Fui atrás da perfeição...

Da fórmula rabiscada em meu bloco de notas.

Criando um ser tão puro e único,

Que questionaria a existência e todos os prenúncios.


Uma criação que versava,

Evolução, no pináculo da existência.

Queria um amor, sem resistências,

Uma flor pura e ingênua que a mim amava.


Posso perfumá-la com os odores balsâmicos...

E costura-la com a pele mais macia que a de um anjo.

Contornar suas curvas e nos lábios um sabor de morango,

A mais bela Helena que agradaria a gregos e troianos.


Das misturas químicas em meu laboratório,

Criaria um ser além da vida, tão notório.

Que mesmo a magia que contorna o mistério,

Se tornaria um adultério ao conhece-la de pronto.


Seguia à risca as ordens da receita,

Misturava todas as coisas belas da natureza.

E, de súbito, surgiu uma incerteza,

Enquanto eu ainda imaginava a minha donzela perfeita.


Se para cria-la preciso do perfume das flores,

Das peles mais macias e doces,

Do vento suave de amores,

Do molde moldado por minhas mãos calejadas,

Que seria a perfeição senão fruto de uma alma ordinária?


Como humano e falho, posso cobiçar o perfeito?

Posso me achar no direito de moldá-la?

Quando eu mesmo sou imperfeito,

Levado por anseios pouco nobres que buscam cria-la?


Desesperança e alento me conformava;

Não há porque buscar algo além.

Se minha inata é a falha;

Só posso continuar aquém.


E trabalhar com o erro...

Rabisco novamente o bloco de notas.

E trabalho com a ideia e o conceito,

Que fariam de minhas criações peças perenes.


Significando minha trajetória...

Mais valeria minha caminhada em melhorar;

Do que a criação de um homunculus obtuso,

Que culminaria em minha falha melancólica.


Prefiro aceitar a imperfeição agora...

E trabalhar com minha própria evolução.

Da Criação percebo que todas, à sua forma...

Rumam naturalmente o caminho da perfeição.

~Gabriel.