Quando eu era criança, no final do século XXI, muitos diziam que essas novas tecnologias, essas guerras com armamentos potentes, a disseminação de enfermidades letais e até meteoros ou seres extraterrestres, levariam ao fim do mundo. Eu tinha uma visão mais poética das coisas, acreditava que na véspera da catástrofe, veríamos o dia mais encantador de todos, a beleza que nunca percebemos estaria em seu auge e, no alvorecer, definharia como uma chama que se consume.

O tempo transcorreu célere, abandonei minhas puerilidades e assumi a carreira científica. Tinha consciência de que ao meu redor as pessoas continuavam a antever o desfecho da vida em nosso planeta, entretanto, a sensatez que a idade concedera, fazia com que eu desconsiderasse os sucessivos prognósticos- que ao meu ver não passavam de sandices para apavorar os ignorantes e conquistar fama aos supostos adivinhos.

O início do século XXII foi repleto de problemas climáticos, o desmatamento já tinha acabado com a floresta amazônica e o país é hoje considerado um dos dez mais secos do globo terrestre. Seres humanos e outros animais sucumbem todos os dias, seja por fome, devido ao solo arenoso e infértil, seja por problemas de saúde acarretados pelo ar rarefeito e temperaturas inadequadas para a vida.

Esta manhã, logo após ter desjejuado, liguei minha antiga televisão e assisti o noticiário, em todos os canais era transmitida a notícia de que quando chegasse o horário de sol a pino, o calor atmosférico seria demasiado superior ao que nossa constituição corporal é capaz de suportar e até o fim do dia a humanidade expiraria. Os semblantes dos jornalistas causaram em mim forte impressão, contudo, desliguei o televisor acreditando que a mídia esperta sabia aproveitar notícias sensacionalistas.

Nas ruas e estabelecimentos encontrei uma turba, todos estavam alvoroçados e enquanto uns desfrutavam da despedida da vida, outros rezavam e bradavam por clemência- de quem quer que fosse, a única religião que havia era a do desespero. Vi gente desfavorecida e com complicações patológicas definhar pelo caminho... foi nesse momento que decidi agir, afinal, “o seguro morreu de velho”.

No laboratório onde trabalho, achei meu bom amigo e o cientista mais esmerado que conheço e tive de indagar sobre a veracidade das informações divulgadas, ao que ele respondeu com franqueza:

— Sempre fui racional, mas devo permitir esse excesso: é o apocalipse! — Bradou ele, amedrontado e continuou. –Era previsto que a situação atingisse um ponto crítico, no entanto, nunca pensamos que isso pudesse acontecer tão abruptamente. A humanidade está em risco, a natureza está tirando a desforra, vingando nossa negligência e desrespeito por ela. Não há outra saída, quem tiver condições de pagar poderá entrar nas aeronaves e tentar a sorte em nossas instáveis colônias interplanetárias e o resto verá a lenta extinção da realidade conhecida.

Então, aqui estou com alguns conhecidos em Marte, observando a desfiguração da atmosfera terrestre. Sabemos que a Terra conseguirá se reinventar em milhões de anos, esperamos que os escassos corações humanos que restaram também evoluam...senão, será o incontestável término da humanidade.

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