O Acampamento - INTERATIVA
2 Capítulo 1: A Cabana
Notas iniciais
Os vidros laterais do carro se encharcavam com a água gelada da incessante chuva que já durava dias. Lá fora, a paisagem parecia se deslocar com graciosidade pelas árvores da floresta, tudo parecia tão vivo, contrastando com o clima no interior do carro.
Os três estavam calados, sem se falar por quilômetros, pois, aparentemente, todo o assunto havia se finalizado no meio das longas 213 milhas de cidade/estrada.
De repente, um barulho no vidro traseiro faz com que o motorista olhe no retrovisor interno e o passageiro vire-se em direção ao banco traseiro.
— O bebê acordou – Disse o passageiro.
— Nossa, quanto tempo eu dormi? – Perguntou a integrante do banco de trás.
— Uma hora e meia. Babou mais que o Oceano Atlântico.
— Eca! – Exclamou a passageira passando a mão em suas bochechas e no canto dos lábios.
— Estou brincando sua besta.
— Sua idiota.
— Arruma esse seu cabelo, Bia – Disse o motorista.
A passageira pegou o espelho e deu à Beatriz que arrumava seu lindo e liso cabelo loiro claro e cumprido que combinava perfeitamente com sua pele clara.
— Obrigado, Lu – Disse Bia devolvendo o espelho à passageira – Já estamos chegando?
— Sim, faltam uns vinte minutos.
— Trouxe as drogas, Neo? – Perguntou a passageira.
— Droga? Como assim? A gente não combinou isso – Disse
— Brincadeira, Bia.
— Odeio essas suas brincadeiras.
— Odeio esse olho verde seu.
— Inveja?
— Não, prefiro os meus olhos pretos e sem graça mesmo.
— Chora!
De repente o carro para.
— Pessoal, chegamos – Diz o motorista.
Todos os três saem do carro e olham o ambiente ao redor. Era um espaço circular com o chão típico de floresta, cheio de folhas de árvores e algumas remanescentes no espaço. As árvores cercavam o ambiente ao redor deles sobrando apenas o caminho por onde vieram e uma cabana.
A cabana era simples, feita de troncos de árvores e outro tipo de madeira que era usado de telhado e nos marcos da única porta de entrada e saída e das janelas que eram cinco ao todo, uma à esquerda e uma à direita da porta de entrada que tinha uma escada de madeira com três degraus e um telhado em forma triangular formando uma marquise de dois metros acima e à frente da porta sendo sustentada por duas colunas circulares de madeira nas extremidades esquerda e direita. As folhas cobriam o telhado em sua totalidade. Ao aproximar-se da cabana, era visível o aspecto empoeirado e velho da mesma.
— Bem, aqui estamos – Disse Luna esticando os braços, espreguiçando-se.
— Nas fotos parecia mais bonita – Disse Beatriz de braços cruzados referindo-se à cabana.
— Igual você no Facebook – Disse Neo.
— Vai se ferrar.
Enquanto Neo pegava as malas de dentro da caçamba da camionete, Luna e Beatriz entravam na casa. Ambas foram surpreendidas com o cheiro de poeira e madeira de dentro da casa, fazendo-as se afastar e colocar a mão na boca.
— Que merda – Disse Beatriz.
— Nossa que fedor. Essa cabana deve estar abandonada há uns dois anos.
— Na verdade há sete anos – Disse Neo aproximando-se das meninas com as malas – Era do meu avô. Quando minha vó sumiu, meu avô ficou alucinado, ficou falando umas merdas sobre uma porta que levou ele para outro mundo.
— Quanto ele fumava por dia? Tipo... Sei lá – Disse Luna.
— Ele não fumava, só foi diagnosticado com esquizofrenia. Ainda está internado, então temos a cabana só para nós.
— Legal... Não! Não que seja legal ele estar inter... – Disse Beatriz, tentando se retratar.
— Eu sei Bia, pode ficar tranquila. Já superamos isso. Venham, vamos entrar.
Os três entraram e Neo colocou as malas na sala. Era um espaço amplo com um sofá vermelho, porém a poeira o recobria, assim como todos os outros móveis: a cadeira de balanço, a mesinha e a TV de plasma e a lareira. O chão era de madeira que fazia muito barulho quando pisava.
— Pessoal, vamos dar uma geral nesse lugar – Disse Beatriz.
— Trouxe vassoura, rodo, balde e pano, Neo? – Perguntou Luna.
— Não, mas deve ter na dispensa – Disse Neo olhando para trás enquanto se agachava para arrumar as malas.
— Ok vou pegar.
— Bia, me ajuda aqui.
Beatriz foi em direção à Neo.
— Põe essas garrafas e a comida na geladeira.
— Onde fica a cozinha? – Perguntou Beatriz.
— Procura aí, explora a casa.
— E a preguiça?!
— Anda logo.
Beatriz fez como Neo pediu e colocou a comida e as garrafas de Whisky, energético, refrigerante e Vodka na geladeira. Depois disso, ela começou a olhar a cozinha.
Era uma cozinha mediana, com geladeira à direita da entrada, fogão estilo cooktop em cima de uma bancada de mármore e armários na mesma parede do fogão, em cima e embaixo. Não tinha coifa e nem exaustor. A mesa de jantar ficava ao centro da cozinha com seis cadeiras na extensão da mesa quadrada também com tampão de mármore.
— Pessoal, vamos dormir um pouco para descansar da viagem e a noite a gente se reúne lá fora e arma uma fogueira – Disse Neo.
Após arrumar os colchonetes, pois as meninas não queriam dormir no chão, os três deitaram e Beatriz pegou o seu celular. Ao vê-la mexendo no aparelho, Luna o pegou e disse:
— Bia, você sabe o nosso combinado.
— Eu só ia ligar para minha mãe – Disse Beatriz.
— Ela sabe que estamos bem.
— Mas ela pediu para eu li...
— Beatriz Royce! Chega – Disse Luna guardando o celular de Beatriz num envelope e colocando dentro de uma caixa – Caso você não se lembre, estamos aqui para perder o estresse do dia a dia, relaxar num lugar calmo e deixar família de la...
— Ok, ok, ok, já entendi. Desculpa.
— Terminaram, Spyce Girls? Agora vamos dormir um pouco e depois vamos acampar lá fora.
Os três dormiram, exceto Beatriz que não conseguiu dormir. Sua ausência de sono se dava ao fato de ter dormido durante a maior parte da viagem. Ela decidiu se levantar e pegar algo para comer. Ela foi à cozinha, abriu a geladeira e pegou uma pequena barra de chocolate, abriu a embalagem e jogou fora. Sua mania de não conseguir comer algo com a embalagem sempre a fazia jogar a mesma no lixo imediatamente.
Após dar uma mordida, ela foi andando pela casa, tomando cuidado para não acordar os outros, foi quando ela viu a caixa onde estava o celular. Ela pegou a caixa, abriu e viu seu celular. Depois de pensar se pegava o celular ou não, o lado “correto” dela falou mais alto e ela colocou a caixa de volta no lugar e tornou a andar pelos cômodos. Ao adentrar no corredor frente à porta de entrada, podia-se observar dois cômodos, ambos eram quartos decorados de maneira muito semelhante. Uma cama de solteiro com uma escrivaninha ao lado, tapete verde no chão, um guarda roupas em black piano, uma televisão de tubo em cima da cômoda que ficava frente à cama.
Beatriz olhava as coisas do quarto à esquerda do corredor, abrindo cada gaveta e porta dos móveis, achando apenas algumas roupas empoeiradas pelo tempo que ficaram expostas à poeira. Ela repetiu o mesmo processo no outro cômodo, até que uma aranha subiu em sua mão. Ela então olhou para a aranha e a colocou perto de uma teia atrás da porta onde a mesma seguiu seu rumo. Ao continuar vasculhando, Beatriz passou a mão na cabeceira da cama, foi quando uma das partes da cabeceira caiu, assustando Beatriz. Era como se fosse uma tampa que revelou um espaço que parecia estar vazio, Beatriz, porém, foi até a cozinha, pegou a lanterna que havia trazido consigo e iluminou o espaço, até que viu uma pedra de cor avermelhada, ela então a pegou e analisou a pedra e viu algumas coisas estranhas gravadas na pedra que tinha formato de losango.
— O que isso está fazendo aqui? – Perguntou a si mesmo.
De repente alguém toca em Beatriz, fazendo-a se assustar e virar-se imediatamente.
— Sua vadia. Não faz isso – Disse Beatriz colocando a mão no coração, sentindo-o palpitar bastante forte.
— Calma, o que está fazendo? Está ligando para sua mãe? – Perguntou Luna.
— Não, só estou dando uma olhada na casa. Olha o que eu achei – Disse Beatriz mostrando a pedra à Luna.
— Nossa, será que é uma joia da família do Neo?
— Não faço ideia.
— Onde você achou?
— Estava escondido num compartimento na cabeceira da cama.
— Quem colocou aí não queria que a gente descobrisse.
— É o que parece.
De repente Neo aparece.
— O que houve meninas? – Perguntou ele se espreguiçando.
— Achamos uma pedra do seu avô aqui – Disse Beatriz entregando-lhe a pedra.
— O que é isso? Onde acharam?
— Na cabeceira da cama do seu avô. Tem umas coisas escritas nela.
— Parece latim.
— Você sabe latim, certo? – Perguntou Luna.
— Mais ou menos.
— Não vem com essa de mais ou menos. Você fazia curso de latim, ou entrou só por causa da Laila?
— Vai se ferrar. Laila é passado.
— Claro, depois do chifre que você le...
— Luna! Não quero falar sobre isso – Exclamou Neo.
— Ok, desculpa aí, touro.
— Luna...
— Luna, chega – Disse Beatriz – Ele não teve culpa de ter sido traído, se quer falar mal de alguém, fale da vadia da Laila que deu para metade do time de futebol.
— E ainda dá – Disse Neo – Agora silêncio que eu vou tentar traduzir.
Após alguns segundos olhando a pedra em todos os ângulos possíveis, Neo franziu o cenho.
— O que foi? – Perguntou Luna.
— Sei lá, aqui diz: Porta, Preato, Não vá.
— Preato? O que é isso? – Perguntou Beatriz.
— Não sou Wikipédia – Respondeu Neo – Provavelmente não é nada. Fique para você – Disse ele devolvendo a Beatriz – Agora vamos, já está anoitecendo, vamos montar a fogueira.
Os três então foram pegar todos os materiais para montar a fogueira e a tenda, assim como as bebidas e a comida. Já com os materiais em mãos, demorou menos de 30 minutos para tudo estar em seus devidos lugares.
Os três então colocaram colchonetes onde cada um iria sentar. Neo foi à tenda e pegou o seu violão.
— Desde quando aprendeu a tocar? – Perguntou Luna.
— Tem muita coisa sobre mim que você não sabe – Respondeu Neo.
— Oh meu Deus, você é gay também? – Disse Luna colocando a mão no rosto.
Neo olhou sério, fazendo as meninas rirem bastante enquanto ele ajeitava o violão.
— Vai tocar o que? – Perguntou Beatriz.
— One Direction.
— Está de sacanagem, não é?
— Brincadeira, vai ser uma música do Matisyahu que eu ouvi recentemente. Ouçam.
Neo então começou a tocar uma música, cuja letra dizia:
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“Keep on moving till the first rays of dawn”
(Continue andando até os primeiros raios da aurora)
“Keeping it on till the days stay strong”
(Continue assim até os dias se firmarem)
“Running till the night time blazes on”
(Corro até que a noite comece a brilhar)
“All along I keep singing my song”
(O tempo todo eu continuo cantando minha canção)
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Até que foi interrompido por Luna.
— Espera, espera, espera, espera. Que voz é essa?
— O que foi? Estou cantando mal? – Perguntou Neo.
— Não, não está, e esse é o problema. Você nunca cantou bem assim, não é Bia.
Beatriz continuava olhando para a pedra.
— BEATRIZ! – Exclamou Luna.
— Oi, o que foi? – Perguntou Beatriz.
— Você ouviu a voz do Neo?
— Claro que sim, ele sempre cantou desse jeito, você que nunca ouviu.
— Porque você já ouviu e eu não?
— Porque eu sou legal e você um pé no saco.
— Isso é verdade Neo?
Neo pensou em responder, mas Luna foi mais rápida.
— Fala que sim senão eu quebro esse violão na sua cabeça.
— Bia, o que você tanto olha nessa pedra? – Perguntou Neo.
— Não sei, tem alguma coisa de errado com ela.
— Tem algo de errado com você. É só uma pedra.
— Você disse que seu avô havia enlouquecido e ficou falando sobre uma porta.
— Eu já sei aonde isso vai levar – Disse Luna – Bia, você tem que parar com essa sua mania de acreditar em coisas impossíveis. Você acredita até na paz mundial. E não me venha com essa de querer sair por aí na noite procurando uma porta. Se você quer uma porta, pegue a da entrada e leve para casa.
— Ah é, já que é uma coisa da minha cabeça, então por que essa pedra estava escondida na cama?
— Porque o meu avô tem esquizofrenia, Bia – Disse Neo guardando o violão, tornando a olhar para Beatriz – Não vamos começar com isso.
— Por que vocês acham que eu tenho problemas? Pessoal, isso não é estranho? Uma pedra vermelha dizendo sobre uma porta e um aviso, já não significa algo? Neo, quando seu avô enlouqueceu?
— Olha, Bia...
— Fala logo.
Neo respirou fundo olhando para os lados e não respondeu.
— Deixa eu adivinhar: foi logo depois dele ter falado sobre essa pedra, não é?
— Ok, droga, você venceu – Disse Neo levantando pegando uma lanterna e um taco de basebol – Vamos procurar essa tal porta.
— Para que o bastão? – Perguntou Luna.
— Não vou sair por aí a noite desprotegido.
— Ah claro, grande proteção: você e um taco de basebol.
Beatriz riu.
— Já chega, vamos logo, mas se não acharmos nada, voltaremos à tenda e seguiremos o roteiro, entendido?
— Sim, diretor – Respondeu Luna.
Os três então começaram a vagar pela floresta com suas lanternas. Neo ia na frente e as meninas iluminavam o caminho, tomando cuidado para não cair em meio às inúmeras raízes de árvores. Até que Luna pisa em alguma coisa que faz um barulho contínuo de galhos quebrando, logo em seguida, o pé de Luna é preso numa corda e ela é puxada para cima enquanto gritava de desespero.
— Me tirem daqui!
— Calma Lu, vamos te ajudar. Fique calma e pare de balançar – Disse Neo tentando subir na árvore.
De repente, um barulho de tiros fez com que os pássaros voassem, e tudo ficasse silencioso após o barulho de bater de asas das inúmeras aves que descansavam nas copas das árvores.
Os três se entreolhavam, assustados.
— Fica perto de mim, Bia – Disse Neo indo para trás da árvore com Beatriz.
— Pessoal, não me deixa aqui! – Gritava e chorava Luna.
— Fica calada, a gente está aqui – Sussurou Beatriz.
Todos os três ficaram calados enquanto um barulho de folhas denunciavam pegadas de alguma coisa vindo em direção deles. A medida que o barulho aumentava o medo dos três quase se tornava palpável. A aflição de Beatriz e Neo só aumentava pelo fato da amiga estar presa, e eles tinham que tirá-la o mais rápido possível.
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