O último menino perdido
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Sou uma grande fã de Peter Pan, é meu conto de fadas favorito! O menino nunca cresce... É um sonho...
Ele é folgado, valente e super protetor com os meninos perdidos... Bem, é um personagem que eu admiro muito hehe.
Eu já havia escrito esse texto há muito tempo e ele estava guardado em meu caderninho de ideias, e agora estou finalmente retirando a poeira dele. Essa história existe desde 23/março/2013 e eu criei enquanto estava distraída na aula de TCC do curso de administração...
Espero que gostem!
Beijão! :3
Era inverno e os céus choravam, derramando sua fúria sentimental em forma de flocos puros de neve. O vento açoitava o rosto juvenil, que buscava ao máximo cobrir-se com o pedaço de pano que gentilmente chamava de cachecol. Nos bolsos, alguns pedaços de pão se acomodavam, e o maior medo do rapaz era que existisse algum furo e todo o jantar dos meninos estaria perdido.
As roupas, em sua maioria na cor verde, estavam pequenas e em farrapos, apertando e demarcando a silhueta masculina. Seu corpo não era mais o mesmo de quando tinha treze anos. Ele estava se transformando em um homem. Alguns fiapos ruivos que ameaçavam crescer na pele suave e levemente corada e a voz que vez ou outra tremulava quando ia pregar um sermão em Curly, ou em qualquer um dos seus meninos, indicava isso. Ele estava entrando para a adolescência e em breve seria homem feito.
- Não enxergo nada! Essa tempestade está muito mais forte desde quando eu saí... Oh céus, tomara que Nibs tenha dado conta do recado! – o rapaz apertava o cachecol contra o rosto e de todas as formas tentava prender o gorro esverdeado e encardido na cabeça.
Peter Adams Pan é um rapazinho de bela aparência. Nariz arrebitado, cabelos lisos e ruivos, quando mais jovem a aparência acentuada lhe dava um ar de elfo, ou de alguma criaturinha mágica, e tal como sua aparência, ele acreditava realmente ser mágico e que ainda nesse mundo triste existia algum resquício de magia.
Todas as noites ele contava histórias sobre uma terra encantada, chamada por ele de “Terra do Nunca”, o lugar onde todos os nossos sonhos infantis habitam, cujas praias são habitas por sereias que penteavam suas longas cabeleiras nas pedras e que ao anoitecer mergulhavam para o fundo do mar, indo para suas casas submersas, onde todas possuíam uma pequena sineta que indicava o fluxo dessas criaturas encantadoras.
Entre os arvoredos do central Park, debaixo de uma árvore de chorão, os meninos se abraçavam, buscando assim um transmitir seu calor para o outro. Os gêmeos, Nibs, Curly, Tootles, Slightly, todos formavam um círculo fechado, onde murmuravam vez ou outra sobe a demora de Pan.
- Minha mãe a esta hora deve estar preocupada comigo – Slightly murmurou mais para si do que para os outros ao seu redor – lembro-me que ela sempre me trazia uma boa caneca de chocolate quente antes de dormir em noites frias como essa.
- Calado Slight! Você não se lembra disso, você também é um menino perdido, como todos nós! Não tente bancar o especial, falando idiotices como essas! – Curly disse entre dentes.
Assuntos como mães e seus hábitos eram extremamente sensíveis naquele núcleo. Todos se perguntavam por que eram meninos perdidos, e porque suas mães nunca foram procurar por eles. Segundo Peter, “as mães eram sapas desprezíveis”. Todos vagavam pelos bairros de Nova York, eram crianças que caíam de seus berços e carrinhos de bebê quando suas babás ou mães não estavam atentas.
Slightly fungava, o choro estava prestes a vir. Por mais que todos detestassem as mães, de alguma forma eles adorariam ter carinho, alguém para afagar-lhes os cabelos, alguém para abraçá-los e para dizer que os monstros não existiam. Porém o garotinho era um menino perdido, ele não iria chorar na frente dos outros, então tratou de retirar o braço que estava envolvendo um dos gêmeos e com a manga do casaco limpou o nariz, fingindo estar resfriado.
- Peter chegue logo... – disseram os gêmeos.
E eles tinham essa mania, de sempre falarem juntos. Entretanto ninguém sabia realmente se eles combinavam com olhares ou se realmente possuíam a estranha conexão que os gêmeos têm.
(...)
Peter Pan sentia o vento levemente o empurrando para trás. A caminhada parecia demorar cada vez mais, e agora seus dedos – antes avermelhados pelo frio constante – estavam roxos, quase sem movimentos, envolvidos em um torpor desesperador.
E o torpor subia para os braços, dos pés subia para as pernas e pouco a pouco o dominava. Cambaleando, segurou-se em um poste de luz. Dias de fome, longos períodos sem água em conjunto com a neve, consumiam as energias do Pan, cada vez mais zonzo e debilitado.
- Anda Peter! Curly, Nibs, Slightly e os outros estão te esperando!
Engoliu seco e buscando ficar ereto, continuou sua caminhada, lutando contra as forças ferozes da natureza.
Faltavam algumas quadras para alcançar o central Park. E mentalmente Peter amaldiçoou a escolha do local. Durante a tarde o frio era suportável, e ele e os meninos passaram algumas horas agradáveis jogando baseball.
O chorão talvez estivesse protegendo os garotos do vento e da neve... Apertou mais o passo. Tudo estava gloriosamente coberto de branco. Como se a Terra fosse um enorme globo de neve e Deus o estivesse chacoalhando lá de cima, apreciando os flocos caindo lentamente sobre a pequena cidade iluminada.
Um som de passos. Quem seria louco além do ruivo de sair naquela nevasca? Caçou com o olhar algum vulto, poderia muito bem ser um pobre cachorro desprevenido. Em frente ao central Park, havia uma loja, e o som da sineta chamou a atenção do rapazinho. Rapidamente virou-se para ver que entrava tão tarde lá. Era um velho gordinho, trajando um sobretudo e gorro vermelho. Era o velho Smee, e este acenou cordialmente para o jovem, que retribuiu o aceno com a cabeça.
Caminhando na direção dele, Smee ergueu as mãos e mostrou um saco cheio, com o logotipo da loja de rosquinhas.
“Puxa cara! Que sorte! Valeu a pena passar por isso!” – Peter Pan pensava, exultante.
Eis que a porta do estabelecimento se abriu e de lá saiu um homem de longos cabelos negros, bigode fino e expressão espanhola. O rosto levemente pardo não era comum diante de tantos americanos de pálidos semblantes. Quando ninguém olhava, o homem que os meninos e Peter Pan apelidaram de “Capitão Gancho” apreciava música erudita e seus olhos eram azuis.
Porém quando se deparava com crianças, sua feição mudava e os calmos e profundos olhos azuis transformavam-se em vermelho, tingido de pura maldade.
Lentamente o homem, aleijado de uma perna, aproximou-se do velho Smee. Seu sorriso já precedia suas ações. Peter sorriu também, demonstrando que não sentia medo daquele maldito homem.
Mesmo que o odiasse “o franguinho do Pan”, Gancho via um pouco de si no valente rapazinho. Ele não tinha medo, protegia os meninos que andavam sempre ao redor dele, sem se importar com os danos, consequências.
- Boa noite, Senhor Pan – saudou cordialmente o jovem ruivo, com uma mesura ensaiada.
- Boa noite, Gancho! Como vai a mão? – disse ácido, provocando o homem.
- Oh! Está bem melhor que o seu estômago – um a zero para Gancho – bem Smee, o que você ia fazer com esse saco de... Rosquinhas? – abriu o saco e analisou seu conteúdo.
Diversas rosquinhas com os mais incríveis recheios e sabores combinados, com coberturas exageradas que fariam o olho de qualquer criança cintilar.
- Eu ia dar para o jovem Pan, mestre – Smee apertava uma mão contra a outra, nervosamente. Peter sequer entendia o porquê de um homem bem mais velho que Gancho ter tanto medo e não entendia também porque Smee sempre chama Gancho de mestre.
- Disse certo Smee. Ia.
Despejou as rosquinhas no chão, e uma após a outra foram esmagadas pelas botas de neve do homem. Peter olhava para o alimento como se ali no chão fosse sua própria alma sendo esmagada por aquele demônio. Tão cruel! Tão maldito! E ele gargalhava até pequenas lágrimas brotarem dos olhos vermelhos e maus.
- Maldito! Que você sofra amargamente nas chamas do inferno, Gancho! – cada sílaba disparada pelo moleque ruivo eram carícias para os ouvidos do homem, e ele implorava por dentro para que Pan continuasse a amaldiçoá-lo.
Enfim se cessaram os risos exagerados.
- Vamos Smee, hora de entrar – disse, virando-se em direção a porta de sua loja de antiguidades.
Antes de ir, Smee murmurou um sincero pedido de desculpas. Peter deu de ombros.
Depois que os dois homens adentraram em seu lar e negócio, Peter chutou nervosamente os restos de rosquinhas. E vencido pelo cansaço caiu de joelhos no chão, soluçante, sentindo-se inútil.
As lágrimas logo perdiam o calor e transformavam-se em gotas geladas, levadas pela força do vento. E ele se sentiu parte daquela tempestade. Agora ele e a Terra estavam derramando suas lágrimas puras e carregadas de dor em toda a humanidade.
(...)
Ao longe, Nibs encarava os portões do parque, esperando qualquer sinal de Peter. O menino cerrava os olhos e encobria a fronte, tentando impedir a neve de acertar-lhe no rosto e nos olhos. Com passos trôpegos, uma silhueta caminhava até onde os meninos estavam.
Nibs cruzou os dedos e torceu para que fosse o mais velho dos meninos perdidos. E sim, para a alegria do menino era Peter Pan e rapidamente Nibs se dispôs a caminhar e logo já estava correndo. Abraçou o amigo:
- Puxa! Ficamos assustados, Peter! – o pequeno deu um soco de leve no ombro de Peter.
- Eu disse que voltaria! Alguma vez eu descumpri alguma promessa? – o silêncio de Nibs foi a resposta que Pan esperava.
Os restos de pão endurecido que a padaria havia lançado fora ainda estavam lá no fundinho dos bolsos do ruivo e ao sentir os pedaços entre seus dedos, suspirou tranquilo. Era o suficiente para os seis meninos comerem e forrarem os estômagos miúdos.
Pegando o braço de Peter, Nibs envolveu seus ombros e assim o rapaz conseguiu andar rapidamente. O frio não perdoava, castigava as árvores com seus ventos impetuosos. Mordia a mão dos meninos ao tocarem na neve incrivelmente gelada, causava aquela dor lancinante, corroendo as juntas, fazendo o pulmão puxar oxigênio mais rápido, diminuindo os reflexos dos pequenos.
(...)
- Obrigado pela refeição, Peter! – os pequenos gritaram em coro.
E um calorzinho instalou-se no interior do mais velho. A sensação de dever cumprido fez as bochechas tão frias e sem cor esquentarem, distribuindo aquela sensação feliz pelas orelhas e pelo tórax do garoto. A felicidade era quente e se encontrava nos olhares agradecidos dos mais novos, no abraço que eles trocavam para manter seus corpos infantis aquecidos.
Dentro do bolso de Peter, os dedos encontraram uma superfície ríspida e retangular. Curioso e procurando lembrar-se o que era aquilo, ele puxou para fora: era uma caixa de fósforos. Chacoalhou suavemente e o choque dos palitos contra as paredes da caixinha indicou que ela não estava vazia.
Era a hora da história.
- Rapazes, vocês se lembram de tudo o que eu contei para vocês? – um sorriso trêmulo dançava nos lábios ressequidos de Peter Pan – sobre as maravilhas da Terra do Nunca e de minha fada companheira, aquela fadinha que ajuda os ciganos a consertarem suas panelas?
- A sininho? – Tootles indagou timidamente.
- Sim, ela mesma, e hoje ela nos fará uma visita especial!
As bocas dos meninos perdidos estavam em um formato de “O”. Eles não duvidavam de Peter. E se duvidassem da existência de uma fada isso causaria a morte dela. Mas em nenhum momento a dúvida passou pelas mentes fervilhantes deles. Estavam ansiosos para conhecer a fadinha de nariz arrebitado.
O som de palito de fósforo sendo riscado. O cheirinho gostoso da resina sendo queimada junto com o palito. A face dos meninos foram iluminadas por aquela chama trêmula:
- Digam olá para sininho! – ordenou o líder dos meninos.
- Olá sininho! – um a um saudou a chama.
Eram tão inocentes crianças que se permitiam imaginar uma fada brilhante em frente a eles. Banhada em toda a magia que corria pelo pequeno corpo dela.
- Estão vendo o brilho? É pó de fada, meus caros. Se um pouquinho respingar em vocês, com certeza poderão voar para o mais alto que imaginarem. Porém só irá funcionar se vocês tiverem alegria, fé e pensamentos bons.
Um vento forte enfim apagou o fósforo. Ou simplesmente ele apagaria sozinho e queimaria os dedos machucados de Peter.
- Durmam. Amanhã estaremos na Terra do Nunca, comendo fruta pão e procurando o tesouro dos meninos perdidos.
- Você jura? – os gêmeos saltaram, espichando o pescoço – jura de dedinho?
- Juro! Amanhã mesmo estaremos lá. Agora durmam.
Os meninos se ajeitaram da melhor forma que puderam, um sob o outro, pequenos corações acelerados ansiando pela Terra do Nunca.
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Curly acordou, a nevasca havia parado e os ventos não uivavam mais contra seus ouvidos. Depois de toda aquela braveza, parecia que a natureza enfim decidiu dar uma trégua, e um a um os pássaros saíam de seus abrigos, entoando seus trinados desconexos, porém cheios de beleza.
O menino de cabelos cacheados e de personalidade amável tentou retirar a perna de um dos gêmeos que estava em cima de seu abdome. Forçou e no fim conseguiu sentar-se sobre a grama molhada, ofegante pelo esforço.
Estranhou que Peter não havia acordado os meninos e ele... Geralmente ele dava um “cocoricó” com toda a força de seus pulmões e Nibs, Tootles, os gêmeos e Curly levantavam entre gritos e protestos assustados.
Chacoalhou o líder, porém ele não se movimentava, repetiu a ação em todos os seus amiguinhos, mas droga! Em que tipo de sono eles estavam?
- Peter acorda cara! Anda, cadê o seu cocoricó? – Curly movimentava-se em cima do ruivo. Em outros tempos Peter levantaria furioso e aplicaria uns bons croques na cabeça coberta de cachos de Curly.
Desesperado, ele caminhou até Tootles:
- Tootles! Eu vou mexer no seu arco e nas suas flechas se você não se levantar! – ameaçava. E o choro antes tão engolido e contido, agora escorria em grossas lágrimas pelo rosto pálido de Curly.
- Nibs! Sua mãe está te esperando, ela sem pré esperou, eu sempre acreditei que você não era um menino perdido comum como eu e os outros! Levanta!
Dessa forma triste, o pobre Curly descobriu que ele fora o único menino perdido que não adentrou na terra do Nunca, um lugar sem dores, cheio de risos e alegrias. Habitado por criaturinhas mágicas, por índios e guerreiros, onde o tesouro dos meninos perdidos os aguardava. O lugar onde eles nunca mais cresceriam, ficariam assim, em seu eterno estado de inocência.
O tão merecido descanso. E lá, debaixo do chorão, o pequeno menino chorava a dor da saudade que crescia.
Nunca mais ouviria o cocoricó de Peter, nem as sonhadoras frases de Nibs sobre como sua mãe era gentil. O modo uníssono de falar que os gêmeos possuíam... Era tão irritante! Mas ele daria um braço para vê-los levantar-se da grama úmida e dizer um sonoro bom dia.
Ele foi adotado por uma família amorosa, cresceu e se tornou um homem, porém nada satisfazia a saudade de seus companheiros de folguedo. Até que em um dia de inverno, um inverno quase tão rigoroso quanto aquele que atingiu Nova York, ele deitou-se solitário em seu imenso casarão.
As pálpebras pesavam uma tonelada e uma dor aguda transpassou seu coração como uma agulha. Segundos depois a dor desapareceu tão rápido quanto havia aparecido. Um brilho intenso obrigou-lhe a cerrar ainda mais os olhos fechados, até que por fim diminuiu gradativamente.
Diante de seus olhos uma pequena fada voava rapidamente. Porém ele não entendia a linguagem das fadas, apenas Peter compreendia. Ah Peter...
A criaturinha puxava-lhe pela manga do pijama azulado, e então ele entendeu que ela queria que ele ficasse de pé diante da cama de casal. E ele obedeceu Sininho.
Voando rapidamente ao redor do homem de cabelos prateados e ondulados, a fada despejava seu maravilhoso pó dourado de fadas. Ele estava prestes a voar, do mesmo jeito que Peter havia contado que aconteceria, bastavam alguns pensamentos bons, alegria no coração e fé que poderia voar.
Já não estava mais no chão e a gravidade não mais atingia seu corpo, nem possuía influência sobre ele. Nos céus estrelados e frios de Nova York, o último menino perdido regressava para seu verdadeiro lar.
E lá Peter, Nibs, Tootles, Slightly, os gêmeos estavam esperando Curly, para saudar seu antigo companheiro e enfim ficarem em sua formação completa.
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