Notas iniciais
Inexistente.

Eu existo desde os primórdios de tudo, desde que sei que existo, desde que sei que tudo existe, desde que você existe, desde que tudo que aqui existe, simplesmente passou a existir; presenciei tudo que você presenciou e tudo que todos os seus antepassados presenciaram, eu sou suprema, todos nós somos, o tempo que levamos pra desaparecer pode ser uma eternidade ou um piscar de olhos, isso depende apenas do acaso e dos olhos de quem vê.

Minhas experiências foram diversas e meus conhecimentos são muitos, sei muito sobre a natureza e seus caprichos, sobre o fluxo do tempo e sobre sua complexidade, sobre a vida e sua ausência, sei mais do muitos outros sobre isso, mas meu conhecimento sobre tal coisa, eu nunca compartilharia com ninguém. Porém, o ser mais confuso e entretanto ainda assim belo que já vi foi o ser humanos, ornitorrincos podem ser brincadeiras ridículas da natureza, mas humanos possuem uma complexidade que nem mesmo eles entendem; leopardos e beija-flores sabem desde que nascem sua função, caçar, polinizar, se alimentar de moscas, reproduzir, morrer, fertilizar a terra pra que o ciclo continue, entretanto, humanos não possuem esse conhecimento, possuem diversos conhecimentos desnecessários pra realmente se viver bem, mas quem sou eu pra falar? Nunca saí do lugar onde nasci.

Diversos humanos já passaram por mim. Vi até mesmo guerras deslindarem nas minhas vizinhanças, -Ah, como humanos adoram guerras e tais coisas estúpidas relacionadas a território, com tanto espaço, por que simplesmente não vivem num lugar só, sem estabelecer limites desnecessários ou regras que servem apenas pra serem quebradas, para assim quebrar suas rotinas, das quais eles acham que têm que escapar para viver bem, acham que têm que mudar algo no lugar onde vivem, no mundo, que têm um papel maior ou alguém que pretende dar um papel maior para eles após morrerem; bem, não posso dizer nada, nunca morri... entretanto, é essa exata falta de conhecimento sobre o propósito de si mesmo que me fascina nos humanos.

Certo dia, quando eu estava no lugar onde sempre fico, observando a vista que sempre vejo, um grupo de humanos passou por mim, rindo e dialogando em seu idioma sobre coisas superficiais da vida no dia-a-dia, diziam que estavam em algo chamado “férias”, e que o labor havia tornado a vida deles cansativa, por isso vieram descansar no lugar que tanto amo; diziam que gostavam de observar tal beleza que algo que chamam de “Deus” lhes deu pra que observassem, que queriam parar de se preocupar com os “filmes” que iriam ver com a família, com os suprimentos que necessitavam adquirir para viver durante um período de tempo de em média trinta dias, que o que lhes motivava a viver eram as poucas alegrias que o cotidiano proporcionava e observar tal beleza que “Deus” lhes deu e que agora restava em tão poucos lugares do mundo.

Abandono brevemente a minha linguagem brusca e formal para dizer que senti de fato o que chamam de inveja, vontade de os ser, vontade de eu não ser, de vagar sem rumo, apenas vendo e conhecendo o que as outras não me deixam saber. E devo afirmar que por um tempo pude supor que senti aquilo que chamaram de “alegria”, por estar em contato com algo tão diferente da natureza em si, tão antinatural e simultaneamente intrigante, estou fadada a viver uma não vida no meio de vidas, uma existência tão saciada e insaciada ao mesmo tempo, que até me sinto um humano.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.