O Abismo
3 Regrinhas Básicas
Notas iniciais
Todos os iniciandos foram guiados pelos dois membros da Audácia que estavam na plataforma para um túnel estreito e mal iluminado. O lugar é todo de pedra, afinal estamos em uma caverna, e o túnel parece ir cada vez mais fundo. Em algumas partes, fica completamente escuro.
Zia anda ao meu lado, mas não falamos nada. Enquanto eu estou curiosa com tudo, ela está um pouco mais dispersa, afinal já conhece o lugar. Os dois membros param de andar e nós os imitamos.
─ Vamos nos separar aqui ─ diz a garota com os piercings na sobrancelha que me tirou da rede. ─ Os iniciandos que nasceram na Audácia, venham comigo.
Metade de nós juntou-se na frente da jovem.
─ A gente se vê ─ disse-me Zia, e depois ela sumiu com o resto dos nascidos na Audácia.
Quando todos desaparecem na escuridão, o cara gato faz um som com a garganta e todos nós olhamos para ele.
─ Durante a iniciação de vocês, serei seu instrutor ─ diz ele. A voz dele é profunda. Ele não poderia ser mais gato. ─ Meu nome é Quatro.
Tento segurar uma risada. Quatro? Que diabo de pessoa se chama Quatro? Posso perceber que os audaciosos não são esquisitos apenas na maneira de se vestir.
─ Vou mostrar a vocês o Fosso, que será parte da vida de vocês a partir de agora ─ ele explica, a voz dele ressoando no túnel. ─ É no Fosso que vocês vão passar a maior parte do seu tempo livre durante a iniciação.
Ninguém fala nada enquanto Quatro empurra uma porta dupla e nos adentramos o tal Fosso.
O lugar é incrível. Não é nada como qualquer coisa que eu já tenha visto na vida. É uma caverna subterrânea tão grande que mal consigo ver o outro lado (minha visão não é a das melhores, também). Há espaços reservados para comida, roupas, acessórios, atividades para lazer e outras coisas construídos nas paredes de pedra. Esses lugares eram conectados por passagens estreitas e degraus esculpidos na pedra, tudo sem nenhuma barreira para nos impedir de despencar. O teto do Fosso eram todo de vidro para permitir a entrada à luz e, acima do vidro, havia um edifício. Os caminhos de pedra são iluminados por luminárias azuis que ficam mais fortes à medida que o dia vai escurecendo.
O lugar parece uma bagunça cheia de pessoas de preto. É maravilhoso.
─ Sigam-me ─ diz Quatro, tirando minha atenção do Fosso ─, vou mostrar-lhes o Abismo.
O seguimos até o lado by InstantSavings\">direito do Fosso, que está completamente escuro, até que alcançamos uma grade de metal. Olho para baixo. Há um desfiladeiro íngreme e um rio feroz a metros abaixo, sua água chocando-se violentamente contra rochas.
─ O abismo serve para nos lembrar de que há um fino limite entre a coragem e a estupidez ─ ele tenta gritar mais alto que o barulho do rio. ─ Esse abismo já tomou muitas vidas e isso continua acontecendo. Cuidado.
O único barulho que ouço é do rio. Sinto-me desconfortável com o silêncio, e principalmente porque não tenho ninguém para conversar. Sou meio tagarela, não posso negar, e me ver assim, no meio de desconhecidos, não é confortável. Eles não são como na Amizade, que se você não conhece alguém, isso é só mais um motivo pela qual você precisa ir falar com eles. Aqui não temos que ser amigos, temos que tomar cuidado um com o outro.
O problema é que não lido muito bem com a solidão.
Quatro nos leva para um buraco enorme na parede, um lugar bem iluminado e cheio de mesas e cadeiras ─ um refeitório. Ótimo, estou morrendo de fome. Logo quando entramos, as pessoas se levantam e comemoram no seu jeito selvagem novamente. Naturalmente, estou rindo de novo.
Encontro Zia em uma das mesas no refeitório, mas ela está conversando energicamente com outros membros da Audácia e prefiro não me intrometer. Procuro uma mesa vazia, mas todas parecem ter algum grupinho. Se vou ter que sentar com alguém, procuro alguém que seja da minha turma de transferidos, já que uma hora ou outra terei que fazer amigos.
Alguns segundos depois, reconheço alguns em uma mesa no canto, onde estão sentados a garota transferida da Erudição que foi a primeira a pular do telhado e um outro rapaz de cabelos cacheados e acaju usando as roupas brancas de pretas da Franqueza. Torci para que não fosse um casal.
─ Posso me sentar aqui? ─ pergunto a eles.
Eles param de conversar e me encaram. Por um momento, achei que eles fossem me chutar dali, principalmente pelo fato que um deles era da Franqueza. A Franqueza e a Amizade sempre tiveram uma grande rivalidade.
─ Claro ─ diz o garoto com cabelos acaju, sorrindo. Ele dá uma olhada na garota da Erudição e depois em mim. ─ Quanto mais garotas bonitas, melhor.
─ Ei! ─ protesto, mas a garota só solta uma risada entediada, como se dissesse Já estou acostumada.
─ Desculpinha, desculpinha! ─ ele diz, rapidamente. ─ Meu nome é Carter.
Dou uma risada e sento-me ao lado da garota.
─ Sou Amber ─ apresento-me aos dois.
Carter tem olhos em um tom de azul como água cristalina e a pele dele é tão pálida e translucida como a da garota da Erudição. Ela, inclusive, é ainda mais bonita de perto. Ela tem sardas no rosto, olhos amendoados e lábios e bochechas naturalmente rosados.
Estou sentada em uma mesa que só tem gente bonita. Maravilha.
─ Meu nome é Susana ─ a garota se apresenta, sorrindo.
Susana e Carter comem hambúrgueres. Percebo que, por enquanto, carne é a única opção que tenho. Só comi hambúrguer antes uma vez e não gosto muito. É meio, sei lá, gorduroso? Posso não me encaixar em nenhum aspecto da Amizade, mas prefiro muito mais a comida saudável de lá.
Depois de dar uma mordida, logo sinto saudade dos sanduíches naturais.
─ Não vejo a hora de fazer uma tatuagem ─ disse Carter, animado. ─ Você precisa fazer uma, Susie, vai ficar ainda mais sexy.
Não pude deixar de rir. Susana parou o hambúrguer a caminho da boca e olhou para cima, balançando a cabeça.
─ Eu não sei se dou risada ou um chute no seu traseiro ─ ela ameaçou.
─ Está vendo, só? ─ disse Carter para mim ─ Eu elogio e ela ameaça me espancar, então se eu dissesse que ela tem o temperamento de um animal...
─ Carter ─ chamou Susana, com um sorriso no canto da boca, mas falando sério ─, e calar a boca, você vai?
Carter fez uma careta e continuou a comer. Susana comentou algo sobre pessoas que deviam ter vergonha na cara, enquanto Carter gritava indignado “ei!”.
─ Aaaaaaah, então a carapuça serviu, é? ─ Susana o provocava.
Perguntei-me se eles já eram amigos há um tempo, pois eles pareciam tão confortáveis um com o outro que era difícil de acreditar que se conheceram hoje. Carter dava em cima de Susana de um jeito tão descarado, e ela agia de uma forma tão natural com isso que eles só podiam ser amigos.
Mas eles eram de facções diferentes. Mesmo na escola, onde a gente convive com os adolescentes de outras facções, nós geralmente não nos misturamos.
─ Vocês já se conhecem? ─ perguntei, não conseguindo controlar a curiosidade. ─ Digo, antes de virem para a Audácia, vocês já se conheciam?
Susana solta uma risadinha.
─ Infelizmente conheço Carter há um ano ─ ela diz.
─ Se você lida comigo desde então e ainda está inteira, acho que você venceu na vida ─ Carter diz.
─ Não se ache tão importante, Carter, você não vale nada.
─ Meu Deus, é muito amor para pouco eu! ─ Carter exclama, olhando para cima e balançando a cabeça com a boca aberta, e depois dando batidas leves com a mão direita em seu peito. ─ Mas não se preocupem, tem um espaço especial no meu coração para cada um de vocês.
Susana e eu rimos de deboche. Carter não consegue fingir estar com raiva por muito tempo e acaba rindo também.
─ E você quer saber como conheci Susana? ─ Carter disse. ─ Tínhamos aula de História das Facções juntos. Ela era a ‘nerdona’ da sala, mas ela sempre usava batom vermelho e roupas que deixavam as pernocas à mostra para ficar exibindo por aí. Acho que foi por isso que eu tirei notas tão ruins na matéria...
─ Carter, pelo amor de Deus! ─ Susana deu um soco no braço do garoto, fazendo-o se contorcer e ela ficou ligeiramente corada.
Eu sentia dor no estômago de tanto rir. Carter fez uma cara de ingênuo dizendo “ooooooh, não fique tímida”, colocou um braço em torno de Susana e depositou um beijo em sua bochecha, enquanto ela o dava um safanão. E logo depois os dois estavam rindo comigo, como um trio de retardados.
Depois de comemos, um cara com cabelos pretos, longos e ensebados e inúmeros piercings no rosto nos guia por vários corredores escuros como aquele que a gente seguiu até chegar ao Fosso. Quando chegamos a uma porta de madeira, ele para e nos encara, e nós nos aglomeramos em torno dele.
Percebo que todos nós estamos um pouco tensos, mas com os olhos frios dele pairado sobre nós, é difícil se manter tranquila.
─ Meu nome é Eric ─ ele se apresenta. ─ Sou um dos líderes da Audácia. Aqui, levamos a iniciação muito a sério, então eu sugiro que vocês deem o melhor de si se quiserem continuar aqui. Não serei um de seus instrutores, mas quero deixar bem claro que estarei de olho em todos vocês.
Ninguém diz nada. Ao meu lado, Susana está com as sobrancelhas arqueadas, em uma expressão tensa e meio orgulhosa, ao mesmo tempo.
─ Temos algumas regrinhas básicas aqui que devem ser seguidas ─ Eric continua. ─ O treinamento começa todos os dias às oito da manhã, e essa é o horário que vocês devem estar na sala, sem atrasos. O treinamento dura até às seis da tarde, com uma pausa para o almoço. A partir das seis, vocês podem fazer o que quiserem. Exceto, é claro, sair do complexo. Vocês só tem autorização de sair do complexo com algum membro efetivo da Audácia. Entre um estágio e outro da iniciação, há intervalos.
“No primeiro estágio da iniciação, os iniciandos nascidos na Audácia e vocês ficarão separados, mas vocês não serão avaliados separadamente. Então eu espero que trabalhem duro, pois eles já estão em vantagem em questão a isso. As classificações são muito importantes.”
Não sei se entendi direito. Classificações? Como assim?
─ Desculpe ─ minha curiosidade entra em ação novamente ─, como assim seremos classificados?
Ele ergue uma sobrancelha, que repuxa um de deus piercings e dá uma risadinha maléfica.
─ Primeiramente, as classificações definirão os empregos futuros de vocês ─ ele explica, parecendo divertido. ─ Quanto maior a sua posição, melhor será o cargo que você poderá exercer. E, também, porque apenas dez de vocês irão conseguir passar pela iniciação. Posso dizer, desde já, que não será fácil, transferidos. Há um número maior do que o usual de iniciandos. São treze de vocês e mais doze nascidos na Audácia. Isso quer dizer que, no final, mais da metade de vocês terá se juntado aos sem-facção. Eliminaremos alguns de vocês no final do primeiro estágio, e o restante será eliminado na classificação final.
Meu estômago embrulha. Sinto vontade de vomitar, e tenho certeza que isso não tem nada a ver com o hambúrguer que comi. Ele nos encara com as sobrancelhas erguidas, parecendo esperar que um de nós comesse a chorar.
─ Este aqui é o dormitório onde vocês ficarão pelas próximas semanas ─ ele explica, enquanto abre a porta de madeira. ─ Vocês podem se acomodar e dar uma volta pelo complexo se quiserem. O treinamento começa amanhã.
Ninguém foi dar uma voltinha por aí. Todos simplesmente entraram no quarto e escolheram seus beliches, calados. Guardaram suas coisas, calados. Vestiram as roupas pretas da Audácia, calados. Nem mesmo Carter, que parece não parar quieto. Nem mesmo Susana, que parecia tão confiante. Susana e eu estamos dividindo um beliche; eu na cama de cima e ela na de baixo. Ao lado do meu, Carter divide o beliche com o garoto da Franqueza que foi o primeiro a pular dentro do trem.
No fundo do quarto, há um espelho. Antes de tirar minhas roupas da Amizade, dou uma olhada em mim mesma. Não sei por que, mas tenho a impressão que nunca mais terei a mesma aparência que tenho agora.
Minha pele é bronzeada de tanto ficar à luz do sol na Amizade e meu cabelo é espesso e longo, louro-escuro. Meu rosto é arredondado e meus olhos são castanhos. Quase toda minha vida eu desejei ter a aparência bela e exótica da minha mãe, mas, naquele momento, fiquei feliz por não tê-la. Afinal, se eu os tivesse, toda vez que eu me encarasse no espelho, eu se lembraria dela.
Tirei as roupas com as cores da Amizade e vesti as novas, pretas, que ficaram largas em mim. Não me olhei mais no espelho. Subi para a cama e deitei, tentando ignorar os soluços que alguém soltava de vez ou outra.
Susana e o cara da Franqueza que dividia o beliche com Carter conversavam algo nas camas de baixo. Acho que o nome dele é Leonard, mas não tenho certeza. Eles falavam alto o suficiente para eu reconhecer suas vozes, mas baixo demais para eu conseguir entender o que falavam.
Eu estava com medo. Perguntei-me se meu primo conseguiu passar pela iniciação da Audácia ou se agora ele é um sem-facção, rondando pela cidade em procura de comida. Faz tanto tempo que eu não o vejo que quase nem consigo lembrar-se das feições de seu rosto. Mas lembro-me de como minha tia ficou triste quando ele deixou a Amizade.
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