O último ato no Tabuleiro de Copas
2 Mau caminho
Notas iniciais

Stuart
Dizem que quanto mais uma pessoa afunda na água, menos ela ouve. Ela afunda até chegar no ponto em que o único barulho que pode ser ouvido é o ruído de frequência. Há dois anos eu resolvi testar essa teoria. Há dois anos eu me afoguei tentando fazer as vozes que me rondam cessarem.
Ouço vozes desde pequeno, porém, não consegui identificar a origem das vozes até os oito anos. Foi num dia de verão. O sol causticante estava pendurado num céu anil, completamente despido de suas nuvens costumeiras. Ao lado de nossa casa, o bosque se estendia até onde meus olhos não alcançavam e eu adorava explorá-lo em busca de coisas interessantes para guardar — coisas como tampinhas, botas ou qualquer objeto suficientemente curioso para chamar minha atenção. E foi caminhando que ouvi alguém chamar meu nome no meio dos arbustos, mas ignorei. Naquela época eu ainda achava que as vozes eram uma ferramenta da minha mente responsável por injetar um pouco de emoção em minha vida monótona, por isso eu já havia me acostumado. Contudo a voz não parou e, instigado a descobrir o foco, procurei atrás de cada arbusto até que encontrei um coelho branco e grande, maior que a maioria dos coelhos. Ele me encarou e, sobre as duas patas, me mandou segui-lo e correu para o coração do bosque, berrando que eu estava atrasado. Assustado e confuso, me virei e corri o mais rápido possível em direção a minha casa. Foi a primeira manifestação de loucura em mim.
*
Eu me embebedei com hábitos peculiares só para tentar tirar a cena da minha cabeça pelo menos por alguns segundos. Seu rosto contorcido com a dor da seringa... a brutalidade com que os homens a carregavam para longe de mim, como se ela não fosse mais que um corpo sem vida... sua voz dizendo que eu era como ela... Se eu dissesse que era, teriam eles me prendido e me jogado em uma das salas com tranca, onde eu veria meu pai somente nos feriados? Se eu dissesse que minha mãe não era louca ela estaria comigo agora, sentada na mesa do café, lendo o jornal com meu pai como sempre fazia nas manhãs?
– Não vai comer? – meu pai pergunta, segurando uma rosquinha a meio caminho da boca. Estive tão distraído que me esqueci do café por um minuto. Olho para baixo e vejo outra rosquinha me encarar.
– Estou sem fome. – murmuro baixo e empurro o prato. Esse deve ser meu bordão. É a frase que repito todos os dias, desde que proibiram temporariamente nossas visitas no Green Garden. O problema é que o “temporariamente” já perdura por um ano e até hoje não recebemos notícias de minha mãe.
– Você precisa comer antes de ir pra escola. – ele diz e engole a rosquinha. Não sei como ele consegue ter apetite. Acho que sei o que aconteceu com meu pai. Ele cansou de sofrer e empurrou toda a sensibilidade pra longe. Às vezes não o reconheço.
– Estou sem fome. – respondo rispidamente e me levanto da mesa bruscamente. Ele murmura algo em protesto, mas dou as costas e subo as escadas em direção ao meu quarto. Assim que atravesso a porta de madeira, bato-a com um estrondo alto e me jogo na cama. Começo a contar. 4... 3... 2... 1...
As batidas ininterruptas na porta revelam o que especulei.
– Stuart! Abra a porta! – ele grita do lado de fora, mas fecho os olhos e me desligo.
*
A mesa está cheia de comida, embora eu tenha a mais absoluta certeza que nem eu nem a outra ocupante conseguiremos comer tudo. Ela me encara com um sorriso rasgado nos lábios. Minha presença não a conforta, mas ela precisa manter o mínimo de elegância por ser uma rainha.
Já estive aqui antes.
Ela se levanta e caminha até mim. Seus cabelos avermelhados estão presos em um coque, no alto da cabeça, e seus olhos nunca brilharam tanto.
– Quer chá? – ela oferece sorridente, estendendo uma xícara com um líquido tão vermelho quanto as cortinas do lugar onde estou.
Sangue.
*
– Hora da aula... – a voz soa longe, tão longe que demoro a perceber que ela é real. Abro os olhos vagarosamente e a luz solar vinda da janela me ofusca. Lacrimejo e pisco até me acostumar com a claridade, só para dar de cara com um homem de expressão cansada, com um olhar que urge por socorro.
– Pai... eu... – murmuro e ele abre um sorriso contido.
– Vai se atrasar. Depois conversamos. – ele responde e respiro fundo. Assim que ele sai do quarto, começo a ajeitar minhas coisas enquanto penso no sonho. Não é a primeira vez que sou pego por um sonho estranho e essa mulher está na maioria deles. Em alguns estou montado em um urso. Em outros estou no topo de uma árvore, conversando com animais e observando um castelo. E o mais curioso nesses sonhos é que o fato de eu nunca ter conhecido essas pessoas e esses lugares não importa. Eu sempre sei quem são, onde estou e o que devo fazer. E em alguns sonhos eu vejo a carta.
Há pouco mais de dois anos, minha mãe desapareceu da minha vida. No último dia em que a vi, ela colocou algo em meu bolso, Mas não pude ver o que era na hora. Depois de tudo, quando parei para pensar após chegar em casa, enfiei a mão no bolso e retirei uma carta de baralho. Ambos os lados da carta eram pretos. Um dos lados tinha um grande coração vermelho e brilhante no centro. O outro lado tinha uma mensagem escrita em uma caligrafia fina, com os seguintes dizeres:
“Venha me encontrar
No tabuleiro de copas
E enfrentar seu destino.
– Rainha Vermelha.”
Não dei muito valor à carta, considerando o ataque de loucura de minha mãe, mas guardo-a comigo como lembrança. Depois que minha mãe desapareceu de nossa vida, mesmo estando sob a jurisdição da casa de repouso, comecei a encarar tudo o que diz respeito à minha mãe como pistas para encontrá-la. O primeiro fato sobre minha mãe é que ela não é louca. Se ela for, eu sou também. Ela diz falar com animais e eu tenho certeza que posso ouvi-los, mas nunca me atrevi a falar com nenhum deles. Ela junta vários objetos que considera curiosos em seu quarto e eu também. Depois de um tempo, comecei a invadir seu quarto para pegar alguns desses objetos para mim. Guardei um mapa que não consigo entender nem que tente, uma xícara de porcelana com detalhes finos e vermelhos, uma pedra bem parecida com um rubi e algumas páginas da história de uma garota chamada Alice Liddell, curiosamente o mesmo sobrenome que herdei da família de minha mãe. Li a história toda e, aparentemente, a garota viajou para um lugar chamado País das Maravilhas, plano de fundo de outra garota chamada Alice, uma personagem de uma história muito famosa. E as coincidências não param por aí: li e reli várias versões da história de Alice e descobri várias semelhanças entre a vida dela e a minha. A história tem um coelho bem parecido com o que me encontrou na floresta quando eu tinha apenas oito anos. Também tem uma rainha que adora vermelho e é conhecida como Rainha de Copas. Ela é a vilã. Tem o chá que Alice toma, o que me lembra da xícara de chá que encontrei vasculhando o quarto e a carta é como um chamado da rainha Vermelha para minha mãe. Talvez as coisas não tenham terminado com Alice, se todas as peças se encaixam da maneira que imagino Talvez minha mãe esteja desaparecida em outro lugar. Talvez ela esteja no País das Maravilhas e... e foi por isso que comecei a encarar minha vida como um conto maluco de uma menina que visitou um lugar louco com criaturas piradas. Se não sou tão louco quanto eles, dê-me um diagnóstico melhor.
Reviro os olhos, afastando esses pensamentos obscuros para longe, e pego minha mochila. Jogo-a por cima dos ombros e desço sorrateiramente. No último degrau da escada, vejo a sombra de meu pai na cozinha, mas passo direto e sigo para fora, em direção à trilha que leva ao portão da casa. Livre.
Monto em minha bicicleta e começo a pedalar vagarosamente. Atravesso o caminho sinuoso concentrado para não cair e, após passar pelo portão de ferro, dou de cara com a pacata cidade de Paradise.
O caminho para a escola não é longo, principalmente se eu levar em conta os atalhos que criei durante o tempo que moro aqui. Cruzo por trás do posto de gasolina e atravesso o terreno vazio, reduzindo cinco minutos de viagem, e chego a tempo de assistir a primeira aula. Entro na sala, sento e a aula começa.
*
O vento bate em meu rosto enquanto pedalo vagarosamente de volta para minha casa. A aula passou devagar, como sempre. A parte mais interessante do meu dia foi quando um sapo que estava prestes a ser dissecado pulou na cabeça de Andrew McCartney e ele começou a gritar como uma garotinha. Nem eu sabia que aquele brutamontes tinha medo de um sapinho de nada. O sapo é que devia escolher melhor onde pula.
– Esquisito! – ouço uma voz atrás de mim e me viro. Vejo três garotos, também montados em bicicletas, se aproximarem de uma maneira ameaçadora. Só me dou conta do que está acontecendo quando um deles – que reconheço ser Andrew, um garoto grandalhão e acéfalo que me incomoda sempre que pode – me empurra da bicicleta e me joga no chão quando eu já estava perto de casa.
– Vai encontrar sua mamãe maluca, Esquisito? – ele zomba e começa a girar em volta de mim com seus dois capangas.
– Idiota. – murmuro, colocando um dos pés no chão para me equilibrar. Eles descem das bicicletas e, enquanto Andrew me levanta e me segura, os lacaios pisoteiam as rodas de minha bicicleta, deixando o aro e os raios completamente tortos.
– Isso é pra você aprender a não rir de mim, Esquisito. – ele gargalha junto com os outros e, após me jogar no chão novamente, monta na bicicleta e retorna pelo mesmo caminho que veio, seguido de seus fiéis escudeiros. Droga.
O resto do caminho é seguido a pé e aproveito o tempo extra que o incidente me proporciona para pensar na desculpa que inventarei para as rodas e para o joelho ralado. Nem percebo quando chego aos portões de ferro e, depois de caminhar mais um pouco, à minha casa. Entro rapidamente e dou de cara com meu pai na sala, assistindo ao mesmo programa de auditório que sempre assiste nesse horário.
– Cheguei. – digo e sorrio. Ele me encara e seus olhos recaem sobre o joelho e as roupas sujas.
– O que houve? – sua expressão é exageradamente preocupada. Qual é?! É só um joelho machucado.
– Eu só caí da bicicleta. – respondo e solto a mochila em cima do sofá. – Vou tomar um banho.
Subo as escadas correndo e vou direto para o meu quarto. Jogo-me na cama e sinto as lágrimas escorrerem por minhas bochechas, mesmo comigo tentando segurá-las. Levanto-me e aproximo da uma mochila com todas as coisas que tenho guardado de minha mãe. Abro um dos bolsos laterais e retiro a carta de lá. Leio-a novamente e a viro, tentando ver se descubro algo. Estou decidido a encontra-la, porém, não terei ajuda. Meu pai parece conformado demais e eu não conheço ninguém que se importe mais com minha mãe além de nós dois.
– Tom? – ele me chama. Guardo a carta no bolso e me viro para encará-lo. Seco o rosto na manga da blusa vermelha e forço meu melhor sorriso.
– Temos que conversar. – ele se aproxima e senta em minha cama, esperando que eu sente. Assim faço.
– Sabe... eu estava pensando... já fazem dois anos que sua mãe... se foi... – ele pigarreia, mas continua. – E... acho que talvez seja a hora de recomeçarmos... sabe... em outro lugar. – ele termina e me encara, esperando minha resposta.
– Quer se mudar? – grito e me levanto. – Você quer fugir, pai? Quer fugir como fez desde que eles a levaram? – estouro e sinto um calor em minhas bochechas. Minhas mãos abrem e fecham instintivamente e lágrimas escorrem sem que eu consiga as conter.
– Não estou fugindo, Tom... mas... – ele olha para o chão e depois olha para mim. – Sua mãe está morta.
A frase ressona em minha mente por tempo suficiente para me apavorar. Minha cabeça gira numa confusão de imagens e vozes que quase me tira da realidade. Não.
– Não! Você está mentindo! – grito e soco o abajur ao lado da cama, que cai no chão com um estrondo de vidro se partindo. Meu pai permanece olhando para o chão, sem esboçar reação.
– Olhe pra mim. – grito novamente. – Por que você não olha? – as lágrimas que escapam de mim mancham o carpete, mas as ignoro.
– Vou encontrá-la. — grito ainda mais alto e pego a mochila com as coisas de minha mãe. Atravesso a porta correndo e desço a escada de três em três degraus. Com a visão ofuscada pelas lágrimas, corro para o lado de fora da casa enquanto meu pai grita meu nome. Ignoro e corro ainda mais em direção ao bosque, que me engole. Começo a gritar por minha mãe enquanto avanço desesperado. As folhas das árvores e os pequenos galhos chicoteiam minha face, mas não me fazem parar. Continua adentrando como se minha vida dependesse disso, sem nem olhar para trás, quando... de repente...
Um buraco! Paro em frente a ele, centímetros antes de cair. Ele é largo Deve ter pelo menos um metro e meio de diâmetro e parece que não foi cavado por nenhum animal daqui.
Um coelho sai vagarosamente de trás de uma árvore e o reconheço imediatamente. É o mesmo coelho branco que vi quando era menor, só que dessa vez ele veste um pequeno terno vermelho, com corações iguais ao da carta, que se adequa perfeitamente ao seu corpo. Ele me rodeia e se ergue sobre duas patas. Meus olhos se arregalam quando o ouço.
– Você está atrasado! – ele grita e pula em meu peito, me fazendo desequilibrar e cair dentro do buraco. Grito, mas continuo caindo. Enquanto a Terra me engole, fecho os olhos e tento reunir o máximo de memórias de minha mãe. Estou caindo...
*
Recordo-me de um sonho. Eu estava correndo em um labirinto ao lado de uma garota loira de cabelos esvoaçantes. Não importava para onde íamos. Nunca achávamos a saída. Mas eu estava feliz. Estava com ela e ela sorria enquanto corria pelos corredores infindos.
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