O Acordar Do Faraó

11 Capítulo 11 - Conquistado Parte IV


Notas iniciais
Olá! Hoje é o meu aniversário e fiquei feliz por poder postar um novo capítulo, porque Khan tbm faz anos! *-* Último capítulo da viagem.

Espero que gostem do presentinho! Quero amor ! ♥

Boa leitura! ♥

O sossego do quarto denunciava que o seu ocupante estaria ainda a dormir, coisa pouco habitual, pois era costume dele acordar com os primeiros raios de sol. Rai colocou a bandeja com a comida do príncipe na mesa baixa e aproximou-se da cama com os passos suaves. A expressão do servo agravou-se quando viu o rosto do príncipe num semblante de dor, com gotas de suor formando nas suas têmporas.

Assustado, Rai colocou bruscamente a sua mão na testa dele, estava ardendo em febre. Esse movimento fez Ramsés fazer uma careta de dor. No instante seguinte o servo corria porta a fora, graças aos deuses que o médico real estava ali naquele momento.

A sua entrada abrupta no salão onde o rei e os restantes comiam, surpreendeu a todos. O seu rosto assustado alarmou as pessoas, contudo a noção do seu lugar na hierarquia fê-lo agir inconscientemente, Rai ajoelhou-se, ou melhor atirou-se de joelhos sem se importar com a dor dos ossos chocando contra o chão duro. As palavras saíram atrapalhadas enquanto o seu peito engolia o ar apressadamente. — Nisu, o príncipe está ardendo em febre!

Khan olhou para Rai mais espantando com a sua atitude de com a enfermidade de Ramsés. Nunca vira algum servo do irmão entrar em pânico por ele. Após as estações da chuva já era costume o seu irmão pegar a febre, que Saludja apelidara de febre sazonal, não sabiam o motivo certo dele a apanhar sempre. — Saludja por favor vai vê-lo.

— Claro. — O sacerdote levantou-se e caminhou para onde o jovem servo estava ainda ajoelhado, e ofereceu-lhe uma mão para ajuda-lo a levantar-se. Pôde sentir pela primeira vez o Ib e Ka de Rai. Como era de esperar o coração e alma do garoto eram puros e sem as tendências negras da maldade, contudo algo fê-lo franzir a sua testa por instantes. Algo na vida do rapaz não ia ser fácil, deduziu isso por algo no seu interior estar vago e impercebível, como uma névoa negra.

Confuso com a atitude do médico, Rai hesitou por instantes em aceitar a mão dele. Saludja abriu um sorriso ao ver a hesitação. A confusão do servo fora quebrada pelos intensos olhos alaranjados e amáveis, aceitou a ajuda e levantou-se.

Saludja pedira a um dos serventes do palácio para pegarem o seu estojo de medicina e que o levassem ao quarto do príncipe. Rai seguia atrás do imponente sacerdote, estar lidando com homens carismáticos provocava-lhe um certo temor. O garoto engoliu em seco quando entraram no quarto silencioso.

Medindo a temperatura de Ramsés, Saludja teve a certeza que era somente a febre sazonal. Depois de meses sem sol, escondido e confinado ao abrigo do palácio vendo as chuvas, depois dela o príncipe passava grande parte do dia no exterior e nas horas em que o sol estava no seu ponto mais alto e intenso. Com eficiência, um servo já colocava o estojo medicinal na mão do médico, uma bacia, um jarro e copo acompanhavam a necessidade de ter o líquido da vida presente em qualquer cura.

Saludja pegou num pequeno frasco de vidro contendo um líquido amarelado, despejou um pouco de água no copo, apenas para cobrir o fundo do copo, juntou o remédio e mexeu o copo para fazer os líquidos misturarem-se. Em seguida levantou um pouco da cabeça do príncipe e fê-lo bebericar como pôde o remédio. Ramsés ainda inconsciente sorveu pouco do líquido, metade escorrera pelo canto dos lábios, os gemidos típicos da enfermidade estava tracejando o bonito rosto do príncipe numa careta de dor.

Rai observava atentamente todos os passos do médico, questionando-se como o rosto dele poderia expressar serenidade enquanto ele estava numa aflição incompreendida. Saludja recolou com cuidado a cabeça de Ramsés no travesseiro. — O príncipe precisará de tomar esse remédio mais duas vezes, a meio da tarde e à noite. Se ele não conseguir beber, coloca na tua boca e dá para ele. Ocasionalmente pode ser preciso usar a língua também. – Saludja não poderia deixar essa oportunidade passar, teve que segurar o riso ao ver o rosto perplexo do garoto. Quem sabe isso não ajudaria o jovem príncipe na sua conquista.

— A minha boca na do príncipe? É permitido? – A mente de Rai encheu-se de contradições pessoais e as obrigações. Ele teria que fazer o que fosse preciso para assegurar o bem-estar do seu amo. — Claro que é. Não somos muito diferentes uns dos outros, independentemente da hierarquia social. – Saludja retirou mais dois frascos contendo o remédio e entregou-os a Rai, junto com Ankh, a cruz da imortalidade, ela deveria ser colocada sobre o peito do doente a fim de expelir todo o mal do corpo. Apoiou uma mão no ombro do garoto e sorriu, foi embora, a sua presença não era mais necessária. Ramsés apenas precisaria de descansar e de atenção.

O suor molhava a pele morena, as finas gotas deslizavam da fronte pelo rosto até ao pescoço. Rai forçou-se a concentrar e cuidar do príncipe, pegou no tecido de linho e molhou-o na água fria. Limpou delicadamente o suor que maculava a pele perfeita do príncipe cortesão. A expressão de Ramsés suavizou-se ao sentir a sua pele ser refrescada. A mão do servo deslizava suavemente com cuidado excessivo pelo rosto e peito do príncipe, não foi preciso ter o incómodo de trocar a roupa dele, já que o exibicionista dormia nu. Contudo vê-lo de olhos fechados e ardendo em febre pareceu-lhe extremamente frágil.

A costumeira expressão neutra estava substituída por um leve franzir de testa, Rai retirou os cabelos colado no rosto do príncipe com a ponta dos dedos, ninguém estava presente no quarto para ver tamanha ousadia do servo. A Ankh foi colocada no meio do peito de Ramsés, a cruz de ouro pareceu reluzir quando tocou a pele febril, levando-o a deixar um gemido escapar por entre dentes quando o metal frio o tocou, relaxando em seguida.

Sem ter o príncipe para servir Rai não tinha rigorosamente nada para fazer naquele palácio. Sentou-se na beira da cama de maneira a não incomodar o doente, a sua mão ficou atraída pelas mechas negras de Ramsés. A ponta dos dedos acariciavam levemente, pôde contestar que até os cabelos dele resplandeciam masculinidade.

Hipnotizado Rai teve o súbito desejo de cantar, coisa que não fazia desde garoto, desde da morte dos seus pais ele nunca mais proferira uma nota musical ou sequer uma entoação. Ficara meio morto para aquilo que lhe dava alegria de fazer. A melodia que a sua mãe cantava-lhe em pequeno fluía pelos seus lábios, a sua voz estava límpida e afinada como se nunca tivesse parado de cantar.

‘’Enquanto tu viveres, brilhe

Não sofras absolutamente nada’’

Os olhos esverdeados observavam atentamente a respiração lenta, que fazia o peito do príncipe subir e descer. A expressão do moreno parecia serenar-se. Ele desconhecia o fato que Ramsés adoecia com a mudança das estações, porque fazia apenas dez meses que ele começara a trabalhar no palácio, portanto seria a primeira mudança de estações que ele passava ali. A mente de Rai não estava no habitual corrupio de pensamentos cansativos, a melodia ressoava tanto nela quanto nos seus lábios. Acompanhando o ritmo doce das palavras cantadas, com o toque gentil que os seus dedos proporcionavam nas madeixas negras do príncipe.

‘’A vida só existe em um curto espaço de tempo

E o tempo exige seu preço.

Sinta a felicidade e amor como as penas

de um pássaro tocando no seu rosto.’’

Uma lágrima não desejada rebelou-se contra o seu dono e desceu pela bochecha branca, as memórias dolorosas regressaram com o final da canção. Fazia muito tempo que Rai não se preocupava com o bem-estar de alguém ou cuidava de outra pessoa por vontade própria. Mesmo terminado de cantar as caricias no cabelo não pararam, de fato tornaram-se mais extensas, passando para o rosto adormecido de Ramsés.

Inconsciente o príncipe respondeu ao contato suave da mão de Rai, inclinando um pouco o rosto para o lado onde era tocado. — Seu idiota. – Rai repreendeu o príncipe, deixando o pior pensamento para si. ‘’Não devias ter colocado os teus olhos em mim. Não vou dar-te o que tu queres, nem amar-te.’’ A vontade de dar um tapa na testa dele foi travado por Ramsés estar doente, e principalmente por ele ser da realeza o que não era muito diferente de ser seu dono. O garoto não estava de todo mal-agradecido pelo tempo prazeroso de lazer que estava-lhe sendo proporcionado, até ficou bem feliz por ter visto coisas novas que de outra maneira nunca poderia ter experienciado.

Cuidar dele com um pouco de afeto seria uma espécie de retribuição a Ramsés.

.OoO.

Os desfiladeiros tornavam as pernas dos cavalos em galhos de madeira, se algum deles pisasse uma das pedras soltas quebraria a pata e seria abatido na hora, seria o golpe de misericórdia que o seu dono faria. Ao invés de deixar o animal sofrer com a atrocidade do deserto até morrer por sufocamento e sede. Ou no pior dos casos o guerreiro cairia com o seu cavalo centenas de metros até embater no solo.

Os desfiladeiros ficavam a sul do oásis Kharijah, ficando a trinta e cinco quilómetros de Tukh, a cidade oficial de adoração ao deus do caos, Seth. Arkon estranhou que o sítio onde Jafir pudesse estar escondido ficasse a meio do caminho da cidade do deus pelo qual ofereceu a sua alma e sangue. Simplesmente esse pensamento não trazia bom agoiro ao general, pensando no por quê de ele não poderia ter-se escondido no templo da cidade.

Nehken guiava o seu garanhão com a habilidade genuína de quem conhecia cada pedra daquele deserto, Arkon seguia logo atrás dele, os medjays como alguns guerreiros da Tribo do Escorpião vinham numa comitiva silenciosa em carreira.

A instabilidade do terreno fazia os animais nervosos, os sons que substituíam o som das vozes humanas eram os cascos, as pedras que desprendiam-se e rolavam centenas de metros pelo desfiladeiro. Mas o som que mais impunha respeito era o vento desértico uivando, levantando grossas paredes de areias impossibilitando uma resposta rápida, porque nunca poder-se-ia prever quando as correntes de ar massivas levantar-se-iam. Para além que esse domínio pertencia a Seth, quando o deus estava de bom humor apenas umas paredes grossas apareciam, caso contrário uma tempestade varreria homens e animais.

Arkon podia sentir o Deus Vermelho com os olhos postos neles, imaginou a risada escabrosa de um ser superior perante a fraqueza humana. Um arrepio na espinha fez o seu corpo ficar gelado mesmo sob o escaldante sol. Olhou para trás observando a segurança dos seus homens. A convivência com Saludja e todo o contato íntimo entre os dois fizera o general ficar mais sensível e pressentir certas coisas. O corpo do jovem absorvia tudo de Saludja, a essência do sacerdote estava impregnada nele. Dai o general ter uma forte intuição para as missões, mesmo em momentos de grande tensão, Arkon conseguia raciocinar rapidamente e manter a calma. Saludja estava concedendo a sua proteção a ele, mesmo estando separados por infinitos grãos de areia.

O rosto do general virou a cabeça para a direção onde ficava Mênfis.

Como uma rajada de vento a situação segura dos guerreiros mudou, quase chegando ao topo do desfiladeiro, ruídos de relinchos de cavalos desconhecidos com vozes proferindo um dialeto estrangeiros. Nehken apressou o seu cavalo com mais fúria para poder libertar uma passagem para o resto conseguir subir o penhasco, caso contrários ficariam encurralados. Numa questão de instantes toda a borda do penhasco estava barrada por homens bárbaros. — Hiscos! – Nehken alertou os guerreiros desembainhando a sua khopesh fazendo o seu cavalo saltar e passar por cima dos invasores.

Arkon tomou o mesmo rumo que o líder escorpião e acelerou o seu cavalo, desembainhando a sua espada que alimentava-se de sangue. Orando para a Deusa Sekhmet, senhora da guerra e fúria.

‘’Senhora do Leão, da Batalha e da Espada, Sekhmet, terrível deusa, estabeleça proteção ao meu redor. Quebre as paredes que me confinam. Ajude-me a livrar-me dos inimigos e obstáculos. Grande Senhora, Ajude-me! Leoa da destruição e da vingança, meus inimigos me circundam, buscando minha queda. Livra-me de sua influência. Conceda-me a liberdade. Ò poderosa e Terrível, amada de Ptah, atenda a meu pedido por proteção".

Armas estranhas eram arremessadas contra eles, uma espécie de estacas metálicas, Arkon desviava-se delas conseguindo esquartejar alguns hiscos pelo caminho. Arrancou o seu turbante negro da cabeça para alivia-lo daquele peso extra. No meio segundo em que se distraiu o seu cavalo fora atingido por uma dessas estacas, acertando o animal na barriga, o impulso da embatida fizera o cavalo cair com Arkon e raspar os corpos de ambos nas pedras aguçadas.

Arkon não demorou para libertar-se do cavalo e ver a brutalidade com que fora morto. Em sinal de respeito ao animal, o general retirou a estaca perfurante da sua barriga, gostava daquele cavalo.

— ARKON! O que estás fazendo? – Nehken interpôs-se entre o amigo e um dos hiscos que iria se aproveitar da distração de Arkon e cortar a sua cabeça.

Expressando nada em resposta, o general pegou na sua espada que estava caída perto do cavalo morto. Sekhmet ainda não havia respondido ao seu apelo, não sentia a raiva da leoa dentro de si. Isso não poderia fazer diferença, não poderia colocar a sua vida e a dos seus homens somente no poder da Deusa. Sem piedade o general levantou a sua espada com a leveza de uma pluma e desferiu a lâmina contra o cavalo do hisco mais próximo, dilacerando o animal ao meio, em seguida enterrou a ponta da sua espada no pescoço do homem que o montava, separando a cabeça do corpo.

Lutar sem a vantagem de um cavalo era difícil mas não impossível, era nessas alturas que Arkon submetia o seu corpo ao limite e fazendo valer todo o esforço e treino a que submetera o seu corpo desde os nove anos.

.OoO.

A boa disposição estava servida por todos, até as crianças estavam animadas e irrequietas em dobro. Rouge tentava concentrar-se na sua comida mas estava realmente impossível, sentado ao lado de Khan a cada movimento que ele fazia a sua respiração suspendia-se, vez ou outra os seus braços roçavam-se. Desde que ambos tinham-se beijado fogosamente no dia do seu suposto desaparecimento, Rouge caíra numa vergonha súbita por ter admitido que adorava os beijos do Faraó, e que consequentemente isso poder-se-ia subentender que estava gostando dele também. Na frente do ruivo Saludja apercebeu-se que ele retraia-se ao mínimo contato inocente de Khan.

— Khan afasta-te, estás incomodando a tua joia. – O sacerdote debochou, fazendo o ruivo corar violentamente. Khan olhou para o amigo e depois para Rouge, que apesar de ter o cabelo cobrindo metade do rosto pôde ver que a sua bochecha estava vermelha. Em vez de afastar-se Khan aproximou-se e depositou um gentil beijo nos cabelos rubros, fazendo a delícia dos presentes com a cena meiga e deixando Rouge mais constrangido. Resolveu contra atacar as palavras de Saludja com a única coisa que o tiraria do sério. Constranger a sua joia não era permitido. — Nehken deve estar alimentando Arkon neste preciso momento. Depois de tanto tempo sem se verem, é dolorosa a separação entre amigos de infância.

A gargalhada do rei vibrou, quando o rosto de Saludja transfigurou-se na raiva conhecida que somente a menção do nome de Nehken transmitia. Os olhos laranjas crisparam tornando-se agressivos, emborcou a caneca de cerveja. — Não me lembres disso.

Khan riu e achou que não deveria envenenar mais a mente de Saludja com aquilo, mudou de assunto para outro um pouco mais sério. — Ramsés vai estar recuperado pela manhã?

Trocando a expressão carrancuda e voltando à sua mais amável, Saludja acenou afirmativamente. — Este ano o príncipe terá uma assistência especial, que o fará querer melhorar rápido.

— Assim espero, está na hora dele assentar e escolher alguém para ficar ao seu lado. – Khan queria o melhor para o seu irmão assim como queria isso para os seus filhos, não havia distinção entre os três, poder-se-ia dizer que ele era pai do seu irmão também. — Isso, eu também espero para ti, meu sobrinho. Prosperidade para o império e para a família. – Heqet levantou o seu copo de vinho brindando à sua família, os outros seguiram o seu exemplo. Menos Ankhesenamom, que fulminava a felicidade alheia com os olhos negros carregados de veneno. A mente perversa da garota estava cheia de pensamentos cruéis, dirigindo todos eles a Rouge que mal sabia que ela orava e ansiava pela sua morte, ou pior que algo acontecesse e distorcesse e destruísse a beleza incomum do seu rosto.

— A minha família já prosperou meu tio, esta noite pretendo tornar tudo oficial. – Khan enlaçou o seu braço em torno da cintura esguia de Rouge, puxando-o delicadamente para mais perto de si. Rouge não entendeu a conversa dos homens e as demonstrações de afeto do moreno como sempre estavam-no a embaraçar. — É embaraçoso, por favor para. – Fazendo exatamente o contrário, apertou os dedos no quadril e inclinou-se para espalhar diversos beijos no cabelo e rosto de Rouge. A carreira que os lábios do rei faziam parou somente perto do canto da boca do ruivo. A risada de escárnio característica de Khan aflorou nos seus lábios, ao ver o tom avermelhado do bonito rosto.

‘’Desgraçado…’’ Rouge xingava o moreno, era inacreditável como ele conseguia constrange-lo mais. Se ele fosse vingativo havia muito tempo que tinha feito algo em troca.

O almoço da família foi interrompido por um criado, silenciosamente aproximou-se de Heqet e segredou-lhe algo ao ouvido fazendo-o abrir um sorriso. Assim como chegou, o criado se foi. — Khan o sítio do teu desejo já está terminado. – Aquilo foi música para os ouvidos do rei, como sempre o seu tio fora rápido e eficiente. Não podendo comentar abertamente por estar perto de Rouge, abriu um sorriso radiante em resposta. Desde do alvorecer que o palácio estava num rebuliço de preparações e decorações para o banquete de aniversário do rei.

‘’Aquele o qual usufruis do corpo, exige o meu poder, em troca exijo um ano da tua vida humana, servo.’’ Saludja escutou a voz da Deusa Sekhmet na sua cabeça. Sabia que a Deusa da guerra e raiva não se servia muito dele para alimentar a principal razão pela qual fora criada por Rá, destruição da raça humana. Aproveitando-se de Arkon, utilizava a espada dele para canalizar e satisfazer a sua necessidade de sangue.

Obviamente o sacerdote sabia disso, sabia o exato momento em que Arkon orava à Deusa nos momentos críticos, porque era ele que acarretava as consequências pelo empréstimo do poder da Deusa Sekhmet. As consequências para Saludja eram sempre umas dores de cabeças terríveis que pareciam que o seu crânio estar-se-ia partindo ao meio, junto com alguma perda de sangue e pouco mais. Claramente o general não sabia de nada disso.

Mas exigir um ano da sua vida era novidade, devido talvez por ele estar na cidade de culto a Sekhmet, Mênfis era a cidade onde a Deusa era venerada intensamente, estar no domínio dela dava-lhe o poder de ser pérfida e exigir o que quisesse.

‘’Eu aceito.’’ O sacerdote respondera-lhe mentalmente, ninguém à sua volta percebia o que estava se passando, ele apenas ficara silencioso. Colocou a sua mão no rosto sentindo a sua cabeça pesada e os ouvidos zumbindo.

— Saludja! Isso é sangue?! – A voz de Khan acordou-o do seu transe, sentiu algo líquido escorrendo do seu olho, levou os dedos ali e confirmou. — Perdoem-me. – Saludja levantou-se e saiu para o jardim pela arcada mais próxima.

— Saludja!! – Khan levantou-se e seguiu o amigo. Não precisou ir muito longe para o encontrar, Saludja estava de agachado escorado na parede, as mãos tapavam o rosto. Não era normal sangue escorrer do seu olho. Colocou a sua mão no ombro do amigo e apertou-o de leve.

— O rei não devia seguir um servo. – A voz do sacerdote estava rouca, o seu corpo poderia estar ali mas a sua mente estava onde Arkon estaria lutando pela vida. Odiava a sua impotência, odiava estar longe dele.

— Este ano vai ser o teu último de servidão aos deuses. Chegaste ao teu limite, não te quero perder, meu irmão. – Khan firmou a sua decisão olhando seriamente para o sacerdote. A decisão obstinada fez Saludja olhar para o moreno e sorrir. — Interpondo-se entre a vontade dos deuses, meu Faraó é corajoso. – Ele sabia que era verdade, o seu corpo humano já não aguentaria suportar tanto poder. Por vezes sentia que já tinha chegado aos sessenta anos. Mas não era tão fácil terminar com os deveres sacerdotais por vontade própria.

— Deixa as consequências comigo, eu governo sobre a terra e sobre os homens. Até os deuses devem-me ouvir. – Arrogância faraônica só Khan exibia-a e representava-a muito bem.

Saludja sorriu e não contestou aquele fato, teria mais três dias até partir para os quarenta e cinco dias de dignificar os deuses. O elo entre a humanidade e divindades seria diminuído através dele, centenas de oferendas e orações seriam entregues pelas mãos do povo a ele. Como seria impossível cada pessoa ficar no templo e orar para os deuses, Saludja ficaria no mínimo cinco dias direto nos principais templos orando noite e dia sem interrupções. Alimentando-se apenas de água.

.OoO.

Levantando-se com uma graça felina, Arkon saltara uma altura humanamente impossível, recuperou a sua espada e sentiu o seu braço esquerdo formigando, um calor subia pela mão que pegava na espada e continuava a espalhar-se pelo corpo dele. Conhecia aquele calor, finalmente a Deusa Sekhmet respondia ao seu apelo. A fúria incandescente fê-lo retalhar cavalos e bárbaros.

As baixas do seu grupo estava bastante significativa. Nehken também ficara sem o seu cavalo e agora combatia no solo, tentando manter um olho em Arkon, preocupação de pessoa que tem um imenso afeto por outra, a segurança dessa pessoa é mais importante que a sua.

Na fúria desmedida e quase cega com que se movimentava, fez a oportunidade perfeita para um hisco aproximar-se pelas costas do general. Contudo os instintos felinos alertaram-no para esse movimento, Arkon virou-se para atacar o homem mas a sua resposta não foi ágil nem rápida. A ponta da espada inimiga tocou no lado esquerdo do seu rosto, arrastando consigo grossos rastos de sangue.

Arkon agoniou de dor como um animal ferido. Não deixou-se ficar lento por isso, ergueu a sua espada e derrotou o seu adversário, perfurando o corpo do homem atravessando a espinha dorsal.

Nehken esquartejava o último dos hiscos que estava no seu caminho. Ele ouvira o rugido de Arkon, a sua espinha tremou quando o localizou. Ajoelhado, banhado em sangue e segurando o seu olho esquerdo, sem largar a sua espada. O líder da Tribo do Escorpião aproximou-se calculosamente, ajoelhando-se perto do amigo, por instantes a sua mão tremou e hesitou em tocar-lhe. Retomando o comando da sua consciência, Nehken colocou a mão no queixo do moreno e elevou-o, observando o estrago. — Saludja vai arrancar o meu couro com os dentes.

Arkon deu um sorriu fraco, o nome do sacerdote era como um balsamo para a sua mente dormente e cansada. A força dos seus músculos estava completamente drenada, a sua cabeça não conseguia assimilar toda aquela dor física. — Provavelmente.

Ajudado por Nehken consegui levantar-se. Observou o estrago e as baixas dos seus homens. Aquele pedaço de pedras e areia à beira do penhasco transformara-se num campo de batalha e para muitos transformara-se em túmulo. Tudo ao seu redor estava pintado de vermelho, decorado com pedaços de corpos mutilados e vísceras espalhadas pelo chão.

Muitos estavam a pé, e ter que enfrentar o caminho de regresso ao oásis Kharijah no solo sob o sol abrasador e os abutres esperando por uma carcaça fresca, era o inferno.

.OoO.

Abrindo silenciosamente a porta do quarto, Khan entrou no espaço e aproximou-se da cama. A sua primeira reação foi de assombro, mas num segundo transformou-se num sorriso ao presenciar uma cena um tanto insólita. Ramsés adormecido e Rai, o servo pelo qual o seu irmão se apaixonara, perto dele, estavam dormindo juntos. A cabeça do príncipe estava pendida para o lado de Rai, a lateral do seu rosto tocava nos fios castanhos do garoto.

Satisfeito com o que parecia ser uma harmonia circundante em redor do seu irmão, o rei saiu do quarto, era hora do banquete em sua homenagem. Vestido a rigor com uma túnica curta, cintada com uma faixa larga talhada em ouro, a coroa Nemes, o khol nos olhos, sandálias ricamente detalhadas em ouro. Vários anéis decoravam os dedos masculinos, dois braceletes grossos de ouro adornavam os pulsos firmes.

Estava na hora de ir buscar Rouge, a sua joia e obsessão. Com educação bateu na porta do quarto do ruivo, ansioso. Rouge estivera bastante dócil naquele dia em comparação aos outros dias, podia pensar que os deuses estavam começando a ficar do seu lado e bafeja-lo com alguma sorte.

A porta abriu-se, a primeira coisa que o moreno sentiu foi um aroma doce e floral, depois a adorável figura do ruivo apareceu diante os seus olhos. Trajando uma simples túnica branca, um cinto feito de contas vermelhas caiam sobre os quadris delgados, de ombro descaído, diversas pulseiras coloridas estavam suspensas no pulso dele, sandálias de pratas cobriam os pés pálidos. Os cabelos rubros acetinados estavam perfeitamente apanhados no alto da cabeça, os olhos azuis-cristalinos estavam com um brilho que ainda não tinha visto. Estava mais do que perfeito, Rouge era divino.

Khan adorava vê-lo coberto com os mais extravagantes tecidos e acessórios, mas a perfeição da simplicidade cabia nele com uma graça inigualável. O ritmo cardíaco do rei acelerou-se um pouco, parecia a reação de um adolescente ao primeiro amor. De fato era irrisório mas era o primeiro amor de Khan que estava ali na sua frente. O ruivo sorriu e desviou o contato visual por instantes, murmurando uma saudação tímida. — Boa noite.

— Boa noite… – Completamente estarrecido, Khan estendeu a sua mão para Rouge, indicando-lhe que o devia acompanhar.

A mão translucida de dedos um pouco longos e magros encaixou-se na perfeição na mão áspera e grande do rei. O contato das peles fizera o estomago de Rouge ficar com borboletas. Ss suas pernas tremeram quando abriu a porta, a imponente figura de Khan no verdadeiro caracter egípcio. Um verdadeiro exemplar de um poderoso Faraó, fê-lo ficar com as pernas bambas e todo o seu interior alvoraçado. Com toda a caracterização faraônica a masculinidade de Khan exalava-se por milhares de metros, Rouge desconfiou que qualquer ser vivo ficaria intoxicado pelas feromonas dele.

Hipnotizado pela grandiosidade e por ter as suas emoções completamente remexidas por aquele homem, Rouge que estava seguindo Khan um pouco atrás, puxou a sua mão obrigando o rei a parar e olha-lo com interrogação. — O que foi?

Intoxicado desde que admitira em voz alta que adorava tocar naquele homem, o ruivo colocou-se em bicos de pés e alcançou os lábios de Khan com os seus, pressionando-os demoradamente. — Parabéns.

Surpreso pela ação atrevida, os olhos de ouro abriram-se em resposta. Homem de reação rápida, Khan enlaçou a cintura delgada com um braço e colocou a outra mão na nuca, fazendo o ruivo aproximar-se de novo de si. Encarou ferverosamente os olhos azuis. — Tenho direito a pedir um beijo mais intenso?

— Hum, claro. – Após isso o ruivo teve a sua boca penetrada por uma língua gulosa, não fazendo-se de rogada atacou com avidez a língua pequena e menos frenética. Ambos encontravam-se em delírio com somente um beijo, que infelizmente tivera que terminar bem mais depressa do que queriam. — Rouge… depois da festa vamos para um lugar só nós dois. – A rouquidão de Khan excitou Rouge.

A temperatura do corpo do ruivo disparou, o hálito quente de Khan, sussurrando aquelas palavras na sua orelha foi um potente catalisador para o sangue dele subir, e pintar o rosto pálido de vermelho.

Retomando a mão de Rouge entre a sua e mais acalorados continuaram a caminhar para o salão festivo. Khan estava eufórico, o banquete ainda não havia começado e ele já queria que terminasse. A noite perfeita iria ser passada somente com Rouge, depois da festa.

.OoO.

A movimentação ao seu lado no colchão fez Rai abrir os olhos meio assustado, adormecera e pela falta de claridade do dia, deu-se conta que dormira a tarde toda, esquecendo assim de dar o remédio ao príncipe. Falhando assim com o seu dever. Olhou para Ramsés que continuava a dormir, mas sem a expressão de dor de mais cedp, parecendo que poderia acordar a qualquer hora.

O jovem servo saiu da cama, suavemente a fim de evitar algum movimento mais brusco que acordasse o príncipe. Encheu o copo com um pouco de água e despejou o remédio amarelo misturando-os, e enfiou os líquidos na boca.

Rai fez tudo mecanicamente, sem retrair-se, não era como se aquele fosse o seu primeiro beijo ou algo do gênero. Aproximou-se da beira da cama e subiu nela, colocando o peso do seu corpo sob os joelhos, segurou delicadamente no rosto de Ramsés e virou-o para si. Colou os seus lábios aos do príncipe adormecido, com a pressão que fez neles o outro entreabriu-os, dando passagem para o líquido armazenado na boca de Rai.

Era muito estranho estar fazendo aquilo, mas para o bem da saúde de um membro da realeza não haveria obstáculos pessoais. Quando todo o líquido do remédio esvaiu-se para a boca de Ramsés, Rai descolou os lábios e limpou o pequeno rasto do remédio com saliva da sua boca e na do príncipe. Recolocou a cruz Ankh sobre o peito do moreno, e retirou as madeixas de cabelo caídas sobre as pálpebras fechadas. Rai saiu da cama e andou até aos degraus da arcada, onde se sentou junto com as cortinas esvoaçantes. Permanecendo ali de vigia até Ramsés acordar.

.OoO.

O grande banquete estava no auge, familiares do rei vieram carregados com baús recheados de presentes e com folia para divertirem-se pela noite fora. Um boi foi abatido e sua carne devidamente preparada, gansos eram assados no espeto, frutos eram empilhados na forma de pirâmides em pratos e tabuleiros de vime. Centenas de jarros de cerveja, vinho e licores eram consumidos em poucos minutos. Dispersos pela mesa quilométrica cerca de cinquenta dos familiares mais chegados desfrutavam das conversas, comida e bebida.

Khan estava sentado em uma cadeira de espaldar alto, cujas partes de madeira eram incrustadas de ouro e prata, turquesa, cornalina e lápis-lazúli. À disposição dos convidados colocam-se também assentos muito luxuosos. Rouge sentara-se no extremo oposto a Khan, numa cadeira idêntica à dele. Depois da fascinação inicial pelo seu aspeto, as pessoas deixaram de encarar-lo vigorosamente, mas continuavam a lançar-lhe olhares cheios de curiosidade.

As disposições dos lugares eram as seguintes; os homens colocavam-se de um lado, as mulheres de outro. Os mais moralistas e adeptos do recato, recomendam aos jovens, e mesmo aos homens maduros, que não olhem demasiado para o lado das mulheres. Isto não era uma regra absoluta. Quando se reuniam os homens e as mulheres, os serviços não eram separados. O convidado podia, se o desejava, ficar junto de sua esposa. Khan e Rouge eram as peças fundamentais e centro das atenções do banquete, por isso ficavam em sítios com mais visibilidade.

As criadas, sempre novas e bonitas, trajavam vestidos transparentes outras usavam apenas um gorjal e um cinto sobre o corpo. Circulavam entre os convidados distribuindo flores de lótus para todos os presentes e com uma pomada perfumada que transportavam num grande prato. Confecionavam os cones brancos que todos usavam na cabeça presas às famosas e ricas perucas, mas nem todos as usavam. Esse era um acessório indispensável numa receção: com o calor do corpo e do ambiente os cones se fundiam lentamente, inundando o salão de fragrância e mascarando o cheiro da comida que se espalhava pelo ar.

A flauta e a harpa, que surgiram pelas mãos dos egípcios, e outros instrumentos musicais também não faltaram, associavam ao canto e às palmas para alegrar a reunião, pois os egípcios sempre gostaram de música e alegria. Dançarinos, dançarinas e acrobatas completavam o espetáculo, animando os convidados com as suas habilidades incomuns, arrancando vez ou outra suspense e palmas excessivas da audiência. As escanças, servidoras de vinho ao Faraó, eram algumas das concubinas do palácio de Heqet.

Os olhos azuis de Rouge fulminavam as escanças, somente usavam um vestido de tecido transparente onde poder-se-ia ver todo o corpo das mulheres, peitos e pelos púbicos estavam levianamente à mostra. O seu pudor inglês não conseguia assimilar o à vontade que os egípcios tinham em relação ao seu corpo.

Ver o corpo nu de uma mulher ou homem para eles não fazia diferença. Andar nu por ali seria visto como se estivesse vestido, ninguém se incomodava em ver os órgãos sexuais alheios.

Meio tocado pela cerveja que havia tomado, álcool quente tem uma proporção maior de embebedar com somente três goles, e a pouca tolerância à bebida de Rouge fê-lo remoer-se contra as mulheres que rodeavam Khan, servidoras de vinho ou dançarinas exóticas. Á conta disso o ruivo montou uma cara de desprezo, mas para as outras pessoas a expressão dele estava rosada e fofa.

Mal conseguia comer, o calor era insuportável, as crianças não eram permitidas naquele tipo de banquetes, resumindo Rouge estava derretendo-se em cima da mesa, murmurando para consigo. — Aquele idiota, vai ver com quantos paus se faz uma cama, canoa?

— Do que é que ele está falando?! – Saludja estava sentado ao lado esquerdo do ruivo, não estava muito festivo mas era importante marcar presença, Khan iniciava um novo ano na sua vida mortal. Vinte e sete anos de vida e oito anos de reinado.

— Não faço ideia. É melhor retirar o álcool perto dele, Khan não me perdoará se a sua noite ficar estragada. – Heqet retirou qualquer jarro e copo perto do ruivo e olhava meio distraído para o nada.

Pelo canto do olho Khan observava Rouge e todas as fases que ele passava ao longo daquelas horas, o moreno sorria internamente, o ruivo parecia um completo bobo, mas quando ele começou a ficar tocado pela bebida achou que seria a hora deles irem para o recanto especial que mandara preparar. Fez um último brinde. — Queridos familiares, agradeço o carinho compartilhado hoje. Bebam e divirtam-se à vontade dos Deuses. Que a paz esteja convosco! Salam Aleikun! – O brinde final foi ovacionado pelos familiares com palmas e os mais atrevidos assobiavam.

Os olhos postos no rei observavam-no com interesse e curiosidade. Khan chegou perto de Rouge e ofereceu-lhe a sua mão. — Vem, meu amor.

Com cara de paisagem, Rouge piscou diversas vezes antes de aceitar a mão e levantar-se. Depois disso a rapidez dos acontecimentos foram passando diante dos olhos do ruivo. Estava montado num cavalo com Khan e cavalgavam para o meio do deserto somente com as estrelas e lua iluminando o caminho.

Khan estava rezando para que Rouge não estivesse alcoolizado ao ponto de que se ele caísse adormeceria no sítio onde caíra.

O oásis secreto emergiu no campo de visão de Khan, as lamparinas, lampiões e archotes crepitavam e iluminavam um sítio em particular. Quando chegaram ao sítio Khan aliviou-se por ver que o ruivo estava desperto. Desceu primeiro e ajudou-o a descer logo em seguida. Retirou a cela e estribos do cavalo e deixou-o solto para ir pastar nas ervas frescas da beira do oásis.

Os olhos esbugalharam-se, num momento estava dentro do deserto negro e noutro estava em frente a uma bela armação exótica. Um toldo branco suspenso por um tronco de madeira no centro cobria um mar de tapeçarias vermelhas, almofadas e uma pequena mesa baixa de apoio davam conforto ao espaço. Rodeando a tenda várias lamparina de vidro e ferro iluminavam o sítio magicamente, velas aromáticas e incensos atuavam tão como afrodisíacos como repelente para escorpiões e cobras.

— Meu deus… – A surpresa do ruivo aumentou quando olhou para o oásis. A brisa mexia com as folhas das palmeiras, criando uma sinfonia ambiente com o silêncio desértico. Feliz por causar aquele assombro em Rouge, Khan retirou a coroa pesada e deixou-a cair na areia sem se incomodar, fez o mesmo com as suas sandálias. Aproximou-se do ruivo e tocou no rosto dele. — Finalmente consegui oferecer-te algo que te surpreendesse.

Rouge olhava hipnoticamente para os olhos dourados do moreno, que sob a fraca luz transformavam-no num felino pronto para caçar.

— Huh, acho que sim. – Por Rouge poderiam passar o resto da noite somente observando um ao outro. Todavia parecia que Khan tinha outra ideia. O inglês foi puxado pelo moreno adentrando na tenda, sem ter tempo para reagir fora deitado no mar de almofadas.

Khan primeiro observava cobiçosamente o corpo ainda coberto com a túnica. O ar tímido e aquietado era sensual, com apenas os olhos azuis olhando-o com expectativa era o suficiente para deixa-lo teso. Decidido a querer ver mais daquela sensualidade, e sem pressa, alcançou a fita que amarrava o seu cabelo. Os fios acetinados espalharam-se com graça e naturalidade pelas almofadas, o vermelho do cabelo tornara-se mais intenso e misterioso com o reflexo da luz das chamas. — Perfeito…

Não tendo mais nada para retirar passou à peça central, que restava no corpo do ruivo, a túnica. Subiu-a pela bainha até à altura da barriga, parando para apreciar gulosamente a parte íntima delicada, Khan mordeu o seu lábio. Rouge ajudou-o a livrar-se da túnica elevando os seus braços.

Ao ver o delicioso corpo pálido deitado, esperando por ele era um autêntico festim para atiçar o seu lado mais animal. Khan passou a mão possessiva pelo peito até chegar ao íntimo do ruivo, que cabia perfeitamente na mão larga dele. A textura do membro de Rouge era tão delicada que fazia-o ficar com receio de fazer algum movimento mais brusco e magoa-lo. Era tão rosado como a flor mais bem tratada e saudável.

Para Khan, tudo o que importava era fazer o ruivo sentir que derreter-se-ia nas mãos dele. Tinha que provar o gosto do seu amado. Reparou que Rouge tinha uma pinta escura no interior da sua virilha esquerda, achou curioso que aquele corpo imaculado tivesse um sinal, e logo num sítio tão sugestivo como aquele. Com gula os lábios morenos abocanharam o membro semiacordado de Rouge. Khan, como rei nunca tivera que fazer sexo oral a ninguém, somente esse prazer era oferecido a ele.

Lambia e sugava ora lentamente ora com avidez.

Rouge já se contorcia exibindo o seu estado etílico, mais sensível e escandaloso, puxou os cabelos de Khan. Esse não ficou incomodado, isso apenas o fez responder ao estímulo de chupa-lo mais forte até ao ponto de Rouge se libertar precocemente na boca dele.

Como imaginara, o gosto da adorável criatura era doce e viscoso. Khan reergueu-se sobre os seus joelhos e levou a sua mão ao canto da boca, limpando um resto de sêmen dele, lambeu o dedo os olhos de ambos encarava-se nesse momento. Tinha a consistência exata de uma cobertura e doçura de um bolo.

Livrou-se da sua túnica. Pois havia engolido o sêmen da sua joia, estava submetido a ele, Khan curvava-se e dava prazer com a sua própria boca pela primeira vez na vida. O rei entrara numa nova etapa dos seus sentimentos pelo ruivo.

Rouge encontrava-se extasiado, ver aquele homem lambendo o seu esperma era tão erótico e excitante, nunca pensaria que algo assim pudesse despertar a sua libido necessitada. A masculinidade de Khan assumia-se imponente e ameaçadora, animal sexual era o adjetivo mais correto para ele. Olhando sofregamente para o corpo, Rouge teve a certeza que fora esculpido para satisfazer o mundo inteiro.

Khan inclinou-se para Rouge até sussurrar palavras de possessividade. — Cada gota do teu sêmen pertence-me. Nem tu próprio poderás tocar-te sem mim. A tua existência foi feita para ser adorada por mim, por completo. – Uma mordida no lóbulo da orelha concluiu a certeza de que cada pedaço de Rouge era dele.

A sensação de ter a ponta do pênis do egípcio tocando na sua barriga, provoca-lhe um imenso arrepio pelo corpo. Mal conseguiu concentrar-se nas palavras dele, mas a certeza que ele excitou-se com isso era evidente. Todo o corpo do ruivo estava gelatina, ele estava deixando-se levar pela correnteza dos acontecimentos. O rei saiu de cima dele e sentou-se, trazendo Rouge consigo colocou-o no meio das suas pernas.

Era um desperdício para Rouge ficar com o rosto enfiado nas almofadas, e não aproveitar o cenário que fora feito especialmente para ele. Mais preparado, tateou um pequeno jarro na mesa atrás de si, não iria magoar Rouge, não daquela vez.

Rouge não tirava os olhos de Khan, ajoelhado no meio das pernas do moreno ele estava com a mente em branco, as mãos delgadas estavam apoiadas nos ombros largos.

O encantamento do ruivo terminou um pouco quando as mãos oleosas do rei tocaram as suas nádegas. Gentilmente separou-as e introduziu o seu indicador com a extrema lubrificação não demorou muito para se movimentar e introduzir um segundo dedo. Como um tiro certeiro, Khan estimulava o sítio secreto do ruivo, fazendo o pênis dele endurecer. Os gemidos de Rouge eram como um afrodisíaco, quanto mais ele ouvia-os mais vontade de faze-los ele tinha.

Escondeu o rosto no peito arfante do ruivo enquanto estimulava a sua entrada, o seu membro encontrava-se mais faminto e ansioso para se acomodar dentro do corpo desejável.

— K-Kh-aan… chega, e-entre em mim a-agora! – Rouge suplicou, sentindo as suas pernas tremelicarem.

Deitando o resto do óleo lubrificante sobre o seu pênis ereto, Khan atirou o jarro para um sítio qualquer. Posicionou as nádegas de modo a encaixar-se dentro dele. Rouge forçou o seu traseiro a escorregar por todo o comprimento do monstro de Khan. Os preliminares eram importantes e ajudavam até certo ponto, mas a dor inicial não era diminuída, entre lágrimas e caretas todo o interior apertado foi ocupado pelo membro duro. Os joelhos do ruivo enterraram-se um pouco mais na areia, sob a tapeçaria vermelha, quando chegou até à base.

A vontade de ter a língua possessiva dentro de si era imensurável. Rouge segurou o rosto do moreno e puxou-o para si, tomando de forma violenta a boca dele, línguas e dentes arranhavam-se, contudo era Rouge que dominava aquele beijo, Khan apenas seguia-o naquela dança molhada.

A primeira tentativa de se mexer foi bastante dolorosa. Após a terceira, Rouge encontrara o seu ritmo e a dor desaparecera. As coxas roliças eram apertadas e ajudadas pelas mãos grandes de Khan. Os braços finos enlaçavam-se no pescoço enquanto o ruivo arqueava o corpo, a cabeça pendia ao ritmo das estocadas junto com o tilintar das pulseiras no seu pulso. A sua voz gemente acompanhava as sensações maravilhosas que somente o sexo proporcionava, e que recentemente Rouge descobrira isso.

Ter o seu pênis engolido por um orifício que tinha tudo para ser apelidado de caverna do prazer, era inexplicável. A cada afundanço dentro de Rouge dava vontade de grunhir como um animal, penetra-lo e observa-lo em como as gotas de suor cobria o corpo nu dele, fazendo-o brilhar era prazer em dobro.

O membro rosado de Rouge atingia o abdómen com o seu esperma, quando atingindo no seu ponto sensível ele libertava-se. Khan estava tentando-se controlar e libertando o seu orgasmo aos poucos, queria prolongar o máximo que conseguisse. — Rouge… — A expressão do egípcio tornava-se mais grave, por sentir os espasmos dos músculos de Rouge no seu pênis, isso acelerou o que ele estava tentando retardar.

Perdendo a luta contra o seu corpo, Khan encheu o interior do ruivo com a sua semente. Os braços fortes apertaram a cintura esguia que ainda se movimentava, o seu rosto de novo escondera-se no peito pálido e úmido.

Rouge apertou-se contra ele, os braços aconchegaram-se melhor no pescoço de Khan, o rosto corado e arfante inclinou-se até apoiar-se no topo da cabeça do rei. Inspirou os cabelos, Khan cheira a masculinidade, deserto e perfume. Amava aquela combinação.

Permaneceram abraçados na mesma posição por breves momentos, mas que para ele tornaram-se longos. — Rouge…

— Huh… — Rouge não queria mexer-se, nem os seus lábios estavam em condições para movimentar-se.

— Casa comigo. — A surpresa da noite não era somente o sexo, mas a criação do ambiente romântico perfeito que facilita-se o seu pedido. Rouge precisava de perceber que tudo a respeito a ele era sério.

Desfazendo o abraço, Rouge endireitou-se no colo dele, olhou atentamente para o Deus vivo. — Eu caso.

O nervoso de Khan fora substituído pela surpresa, a sensação era única pois estava receoso que ele o rejeitasse de novo. Apenas duas palavras e ele tinha-o feito ser o homem mais feliz de sempre. Querendo saber o que é que o tinha feito mudar de ideias, ou se Rouge tinha começado a apaixonar-se por ele. — O que te fez mudar de ideias?!

— Não faças perguntas as quais não sei responder. — Acabou por repreender o rei. Por que sinceramente Rouge não sabia explicar o que sentia, era estranho e não sabia expressar por palavras.

Khan sorriu, a sorte dos deuses estavam definitivamente virada para si. Ajudou Rouge a sair do seu colo, ele perdera as forças e caiu com a bunda no chão, por as pernas estarem débeis e entorpecidas. Uma dorzinha fê-lo fazer uma careta. Compadecido com seu futuro noivo, Khan teve uma ideia. — Vamo-nos banhar nas águas, meu amor. — Sem dar tempo para resposta, Khan já tinha Rouge no seu colo e caminhava para dentro de água.

— Mas e se tem crocodilos?! Seu louco! — O ruivo batia no peito firme e agitava as pernas, tentando para-lo. Khan gargalhou com gosto, a obstinação dele dava-lhe um charme e força na personalidade.

— Aqui não tem crocodilos, é muito longe para eles. Somente existem no Nilo, no máximo tem escorpiões e cobras… — Provocou-o.

— Urgh! É perigoso. — Sem mais forças para contraria-lo permaneceu quieto enquanto Khan entrava na água.

— Não te preocupes meu amor, eu receberei qualquer ferrão envenenado por ti. — Essa era a realidade para o Faraó. Gentilmente colocou Rouge dentro de água, uma ruga de expressão vincava na testa perfeita. — Em que pensas meu amor? — O dedo molhado tocou gentilmente na ruga alisando-a.

— Do que é que tanto gostas em mim?! — Os olhos azuis sustiveram-se no rosto do moreno. Um misto de ansiedade e medo da resposta encheu o peito de Rouge. Khan não demorou muito a pensar, tinha essa resposta pronta havia tempos, só estava esperando que ele fizesse essa pergunta. — Gosto do teu corpo, adoro a tua língua, amo a tua existência.

Khan deslizou a sua mão pela lateral do corpo esguio, seguindo a curva natural parando-a no quadril. De repente a luz azul voltara a iluminar os olhos tão azuis como Nut. Rouge gostara da resposta, Khan ficou feliz por ver um sorriso tímido adornar o canto dos lábios carnudos. Por instinto ambos aproximaram mais os corpos e abraçara-se tendo milhares de testemunhas para eternizar o momento. A lua, a água e os incontáveis grãos de areia.

Foi ali naquele exato lugar que Khan fora concebido. Ali o antigo Faraó pedira à sua concubina preferida em casamento, onde trocaram juras de amor. Depois disso o pai de Khan dedicou-se a amar somente uma mulher até que o Ka e Ba dela decidiram deixar o corpo humano.

Jafir não ganharia, não o dominaria pelo medo. Khan não deixaria a sua vida se resumir a nada. Ele protegeria a sua família como uma furiosa tempestade de areia.

Notas finais
Espero que tenham gostado, pra quem esperou 1 mês pela atualização, espero que não tenha desiludido ;) Gostaram do oásis?
Quem quiser ver como eu imagino Rouge na vida real, o cabelo natural era de um cenoura mas eu dei umas pinceladas pra um vermelhão mesmo ♥ *-*
http://i1002.photobucket.com/albums/af144/DivaTsuki/Rouge_zpsff8e6e71.png

A parte mais importante da alma egípcia era o Ib, coração.
O Ka, o Ba e o Akh são às vezes traduzidos como o Duplo, a Alma e o Espírito, mas isso não explica todas as nuances que estão implícitas nesses conceitos.

E acho que é só, não coloquei mais nada que precisasse de tradução.