O Último Shirian [hiatsu]
9 Capítulo 9 - Passado em risco
Notas iniciais
— Pfff — Youru segurava o riso, a mão sobre a boca tentando abafar a gargalhada que queria sair — Hahahahaha — não conseguiu conter-se. Riu histericamente, curvando-se, a mão alva sobre a barriga enquanto inutilmente tentava se controlar.
—Não tem graça — Interveio Kyo com o semblante sério, lábios em linha reta e olhos semicerrados. É, ele estava irritado; tanto pelo acontecimento quanto pelas gargalhadas que Youru dava do acontecimento.
—E... Ele hahaha... Ele te deixou plantado lá! Hahaha — Falou Youru após muito esforço entre o riso — ai... ai minha barriga! hahaha — E a cada risada dada, maior a veia que pulsava irritada na testa do Shirian.
Maldito Youru, que adorava rir da desgraça alheia! Nem queria relembrar do ocorrido.
A cena dele parado no meio do jardim rodeado de flores esperando a chegada de Hiroshi não passou de uma grande decepção para Kyo. O menor não fora vê-lo. Sabia que não era culpa do pequeno e talvez estivesse ocorrido algo para Hiroshi não ter ido.
Por conta disso, a certeza de seus sentimentos pelo outro ainda estava incerta. Precisava vê-lo, necessitava do menor, e à medida que percebia isso, mais desgosto tinha de si mesmo.
Shirians de sangue misto, mestiços, elfos, Saries, demônios... Tantas opções, tantas escolhas, e seu coração escolheu se apaixonar logo por um humano.
Que se dane, quem raios disse que esse amor era errado? O próprio Kyo falava para si mesmo. Por mais que soubesse que Hiroshi não aparentava ser como os outros humanos, não podia evitar de transparecer seu ódio.
Não, não era por esse caminho que seus pensamentos deveriam ir. Não deveria, à essa altura do campeonato, começar a duvidar da inocência do outro.
Fechou os olhos, tentando assim limpar os pensamentos, mero erro. À medida que sua mente se esvaziava, dava lugar as imagens que insistiam em persegui-lo e tirar-lhe o sono.
Podia ainda sentir a palma de sua mãe afagando-lhe os cabelos por entre as orelhas felinas, a recitar uma calma música. E se tivesse tudo acabado ali, com aquele sorriso sincero que ela dispunha?
Mas não fora assim. As cenas de todos fugindo ainda estavam marcadas em sua memória, fazendo-o sentir uma incrível vontade de parar aquelas vozes que pareciam ainda fixas e límpidas. Os gritos, os tiros, os choros. E foi ao perceber o silencio de Kyo que Youru cessara a risada, pensando que talvez fosse mau humor do outro, insistindo em lhe ignorar.
Quando escutou o rosnado baixo saindo da garganta de Kyo, percebeu que não se tratava apenas disso. Correu até o outro, tocando-lhe o braço, fazendo com que automaticamente Kyo, por instinto, o jogasse no chão e subisse por cima dele.
O corpo do shirian estava sentado sobre a barriga de Youru, as mãos apertando-lhe o pescoço, enquanto os olhos arregalados opacos ganhavam brilho trazendo raciocínio novamente.
—Kyo... —Falou Youru, tentando fazer o Shirian voltar a ser o que era, e funcionou. O aperto no seu pescoço se aliviou aos poucos.
— Eu fiz de novo —Afirmou Kyo para si mesmo, arrependendo-se. Saiu de cima de Youru, que massageou o pescoço com um suspiro.
Já fazia tempo desde o último surto de Kyo, e isso até trazia um alivio à Youru. Sabia que não estava recuperado. Ele próprio ainda não superara, quem diria o Shirian. Antes que pudesse raciocinar qualquer fala para consolar o amigo, o barulho ao longe alertou a chegada de alguém.
—Temos companhia —Alertou Youru, segurando um grunhido, se virando a noroeste. Dois segundos depois a audição de Kyo, ainda disperso, captou o som, as orelhas se levantando atentas.
Quando se tratava de percepção de som, Youru era melhor por conta da mistura de raças. Ao invés de afetar tais dons, a junção de sangue apenas aperfeiçoou mais ainda. Kyo só ficava para trás em questão de segundos. Apesar da desvantagem, era o segundo melhor e mais rápido para captar qualquer som.
O odor de Sarie exalava na floresta fazendo Youru fingir uma ânsia por pura rebeldia. Por mais que os Saries tenham os acolhidos quando pequenos e falado que poderiam o considerar um clã, algo os alertava para não confiar neles.
Por mais que Kyo não tivesse o mesmo problema também, não simpatizava com o clã. Sarie não era o nome da espécie e sim o do grupo em si, lugar que parecia até uma mistura de diversos seres.
E realmente era, boa parte noturna e alguns ainda conseguiam andar de dia, como no caso dos que se aproximavam deles rapidamente.
—Que cheiro horrível —Disse o primeiro Sarie pousando no campo florido, colocando a mãos sobre o nariz com a face contorcida em nojo. Não era por ser um odor ruim, mas por aquelas flores exalarem um cheiro intenso e forte de mais.
E é claro que a frase teve um duplo sentido, fazendo sorrateiramente o Sarie encarar Youru como se quisesse transmitir parte do comentário ao mestiço.
Não era só porque era um clã de varias espécies que as mesmas se aceitavam...
—Ora ora, o Shirian e o seu cachorrinho —Falou outro Sarie pousando ao chão, com um sorriso cínico fixado nos lábios enquanto encarava pausadamente Kyo e Youru, arrancando alguns risos dos outros dois seres que pousaram atrás de si.
Todos tinham as orelhas pontudas lembrando as de elfos, mas eram altos demais para se assemelharem aquelas criaturas da floresta. Ogros? Não, ogros eram feios e asquerosos, apesar de que na opinião de Youru a segunda característica se encaixava perfeitamente neles.
Rapidamente uma pequena pedra voou, passando a milímetros da face dos Saries. Uma leve ardência podia ser sentida apesar de não ter encostado na pele. O vento demorou à acompanhá-la, e a mesma se desfez com a intensidade em que batera no tronco da arvore atrás deles.
Kyo ainda mantinha-se imparcial, de modo que levemente tentou repreender o amigo pelo ato, olhando-o pelo canto do olho pra Youru.
—Foi mal, escorregou —Esclareceu Youru erguendo as mãos como se quisesse alegar inocência, mas o sorriso de canto abafando uma risada de superioridade demonstrava ainda mais sarcasmo em seu ato.
O Shirian revirou os olhos, impaciente, a perna se mexendo em um tique nervoso. Queria que o sol, que mal havia nascido, fosse embora logo. A bendita noite parecia demorar séculos para chegar, tirando Kyo do serio. Será que Hiroshi não poderia aparecer de dia? Seria muito mais fácil.
—O que querem? —Cortou Kyo sem paciência, encarando novamente os Saries. Não gostava de joginhos, e as provocações de Youru não contribuíam para que a conversa deles fosse breve. Afinal, se arranjassem uma briga, perderiam muito tempo.
—Yeul quer te ver — Alegou o Sarie entre os dentes ainda encarando Youru, disposto a torcer o pescoço daquele mestiço.
Não era porque estava disposto que conseguiria; afinal, Youru era forte, talvez tanto quanto Kyo, mas não sabiam ainda qual era o melhor, pois nunca houve a necessidade de lutarem entre si.
Ótimo, agora sim o dia ia de ruim para péssimo. Sempre que se encontrava com o líder do clã ou era para repreender ou... Pensando bem, até hoje foi só para repreender mesmo.
—Ok diga que já estou indo —Ladrou Kyo irritado, no fundo ansiando que no mínimo Yeul tivesse alguma informação que ajudasse em sua vingança.
—Haha eu sabia, o dia promete —Cantarolou Youru animado, afinal existia rotina melhor? Acordar e zoar o amigo por ter ficado plantado como um bobo apaixonado, depois provocar Saries, e em seguida zoar mais uma vez o amigo que parecia mega irritado.
Hiroshi, por algum motivo, sentia que seu dia ia ser bom, pena que era só impressão sua. Espreguiçou-se manhoso, percebendo que despertara antes do sol nascer. O corpo pediu por mais repouso, mas foi ignorado. Se voltasse a se deitar agora não conseguiria acordar de novo, e trajando as primeiras vestes que encontrou, seguiu para a mansão.
No pescoço o cristal azul marinho cintilava, preso ao cordão de couro que foi envolto diversas vezes na pedra para não cair, e apenas olhá-la já trazia energia para si.
Não tinha mais volta; o coração já fora roubado, mas Hiroshi nem percebeu isso. Cantarolando um música leve, se encaminhou até um dos corredores da mansão, os cabelos ruivos mexendo-se a medida que andava eufórico.
Ainda era de manhã mas sua lógica de como passar o dia bem tinha o ótimo efeito. De acordo com ele, quanto mais rápido terminasse, mais rápido veria Kyo. Entretanto por mais que falasse isso sabia que por ter saído à noite passada com Dilan apenas piorou tudo, já que ocupou parte de sua tarde fazendo o trabalho se acumular.
Alexander passou por si, com tanta pressa que apenas acenou com a cabeça em um comprimento caminhando rapidamente, não podendo ver o sorriso alegre de Hiroshi em resposta.
E ao notar que ele entrou eufórico no quarto de Dilan fechando a porta com pressa um alivio tomou o peito de Hiroshi, quando Alexander falava com Dilan podia acontecer varias coisas.
Escutava discussões, brigas, conversas altas, e às vezes absolutamente nada como se eles nem estivessem falando e ficassem apenas em silencio. Mas a melhor coisa das visitas de Alexander era o simples fato de que já alertava a todos, Dilan permaneceria no quarto por horas.
Um dia de trabalho árduo sem Dilan para lhe infernizar, não estava lá as mil maravilhas, porém já melhorava bastante a rotina de Hiroshi, se não fosse pelo simples fato de Dilan não ser o único problema.
O irmão era o mais imponente e próximo ao empregado, entretanto ainda havia milhares de pessoas que não gostavam de Hiroshi, mesmo não o conhecendo direito, julgavam apenas pelos boatos.
Tantas pessoas que seria melhor citar as que gostavam de Hiroshi naquele vilarejo, que se resumiam em... Dilan? Não, pelo menos não acreditava em uma simpatia do irmão por si, então... Alexander? É, basicamente era só ele.
Curvou-se se ajoelhando naquele chão gelado e liso apanhando o pano e começando a limpar logo aquele imenso corredor da mansão. Por que raios algo tão grande para apenas umas cinco pessoas? Já que os empregados moravam em uma casa aparte, ele não entendia, mas não reclamaria agora. Reclamar é perda de tempo e perda de tempo significa se atrasar para ver Kyo, lógica boa, não é?
O sol já estava alto quando levantou-se do chão. Passou a palma da mão sobre a testa, afastando o suor que escorria por ela, as costas doíam por estar a tanto tempo curvado.
Apesar de tudo, o sorriso estava em sua face. Em pensar que terminaria aquele corredor em apenas três horas, tentou se espreguiçar escutando as costas estalarem e sentindo uma dor, era bom ele não ficar tanto tempo curvado novamente.
Agora não faltava muito coisa, apenas... Cuidar do jardim que de tão grande media por volta de um campo de futebol; trocar o feno do Furt — que apesar de leve era muito; lavar os lençóis — que eram tantos, apesar de camas naquela casa serem poucas; varrer a cozinha e por fim limpar as janelas.
Por incrível que pareça aquele era um dos poucos dias que não teria que fazer muita coisa. No fim do corredor pode se ouvir o barulho alto da cadeira se arrastando com força sendo jogada para trás com o modo que ele se erguera.
—I-Isso é im-impossível —Falou Alexander em pé respirando afoitamente, gotas frias de suor escorriam por sua face com tamanho nervosismo que detinha.
—Quem me dera que fosse —Exclamou Dilan passando a mão por seus cabelos lisos que caiam por sua face, jogando-os para trás de um modo sedutor. Mas os dois seres presentes naquele quarto estavam afoitos demais para reparar em tais detalhes.
— Edward não pode fazer isso! Ele... —Falou Alexander ainda incrédulo, o que dizer? Que ele não seria capaz? Ah, capaz ele seria, só não permitiria isso.
—Não pode? — Repetiu Dilan soltando uma risada fraca e sem humor —Nós dois sabemos que ele seria capaz disso.
—Fuja —Falou Alexander, dizendo praticamente o obvio, se irritando quando a face serena de Dilan se moveu negativamente —Estamos falando de sua vida. Mais que cacete, Dilan! Virar rei é assim tão importante?
O loiro engoliu em seco quando ouviu aquele linguajar que só era dito por Alexander quando ele estava extremamente irritado, e esse era o caso.
—Nós dois sabemos que não se trata disso —Afirmou o loiro de modo sereno, tentando não irritar ainda mais Alexander.
—AH NÃO? Então me diz do que se trata.
—Meu povo —Dilan podia ser varias coisas: sádico, ignorante, excêntrico, belo, áspero, falso. Mas ainda sim um príncipe fiel ao seu povo como deveria ser —Acha mesmo que vou abandoná-los e deixar Edward comandar?
—E como você vai conseguir comandar um reino morto meu caro príncipe? —Questionou Alexander em tom de deboche que desagradou o garoto.
—Antes morrer com orgulho por meu reino do que por covardia fugindo por nada.
—POR NADA? POR SUA VIDA! —Gritou Alexander histérico, descrente daquilo que ouvia, aonde já se viu alguém tolo o suficiente para dar de ombros quando está em tanto perigo.
—Alexander, se eu for quem cuidara de Hiroshi? Você? Até parece, se eu o levar junto só vai abrir mais desconfiança. Não estou falando que vou ficar parado esperando cortarem meu pescoço, lutarei por minha vida como qualquer pessoa, mas não posso fugir simplesmente.
—É claro que pode.
—Não posso
—Céus, dê-me paciência por favor! — Pediu Alexander erguendo as mãos aos céus como se pedisse alguma ajuda divina para convencer ele.
—Não vou mudar de opinião Alexander —Agora o tom de Dilan não era mais o mesmo, agora era o tom firme e frio, o tom de um verdadeiro príncipe — permanecerá ao meu lado ou contra mim? —Indagou vendo Alexander passar as mãos nas têmporas as massageando em silencio.
—Com você.
—Então caso encerrado, agimos daqui a um mês.
O clima estava tenso e o ar parecia pesado, mas não tanto para Toriam que acabara de despertar abrindo os olhos sem pressa.
Virou-se de lado em baixo do amontoado de cobertores vendo a poltrona ao seu lado vazia, a janela do quarto fechada, que mesmo assim não conseguia repelir a luminosidade que atravessa o tecido pelo sol forte.
Qual tempo dormira? Fechou os olhos recordando da noite anterior — se assim poderia dizer já que só fora dormir por volta das 4 horas da madrugada.
A cena do beijo com Gors fez o jovem se erguer rapidamente em um pulo, fechando a cara de dor a sentir a cabeça latejar. Tinha uma faixa nela, provavelmente o machucado fora um pouco mais serio do que pensava.
Como fora ousado ao fazer isso, e o êxtase ainda percorria seu corpo, ainda podia sentir aqueles lábios quentes nos seus.
Precisava vê-lo, e com esses pensamentos se levantou fazendo novamente a cabeça latejar tropeçando em seus próprios pés e o levando ao chão.
—Droga — Reclamou baixo, mas já o barulho pode ser escutado por Locse que entrou correndo no quarto.
—Príncipe, está bem? —Indagou se abaixando ao lado de Toriam, ao ajudando a se levantar.
A claro, acabara de cair e estava mega bem. Toriam não acordava de bom humor e aquela pergunta idiota não ajudou em nada, na garganta estava preso as frases irônicas e presas ficaram se serem recitadas.
Locse o olha preocupado percorrendo o corpo de Toriam com os olhos sem a mínima luxúria ou malicia. Toriam respirou fundo. Calma pense bem, não adiantaria explodir com Locse, ele não teve culpa de nada.
E ainda sentia que devia algo a Locse por tê-lo ajudado, e quando chegasse a hora pagaria essa divida, se apoiou no jovem empregado se erguendo.
—Aonde está Gors? —Perguntou Toriam serio, não estava para brincadeiras, mas aquela expressão não tinha efeito em Locse, não depois de tudo o que passou em sua vida. Se na época existisse especificação para empregado, Locse seria profissional; afinal fora obrigado a sorrir simpaticamente em diversas situações em que a pessoa nem se daria ao trabalho de encarar a visita.
—Esta treinando, príncipe —Falou Locse, sorrindo e abrindo caminho para Toriam passar. Rapidamente, o menor chegou até a pequena casa fora da mansão, lugar em que frequentemente Gors treinava.
E lá estava ele, o kimono que sempre usava, alegando ser mais confortável para treinar, caia por seu corpo se modo suave, um lado quase desabando em seu obro por não ter prendido direito, deixando parte do corpo a amostra.
O peito de pele levemente morena subia e descia enquanto encontrava-se molhado pelo suor.
—Espero que esteja bem, pois aprenderá a se defender —Falou sem encarar Toriam em tom autoritária, que usava para não ser contrariado.
Toriam formou um bico em protesto, nem teve a chance de assustar o outro e já fora descoberto e agora queria que ele treinasse? Haha, que piada.
—Estou falando serio —Contrariou Gors já imaginando os pensamentos incrédulos do pequeno.
Então era isso? Primeiro gritara com ele, depois se desculpava desesperadamente, em seguida o beijara e por fim agora simplesmente agia como se nada tivesse acontecido. Mas que cara de pau!
—Não preciso, tenho você .
—Não estarei por perto sempre —Falou Gors irritado por se lembrar da noite anterior.
—Sei me defender —Exclamou firme, se irritando quando Gors o olhou em completo deboche.
—Mesmo?
Toriam se sentiu ofendido, apanhou a espada de madeira no chão, avançando com ela sobre Gors, que utilizou a bainha de sua espada para reprimir o ataque sem dificuldades.
Mais alguns golpes e a espada voou da mão de Toriam. Gors não estava de brincadeira, em um movimento rápido segurou apenas com uma mão os pulsos se Toriam o prensando contra a parede, a espada ainda presa na bainha a milímetros do pescoço do menor que estava cara a cara com o jovem.
—E então? —Provocou Gors esperando ver o menor tentar se livrar ou se soltar.
Mas Toriam sorriu vitorioso fazendo Gors o olhar sem entender. Curvou-se levemente encostando os lábios nos do maior, fazendo com que de imediato Gors se afastasse, soltando-o.
Sem conseguir impedir, as bochechas se tornaram em tom carmim. Mas que raios de criança atentada era Toriam? Apontava a espada de madeira para Gors como quem dizia: “viu sei me defender”.
—Eu não disse? —Exclamou Toriam dando um salto de euforia, e com a face emburrada, Gors fechou o kimono ainda entreaberto, saindo da sala e deixando o outro para trás.
Deuses! Se Toriam continuasse a agir assim, Gors não conseguiria se controlar por muito tempo.
E se esse sol não fosse embora logo, era Hiroshi que piraria. O peito subia e descia respirando pesadamente, as mãos com aparência tão delicadas estavam com breves calos por todo trabalho.
Como havia feito tudo antes de anoitecer? Nem ele sabia, mas só agora o cansaço o atingia, arrastou os pés em direção a casa dos empregados ansiando por um bom banho, que foi impedido pelo tom autoritário do responsável por supervisar os empregados.
—Aonde pensa que vai? —“adivinha!” — provocou Hiroshi em pensamento, mas era óbvio que não falaria nada. Virou-se encarando a face carrancuda do homem que parecia sempre olhar a todos com um ar superior, e que só abaixava o narizinho empinado diante de Dilan, e as vezes, resumindo raramente, tá vou ser sincera, quase nunca para Alexander.
—Já terminei meu trabalho —Falou o ruivo com o tom cansado.
—Eu creio que não, tens que consertar o quartinho.
—Não tenho —Murmurou Hiroshi baixo fazendo o homem erguer as sobrancelhas.
—O que disse?
—Que já vou —Disse Hiroshi irritado. Desde quando começou a enfrentar os superiores? — Estava se surpreendendo consigo mesmo.
—Ah bom, pensei ter ouvido outra coisa — Exclamou o homem vendo Hiroshi se mover de forma lenta sem o menor ânimo. A tática de “faça rápido e verá Kyo” não colava mais depois de horas árduas de trabalho, baixo, muitas vezes, o bendito sol ardente.
—Acho que depois de algum tempo todos percebem o seu lugar —Continuou o homem provocativo —Fico feliz que tenha ciência disso.
Antes que se desse conta Hiroshi rosnava baixo, arregalando os olhos ao notar que estava começando a pegar a mania de Kyo. Engolindo as palavras que usaria para se defender caminhou até o quartinho.
Era melhor permanecer quieto do que trazer mais problemas para si.
Não tinha como se manter alegre como sempre era ao encarar aquele amontoado de madeiras, arrumar aquilo, além de ajeitar o telhado aberto, deveria demorar mais de duas horas.
E como se o destino estivesse tirando um sarro dele o sol justo agora começou a se por, iluminando um último instante a face de Hiroshi, que se curvava apanhando as coisas no chão começando a empilhá-las para ter melhor noção do quanto de bagunça detinha ali.
Vidro estraçalhado, prateleira, madeiras, vasos, como conseguiram empilhar tudo aquilo ali? Era uma boa pergunta. Como se tivesse criado uma habilidade própria após anos de trabalho, conseguia perfeitamente arrumar tudo com perfeição.
Uma hora e meia já havia se passado enquanto terminava de arrumar a parte de dentro, sendo iluminado apenas por um lampião que mal dava para o gasto.
Agora só faltava consertar o teto para que na chuva não entrasse água...
Apanhou alguns caixotes os empilhando sem prestar a mínima atenção, estava cansado demais para analisar algo, deixou o lampião de lado optando por subir no escuro mesmo afinal fogo mais madeira não daria um bom resultado. Escalou os primeiros caixotes chegando em alguns instantes ao telhado, pisando com receio na madeira já podre que precisava ser trocada.
Com o máximo de cuidado, que não era muito — afinal estava escuro e não sabia aonde pisava — fechou até o buraco no teco, apanhando as madeiras que carregava, martelando com pressa os pregos para fechá-la.
Após meia hora, jazia totalmente cansado, jogou de cima do telhado o martelo até o gramado não gostando da idéia de ter que descer em plena escuridão com uma mão a menos já que estaria ocupada com o objeto.
Começou a descer de modo desajeitado, se apoiando nos caixotes que tremeram. Antes que se desse conta fora ao chão soltando um gemido de dor quando caiu sobra uma madeira, que mesmo com o tecido conseguiu lhe arranhar as costas. Deixando marcas mais brancas, sabia que em segundos ela sangraria, e assim ocorreu.
Pelo menos não era um corte grande, pensou Hiroshi fechando a cara, finalmente tinha acabado e rastejando os pés seguiu até a casa dos empregados pegando o caminho mais longo para evitar encarar o supervisor.
Mas foi ao passar pela mata que um pesar apossou de si, queria dormir e descansar, mas a vontade de ver Kyo era maior.
Quando percebeu, seus pés já estavam indo em direção ao campo, parecia que tinha decorado o caminho pois estava tão cansado que se surpreendeu por não ter se perdido. Kyo estava parado sob a imensa arvore, os olhos fechados em um descanso inexistente já que raramente se exaustava . Era só vê-lo ali a apenas alguns metros de si que as borboletas em sua barriga a revirassem.
Engoliu em seco quando se virou para encará-lo, fazendo os olhares se cruzarem; aqueles olhos felinos, de um azul tão brilhante quanto o céu noturno recheado de estrelas parecia conseguir olhar através dele.
Talvez Kyo realmente conseguisse, o Shirian se ergueu olhando para o garoto parado. Embora abriu um sorriso sincero, não conseguia esconder seu cansaço estampado em sua face, não de Kyo.
O ruivo não sabia o que dizer e talvez palavras não precisassem ser ditas, porém aqueles olhos o analisando e reparando nos mínimos movimentos que fazia o deixava completamente nervoso.
Sem saber como agir se moveu para o canteiro das flores se abaixando para acariciar a rosa vermelha a sua frente, passando delicadamente os dedos pelas pétalas com medo de “ferir” algo tão delicado.
—Combina com você —Ditou Kyo o olhando vendo o garoto sorrir para ele dando uma risada baixa.
—Não exagere —Falou Hiroshi ainda sorrindo com amor.
—Não estou exagerando —Falou Kyo agora sorrindo junto ao menor se colocando atrás dele inconscientemente, curvando-se para que pudesse alcançar a flor também, deixando com que sua respiração roçasse no pescoço de Hiroshi —Os dois são belos —A voz rouca fez com que um arrepio passasse pelo ruivo, que ficara estático sem saber o que fazer.
E ainda imóvel sentiu os dedos de Kyo tocarem de leve seu braço em um caminho até sua mão. Talvez tivesse fazendo o contato de propósito, mas quem ligava? O Shirian apanhou a rosa sem se importar com os espinhos que arranharam sua pele.
Levou-a até a face inspirando seu cheiro, não era só por ser bela que combinava com Hiroshi, a delicadeza nas pétalas que o fazia recear com medo de quebrá-la se comparava totalmente ao ruivo.
Cabelos vermelhos com a cor da mais intensa rosa, o cheiro natural doce que o deixava inebriado, a delicadeza, a maciez. Tudo.
—Kyo? —Chamou o menor notando o silencio do Shirian, a face se virou ficando a milímetros da de Kyo podendo sentir sua respiração.
Aquela voz, aquela voz convidativa sussurrava seu nome, e aquela face a centímetros da sua, era como se o provocasse de propósito para contribuir com seu descontrole.
Foi impossível evitar certo desamparo quando encarou Hiroshi, vendo-o fazer seus atos sem a menor malicia, por pura ingenuidade. Essa era nova, agora ele era o pervertido da história.
Passou a mão por seus cabelos em busca de sanidade, estava parecendo um animal no cio com tal reação a simples atos, mas a palma já deixava transparecer pequenas gotas feitas pelos espinhos, em cortes tão pequenos que nem dava para sentir, na opinião de Kyo.
—Você se cortou —Exclamou o menor arregalando os olhos, se levantando a procura de algo.
—Hã? —Disse encarando a mão dando de ombros — Relaxa isso daqui não é nada —Afirmou vendo Hiroshi apanhar sua mão afoitamente, para logo soltar com pressa, procurando algo que o ajudasse a limpar o machucado.
Mas antes que pudesse caminhar muito longe sentiu a fraqueza abater seu corpo, estava exausto, sem uma noite bem dormida. E sem perceber se viu tropeçando-nos próprios pés enquanto os olhos se fechavam cansados.
Kyo em praticamente um segundo já estava na frente de Hiroshi o segurando, nem mesmo sabia em como se moveu tão rápido. Era veloz, mas nem tanto quanto agora.
—Humm —Murmurou Hiroshi sonolento vendo as mãos do Shirian sobre seus ombros impedindo que caísse —Tudo bem Kyo eu só estou cansado —Admitiu se afastando do Shirian, incapaz de conseguir ficar em pé por muito tempo. E novamente quase caiu para trás de encontro ao chão.
—Hiroshi —Falou Kyo em um tom assustado pelo estado do menor o segurando firme com a mão em suas costas.
—ahhh —Gemeu Hiroshi de dor se contorcendo, despertando brevemente do sono que lhe envolvia, e com rapidez se afastou das mãos do Shirian.
Droga, por que falara? Levou as mãos aos lábios ao notar seu erro quando deixara escapar o gemido, não pode evitar por conta das costas machucadas.
Mas como se arrependia disso agora ao ver Kyo o olhar de modo indecifrável. Os olhos tinham um brilho a menos, estavam misteriosos, misteriosos até demais.
—Está machucado —Afirmou de modo rude, estreitando o olhar percebendo, pelo modo que Hiroshi se encolheu, a confirmação de sua hipótese.
—N- Não estou, é só um arranhão —Falou Hiroshi se encolhendo a medida que Kyo se aproximava mais de si.
Com indelicadeza, o Shirian tocou fortemente as costas de Hiroshi fazendo gemer novamente de dor.
—Não reagiria assim se fosse apenas um arranhão. Tire a blusa —Ordenou, e pelo tom não poderia ser contrariado.
Um arrepio passou pelo corpo do ruivo , nunca vira o Shirian assim, ele estava estranho, ele estava... Deixando-o com medo.
—N-Não... — Falou tentando afastar o Shirian que avançava mais uma vez, mas sua força não se comparava com a de Kyo, e estava fraco.
E antes que tentasse fazer mais alguma coisa para impedir os olhos se fecharam sonolentos, o fazendo cair no sono de puro cansaço na pior hora. Kyo não poderia tirar a camisa dele, se ele visse o corte veria as cicatrizes, não poderia fazer nada para impedir, e agora?
Fale com o autor