O Acordar Do Faraó
2 Capítulo 2 - A Realidade
Notas iniciais

O bafejo quente acariciava a pele do rosto adormecido de Rouge, a sua consciência lentamente regressava, um gemido baixo escapou dos lábios entreabertos, forçando as pálpebras abrirem-se mas permaneciam pesadas, piscou diversas vezes levantando-se, esfregou o rosto.
Deu-se conta que três pares de pés estavam ali perto dele. Levantou os olhos e viu três mulheres muito bonitas, morenas de cabelos negros, pele cor de canela e olhos escuros. Duas delas vestindo uns saris simples de linho branco, os longos cabelos presos numa trança.
Uma delas parecia ser um pouco mais velha que as outras, o seu sari branco estava debruado com fios dourados, os pulsos e braços ornamentados com pulseiras coloridas. Essa mantinha o cabelo longo ondulado e solto. Logo seria de escalão superior às outras duas garotas que mantinham o olhar baixo. A mulher sorriu-lhe abertamente, a brancura dos dentes reluzia bastante em contraste com pele morena.
Voltando à realidade, olhou confuso e perplexo ao redor. A cama grande e macia revestida de lençóis finos de seda de cor amarelada escuro tocando a cor de ouro-velho. Vários pufes e almofadões de cores e feitios achavam-se espalhados no chão, uma mesa redonda de tampo de vidro com ferro dourado nas armações era o centro do mar de almofadas.
vários armários de madeira e vidro altos e baixos estavam encostados às paredes de mármore claro, cortinas brancas cobriam as arcadas das janelas balançando com a rara brisa matinal. Tapetes fofos e ricamente trabalhados em tecidos multicolores jaziam no chão.
– Então não foi um sonho?! – Rouge engoliu em seco, relembrando-se dos insólitos acontecimentos, sentiu a sua cabeça girando de novo, um copo de vidro transparente com borda dourada era-lhe estendido pela mulher.
– O meu nome é Sahib, e por favor beba, vai aliviar a sua cabeça. – A mulher sorriu-lhe amavelmente, as suas esferas negras brilhavam da imensa curiosidade. Aquela pessoa com uns cabelos cor de sangue e os olhos que pareciam ser o próprio céu, proporcionava-lhe muita fascinação. Vendo a indecisão em aceitar explicou-lhe: – É uma infusão de lírio branco e chá verde, ameniza o corpo e acalma a alma.
O ruivo pôde sentir a fragrância da infusão, rodou o corpo e sentou-se na beira da cama com os pés no chão frio e aceitou o copo. Bebericou, primeiro sentindo o gosto incomum da bebida, nunca havia experimentado algo desse gênero. Entre os goles resolveu perguntar onde estava. Tossiu e cuspindo o que tinha na boca quando a mulher lhe disse. – Palácio real do rei Khan El Khali em Tebas.
– O quê?! – Pensando estar louco o ruivo ventilava seriamente, os seus pulmões pareciam que iam sair-lhe do peito. As mulheres o olhavam confusas e receosas que o ruivo voltasse a desmaiar. ''Voltei 3.000 anos no tempo e logo no tempo do mais poderoso Faraó que viria a mudar o Egito?’’ Emborcou o resto do conteúdo do copo garganta a baixo, tentando manter a calma.
– Preparamos um banho para refresca-lo. – Sahib arriscou-se a falar e tirar o ruivo do estado catatônico.
Rouge na maior simplicidade aceitou o banho. No anexo contíguo dividido por uma parede, uma arcada redonda dava o acesso para um espaço com paredes revestidas por mosaicos azuis. No chão uma piscina retangular ladrilhada com uma variada paleta de mosaicos azuis preenchia o espaço.
Pétalas de flores e nenúfares cobriam a superfície da água morna perfumando-a. Grandes suportes planos de prata carregavam dezenas de velas coloridas e incensos acesos, dispersados em redor da piscina.
O ruivo achou que tanta mistura de odores lhe fosse enjoar, mas em vez disso o perfume que enchia o lugar era suave e transmitia-lhe uma sensação de relaxamento, parecia um luxuoso spa. Dois pares de mãos tocaram no seu corpo a fim de tirar a sua roupa, Rouge assustou-se com o toque desprevenido das garotas querendo arrancar a sua roupa, recuou.
– E-Eu faço isso! Podem ir. – Tinha regressado para um tempo e lugar onde ninguém era púdico ou envergonhado em relação a expor os corpos a desconhecidos. Os nobres ricos do antigo Egito, tinham escravos para fazerem as mais corriqueiras tarefas como despir-lhes a roupa.
Pele branca e corado, Rouge imaginou o quanto estaria parecido com um pimentão vivo. Ficar despido na frente de três mulheres não era o desejo dele, além que elas era lindas. Todo o contato físico mais íntimo que tivera na vida foi com uma amiga de longa data. A única relação sexual que tivera sempre achara que fora concedida por pena.
Dono de uma beleza extraordinária e androgênia, Rouge padecia de relações sociais e interatividade humana. Tímido e reservado não tinha tato algum para conhecer pessoas ou sequer se mostrava muito aberto a conhece-las.
Sahib ordenou às garotas que o largassem, mais fascinada com o comportamento estranho que jamais havia presenciado. – Pode despir-se sozinho, nós viramos as costas. – A morena jamais ousando contrariar o garoto dos cabelos vermelhos que aos seus olhos parecia um deus. Faltar ao respeito a ele seria como faltar ao respeito ao rei, quem ousasse fazer isso estaria a assinar a sua própria sentença de morte. Mesmo com um rei tão benevolente como Khan haviam linhas que não deviam ser ultrapassadas.
Ouvindo o barulho da água, a criada apercebeu-se que o garoto já havia ter entrado na piscina. Virou-se e os seus olhos negros contemplaram a mais bela imagem que alguma vez vira. O jovem havia soltado o seu cabelo, antes preso no rabo-de-cavalo, caindo livremente pelos ombros estreitos. O peito dele era magro e não tinha muitos músculos formados ali então era plano e estreito.
A pele era de uma brancura pura e qualquer coisa que maculasse e deixasse marca devia ser decapitado no momento, na opinião de Sahib. Rouge destacava-se contra a piscina azul com as flores rodeando o corpo delgado como se o adorassem, realçando mais a beleza peculiar dele.
Acordando do transe, a escrava recompôs-se e deu ordem para as garotas irem lavar o cabelo do ruivo. Segurou as roupas estranhas caídas no chão e decidiu lava-las em vez de joga-las fora, afinal eram diferentes, de outra civilização.
Mais envergonhado que uma virgem na noite do casamento, o ruivo puxava as pétalas e flores com as suas mãos para cobrirem o seu corpo. Não ia deixar abertura para as garotas verem alguma coisa, mesmo ele estando de costas para elas. Deixou as mãos hábeis massagearem o couro cabeludo, se ali aquilo era lavar os cabelos ele quereria isso para sempre.
Uma delas destapou um pequeno frasco de vidro derramando um pouco do óleo rosado nas palmas da outra e recomeçou a massagear e alisar os cabelos. Sahib saiu do comodo para levar as roupas as lavadeiras e ir buscar o desjejum. No caminho parou um dos garotos serviçais entregando-lhe uma mensagem oral, achou que devia informar o rei que o garoto havia acordado.
Trinta minutos depois, Rouge já estava tão relaxado a ponto de ficar sonolento. Quando achou que já chegava pegou numa das toalhas de algodão branco dobradas em cima de um pequeno banco de madeira. — Por favor poderiam... huh se virar?
As criadas se levantaram alinhadas uma ao lado da outra sempre com os rostos baixos e olhos no chão. Rapidamente enrolou a toalha na cintura e limpou-se com outra o corpo e cabelos. Sem indicação do que devia fazer a seguir, não encontrando a sua roupa, dirigiu-se para o quarto onde Sahib o esperava com uma espécie de robe branco no braço e um pote redondo de cor branca com flores desenhadas na tampa na mão dela.
O ruivo andou até ao seu encontro, entregou o pote a uma das criadas e podendo ver ela destapar e enfiava os dedos trazendo uma pasta rosa colada na ponta dos dedos. A outra imitou o gesto instantes depois todo o corpo de Rouge era coberto com a pasta. Com o calor da fricção dos dedos na pele e com a temperatura do corpo dele a pasta rosa derretia tornando-se mais cremosa, sendo absorvida pela pele.
Quatro mãos deslizaram suavemente por todo o corpo do ruivo, deixando-o extremamente desconfortável, quando elas avançaram perigosamente pelas coxas acima ele fechou as pernas e apertou a minúscula toalha na cintura com força.
– Já está bom o suficiente, o-obrigado. – Disse com um jeito atrapalhado, ter pessoas estranhas tocando no seu corpo era impensável e desconfortável.
As criadas pararam e Sahib sorriu afável, na sua frente a mulher achava que tinha uma criança fazendo birra. Deu nova ordem para pegarem na túnica de linho, sendo enfiada pela cabeça do ruivo quase o estrangulando. A túnica tinha uma gola larga deixando assumir os ombros delicados do ruivo, continha bordados com pedrinhas vermelhas e linhas de ouro entrançadas em forma de espiral na borda do decote. As mangas eram curtas e ficavam apertadas nos braços.
As calças eram do mesmo tecido mas um pouco mais denso a terminando apertadas nos tornozelos. A escrava fê-lo sentar para lhe calçar as sandálias prateadas de uma só tira, enfeitadas com um rubi vivo na frente. Em certo momento uma das garotas soltou uma exclamação de espanto, Rouge baixou os olhos vendo ela apontando para o seu tornozelo, as outras aproximaram-se para ver e ficaram com a mesma expressão.
‘’Ah sim eu tenho uma tatuagem do Olho d'Hórus a cores no meu tornozelo’’. Gostava dela, fora a primeira e única tatuagem que fez, significava ‘proteção e poder’, era brega mas muito dela. Destacava-se bem na sua tez pálida. Mas isso naquele sítio iria ser um problema, ter o símbolo de Hórus gravado no corpo só ia atiçar a convicção dos outros sobre ser um ‘ser’ especial.
Não adiantaria explicar, suspirou. Como iria explicar uma coisa daquelas e muito menos nunca imaginaria que regressar ao Egito de 3.000 anos atrás. Ou sequer fosse possível viajar no tempo. A verdade é que aquele tratamento de beleza todo estava se tornando cansativo de mais, enfiaram uma pulseiras douradas e vermelhas nos pulsos, que tinha a sensação de pesarem quinhentos quilos.
– Ahmar, o seu desjejum espera-o. – Sahib indicou com a mão. Na mesa dourada com tampo de vidro, estava repletas de iguarias que Rouge fez salivar. Bolinhos de amêndoa com uvas-passas; fatias de carne fria perfeitamente cortadas finamente (não sabia que animal seria) perfeitamente colocada na travessa; frutas uvas; tâmaras; laranjas; bananas e peras compunham uma taça de bordo largo de ouro.
Pão com sementes; amêndoas cobertas com mel e canela, estavam dispostos também. E de bebidas estava servido um copo com chá de menta e uma jarra de vidro com suco de frutos vermelhos. O ruivo sentou-se num pufe de couro marrom largo, afundando-se nele.
– Shukran! – Agradeceu às mulheres e atacou com vontade todas aquelas iguarias. A comida de uma só refeição era muito mais do que estava habituado a comer num dia inteiro. Sahib seguiu a recomendação de Saludja, o médico real, para preparar alimentos com teor elevado em açúcar para a aumentar a resistência de Rouge a fim de evitar que desmaiasse de novo.
Mas era claro que o enfeitamento não estava concluído, o seu cabelo agora estava sendo escovado por um pente de ouro incrustado de esmeraldas e lápis-lazúli, diversas vezes desde da raiz até as pontas. Iria ficar sem, era o pensamento dele.
Já ia na segunda rodada de comida e continuava a ser escovado. Mais sedosos, macios e lustrosos nunca antes haviam ficado. Pensou que os seus cabelos nunca antes tinham tido uma atenção tão reforçada como naquele momento. Pediu para parar, ordem acatada no mesmo instante.
Acabando a sua refeição sem que ninguém lhe tocasse mais. As três permaneceram silenciosas e quietas, como era hábito os escravos ficarem invisíveis na presença dos seus donos.
Uma leve batida na madeira da porta fez Sahib ir apressada à porta, era o garoto mensageiro a quem encarregara de avisar que o ruivo estava acordado ao rei. O garoto com uma cor bem torrada do sol comunicou-lhe que Ahmar deveria ser levado ao jardim Safira, o rei estaria lá esperando.
☥☼☥
Khan passara a noite anterior atualizando-se dos acontecimentos enquanto esteve fora com Saludja, Arkon e Ramsés. Quem assumira a liderança do palácio e do país fora o seu irmão mais novo, servia de rei nos casos de emergência. Um jovem com dezassete anos, o seu aspeto físico era uma cópia mais suave e menos marcada de Khan, o irmão mais velho.
Ramsés aprendeu tudo sobre liderança de governar um país observando o seu irmão, sempre indicara-lhe o caminho correto e justo do qual um rei deveria-se reger. O Faraó adiaria o contra-ataque a Jafir, por todo o tempo que fosse possível. O antigo conselheiro e druida, que fizera parte do círculo de pessoas mais íntimas de Khan sucumbira, a ambição e cobiça haviam-lhe corroído o coração e envenenado-lhe a razão. Uma das mais possíveis razões que o levara a esse caminho, seria um coração partido devido a ao amor não correspondido que nutria pelo rei.
Tudo isso resultara na traição de Jafir contra Khan, aliou-se às tribos sem terra e sem rei, malfeitores, e a qualquer um que quisesse que Tebas e Khan caísse. Escórias que tentavam derrubar o país e o rei, vingança era tudo o que o seu ex-amigo e companheiro buscava nesses três longos anos.
Todos estavam proibidos de comentar para fora do palácio o regresso do rei, assim esperava que Jafir não sabendo do seu regresso demorasse a fazer um novo ataque. O seu último tinha sido uma distorção e aprisionamento no tempo e espaço, todavia Jafir não sabia das profecias reservadas a ele o ele.
Khan achava isso tudo um superstição, adivinhar o futuro, coisas que ainda não foram feitas era difícil ele acreditar. Só acreditaria nessas coisas vendo com os próprios olhos e sentindo na própria pele. O seu pai havia trancado todas as pedras com os escritos profetas numa sala onde ninguém tinha permissão para entrar nem para limpeza, a única pessoa que saberia disso era o velho ancião que as escrevera. Sabendo que as coisas que previra estavam acontecendo, o velho ancião foi ao palácio informar-lhe da existência da sala secreta e dos escritos.
Um dos garotos serviçais viera informar-lhe que Ahmar estava acordado, iria esperar pelo ruivo no Jardim Safira. Saludja e Arkon estavam por ali ou não fosse aquele espaço o antigo recreio só deles, da infância arrisca e traquina que os três compartilharam um ponto de encontro quando os três fugiam aos deveres.
sentou-se na berma da fonte de mármore branco com o interior azul-safira tornando a água transparente em azul. Num impulso tinha arrastado uma pessoa de outro tempo consigo, ele era de uma aparência tão diferente e desconhecida que era impossível não ter ficado enfeitiçado no primeiro olhar. Não pensaria tanto nas consequências de ter ficado enfeitiçado, já que a linda pessoa de cabelos vermelhos salvara-lhe a vida, e e que supostamente ele estava predestinado a fazer isso. Ele ser deliciosamente belo e desejável era a sorte sorrindo-lhe.
O principal objetivo de Khan era governar ricamente o seu país, trazendo prosperidade para o seu povo. Quando sobrava tempo desfrutava dos prazeres da carne como um homem qualquer, aos vinte e seis anos não era casado nem pretendia casar como os seus antecessores.
Estava disposto a fazer tudo como bem entendesse sem prender a sua vida ás leis ancestrais, queria mostrar ao seu povo que tinham o direito de escolher e serem donos dos caminhos das suas vidas. Contudo dois filhos nasceram ali no palácio, e nem por isso seriam rotulados de bastardos. Kanope já contava com cinco anos e Nadhirra com dois anos, foram trazidos ao mundo por duas mulheres diferentes mas ambos não tinham as suas mães consigo, mas uma coleção de cuidadoras estavam encarregues deles.
Forçadamente esvaziara o harém apenas ficando 4 ou 5 concubinas para lhe satisfazer as necessidades carnais. Havia três anos as mortes das suas concubinas e concubinos tornam-se mais frequentes, ninguém sabia a causa de tantas mortes, se fosse uma praga afetaria todas as pessoas do palácio. Mas o foco principal era no harém, corpos mutilados, alguns envenenados, tudo indicando serem crimes de ódio pela brutalidade do estado em que se encontravam.
Dando um basta arquitetou um plano para desvendar o criminoso, boatos espalharam-se, dizendo que o Faraó havia escolhido uma nova preferida, a concubina preferida era aquela que passava todas as noites na cama do rei durante uma semana ou mês.
O plano funcionara e o assassino fora descoberto, o mais duro e ácido golpe que Khan recebera na vida toda. A cor do seu rosto desaparecera vendo Jafir ali na sua frente, o seu rosto distorcido e a sua aura negra rondando o corpo dele. Rindo diabolicamente vomitando todos os motivos dele transformar-se no monstro, desde dessa noite declararam-se inimigos até às próximas encarnações.
Os seus lábios morenos deixaram um suspiro sair captando a atenção de Saludja, o seu braço direito. Olhou para o moreno disposto a arrancar respostas para as suas dúvidas. – Khan o que vai acontecer com o Ahmar? Nestes tempos conturbados não é bom ter mais uma responsabilidade nos ombros. – Inquiriu o sacerdote, levantando-se e colocando-se na frente do rei.
Saludja era tão alto quanto Khan tinham a mesma idade, sendo o homem dos cabelos castanhos-alaranjados mais sensato, penetrou o olhar no rosto do governante numa tentativa de repreender o rei egocêntrico. Khan sorriu e no tom de rei prepotente respondeu. – É apenas mais um capricho meu. – Saludja revirou os olhos.
Saludja era o braço direito do rei, do país e do povo. Khan observou o amigo, o seu rosto exibia uma testa franzida de descontentamento que sempre fazia quando as respostas não lhe agradavam. Deitado na borda da fonte ao lado deles estava Arkon, parecia alheio ao mundo em seu redor pelos seus olhos fechados. Seis anos mais novo, se Saludja era o braço direito Arkon era o esquerdo.
O seu rosto era desenhado com feições suaves, era o contrário do que se esperava dos mais ferozes guerreiros de dois metros, caras assustadoras e cheias de cicatrizes. Era um pouco mais baixo que Khan e Saludja, corpo musculado e esculpido pelos treinos e lutas, pele clara e fora do padrão dos filhos do deserto. General absoluto do seu exército, a principio as tropas desconfiaram de um comandante tão novo fosse capaz de liderar centenas de homens.
Alguns diziam que era pela relação com o rei que tinha subido de título, até certo dia em que tiveram que defender a fronteira ameaçada pelos povos bárbaros. Manejando uma espada de lâmina negra e vermelha quase do tamanho de um homem, retalhara centenas de corpos. A parte vermelha da espada fervilhava na hora de cortar a carne, acreditava-se que a espada fora criada por Seth, o deus da destruição e guerra.
Arkon e Saludja eram mestiços de terras longínquas, seus pais haviam abandonado os seus países-berço e sedeado raízes em Tebas. Pessoas de terras distantes ouviram sobre a prosperidade de cidades banhadas por um rio que nunca secava. O pai de cada um casara com uma nativa dando nascimento a eles. Permanecendo com as fortes características estrangeiras paternas na aparência.
Khan viu um reflexo pelo canto do olho de cabelos vermelhos.
☥☼☥
Rouge era escoltado pela jovem escrava até ao rei, segundo ela era uma ordem. Andou pelas grandes galerias de corredores tanto as paredes, teto, e chão eram de mármore branco, com rodapés talhado em dourado. Tudo ricamente decorado com móveis; jarrões coloridos; flores; quadros e qualquer coisa que mostrasse riqueza encontrava-se ali.
O ruivo admirava tudo atônito, virava a sua cabeça em todas as direções fascinado por ver um palácio egípcio no auge do seu esplendor e em pleno funcionamento.
Algumas portas mantinham dois soldados ladeando-a, homens altos, musculados bem bronzeados, cabelo e olhos negros, usavam calasires de linho branco chegando um pouco a meio das coxas grossas. Por baixo os chantis cobrindo a parte intima.
Braceletes de ouro adornavam os pulsos e braços dos sentinelas, encontravam-se descalços, sapatos era sinônimo de riqueza naquele tempo. Só permitido aos nobres e reis.
Vários criados circulavam pelos corredores lançavam olhares curiosos, de forma discreta para o ruivo. Cada vez mais Rouge sentia-se como um bicho raro de um circo, mas estava adorando ter o privilégio de poder ver tudo aquilo na primeira pessoa, esquecendo-se um pouco da maneira irrisória que fora lá parar.
O sol e calor estavam-no a incomodar e custava-lhe um pouco a respirar um ar tão quente, ali era deserto puro sem eletricidade ou modernidade, no século XXI não era muito difícil refrescar-se com ar condicionado ou ventiladores existentes nos edifícios. Ali a única fonte de refresco consistia nas paredes de mármore que por natureza era uma pedra fria e de cor branca que repelia os raios solares, vários banhos frios ao longo do dia também ajudavam.
Sahib dobrou uma esquina passando por uns pilares formando um arco, o caminho formado por mosaicos serpenteava separando uma grama verde-esmeralda e brilhante. Vários arbustos de flores de tamanhos médios e pequenos dispersavam decorativamente naquele jardim, mais parecendo um pequeno bosque.
Palmeiras altas e baixas, árvores com e sem frutos davam sombra para um cochilo ou atividades de lazer, podia-se ouvir o som de água caindo como melodia natural, uma fonte redonda branca coberta com safiras era o centro do jardim, a fonte possuía três níveis redondos escorrendo água desde do topo até a baixo.
Rouge teve a impressão que tinha andado os quarenta e dois quilômetros da maratona, somente andado porque se tivesse corrido naquele momento estaria morto ressecando ao sol. Por altura o ruivo já se encontrava de mau humor, Sahib tinha parado, olhou para ele sorriu-lhe e indicou-lhe a presença do rei, fazendo sinal para se aproximar dele.
Dirigiu o olhar para onde a mulher apontava e viu três homens, piscou várias vezes achando que a beleza dos homens com aquele jardim lindo como pano de fundo parecia o nirvana da perdição. Avaliou-os enquanto caminhava lentamente até ao sítio. ‘’Ah claro agora para que eu vou acelerar o passo… se nem sei o que fazer na frente do Faraó, quanto mais na presença de três brutamontes.’
Um estava de pé, tinha cabelos castanhos-alaranjados preso no rabo-de-cavalo de lado. Alto, costas não muito largas e com alguns músculos, estava virado de costas, usava um saiote de linho com uma faixa na cintura que se alongava na frente caindo formando um cinto tonalidade azul-escura com fios de prata. Vários colares de contas coloridas decoravam o pescoço e peito, não usava túnica, sandálias de estuque adornadas com folhas de prata e brinco de penas numa orelha completavam o visual.
Desviou os olhos para o outro, era branco de mais para ser egípcio, cabelo cor de chocolate caindo desfiado até ao à altura do pescoço, olhos cor de chocolate. Rosto de modelo, corpo musculado, uma tatuagem preta com um símbolo tatuado no peito que o ruivo não soube identificar. Vestia umas calças brancas folgadas, com um saiote por cima em tecido vermelho, caia na frente preso por uma faixa negra.
Rouge tinha uma vaga ideia de quem poderiam ser aqueles dois, se o rei era Khan El Kalil os outros só podiam ser os famosos Saludja e Arkon.
A cada passo, mais próximo conseguia ver a figura soberana imponente sentado na fonte de maneira despojada de pernas abertas. Deslizou seu o olhar azul-céu pelo rei começando pelo cabelo comprido, solto e liso castanho-escuro luzido a dourado.
Rosto arrogante, o seu bronzeado parecia reluzir com o sol como uma estátua de bronze e nem estava suando para atingir tal feito. Peito, tronco e braços musculados um pouco salientes, colares de ouro e de contas adornavam o pescoço dele. Usava o típico saiote de linho branco e fino, entrelaçado com fios de ouro e prata, na cintura um cinto largo de seda incrustado com pedras preciosas.
Sobre a faixa que ficava pendurada figurava o nome real em hieroglifos de ouro. Um bracelete de ouro simples estava presente no pulso esquerdo e outra um pouco maior no braço com o desenho Olho d'Hórus.
‘’As pinturas egípcias não fazem nada justiça à beleza dele…’’ – Apanhado de surpresa por tal pensamento Rouge ficou levemente irritado, aquela pessoa metera-lhe na maior enrascada de todos os tempos. Ia pedir satisfações e a resolução do problema, voltaria para o século XXI do mesmo jeito que foi para ali.
Avançou decidido de rosto impenetrável mantendo a atitude fria, contrária ao seu interior, por dentre ele queria enterrar a cabeça na areia. E teve a pior atitude que poderia ter na vida, aproximou-se de Khan meteu um pé no meio das pernas dele apoiado na borda da fonte, segurou nos colares com a mão cerrando os dedos neles e olhou ameaçadoramente.
– Manda-me de volta para a minha Era, faz o ‘’abre-te sésamo’’, abracadabra, abre o guarda-roupa de Narnia, mas manda-me para onde eu estava! Son of a bitch! – O próprio ruivo se surpreendeu com a tamanha ousadia, ele sempre fora recatado, nunca gritava ou ficava fora do controlo, algo no Faraó despertava-lhe a irritabilidade. Ah claro, ele sendo inglês o seu sotaque acentuou-se mais deixando-lhe com uma prenuncia mais engraçada.
Os olhos de ouro perfuravam os azuis, a explosão do ruivo apenas divertiu Khan, o mais velho abriu um sorriso digno de galã de cinema. Tocar assim num rei era imperdoável e nunca, jamais alguém lhe fez tal coisa.
''Ele quer voltar? Com o meu interesse crescendo mais, não vai a lado nenhum.'' – Cravou os seus olhos nos lábios avermelhados daquela tentação vermelha. Rouge sentia-se corando com a cobiça nos olhos dourados, mas agora era tarde demais para voltar atrás, afinal ele era homem e tinha que levar tudo o que fazia até ao fim. Então o contato visual duraria até o primeiro a desistir.
– Voltar? Hm, é impossível ninguém sabe como fazer isso. – Colocou a sua mão sobre a do ruivo, como era enorme cobriu facilmente a outra. Saludja não expressava nada exteriormente mas uma atitude daquelas era bem peculiar, demorando meio segundo para notar algo incomum quando o ruivo levantou a perna e meteu o pé na borda da fonte. A bainha da sua calça recuou deixando à mostra um símbolo colorido.
‘’Um símbolo não… nada menos senão o Olho de Hórus!’’ – Aquela pessoa de outra dimensão tinha o grande símbolo no seu corpo. O sacerdote, começava a questionar-se da verdadeira importância da pessoa de cabelos de fogo, todas as suas questões precisariam de resposta urgente. Continuou a observar com a sua curiosidade apenas aumentando. Arkon olhava espantado nunca havia visto alguém tocar no rei diretamente, sem ser ele, Saludja ou as suas amantes.
– Impossível?! I’ll cut off your balls. – Rouge estava ficando mais irritado, todo o calor e sol era um catalisador para descarregar a frustração e mau humor no rei. Que encontrava-se com uma cara de quem achava que aquilo fosse uma brincadeira divertida.
Ele estava a perder contra quem cederia primeiro no contato visual, quanto mais olhava para o dourado dos olhos do rei mais ouro líquido lhe parecia. Soltou a mão presa de baixo da mão de Khan, retirou o pé do espaço entre as pernas grossas dele, a sua perna já começa a formigar.
– Balls? O que isso significa? – Inquiriu Khan interessado por Ahmar estar falando em uma língua estranha. Absorto em admirar cada gesto do ruivo, apertou um pouco mais o punho dele quando este tentou libertar a mão.
Ter aquela pessoa tão perto de si assim era como admirar a própria definição de beleza em carne e osso. O aroma que ele exalava atiçava as suas entranhas como fogo, cheirava a loção de Cravo do Deserto, uma flor de aparência grutesca cheias de espinhos, recheadas de pétalas vermelhas no interior. Quando transformada em cosméticos o seu odor era o mais doce e erótico.
Encaixava perfeitamente no ruivo, duro por fora e suave por dentro, Khan teve essa impressão e só o conhecia à pouco mais de umas horas. Puxou um pouco pelo braço do mais novo fazendo-o ceder e aproximar mais os rostos, quanto mais próximo do ruivo mais queria tocar-lhe.
Incomodado com a aproximação excessiva, o ruivo abusou um pouco mais da sua ousadia e meteu a mão livre no rosto do rei para o afastar e puxou a mão presa recuando um passo.
– Ah e vai ser esse o grande Faraó Khan El Kalil do Egito que governará por quase quarenta anos! Parece um ator de filmes pornográficos ou um playboy. – Desbocou tudo o que achava de uma vez. Percebendo do seu erro tarde demais, tapou a boca com uma mão e arregalou os olhos.
Já tinha visto cenas como aquela em que alguém do futuro acaba por falar de mais e o passado altera-se prejudicando o futuro. Saludja arqueou uma sobrancelha, Arkon franziu a testa, Khan encarou o ruivo meio sério sorrindo em seguida. – Bom saber que viverei por 60 anos. – O moreno levantou-se aproximou-se do ruivo, tocou na sua cabeça deslizando a mão pelos cabelos, sentindo na palma da sua mão o fervor do sol castigando a cabeça vermelha, convidou-o para um chá de menta no interior fresco do palácio.
Rouge seguiu silenciosamente atrás de Khan agradecido por te-lo tirado do sol abrasador do meio-dia. Quando escutou um arfar animalesco bem atrás de si, virou-se dando de caras com um tigre de bengala, um enorme tigre de bengala, dirigindo uns olhos amarelos-demônio a ele enquanto se aproximava.
Assustado, embateu contra as costas do rei, este virou-se e envolveu a cintura delgada do ruivo ficando com os corpos colados, Khan sussurrou no ouvido do ruivo: – Nuri quer conhecer o teu cheiro.
O animal começou a inspirar o cheio de Rouge desde dos pés até cintura, o rapaz não estava nada confiante em ter um enorme tigre, o qual se o bicho se pusesse em pé seria do seu tamanho cheirando-o.
Na maior confiança de quem acaricia um gato, Khan acariciou a cabeça do animal alisando o pelo, o tigre começou a ronronar de mandíbulas abertas, revelando uns caninos quase do tamanha de um dedo humano. O ruivo estremeceu. – Por que tem um tigre doméstico num sítio onde existe tantas pessoas?!
– Nuri, foi um presente de um imperador de um reino distante para o meu filho quando ele nasceu, cinco anos atrás. – E não era só o tigre que estava cheirando o ruivo, o aroma de óleos doces dos cabelos vermelhos impregnou-se no nariz de Khan. Sem pensar Rouge no que dizia deixou escapar mais uma vez o seu conhecimento.
– Kanope? Então Kanope já nasceu e Nadhirra tem dois anos agora não é? – Como historiador, a curiosidade e sede de saber foram mais rápidas do que a sensatez. Estreitando os olhos o moreno gelou momentaneamente, ele e Saludja tinham muito que conversar e entender, Ahmar seria um profeta?
– Sim, Nadhirra tem dois anos agora. – Depois de absorvido o cheiro do humano o tigre perdeu o interesse, virou-se e foi embora em busca de uma fonte para se refrescar.
Khan soltou delicadamente Rouge, o interesse aumentando cada vez mais, prevendo que ele teria muito que conversar e saber o que o lindo rapaz tinha para dizer-lhe. Aquele rosto de expressão fria podia ficar em brasa e o rei pretendia saborear mais daquela ousadia.
☥☼☥
Uns corredores atrás Saludja caminhava lado a lado de Arkon, o mais novo estava mais calado que o habitual, com um movimento rápido o sacerdote prensou o moreno na parede fria, segurou o seu queixo suavemente e o fez encara-lo. – Meu amor está mais sisudo que o normal. – Selou levemente os lábios pequenos e Arkon corou. Adorava como o temível general corava e correspondia aos seus sentimentos.
Arkon embargado pelo olhar penetrante que o mais velho lhe dava ,resolveu desabafar o que lhe incomodava.
– Eu tenho um mau pressentimento, essa pessoa de outro tempo… não trará a desgraça a Khan e ao país? – Observou o rosto do outro, as marcas tribais abaixo dos olhos. – Vamos fazer tudo para que isso não aconteça, é o nosso trabalho. – Firmou Saludja, beijou mais uma vez o mais novo, beijo nada casto dessa vez. – Nos veremos à noite. – Sussurrou no ouvido do amado, Arkon corou e separou-se do mais velho no momento em que ouviu vozes aproximando-se.
Cada um foi para o seu lado teriam um dia ocupado com várias tarefas.
☥☼☥
O líquido quente descia pela garganta ressecada de Rouge, sentado numa grande almofada com franjas douradas verde-musgo bordada com fios de ouros desenhando palmeiras. Entre Khan e Rouge havia uma mesa redonda e baixa, bebericou mais saboreado o gosto mentolado esfriar na sua boca, chá de menta quente era desde antiguidade utilizado para refrescar.
Encontrava-se no pátio de uma varanda com vista para o mesmo jardim onde estiveram. Pelo canto do olho conseguia ver que Khan olhava para ele por isso disfarçava olhando para o horizonte, ou então baixava os olhos vendo através do vidro as pernas bronzeadas, coxas musculadas, subindo o olhar para o seu colo lembrando-se que os egípcios não eram nada púdicos ou envergonhados com a sua intimidade.
E roupas de baixo não passavam de pedaços de tecido ou então eram inexistentes. Quando sentiu o calorzinho súbito formigando na sua barriga, o ruivo bebeu mais da infusão de menta. O rei sentiu os olhos azul-céu sempre em si. – Está gostando do que vê? – Instigou para o ruivo.
– Não, não estou gostando de nada, não gosto de homens. – Rouge fechou a sua expressão com frieza. – E além disso o que é que me vai acontecer? – As suas mãos remexiam-se nervosas sobre a mesa, baixou.
– Parece que sabe de coisas sobre mim que eu deveria saber. – Cobriu as mãos nervosas com a sua confortando-o, levantou o rosto do mais novo . Ouro e céu encararam-se carregados de súbitas sensações, Khan inclinou-se alcançando os lábios rosa-vermelhados e cheios.
Prendeu-os entre os seus, os sentidos do ruivo eletrizaram-se e a sensação fria na boca do estomago de quando se falha um degrau fez-se presente. Os lábios só se tocaram por segundos, Rouge só transmitiu frieza, porém o seu interior estava em lava. – Não vou ser um brinquedinho de um faraó já morto à milênios atrás.
– Brinquedinho? Ser a joia da minha coroa talvez serviria melhor, e eu estou bem vivo garanto-te. – Khan levantou-se e desculpou-se dizendo que tinha assuntos a tratar, se houvesse algum método que fizesse o ruivo voltar para o seu tempo ele faria tudo para impedir que isso acontecesse.
Rouge ficou sem reação, o formigar nos seus lábios fazia a sua a mente girar. Não se apercebeu da sombra que estava ao seu lado até Sahib falar para chamar a atenção dele. Foi guiado pela mulher de volta ao quarto onde permaneceu o resto do dia, desfrutando das refeições luxuosas, apreciando a paisagem do Nilo ao longe e areias no horizonte.
Khan procurou Saludja, aconselhar-se pois os Deuses tinham baralhado o caminho do seu destino mais uma vez.
Fale com o autor