — Sakura podia rever as viagens entre Bath e Trentwell, feitas tantas vezes em seu passado. — Se sairmos daqui amanhã bem cedo, e se nada nos atrasar pelo caminho, poderemos chegar antes do anoitecer. — A ideia de poder estar em sua casa agradava-lhe sobremaneira.
— Bem, nós não conseguimos encontrá-los em Newport e nem em Gloucester — Sasuke observou, voltando a deitar-se. — Vamos torcer para que, da terceira vez, tenhamos mais sorte.
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— Sabem muito bem o que se diz: a terceira vez sempre costuma dar sorte! — Sasuke tentava imprimir certo ar de alegria ao falar aos criados de Sakura. Olhava para o cocheiro e para Ned sorrindo, mas ainda sonolento. Afinal, o dia acabara de clarear.
— É verdade, senhor — concordou o Sr. Hixon, lançando um olhar rápido para Ned. — Então, vamos seguir sem parar até Trentwell?
Sasuke assentiu e acrescentou, procurando ignorar as expressões um tanto preocupadas que havia no rosto dos criados:
— Vamos ter que parar para trocar os cavalos, é claro, bem como para comermos alguma coisa.
— Então, é melhor nos colocarmos a caminho. — O cocheiro colocou o chapéu de três bicos e virou-se para a carruagem. — À distância até lá não é tão pequena!
— É, imagino que não. E sei também que vocês dois passaram boa parte da noite atrás de minha irmã e do Sr. Armitage. Sinto muito pelas horas de sono que perderam.
Sakura saiu da hospedaria. Parecia cansada, pois não dormira muito bem o resto da noite. Pretendia fazê-lo um pouco durante a viagem.
— Talvez eu possa guiar a carruagem durante algum tempo esta tarde, para que vocês dois durmam um pouco. O que acham? — Sasuke ofereceu aos criados.
— Muito obrigado pela oferta, senhor — agradeceu o cocheiro —, mas eu não poderia aceitar. Fique tranquilo, estou bem.
— Deixe disso, homem — Sasuke insistiu, ignorando o olhar que Sakura lhe lançava. — Nós todos vimos muito bem o que acontece a alguém que guia um cavalo quando não está em seu completo domínio de suas habilidades. Tenho certeza de que Lady Haruno não gostaria nada de ver sua bela carruagem caindo dentro de algum rio por aí.
— É claro que não — Sakura resmungou, à espera do desfecho daquela conversa.
— Pois então! Estão vendo? — Sasuke sorria. — Sua patroa está praticamente ordenando que acatem a minha sugestão! E vocês dois nos estariam fazendo uni favor ao trocarem de lugar conosco e deixar que possamos aspirar um pouco de ar puro, de cima da boleia.
O Sr. Hixon ergueu as sobrancelhas, mas, diante da maneira como as coisas estavam sendo colocadas, concordou:
— Se prefere assim, senhor... — E subiu para a boleia enquanto Ned abria a porta da carruagem para Sasuke e Sakura entrassem.
Já estavam a meio caminho de Tewkesbury quando ela decidiu tocar no assunto:
— Mas o que foi que deu em você quando partimos?! Por que ofereceu trocar de lugar com os meus criados para que eles possam dormir no meio da viagem?! Jamais ouvi algo tão... Ridículo!
— Não vejo nada de ridículo no que propus Sakura. Esses dois homens salvaram a minha vida. Não é porque são criados que não merecem certa consideração.
Sasuke percebia que se inflamava ao falar e imaginava por que isso seria tão importante para si mesmo. Devia ser algo além do fato de ter sido salvo por aqueles homens. Talvez fosse porque via as pessoas pelo que elas eram, valorizava-as como seres humanos, e não pelo que possuíam ou pela profissão que exerciam.
Olhou para Sakura com seriedade e prosseguiu, mantendo o tom de voz baixo:
— Quando não se pode mais manter tantos empregados quanto se estava acostumado a ter, aprende-se logo a apreciar tudo o que eles fazem por você. Acho que não nos fará mal algum seguirmos na parte de cima da carruagem por alguns quilômetros num dia de primavera tão agradável quanto hoje.
Sakura entendia o que ele estava dizendo, percebia até mesmo o significado mais profundo que havia por trás de suas palavras.
— É... Não vai ser tão ruim assim — concordou, vendo o rosto de Sasuke abrir-se num sorriso.
— Será divertido, você vai ver — ele prometeu.
Ela ergueu as sobrancelhas, não muito certa de que seria tão bom assim, e impôs:
— Está certo, então, mas com uma condição!
— E qual seria?
— Quero saber mais sobre sua casa, a respeito da sua infância lá com suas irmãs e sobre os verões nos quais Naruto Uzumaki esteve com vocês, nas férias escolares.
— Oh, mas essa condição é fácil de aceitar! — Ele se recostou no assento e esticou as longas pernas. — Vou ter muito prazer em falar-lhe a respeito, embora deva avisá-la de que não sou tão bom contador de histórias quanto Emily.
— Ah, mas a minha condição não termina aí! — Sakura também se acomodou melhor para ouvi-lo. — Quero saber todos os detalhes sobre o reencontro de Hinata com seu marido, em especial sobre a ajuda que você e Emily deram para que eles chegassem ao altar.
— Está certo. Vou lhe contar tudo, então.
O pedido de Sakura fazia-o pensar e, antes mesmo de pensar, já estava dizendo:
— Talvez eu seja como aquela odalisca em As Mil e Uma Noites. Você vai me manter por perto enquanto eu estiver contando belas histórias...
A expressão de Sakura mudou, e Sasuke desejou não ter feito àquela brincadeira, muito embora tivesse descrito boa parte de seus sentimentos. Os lindos olhos verdes dela mostravam uma mistura de apreensão e intensidade que ele não entendia muito bem.
E, antes que Sasuke pudesse dizer alguma coisa para desculpar-se, Sakura o confundiu ainda mais com um belo sorriso e um murmúrio:
— Quem sabe? Talvez eu queira mantê-lo assim, perto de mim...
Sem saber ao certo se ela falava a sério ou não, Sasuke apenas sorriu de leve.
— Acho melhor eu começar, então, certo? — indagou. — Bem, vejamos... O que posso lhe dizer sobre minha casa? É uma propriedade muito antiga, mas não enorme, eu acho. E os Uchiha têm morado lá desde tempos imemoriais. Há um belo bosque ao redor, com árvores altas, centenárias, e um riacho.
Se continuasse nesse ritmo de descrição, Sakura logo estaria dormindo, em vez de incitá-la a mantê-lo em sua companhia. E vasculhou sua mente em busca de alguma curiosidade que pudesse atiçar o interesse dela.
— O riacho é muito límpido e de águas frias. Desemboca no rio Ouse. Quando Naruto vinha para passar as férias de verão, costumávamos pescar e nadar nele. Certa vez, Emily convenceu Hinata a nos espionar. Queria saber se usávamos nossas ceroulas enquanto nadávamos.
— E vocês usavam? — Sakura, de fato, se interessava.
— É claro que não! E minha irmã acabou pagando por sua curiosidade quando se esticou demais para nos observar e acabou caindo no riacho. — Sasuke começou a rir ao se lembrar do fato. — Se conhecesse Hinata, Sakura! Ainda mais do jeito que ela era naquela época! — Ele meneou a cabeça e explicou: — Toda bonita e elegante! Isso para não mencionar seu senso de dignidade. Queria que a tivesse visto, batendo os braços, desesperada, dentro da água, angustiada, pensando que iria se afogar.
— Oh, pobrezinha! — ela comentou, vendo-o rir sem parar. — Hinata não se machucou?
— Talvez um pouco, mas apenas em sua vaidade em especial porque seus cabelos ficaram desmanchados, colados à cabeça, e seu lindo vestido cheio de laços ficou encharcado! Nem sei como eu e Naruto não nos afogamos de tanto rir! Mas as nossas risadas acabaram por nos afundar ainda mais na água. Hinata não poderia ter se afogado porque bastava ficar em pé para poder sair tranquilamente do riacho. Mas ela ficou sem falar conosco por mais de uma semana. Mal nos via, erguia o nariz no ar e dava-nos as costas.
— Ah, pois eu ficaria um mês sem olhar para vocês! — Sakura exclamou, embora parecesse mais divertida do que indignada com a história. — O que mais vocês faziam para se divertir nas férias, além de nadar nus no riacho e rir do infortúnio de sua pobre irmã?
— Bem, vejamos... — Sasuke pensava. Seus olhos ainda estavam marejados de tanto que rira. — Jogávamos bola, golfe, tênis. Eu e Emily sempre jogávamos contra Naruto e Hinata. Às vezes fazíamos uma cesta de comida e bebida e seguíamos para um piquenique no bosque. Costumávamos colher amoras. Também jogávamos cartas, xadrez, em especial quando os dias estavam chuvosos. Outras vezes nos enrodilhávamos nos sofás para ler bons livros. Costumávamos ler em voz alta as partes de que mais gostávamos, para que todos pudessem partilhar a boa literatura ou cenas divertidas de romances que tínhamos em casa. — Sasuke interrompeu-se e a olhou. — Parece tedioso para você?
Sakura negou rapidamente com a cabeça.
— De forma alguma! Eu teria dado qualquer coisa para fazer parte dessas atividades quando era adolescente. Diga-me: vocês nunca iam a festas?
— Ah, muito raramente. Apenas quando as garotas conseguiam nos convencer a acompanhá-las ao clube local. Lembro-me de uma ocasião em que sir Edward deu uma grande festa em Heartsease.
— Heartsease?
— É. Uma propriedade imensa não muito longe da minha. Depois que sir Edward morreu, o lugar foi assumido por um parente seu muito distante, que logo colocou tudo à venda. Sasuke pareceu entristecer-se. Pensava na raiva que sentira ao ver aquele belo lugar sendo tão pouco considerado na época. Mesmo quando Naruto Uzumaki voltara e comprara Heartsease, ficara em sua mente aquela vaga impressão de que era ainda muito triste saber que aquela linda propriedade acabara saindo da família de sir Edward porque não havia herdeiros para assumi-la. E, como em outras vezes em que pensara no assunto, ocorreu-lhe que o mesmo poderia acontecer a sua propriedade se ele não tivesse filhos...
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