O Altarneiro Sombrio.

2 Capítulo 2 - quíron apodrece


Notas iniciais
"Talvez você entenda melhor agora." - Morfeu

– Ameixas ? — Perguntei à Annabeth.

Ela suspirou.

– São medicinais, Percy. Eu pedi a Michael que me desse algumas para..

– Oh, certo — concordou — Para curar minha maluquice.

Talvez eu estivesse maluco mesmo. Eu acabara de ter um sonho com outro tolo, uma espada magicamente mortal para um deus primordial e um santuário de meu pai no Tártaro.

Fiquei imaginando incondicionalmente oque teria acontecido com Nyx no momento em que o tal humano caminhou até ela, isso se fosse humano.

– Eu também tenho pesadelos... muitas vezes são bem piores que os seus Percy. — Annabeth tentou confortá-lo. — Preciso ir agora.

Minha cabeça estava longe. Eu poderia morrer em dias, não consegui dar atenção a meu único motivo que me mantém de pé.

Nem me dei noção do tempo que estava pensando naquilo. Só cheguei a levar em conta quando Annabeth não estava mais ali, e Quíron estava se aproximando. Neste momento culpei meu pai por me fazer nascer com Défict de Atenção.

Quíron estava em sua forma de meio homem, meio cavalo. Estava com os cabelos encaracolados perfeitamente escovados, ziguezagueando entre uma orelha e outra. Os leves tons brancos com um fio ou outro brilhavam à luz do dia, que aparentemente não apresentava nuvens.

– E então ? — Perguntei à ele antes mesmo de dizer bom dia. — A quantos minutos estou enfurnado aqui ?

Percebi que estava escondendo alguma coisa, pela demora da resposta.

– Sete dias. — Ele afanou o nariz. — Você perdeu a Captura da Bandeira...

Percy ficou perplexo. Imóvel. Incapaz de agir.

Como alguém podia ficar sete dias inconsciente por causa de um sonho ? Oque será que era tão poderoso em tal coisa além da maldita espada ? Quem era o homem que caminhava por todo o Tártaro ?

Não podia ser Nico brincando com a minha cabeça, pensou Percy. Ele não faria isso.

Afastei as idéias da minha cabeça e logo percebi Quíron tentando tirar informações, dirigindo seus olhos Tom-de-Pedra diretamente à mim.

– A criatura fez isso com todo mundo — Quíron sussurrou pra si mesmo, em tom que eu estava conseguindo ouvir. — Pode ser que ela tenha voltado.

Apesar de eu ter ouvido as palavras "voltado" e "todo mundo", continuei :

– Você não é filho de jano para olhar através do meu rosto. — Murmurei enquanto me sentava na cama devagar, e ele pareceu ter escutado.

– Percy, oque você viu em seu pesadelo. — Ele estava tenso, suspirou novamente: — Vários viram.

Eu parecia não ter escutado direito.

– Mas, como...

– Foi uma mensagem dos deuses, Percy. Eles queriam que todo mundo soubesse oque nos aguarda. Quando Caos, a criatura primordial suprema, criou o "vazio", assim dizendo, já que ele é tal coisa — Quíron continuou — Ele teve uma filha, uma deusa primordial como Gaia. Digamos que ela tenha dado errado, como se fosse um projeto que nunca saiu do papel, ela era poderosa demais para que sua vida se encaixasse neste nosso mundo tão pequeno, e só sobrou sua essência que hoje vaga pelos confins mais escuros de todo o Tártaro. Mas isso não é tudo, ela ainda conseguiu deixar um herdeiro hospedado no nosso planeta, assim tornando ele o guerreiro mais poderoso que já existiu até então, sendo neto de Caos. O mais incrível disso tudo, realmente não é o fato de ela ser poderosa. É que nem Zeus sabia que Caos poderia ser capaz de criar uma criatura a partir da essência da outra, apenas para não ver a filha acabar em ruínas.

Tentei encaixar tudo em minha cabeça.

– Então, o garoto do santuário...

– Sim, de fato. — Quíron parecia estar se controlando para dizer na minha cara que mais uma vez o mundo poderia acabar em questão de milésimos. — A essência da deusa andava inquieta, ela não estava em paz. A ruína à qual ela pertencia mexia com suas ações, então ela pediu ao filho único que a reforjasse..

– No formato de uma espada. — Argumentei. — Como a que vi no sonho...

– Como uma espada — Quíron corrigiu — Ele então transformou a essência de sua mãe em runas e as gravou na lâmina. A partir do momento que assim fez, o vício na espada era tão grande, ela emanava tanto poder que os inimigos — tanto deuses como mortais — se ajoelhavam perante o dono, era tão astuta que se movia por sozinha, tão forte que começava a destruir tanto o mundo, quando à si própria.

Não estava conseguindo calcular tanta coisa.

– Ela rasgou tártaro, sim. — Tentava ser o mais demonstrativo possível. — Mas como nós podemos ter certeza que ela é mais poderosa que isso ?

Quíron abriu a mão, e a colocou na minha cabeça.

– Assim.

Neste momento, o calor de Quíron se intensificou, o cheiro de pelo de cavalo escovado se tornou o odor de grama secada pelo sol, o marrom de seu corpo sumiu, tom de tronco de árvore que não era regada a éons, como se estivesse apodrecendo, doente. Isso me lembrou as barreiras do acampamento, e então um vislumbre do presente alternativo me veio à cabeça.

Nyx estava deitada no chão, agonizando. Agora eu podia ver o rosto do garoto, com cabelos negros jogados para o lado, as roupas eram as mesma e ele não demonstrava cansaço, seus olhos eram tão azuis quanto o mar, que pareciam que guardavam água suficiente para um mês inteiro.

As bigas ao seu lado estavam quebradas. Os cavalos, todos mortos.

Ele estendeu a espada em direção a cabeça de Nyx, e puxou dela um resquício negro, uma linha que se juntou a arma.

Mais uma vítima, pensei.

– Você irá pagar. — Nyx argumentou — Você tirou parte da minha essência garoto, a espada ganhará um sentimento maligno.

– Comente isso na sua morte, Nyx — O tom de voz era melodioso, mas grave.

– EU NÃO MORRO! — disse ela, desaparecendo.

O garoto olhou para o céu, vidrado.

– Mas ficará fraca o suficiente, para que agora posso terminar o meu serviço.

Ele enterrou com força a espada no chão, ele se rompeu, milhares e milhares de crateras eram formadas, ossos negros de necromantes saiam delas a toda a velocidade, formando então uma fênix óssea, toda remodelada, cada detalhe... uma cor metálica que me doía a espinha.

Eu não estava conseguindo aguentar a dor, a espada era poderosa demais. Então ele retirou a arma do chão, e eu desmaiei. A minha última imagem foi uma fênix consertada voando com um garoto primordial.