O Alpha

1 Capítulo Único


Era a primeira manhã de inverno, que trazia consigo espessas nuvens cinzentas e um frio incômodo. Pequenos flocos de neve caiam do céu nublado, formando uma pequena camada de neve fofa que cobria o chão, mas Doran não parecia se importar com isto. Pelo contrário, havia naquele bosque um sentimento que tirava-o da realidade monótoma e acendia nele uma vontade inquestionável de viver. Era como se sua licantropia atribuísse a ele um espírito selvagem. E de fato, o fazia.

Doran deveria ter seus quinze anos, o corpo ainda desenvolvendo os músculos que futuramente viria a ter, os cabelos pretos estavam bem curtos e pareciam penteados para trás, e seus brilhantes olhos de cores diferentes passeavam pelas árvores ao redor, como se procurassem por algo bem escondido. Portava consigo um machado de lenhador, e vestia-se com um casaco preto, jeans e coturno.

Enquanto caminhava o rapaz ouviu uma estranha risadinha e franziu o cenho, parando para escutar melhor o som. Sua audição era incrivelmente superior a um lobisomem comum, devido a sua outra metade. Concentrou-se, percebendo que o som vinha de cima. Ergueu o rosto para ver, e então uma grande pelota de neve caiu em seu rosto, fazendo-o tremer-se por inteiro. O risinho cresceu, tornando-se uma gargalhada, e Doran soube exatamente de onde vinha.

“Ente maldito! Acha que pode caçoar de mim assim?” Perguntou, olhando para a árvore de onde a neve caiu, rosnando. Dois caninos afiados projetavam-se quase que para fora. Levantou o machado, como quem iria derrubar uma árvore. “Pois saiba que lhe darei umas boas!”

Ao chamar a árvore de Ente, o tronco que ameaçara começou a se ajustar, fazendo rangidos de galhos se quebrando, até que ali surgiu uma face. Ele mostrou os caninos proeminentes para o Ente, que respondeu:

“Como uma entidade sábia das florestas, devo-lhe avisar, garoto; Serei seu pior inimigo se continuar me ameaçando.”

“Mas você jogou neve em mim.” Rebateu, passando a mão nos cabelos molhados e gelados, bagunçando-os.

“Tem certeza de que fui eu?”

O comentário fizera Doran pensar duas vezes e assumir uma posição defensiva. Eram poucos os corajosos que tinham as florestas e suas entidades como inimigos, afinal, toda a vida provém da natureza. Levou os fios colados na testa para trás, passando os dedos entre suas mechas negras e úmidas. Voltou a ouviu uma risadinha, vinda do alto da copa do Ente. Levantou novamente o rosto.

“Desculpe, não consegui me conter.” Respondeu uma voz feminina. Doran olhou para cima e viu uma garota segurando-se entre os galhos. Ela deveria ter sua idade, mas tinha um ar muito mais inocente. Antes que Doran pudesse continuar a olhá-la, a garota jogou-se da árvore como um pássaro ao aprender a voar, sem aviso prévio ou medo.

Doran arregalou os olhos em espanto, jogou o machado no chão e abriu os braços, em expectativa de segurá-la. Tinha puxado um instinto protetor de seu pai, o que o tornou parcialmente altruísta. O impacto da garota em seus braços foi o mesmo que segurar uma pena, e graças a isto ela não caira no chão. Ainda carregando-a, ela o olhou e sorriu. Foi um sorriso que coloriu o dia monocromático de Doran.

“Obrigada.” Agradeceu. O rapaz colocou-a no chão sem dizer absolutamente nada.

Doran a analisou bem. Ela tinha grandes olhos verdes como a relva de verão, cabelos longos e vermelhos, como se carregasse o outono em cada fio que emoldurava sua face inocente e bela. Tinha um corpo ligeiro e chamativo. Ela não parecia uma boneca de porcelana porque algo nela transpirava aventura, e seu sorriso era carregado de emoção. Ela estava mais para um córrego; Pequeno, belo e incontrolável. Vestia-se com um vestido branco como a neve e estava descalça, mas não reclamava de frio.

“Você está me encarando, gostou de algo que viu?” Comentou a garota, fazendo Doran corar.

“Bem... O que você estava fazendo no alto do Ente?” Questionou, mudando de assunto, pegando o machado do chão.

“Esperando você passar!” Respondeu, escorando-se no Ente. “O Pinheiro é muito gentil, me contou que você vem aqui diariamente caminhar, então resolvi te conhecer.”

“Na verdade eu sou obrigado a vir buscar a lenha, por isto acabo caminhando diariamente por aqui.” Explicou, meio sem jeito.

Ela não pareceu nem um pouco surpresa. Aproximou-se de Doran, indo dar um peteleco na testa do mesmo. O mestiço deu um passo para trás, e a garota continuou a se aproximar. Outro passo, e quase tropeçou em um galho, dando chance para que a ruiva desse o peteleco que tanto desejava. Ele não entendeu a brincadeira. “Chamo-me Hérmia. E você é...?”

“Effrem E. Doran.” Respondeu, levando a mão onde ela havia desferido o peteleco. “Que tipo de monstro você é?”

“Chega de perguntas, lobinho de sangue.” Falou, em tom brincalhão, fazendo referência ao seu lado vampiro e lobisomem, enquanto colocava a mão na cintura. Doran não pareceu gostar da brincadeira. “Ou prefere que eu o chame por Alpha?”

“Meu pai gostaria de ser chamado assim. Mas não sou meu pai...”

“Vocês lobisomens tem costumes estranhos.”

“Você queria me conhecer apenas para me irritar?” Indagou Doran, erguendo uma sobrancelha e colocando o machado em seu ombro.

“Não me leve a mal, eu realmente quero ser sua amiga.” Sorriu. “Venha, temos muita floresta para ver.”

Hérmia e Doran partiram para dentro da floresta, mesmo que houvesse hesitação por parte do mestiço. Ele não costumava ter muitos amigos, mas algo na garota do vestido branco chamava-lhe atenção. Nem ao menos notaram a passagem do tempo, e quando deram por si, a lua já estava reinando soberana no céu que, a esta altura, não estava mais nublado. O dia dos dois havia sido cheio de conversas desnecessárias, coisas banais que tinham em comum, como o fato de amarem a natureza. Para Doran, por mais simples que tivesse sido aquilo, foi o melhor dia que ele havia passado desde que fora visitar a casa de campo do avô, sua nova amiga era encantadora.

“Devo retornar.” Ele afirmou, terminando de comer a fruta que haviam conseguido na árvore mais alta do bosque. Os cabelos estavam desgrenhados, e nem se incomodou em penteá-los, como costumava fazer.

“Mas já?” Perguntou Hérmia, fazendo uma expressão de teimosia. “Só se passaram algumas horas, e ainda nem fomos tomar banho no lago!”

Doran corou ao imaginar-se tomando banho com ela. “Erm... Meus pais logo irão vir me procurar... E eu prefiro não preocupá-los por algo como isso.” Respondeu, desviando o olhar, e Hérmia ficou cabisbaixa. “Os seus pais não estão preocupados com você?”

Ao fazer a pergunta, a ruiva levantou o olhar para Doran e deu-lhe um sorriso desgostoso, que feriu profundamente seu coração domado. Ele não percebera, mas estava submisso como um cão adestrado.

“Meus pais são a floresta, Alpha.”

Ele sequer entendeu o que ela quis dizer, talvez fosse uma metáfora? Ergueu uma sobrancelha, mostrando óbvia dúvida, e esperou por alguma explicação que ela não deu. O silêncio surgiu, então pegou o casaco que amarrava na cintura, e entregou a ela.

“Pelo menos fique com isso. Eu não vou precisar e... Você pode se lembrar de mim.” Desviou o olhar, novamente corado. Hérmia também não precisava de casacos, mas nada falou. Apenas pegou e o vestiu.

“Ficou grande!” Comentou, em meio a um riso. Doran ainda com o rosto virado para o lado a encarou de soslaio. O casaco era realmente maior do que ela, os braços não chegavam até o fim e quase tapava o vestido que ela usava. “Mas eu adorei.”

“N-nesse caso eu vou indo... D-de nada.” E forçou um sorriso, que mostrou seus caninos. O mestiço deu-lhe as costas e começou a voltar para casa.

“Ei.” Ela o chamou. “Olhe para mim.”

Doran olhou em sua direção.

“Até amanhã.” E sorriu.

O coração de Doran palpitou até o momento em que ele chegou na casa de seu avô, e não conseguia pensar em outra coisa senão nela. Hérmia era linda, extrovertida, encantadora, cativante e tudo que Doran nunca sonhou em uma garota.

Adentrou a casa encontrando seu avô sentado em uma cadeira de balanço, sua mãe sentada no sofá e seu pai deitado em seu colo, todos próximos da lareira na sala.

“Doran, você demorou.” Advertiu sua mãe. “Caçou algum animal, foi?”

Sua mãe tinha um belo rosto de traços finos que exibiam juventude, apesar de estar na casa dos trinta anos, olhos incrivelmente escarlates.


“Não mãe, estive apenas me divertindo.”
Afirmou Doran. “Não fui muito além da floresta.”

“Deixe o garoto, ele é jovem!” Falou seu pai, um homem robusto e de traços marcantes, com cabelos curtos e a longa barba negra, quase a própria personificação do lenhador de Chapeuzinho Vermelho. E olhos de cor índigo. “E tem que libertar o lobo que há nele!”

O pai de Doran recebeu um tapa no ombro. Sua mãe se pronunciou.

“Ele é um vampiro, não um lobisomem.”

“Eu me rendo, querida, me rendo.” Riu o pai. “Ele é o vampiro mais peludo da alcateia.”

Outro tapa. O pai de Doran ria em alegria. Era um casal feliz, apesar das ideias divergentes. Seu avô permanecia quieto. Doran contornou a sala e dirigiu-se ao cômodo onde sempre dormia. Mas naquela noite ele não conseguiu dormir, pois algo lhe incomodou nos mais profundos sonhos, como se um mal presságio estivesse circulando-o.

XxXxX

No dia seguinte, assim que acordou, apressou-se para ir fazer sua caminhada matinal, com o intuito de encontrar Hérmia o mais rápido possível. Caminhou até onde estava o Ente do dia anterior, mas antes que pudesse perguntar qualquer coisa para ele, ou chamá-lo, mãos taparam seus olhos.

“Advinha quem é.”

“Pelo cheiro só pode ser Hérmia.” Ele sorriu e as mãos pararam de tapar seus olhos. Virou-se para vê-la, e ela ainda usava seu casaco.

“Pode sentir meu cheiro? Então diga que monstro sou eu.”

“Você tem cheiro de folhas, natureza... Não sei que tipo de monstro possui cheiro assim.” Ficou pensativo, com uma mão repousando no queixo. O olhar ficou distraído. “Bruxas? Não, não... Ah! Talvez elfos? Mas elfos não cheiram a folhas... Orcs? Você não parece um orc.”

Hérmia se divertia com as tentativas falhas de Doran. Mordeu um lábio e caminhou até ele, encarando-o de modo que não o havia encarado no dia anterior, provocando-o. O rapaz saiu do transe e engoliu em seco. Ela segurou seu rosto com ambas as mãos e começou a se aproximar, Doran deleitou-se em seu olhar.

“Eu sou uma ninfa.”

Achou que ela fosse beijá-lo, mas ao responder-lhe, se afastou. Doran estava boquiaberto.

“Tem algo preocupante acontecendo, Doran.” Ela comentou, cruzando os braços. A expressão do mestiço voltou ao normal. “E espero que me escute com atenção.”

“O que houve?”

“Senti uma estranha presença ontem, aqui na floresta. Presenças ameaçadoras...” Olhou-o no fundo dos olhos “Tome cuidado, tudo bem?”

“Não se preocupe, não há nada que possa me ferir.” Sorriu orgulhoso. Hérmia deu-lhe um soco no ombro.

“Existem coisas que ferem até o inexistente, Doran.”

“Desculpe.” Pediu, desviando o olhar. O clima de tensão estava pairando, e isto incomodava o lobo de sangue. “Bom... O que temos para hoje?”

“Ah.” Exclamou Hérmia, amenizando sua expressão de preocupação. “Siga-me, hoje teremos um longo dia!”

E a seguiu, tendo mais um longo dia de diversão. Assim as semanas se seguiam, os dias passaram-se como horas, e as horas, como minutos. Doran diariamente ia encontrar-se com Hérmia, e com ela desenvolveu um afeto tão grande que se viu pela primeira vez na vida apaixonado perdidamente por alguém. O tempo que passavam juntos era tão bom que até esqueceu-se do aviso de Hérmia. E a noite rompeu.

XxXxX

Foi acordado por seu avô no dia seguinte, que segurava um rifle e olhava-o em tom sério. Levantou-se da cama, devagar. O velho lobisomem estava vestido como quem ia para a caça.

“O que foi vovô?” Perguntou Doran, arqueando as sobrancelhas. O rapaz nunca havia visto seu avô tão sério.

“Hunters na floresta, precisamos sair daqui. Não demorará muito até encontrarem este lugar.” Explicou, puxando o mesmo pelo braço. Doran temeu por Hérmia, lembrando-se de seu aviso semanas antes.

“Espere! Tem uma pessoa na floresta... Alguém que preciso salvar.”

“O que?!” Espantou-se seu avô. “Garoto, não temos tempo para isto. Seu pai e sua mãe já foram embora, sabia?”

O mestiço desprendeu-se do avô, que ainda o olhava com dúvida. Hunters nunca eram bom sinal, sempre trazendo morte por onde quer que passem. Assumiu um semblante determinado.

“Não se preocupe, pode ir. Me encontrarei com vocês em menos de duas horas no mesmo local de sempre, eu prometo.”

“Não morra Doran.” Ordenou seu avô, abrindo a porta de seu cômodo e se retirando. “Você é o próximo Alpha de nossa alcatéia, e toda nossa futura linhagem depende de você.”

O mestiço assentiu com a cabeça, saindo da casa de seu avô às pressas e seguindo pela floresta em passos de lobo, velozes como o vento. Chegou ao lugar que costumava encontrar-se com Hérmia, mas não a viu esperando-o. Estremeceu. Temia que a tivessem pegado, matado-a, ou até mesmo...

“Doran?” Perguntou uma voz atrás de si. O mestiço virou-se a abraçou apertado. “Calma. Você está bem?”

“Hérmia, precisamos sair daqui. Os...”

“Hunters. Sim, eu sei.” Ela respondeu, abraçando-o. “Você deve ir, Doran, mas eu não posso. Sou incapaz de abandonar a floresta.”

Doran ficou estático. Por um momento quis contradizê-la, mas sabia que era verdade. Imaginou então um mundo sem sua amada, e acabou por abraçá-la mais forte, afundando seu rosto nos cabelos dela. Ela era perfumada, de cheiro melhor que as mais belas flores na primavera.

“Eu não quero abandoná-la.” Disse, com pesar.

“Eu também não, mas prefiro vê-lo partir a vê-lo morto.”

Então o silêncio dominou. A qualquer momento um Hunter poderia aparecer e matá-los, então teriam de ser rápidos. Doran, enquanto a abraçava, passou levemente a boca em seu pescoço, e Hérmia arrepiou. “... Eu... Posso...?” Perguntou sussurrante. Ela assentiu com a cabeça.

Doran abriu a boca e fincou seus dentes no pescoço de Hérmia. Ela não sentira dor alguma, pelo contrário, aquilo era quase anestesiante. E por sua vez, Doran sentira o melhor sangue que já tomou na vida. Melhor do que o sangue de animais e de humanos. Era um sabor suave e doce, quase viciante. Deleitou-se na sensação, e só parou porque Hérmia o impediu.

“Desculpe, eu... Exagerei?” Ele perguntou.

“Está tudo bem, Alpha.” Sorriu, iluminando novamente o dia de Doran. Esqueceu-se por um segundo que estavam sendo caçados e que teria de deixá-la.

“Eu te amo.” Disse-lhe, encarando-a nos olhos.

Ele não pensou em nada, sequer esperou por uma resposta. Apenas segurou sua nuca e selou seus lábios aos dela, envolvendo-a em um beijo com um misto suave de amor e desejo. Ele a beijou como se fosse um “até logo”, enquanto ela devolvia em um “adeus” eterno. Isso o perturbava. Ao fim do beijo, ele a olhou com desesperança.

“Prometa-me que...” Ela começou, entre um soluço. “Me prometa que nunca irá me esquecer... E que um dia voltará para me procurar...”

Assim ele finalmente sentiu. A ardência dos olhos, seguindo de um marejar e, por fim, as lágrimas. Ele a abraçou em silêncio e ali ficaram. Cada momento juntos jamais seria esquecido por Doran, mas o sofrimento que ele passaria por saber que sua amada ficaria para trás e ele não faria nada para impedir isso seria ainda mais memorável. A abraçou com ainda mais força.

“Eu juro!”

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