Notas iniciais
Stuart descobriu um buraco e, após ser empurrado por um coelho para dentro dele, encontrou um mundo que não imaginava existir fora das fantasias de sua mãe ou de seus pesadelos e agora descobrirá a verdadeira loucura do País das Maravilhas.

Stuart

Lucy me encara com os grandes olhos azuis arregalados. As flores murmuram sons de espanto e tudo isso só me deixa ainda mais confuso. Embora minha vontade seja correr até encontrar algum lugar que faça sentido, me contenho.

– Não conhecem? – pergunto, receoso com o espanto.

– Me siga. – Lucy diz e se vira. Ela começa a pular e correr no meio das flores e faço o mesmo, sob os murmúrios de uma ou duas quando piso em suas raízes.

– Papai! Papai! – ela grita quando chegamos perto de algumas arvorés. Ao passarmos por ela, sou surpreendido por uma mesa de chá, com um pequeno rato, uma Lebre gigante e um homem tão estranho quanto tudo nesse lugar. Assusto-me e dou um passo para trás, tropeçando em uma raiz e caindo em um amontoado de folhas secas.

– Ele perguntou sobre a rainha vermelha. – ela diz baixo para o pai, talvez esperando que eu não a escutasse, mas a escuto.

– Quem é nosso novo amiguinho? – ouço passos em minha direção e me assusto. Afasto-me, me arrastando para trás por cima das folhas, mas ele me encontra. Seus olhos são estranhamente verdes e brilhantes, contrastando com sua pele dotada de uma alvura exagerada. Seus cabelos bagunçados e avermelhados estão presos por um grande chapéu negro, com uma fita vermelha o rodeando. Suas roupas são tão berrantes quanto sua aparência e, embora sua expressão demonstre cansaço, seu sorriso parece o de um lunático.

– Precisa de ajuda? – ele pergunta e estende a mão em minha direção. Hesito um pouco antes de aceitar a ajuda, mas estico a mão e, após segurar firmemente, ele me puxa para cima.

– Bem-vindo ao País das Maravilhas. – ele sorri e me encara. Então sua expressão muda. O verde de seus olhos escurece repentinamente e uma expressão de surpresa toma conta de sua face. Dou outro passo para trás, com medo do que o homem – se é que ele é humano – pode fazer.

– Papai? – Lucy se dirige a ele. Olho para ela, confuso, mas noto que ela está tão confusa quanto eu.

– Olhos azuis como os dela... – ele murmura e dá um pulo para trás que faz meu coração saltar. – Oh! Santa Rainha Branca! Ele tem os olhos dela, olhem... – ele pula e aponta para mim, como se eu fosse algum tipo de aberração. Não deveria ser o contrário?

– Eu reconheceria esses olhos em qualquer lugar. – a voz grave vinda de trás de mim me faz dar um salto, mas quando me viro, não encontro seu dono.

– Aqui, garoto. – ouço-a à minha frente e me viro. A cinco centímetros do meu rosto está a cabeça de um gato com olhos azuis e brilhantes e pelo cinza-azulado. O susto me faz cair para trás novamente e várias gargalhadas irrompem no lugar.

– Parem. – Lucy exclama e vem em minha direção. Ela me estende a mão e, com sua ajuda, me levanto, irritado. – Sejam cavalheiros, rapazes.

– Você é filho de uma mulher de nome Alice? – um pequeno camundongo pergunta. Demoro a encontra-lo na beirada da mesa, ao lado de uma xícara de chá.

– Não. – respondo e todos param de sorrir quase instantaneamente. O camundongo desembainha uma espada e aponta para mim. – Eu sabia. O coelho errou. – ele grita. Ouço vários murmúrios que tomam conta de todo ambiente. Flores, pássaros, as criaturas... todas cochichando e provavelmente o motivo do burburinho sou eu.

– Minha avó se chama Alice. – grito e as vozes cessam. Encaro todos eles, parados, me encarando. – Sou Stuart George Liddell, filho de Anne Marie Liddell, neto de Alice Liddell. – continuo gritando. A atenção de todos está voltada para mim. – Eu estou à procura de minha mãe. Acho que ela foi pega por essa tal... Rainha Vermelha. – paro e mais murmúrios se erguem.

– Ah não... – Lucy murmura. O homem do Chapéu se aproxima de mim e deposita suas mãos brancas sobre meus ombros. Ele se abaixa até seu rosto se alinhar com o meu e me encara por alguns segundos, como se avaliando algo que está além do alcance dos olhos dos outros.

– Será você o guerreiro que nos livrará da tirana Rainha Vermelha? – ele pergunta baixo e seus olhos se estreitam. Não sei se foi uma pergunta ou uma constatação, então permaneço calado. – Quer chá, Stuart? – ele sorri maliciosamente e o brilho verde de seus olhos fica ainda mais vivo.

– Fora Cabeçuda! – todos gritam em coro e ele se afasta de mim, dirigindo-se à mesa.

– Venha. – Lucy me puxa pelo braço e me leva até a mesa, onde várias xícaras de chá estão dispostas. A mesa se enche com o camundongo, o cara do chapéu, o gato que some e reaparece quando bem entende, uma lebre que treme sem parar e não fica quieta na cadeira e Lucy, que parece ser a mais normal daqui.

– Você chegou na hora certa. – ela murmura sorridente, sentada ao meu lado.

– Eu não quero chá. – sussurro para ela. – Tenho que encontrar minha mãe.

– Açúcar? – o homem do chapéu pergunta para mim, mas só percebo que a pergunta foi direcionada a mim alguns segundos depois. Sinto o calor tomar conta de minhas bochechas.

– Um cubo. – respondo e forço um sorriso. Ele sorri em resposta e coloca um cubo em uma xícara de porcelana branca.

– Eu tenho uma parecida com essa na minha... – só então me lembro da mochila. – Droga. — murmuro. – Minha mochila.

– Olha o que encontramos perto das flores? – mais vozes. Mais criaturas pra me enlouquecer. Como se não pudesse piorar...

Atrás de mim, dois homenzinhos iguais, baixinhos e rechonchudos seguram minha mochila, cada um por uma alça.

– Na verdade, fui eu quem achei. – diz o da direita.

– Mas eu vi primeiro. – diz o da esquerda.

– A mochila é minha. Devolvam. – digo por fim e eles me encaram.

– Quem é esse? – um deles pergunta e aponta para mim. – Nunca vimos você por aqui. É da realeza?

– Tenham modos, Tweedles. – Lucy os adverte. – Entreguem a mochila.

– Tá bom. – eles respondem em coro e me entregam a mochila.

– Muito obrigado. – digo e volto à mesa. Os dois se sentam também e, ao dar uma olhadela pelo lugar, só vejo gente pirada. Acho que enlouqueci de vez. Se fosse Andrew, já teria escalado o buraco e voltado pra Paradise.

– Quero fazer uma pergunta. – digo e todos na mesa me encaram, curiosos. – Eu morri?

Várias gargalhadas irrompem na mesa e fico envergonhado. Até Lucy sorri com a pergunta, o que piora as coisas.

–Parem – o cara do Chapéu murmura. – Ainda não nos apresentamos. Sou o Chapeleiro Maluco. – ele tira o chapéu e o abaixa em reverencia.

– Mallymkun, o dormidongo. – o camundongo murmura e faz um movimento com sua pequena espada.

– Chess. – diz o gato e some no meio de uma fumaça cinzenta.

– Eu sou Tweedledee e ele é Tweedledum. – uma das criaturas gordinhas diz.

– Não. Eu sou TweedleDum. Ele é Tweedledee. – diz o outro.

A Lebre grita e solta uma gargalhada. Ela atira a xícara contra mim e Lucy me puxa para o lado, me fazendo desviar. Encaro-a com os olhos arregalados.

– Essa é a Lebre de Março. Acho que ela gostou de você. – Lucy sussurra.

– Ah... senhor Chapeleiro... você pode me levar até a Rainha Vermelha? – pergunto e ele me encara, consternado. Então ele abre a boca e as palavras que diz parecem ter sido decoradas, como uma poesia sendo recitada.

– Ela veio quando tudo parecia prosperar. Trouxe consigo os Ghroskot do Norte e as aves gigantes do Leste. Tomou o reino e sentou no trono da Rainha Branca. Sua sede por sangue não diminuiu com o tempo. A Rainha Vermelha voltou. – ele para. Todos encaram o chão, até mesmo Lucy, enquanto o Chapeleiro permanece olhando para o vazio.

– O que é um Ghroskot? – sussurro para Lucy

– É um... – ela começa, mas o Chapeleiro faz um “shiu” pra ela e ela faz o mesmo para mim, permanecendo de cabeça baixa por pelo menos um minuto.

– Fora Cabeçuda. – todos gritam em coro e, sorridentes, voltam a beber o chá como se nada tivesse acontecido.

– Vocês são loucos. – digo e me levanto da mesa. Caminho para longe, para o meio da floresta, disposto a encontrar a Rainha Vermelha sozinho.

– Espere. – Lucy grita e vem andando atrás de mim, mas estou tão irritado por ninguém me ajudar que a ignoro.

– Não pode ir pra floresta sozinho. É perigoso. – ela adverte e continua me seguindo enquanto caminho entre as árvores. Paro repentinamente. À minha frente, a fumaça tapa o caminho e me impede de avançar.

– O que é isso? – pergunto a Lucy, que para ao meu lado e olha para a fumaça.

– A Lagarta. – ela sussurra e continuo encarando a fumaça, que começa a se dissipar. Atrás da fumaça está uma lagarta, munida de um charuto bem grande.

– Olá, Stuart. – ela sorri. Sua voz é grave e lenta. – Sei o que procura. Você quer achar sua mãe, mas não conseguirá sozinho. Grandes desafios lhe esperam.

– Como faço para chegar até a Rainha Vermelha? — pergunto. Nunca pensei que depositaria as esperanças de rever minha mãe em uma lagarta.

– Conhece a Rainha Vermelha, Stuart? – ela pergunta. A encaro por alguns segundos, mas, antes de dizer qualquer coisa, ela começa.

– Ela fugiu da prisão e do exílio e voltou com um exército gigante. A Rainha Vermelha conseguiu subjugar o País das Maravilhas com criaturas horrendas ao seu lado e agora ela extermina quem quer que esteja em seu caminho, como antes. Ela os leva para um lugar onde toda a esperança de viver é pouca. Acho que você sabe o lugar.

– O tabuleiro de Copas. – murmuro e sinto minhas mãos esquentarem. A Lagarta acena com a cabeça e assopra um jato de fumaça em nosso rosto.

– E o que eu faço agora? – pergunto desesperado, mas ela começa a sumir na nuvem de fumaça novamente.

– Você veio enfrentar seu destino? – ela diz e então some. A fumaça toma conta de tudo e, depois que ela desaparece, a Lagarta não está mais lá.

– Preciso encontrar minha mãe, Lucy. – digo, encarando-a desesperado. Minha mãe corre perigo e cada segundo que perco aqui pode ser crucial para a vida dela. Preciso encontrar a Rainha Vermelha.

*

– Quer chá, Stuart? — seu sorriso está estranhamente aberto, mas dotado de uma malícia quase imperceptível.

– Não é chá. É sangue. — respondo rispidamente e rejeito a xícara de porcelana, com detalhes em vermelho. Ela parece um pouco desapontada, mas a surpresa incontida que trespassa seus olhos é o que me dá forças para enfrentá-la.

– Sabe de quem é esse sangue? — ela pergunta.

Eu sei?

Notas finais
- Heeey. Novo capítulo. Espero que gostem. - Imagem feita por mim. - Vez do Stuart. - Comentem. Digam o que estão achando. Sugiram coisas e participem. Ajuda muito. Amo todos que estão lendo e acompanhando