O Abismo de Om

19 Capítulo 18. A Luz que Desperta 9


Notas iniciais
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Roset sentiu o corpo dormente e a cabeça pesada, mas seguiu Wood na gargalhada.

— Queria ter visto a cara do homem — comentou ela, ainda em repouso na cama.

Bart entregou a ela um prato cheio de comida.

— Consegue usar o braço? — perguntou, juntando-se à conversa.

Ela tentou, com enorme dificuldade, controlar a respiração.

— Mais ou menos — respondeu. — Me ajuda a comer?

O constrangimento buscou espaço no rosto do homem, mas ele o conteve bravamente. Sentou-se em uma cadeira, em frente à mulher, e, sem hesitar, a alimentou como um bom samaritano o faria.

Wood, ainda rindo, indicando o braço ferido da moça, comentou: — Tá quebrado?

Ela terminou de mastigar, engoliu e olhou para o braço esquerdo inchado e enfaixado.

— Sim, trincado no mínimo — afirmou, consciente da dor que sentia.

— Ele pagou, né? — perguntou Roset, curiosa. — Ou fugiu levando a carga embora?

Diante do susto, seria até razoável se ele esquecesse, refletiu Bart, abaixando a cabeça. — Ele é um bom homem, pagou sim, até mais do que deveria.

— E fez mais uma encomenda! — completou o Rubro.

Nesse instante, à porta, ouviu-se o som de garras e um miado sonoro.

— Chegaram — constatou Roset.

— Quem? — indagou o lenhador.

— Os entregadores — disse, e, com a voz doce, requisitou.

— Abra a porta, Wood.

Quando o rapaz abriu, dessa vez, deparou-se não com um gato, mas com uma legião de felinos à espera. Alguns deles traziam frascos entre as presas.

— O que é isso? — perguntou o rapaz. Enquanto falava, dezenas deles entraram sem se preocupar com a etiqueta.

Subiram na cama; outros se sentaram, alguns coçaram as orelhas. Eram de cores e tamanhos diversos. Wood e Bart nunca haviam visto tantos gatos em suas vidas.

— Bem que o Alguero comentou que os gatos da cidade estavam meio loucos — riu o homem, sem se surpreender com a invasão repentina.

— Eles estão preocupados.

A moça acariciava a cabeça de um dos felinos que lhe entregara um pequeno frasco.

— O que é isso? — perguntou Wood, andando com cautela para não pisar involuntariamente em nenhum dos incontáveis rabos peludos.

Roset virou os olhos e respondeu sem tremer na voz: — Uma poção.

Pai e filho se entreolharam.

— Isso não é… bem caro — gaguejou o homem.

Medelin abriu o frasco, colocou o líquido sobre os lábios e o sorveu lentamente.

Na ausência de qualquer resposta, o silêncio se intensificou pesadamente, ao mesmo tempo que se emaranhava nos múltiplos miados e ronronares.

Um jovem gato malhado em branco e preto subiu na cama e depositou mais um pequeno frasco próximo à mão da mulher. Dentro do vidro, um vívido líquido azul reluzia. Foi seguido por mais três felinos, que fizeram o mesmo.

Wood coçou a cabeça e olhou janela afora. Bart pigarreou, mas não conseguiu formular adequadamente as palavras. Então desistiu.

Por fim, Wood quebrou o silêncio.

— E a loba que estava aqui mais cedo? O que aconteceu com ela? — perguntou, tentando ignorar a situação.

A mulher aceitou a deixa.

— Ah, ela já voltou da cidade, acho que em breve deve retornar com os amigos.

Dessa vez, Roset abaixou o rosto e evitou encarar os presentes.

— Amigos?

Bart não conseguiu conter a ansiedade intensa na voz.

Medelin continuou acariciando com amabilidade a cabeça de um dos gatos que requisitavam sua atenção.

— A alcateia — respondeu ela, com naturalidade.

— Logo vamos receber como visita a floresta inteira — brincou o Rubro, sem saber exatamente o que dizer naquela situação.

Roset encarou-o com um misto de culpa e raiva.

— Não… eu não me dou bem com aves — confessou.

As paredes de pedra escura eram iluminadas por um fraco feixe de luz que entrava por uma diminuta janela escavada próxima ao teto; sobre o chão, o sangue seco dos experimentos se misturava ao mofo verde-musgo, principalmente nas arestas laterais. Ao seu redor, barras de ferro grossas o cercavam, prensando-o em uma jaula onde mal cabia o corpo. Estava imóvel, contido, e toda a sua atenção direcionava-se para o homem que o acompanhava. Ele estava magro demais, preso por correntes a uma cama de pedra fria. As grades eram espessas, e o corredor para além delas estava preenchido pela bruxuleante ondulação da luz de velas acopladas em hastes metálicas fixadas na rocha.

O tempo transcorria lentamente em mais um eterno dia que nunca começava, nem podia terminar. Ecos solitários invadiam os sentidos diligentemente, forçando a realidade a amaldiçoar o destino.

Wood estava deitado na cama. Os primeiros raios da manhã entravam pela janela e preenchiam o quarto simples e aconchegante. Não se surpreendia mais com os sonhos, mas, absolutamente, incomodava-se.

Alguns dias já haviam passado desde a fatídica luta contra os lobos. Suas feridas quase não doíam mais.

Levantou-se para apreciar a manhã gélida da montanha. No quintal, avistou, próximo à orla da floresta, uma dezena de lupinos que descansavam sob a sombra. Próximo à carroça, um urso-pardo cochilava. E ao menos uma dúzia de gatos corriam perseguindo uns aos outros à lateral da cabana do pai.

Caminhou até o estábulo, soltou Cavam da baia e lhe ofereceu feno fresco; depois dirigiu-se até a caixa d’água na extremidade direita da cabana central e encheu um balde para oferecer ao equino.

Na varanda da cabana de frente para a colina que descia em direção à estrada, encontrou Bart, que estava de olhos fechados em uma profunda meditação matinal. Parado calmamente no mesmo local, ao lado do parapeito, um alce adulto de volumosa galhada estava deitado.

Maravilha — pensou o rapaz, sentando-se no degrau da varanda.

Os pássaros cantavam ao longe. Ao menos eles não faziam parte da nova coleção de animais “selvagens”, que aumentava a cada dia.

A porta da casa abriu-se e a mulher, adornada de um belo vestido azul bordado com flores esverdeadas, surgiu de seu interior. Os cabelos soltos ondulavam sobre os ombros.

— Bom dia, Wood — cumprimentou Roset. — Entre, coma alguma coisa! — disse, convidando-o.

— Bom dia — respondeu o rapaz, aceitando o convite. — E a mão? Tá tudo bem?

Ela balançou o braço esquerdo livremente, movendo os dedos.

— Como nova, apesar da cicatriz — reclamou Roset, que agora tinha o antebraço marcado por orifícios na superfície da pele.

— O pai já comeu? — perguntou o Rubro.

Roset encarou a mesa e virou o rosto parcialmente, demonstrando a contrariedade no olhar.

— Ainda não, mas ele vai — afirmou ela, com o punho fechado no encosto da cadeira.

— Fiz pão. Espero que goste — ofereceu Medelin, alterando a expressão para um sorriso.

Wood apreciou a lustrosa superfície do alimento por um instante, deixou o aroma invadir os pulmões e agradeceu pela presença da digna mulher com quem agora compartilhava o dia a dia.

— Maravilha — respondeu o rapaz, sentando-se à mesa.