O último inverno

2 No meio dos túmulos


Olivia 15 °C

Às vezes quando as coisas estão indo mal, eu costumo fechar os olhos e me teletransportar para um lugar tranquilo criado na minha mente.

Pode ser a maresia de uma praia batendo contra os meus cabelos louros ou o balançar de uma rede num campo florido, enquanto estou lá parece que de certa forma tudo vai terminar bem.

Estou no meu lugar tranquilo porque tudo está péssimo.

É quarta-feira de manhã, eu deveria estar na escola fazendo as provas finais, mas meus pais permitiram que eu ficasse em casa de novo.

Acho que eles estão com medo que eu surte ou algo assim.

Vejo uma fresta da minha porta se abrir devagar e sei que é minha mãe conferindo se estou bem de novo.

Ela costuma fazer isso umas trinta vezes ao longo do dia, desde que a noticia foi dada.

Ainda está esperando minhas emoções entrarem em pico.

Eu estava no hospital com os pais de Ed quando eles foram reconhecer o corpo.

O corpo do meu namorado morto.

A senhora Sullivan saiu da sala em meio às lágrimas amparada por seu marido, eu me levantei depressa com Hannah, minha melhor amiga, dizendo que aquilo não podia ser possível, mas eles não me dirigiam nem uma palavra sequer.

E então em choque me sentei no banco de espera muda e não abri a boca desde então.

Já faz dois dias que confirmaram a morte de Ed, e eu ainda não consegui esboçar nenhuma reação.

E não que eu não estivesse sentindo tristeza, raiva, ou medo, eu só não conseguia colocar para fora.

Assustei-me com uma batida na minha porta e minha irmã Summer entrou com uma xícara fumegante nas mãos e um sorriso reconfortante nos lábios.

Aquela garota irradiava o calor que aquela cidade não possuía.

Quanto mais tempo você passava com Summer mais sentia o seu coração aquecido.

— A vovó costumava dizer que os problemas se parecem menores depois de uma xícara de chá. – ela diz se sentando na beira da cama e entregando a xícara em minhas mãos.

Meus lábios provam do líquido vermelho, sinto o sabor doce do morango em meus lábios, mas é como se visse o sangue de Ed naquela caneca.

Devolvo-a para minha irmã, e me embolo na cama, ela põe a caneca no criado-mudo, e se deita ao meu lado, tem um cheiro gostoso de perfume Nina Ricci, o favorito dela.

Summer encara o teto, eu a encaro.

Minha irmã mais velha tem uma pele pálida como a minha, consequência de viver no Colorado, e os cabelos louros conseguem ser ainda mais sedosos que os meus.

Os olhos verde água dançam e eu sei que ela está pensando como vai dizer algo para mim, algo que talvez me magoe.

— Summer. – digo e minha voz sai rouca e baixa pelo tanto de tempo que estou sem falar.

Ela me olha surpresa.

Dou um pigarro para tentar que as próximas palavras não saiam tão ruins quanto à primeira.

— O funeral é hoje não é?

— Sim. – ela responde com pesar. — Mas você não precisa ir se não quiser querida. – ela diz de forma maviosa como minha mãe costuma fazer.

Encolho-me ainda mais na cama e Summer me abraça.

— Quero ir. – eu digo com minha voz abafada pelo peito dela.

— Vou separar um vestido para você. – ela se levanta deixando que o frio invada minha cama e minha alma.

Obrigo-me a levantar e tomar banho, deixando que a água relaxe meu corpo.

Depois quando saio do banheiro vejo o vestido e o sobretudo preto que Summer deixou em cima da minha cama.

Após vesti-los e arrumar meus cabelos desço e encontro minha irmã arrumando a bolsa para sair.

— Vamos? – ela sorri para mim.

Vou o caminho inteiro muda de novo no carro e ao chegar ao cemitério, fico nervosa com a quantidade de pessoas que se encontram em volta do caixão.

De braços dados com Summer me aproximo devagar daquilo que não quero ver, daquilo que não quero aceitar.

Hannah me encontra na metade do caminho e me abraça, depois entrelaça o seu braço no meu também.

Estou olhando as flores em cima do caixão negro, mas meus sentimentos não aparecem.

É como se estivessem bloqueados.

Simplesmente não consigo chorar, e sinto raiva de mim mesma por isso.

— Amiga, sei que pode ser a pior hora para eu lhe dizer isso, mas... – ouço Hannah sibilar. – Lembra quando eu falei que estava tendo o mesmo sonho todas as noites e você me disse que eu estava estressada por conta das provas finais?

— Sim. – respondo sem entender aonde ela quer chegar com aquele assunto nesse momento.

— Bom, vai parecer loucura, mas o homem do meu sonho está bem aqui. – ela sibila. – E ele está encarando você.

Meus olhos se erguem e percebem um par de olhos verdes me encarando.

O garoto deve ter mais ou menos a nossa idade, veste um sobretudo preto enorme de couro por cima das roupas pretas e as botas pesadas.

Sua barba clara faz meus olhos se paralisarem nele também.

O reconheço dos desenhos de Hannah.

Aliás, ele parece ainda mais bonito do que nos desenhos dela.

Geralmente quando tinha pesadelos Hannah ficava agitada o dia todo, ficava tão reclusa que passava o dia inteiro desenhando ao meu lado.

De vez em quando eu espiava sobre o ombro dela, para contemplar sua arte.

Às vezes eram figuras estranhas e medonhas, monstros.

Às vezes retratos tão reais que pareciam que saltariam da folha de papel.

Aquele homem com certeza tinha saltado.

— Ele é algum parente distante do Ed? – pergunto a Hannah discretamente entre sibilos.

— Não. – Summer responde sussurrando também. – Aquele é Drake O'brien. Ele, a irmã e o pai chegaram à cidade no inicio do mês, vieram do Canadá. Parece que o senhor O'brien queria manter os filhos longe de problemas, então se mudaram para o Colorado.

— E por que ele está aqui? – questiono curiosa. – Ele era amigo do Ed?

— Talvez ele só goste de enterros. — Summer responde balançando a cabeça. — Eles são meio mórbidos. Mamãe disse que a Sra. Deckler foi convidá-los para uma reunião da igreja, e o senhor O'brien disse que eles não tinham religião. Ela ficou horrorizada.

Eu não entendo como a mente das pessoas daquela cidade pode ser tão pequena e como ser diferente sempre faz as pessoas pensarem...

— Será que são satanistas? – Hannah sibila se remexendo na cadeira, tirando as palavras da minha mente.

Irritada com aquela conversa acontecendo no funeral de Ed, lanço um olhar de reprovação para minha melhor amiga.

— Ele é o garoto dos seus sonhos. Você já não deveria saber? – eu digo amarga, e depois disso me levanto e me afasto das duas tão depressa que acabo chamando mais atenção do que eu gostaria.

Corro por entre os túmulos e só paro ao chegar a lápide de meu pai.

As lágrimas finalmente encontram um jeito de sair de mim.

Ajoelho-me nas folhas secas abraçando meu próprio corpo, colocando para fora tudo aquilo que estou guardando dentro de mim.

Depois de alguns minutos me levanto devagar, limpo meu vestido e me viro, mas dou de cara com o garoto misterioso dos sonhos de Hannah.

Primeiro ficamos nos encarando em silêncio por um tempo.

Como ele não desvia o olhar eu também não o faço.

Não sei dizer quanto tempo ficamos assim, sei que perco completamente a noção do tempo e espaço olhando para ele.

— Desculpe assustá-la. – ele diz finalmente, a voz num tom doce como se ele quisesse me afagar por me encontrar naquele estado.

Quase parecia estar com pena.

— Você está bem? Parece...

— Triste? – completo a frase.

Ele é tão óbvio que tenho raiva.

Por que está aqui?

Por que me seguiu?

É um curioso como os outros ou um maluco tentando me atacar longe dos olhos de todos?

— Você o conhecia? – ele pergunta fazendo sinal com a cabeça em direção ao funeral.

— Era meu namorado. – fungo.

— Que merda! – ele murmura.

— É uma merda mesmo. – murmuro de volta.

— Olivia! – ouço a voz de Summer ao longe.

— Preciso ir. – digo apontando em direção ao funeral.

Ele assente.

Eu dou alguns passos, mas me volto para ele novamente, me sentindo ridícula pelo que vou perguntar, mas parte de mim quer defendê-lo quando ouvir aquele tipo de comentário novamente.

— Você é satanista?

— Como é? – ele parece confuso, quase como se quisesse não ter escutado direto.

— Minha amiga Hannah acha que você é satanista, você é?

Minhas palavras – talvez por saírem depressa como uma bala – parecem levar um tempo para serem assimiladas pelo cérebro dele.

— Eu não sou satanista. – ele responde quase parecendo insultado.

Seu cenho se franze e eu prendo minha respiração porque ele fica ainda mais bonito a cada expressão que faz diante de mim.

— Olivia! – escuto Summer me gritar novamente.

— A gente se vê por ai, Drake. – digo antes de correr de volta para o funeral.