O Último Shirian [hiatsu]
2 Capítulo 2 - Um anjo sem asas
Notas iniciais
Aquela era para ser mais uma noite normal, como qualquer outra para Kyo, repleta de uma rotina de supervisionar a região, manter ameaças afastadas e caso estivesse entediado caçar, mas não fora, ficar enrolado em uma rede que não se partia com sua força ou rompia entre suas presas enquanto sentia todos os pelos ficarem molhados era incomodo.
O Shirian encarou novamente o garoto encolhido a sua frente, o vento ricocheteava os cabelos ruivos, que rebatiam sobre a face angelical do menino.
Kyo inspirou fundo sentindo através da chuva o cheiro de sangue, os olhos pousaram sobre a mão enfaixada do garoto, que pingava singelas gotas avermelhadas, Hiroshi seguiu o olhar do maior, erguendo a mão para visualizar o corte.
— Ah isso —Diz Hiroshi erguendo a mão — Não é nada demais não precisa se preocupar — Admitiu esboçando um sorriso.
A fala não fez sentido para o Shirian, nada ali fazia, a ajuda do desconhecido, a sua naturalidade diante de dele, que deveria ser uma ameaça.
—Como se eu me preocupasse com humanos —Ladrou o Shirian se agachando para pegar impulso e saltando para o outro galho.
Um pouso perfeito, tão rápido quanto delicado, os pés pousaram na madeira sem forçá-la, parecia até que flutuava sobre a mesma. As gotas da chuva ainda caiam, pouco a pouco, apesar das nuvens já terem se dissipado no céu, representando o fim da tempestade. Permitindo assim que a lua cheia iluminasse por fim a noite escura.
Só agora na pequena claridade Hiroshi pode notar a cauda do Shirian, os olhos verdes brilharam com tamanha beleza do ser, tão esbelto e forte, inconscientemente Hiroshi deu um passo à frente tentando se aproximar, não medindo o tamanho do galho que o sustentava. O pé tocou o nada, enquanto aos poucos o corpo mergulhava na mata, caindo.
—Aaaaah —Gritou Hiroshi, enquanto caia em meio a escuridão, as mãos se esticaram sobre o corpo, tentando inutilmente parar a queda que de tão alto demorava para alcançar o solo. O peito se contraiu em meio ao desespero “vou morrer” pensou Hiroshi, a mente estava em branco, sem flashbacks nem nada, nada que houvesse necessidade de relembrar, apenas vazia.
Deu um ultimo suspiro ao avistar o solo, que se aproximava cada vez mais, os olhos se fecharam antes mesmo que percebesse, mas o corpo não colidiu com o mesmo, apenas uma fresta de seus olhos foi aberta, visualizando os dois braços que o seguravam firme, enquanto o Shirian pousava perfeitamente no chão, os olhos azuis foram a ultima coisa que encarou, antes da negrume invadir sua visão, desmaiando.
As orelhas felinas se ergueram em atenção, enquanto se virava para o lado, escutando uma proximidade rápida.
—Ora Kyo —Começou o ser saindo da escuridão e entrando no campo de visão do Shirian —Pensei que não se preocupasse com humanos — ironizou repetindo a frase a poucos instantes dita.
A pele de tão pálida refletia a pouca luz que recebia da lua, deixando-o radiante, os cabelos brancos lisos eram longos, alcançando a cintura, os olhos em vermelho sangue eram sempre sérios e cínicos
—O que faz por aqui Youru? — Esbravejou o Shirian, segurando um rosnado que estava louco para sair, Shirians eram territorialistas por natureza.
—Senti cheiro de comida — Disse o outro focando os olhos em Hiroshi, que lampejaram de excitação —Mas algo me diz que essa presa não vai ser fácil —Concluiu voltando o olhar para Kyo.
Ambos se encararam sérios, Kyo abriu a boca mostrando os dentes canino afiados, soltando um rosnado baixo de alerta para o outro se afastar.
— Youru — Falou uma terceira voz, atraindo a atenção tanto do rapaz, quanto a do Shirian, ambos se viraram para olhar a figura alta de semblante fechada que os encarava —Vamos caçar em outro lugar.
Youru rosnou baixo insatisfeito, mas o olhar severo do maior o silenciou, encarou uma última vez o Shirian antes de retroceder os passos que havia dado, se afastando.
Kyo olhou mais uma vez para o ruivo em seus braços, o corpo pequeno aparentava fragilidade, e o rosto possuía traços finos e angelicais, dando um ar único ao garoto. Os olhos azuis observadores pareciam captar até mesmo os mínimos detalhes, os lábios deles eram pequenos e rosados, enquanto as bochechas estavam rubras com o frio.
Ajeitou melhor o jovem entre seus braços sentindo a respiração baixa roçar em seu peito a cada passo que dava e por mais que detestasse humanos, aquele a sua frente conseguia lhe causar um sentimento totalmente novo em si, diferente do ódio que sempre possuía, algo que ainda desconhecia.
Após alguns minutos chegou em seu lar, para Kyo aquele era um lar insubstituível, já que foi ali que conseguiu sobreviver escondido, entrou na caverna caminhando até o fim dela, na realidade a caverna era apenas uma passagem que o guiava até o local aonde morava, pedras brilhantes foram pouco a pouco aparecendo nas paredes escuras rochosas, diamantes.
Era na verdade um minério, apenas uma parte pequena das preciosidades escondidas nas paredes do local, Kyo desconhecia o valor comercial delas, apenas ciente da beleza natural e cativante, um tesouro perdido que guardava para si, andou mais um pouco indo pelo caminho aberto a força pelos seus antepassados, um túnel que levava para o esconderijo que vivia.
A única passagem que existia era aquela, pois o lugar era cercado por rochas e uma mata fechada impedindo o acesso a ele, as orelhas felinas se concentraram no som das águas, o guiando, andou em direção a ela, ainda com Hiroshi em seus braços passou pelas rochas estreitas, chegando por fim ao local.
O lugar apesar de mal iluminado era belo, uma nascente pequena dava inicio a lagoa que descia pelas rochas estreitas, não era a toa que ainda não haviam descoberto de onde o lago que abastecia o vilarejo vinha. Flores de diversas cores beiravam a nascente, e a luz do luar entrava fraca pelas frestas dos galhos altos das arvores, refletindo nas águas calmas e cristalinas.
Um paraíso particular, paraíso, aquela palavra descrevia perfeitamente o local, tão reservado e cativante, Kyo deitou Hiroshi na terra úmida com o máximo cuidado, passou inconscientemente a mão na face do menino tirando os fios ruivos que cobriam seu rosto pálido, ele era lindo. Tal pensamento fez o Shirian se irritar consigo mesmo, sentir atração por aquilo, um humano.
Viu na cintura do menino o machado preso, e o tirou do tecido que o prendia, apanhou o machado firme em suas mãos o erguendo, aquela era a sua chance, agora poderia dar finalmente um fim nele, apesar de ser apenas um garoto, pertencia a raça que mais detestava, era um humano, a simples palavra já lhe fazia sentir ânsia, os motivos eram até demais para serem descritos, poderia até mesmo não existir paginas o suficiente para se escrever.
Mas agora com a lamina apontada para o menor todas as indecisões vieram à tona, se ele não fosse como os outros? E se fosse? Porque então ele o tirou da armadilha? E principalmente por que decidiu pular atrás dele quando o outro caiu?
Em meio à confusão a mão tremeu temerosa, não conseguiria! Abaixou o machado o atirando longe com raiva de si mesmo por não conseguir, sabia que não poderia matar todos eles, todos os humanos, e jurou se vingar apenas daquele que ordenara, dele e de toda sua família.
Porém apesar de tudo ainda não descobrira quem havia dado a ordem, quem havia acabado com seu mundo, quem havia destruído todos aqueles que conhecia, encarou novamente o ruivo, o corpo frágil encolhido, delicado até mesmo no mínimo movimento.
Em um simples aperto poderia quebrá-lo, com um chute jogá-lo para longe, mas se tinha tanta força e poder, por que não conseguia machucá-lo? Não... Conseguir, conseguia, mas por que não queria machucá-lo?
A pergunta ecoou nos pensamentos de Kyo sem obter respostas, segurou a mão cortada do menino a erguendo, lentamente retirou o pano sujo e velho que a envolvia.
—Não me faça arrepender-se disso — Advertiu Kyo impaciente, levantou o dedo da própria mão o mordendo, apenas o suficiente para abrir um pequeno ferimento.
Uma gota de sangue se formou na ponta do dedo, e o Shirian permitiu que a mesma caísse sobre o corte do outro, abriu um sorriso bobo, antes de voltar a enrolar o pano na mão do garoto, como se nem tivesse mexido.
O ruivo contraiu os olhos mostrando que logo despertaria, Kyo o havia levado para a sua casa pois se ficasse na mata adormecido seria uma presa fácil, porém agora prestes a despertar a historia era outra.
A lua já ia sumindo do horizonte, alertando a manhã que estava começando, os Shirians eram seres noturnos, e o fato de estar amanhecendo não o agradava nem um pouco, os olhos ardiam com os raios ultra violeta, e na luz mal enxergava direito, culpa da visão noturna que possuía, quanto menos claridade melhor. Kyo colocou o garoto entre seus braços o levando para fora, de volta a floresta, passou pelo minério parando apenas para apanhar um dos diamantes, o mais azul que viu e retomou o passo.
Após conseguir uma distancia considerável de seu esconderijo colocou o menino encostado no tronco mais próximo, encarou a pedra brilhante que segurava e a colou no bolso do garoto, uma lembrança, era a única coisa que poderia deixar para ele, pois de agora em diante o evitaria, não queria se relacionar com ninguém, muito menos com um humano.
Se levantou para partir, porém o corpo não queria se afastar. Por que estava agindo desse jeito? Uma brisa fria da madrugada invadia as arvores fazendo Hiroshi se encolher com o frio. Kyo não sabia o que estava fazendo, o corpo já não respondia mais por si, abaixou a face ficando na altura da do menino, os olhos azuis seguiram por toda e extensão do corpo do menor, ele era tão belo e frágil, os movimentos delicados, a voz parecia uma canção e a presença transmitia uma calma e um conforto único, era como um anjo, um anjo sem asas.
Os lábios se aproximaram, sentindo o hálito do outro próximo do seu, e quando estavam prestes a se tocar o raio de sol invadi as arvores, tirando Kyo do transe, o Shirian se afastou assustado pelos próprios atos, e sem pensar mais tomou distancia do menino o deixando lá, enquanto voltava para a caverna.
Hiroshi abriu lentamente os olhos, vendo a visão embaçada ganhar aos poucos forma a medida que se acostumava com a claridade, fechou os olhos novamente tendo a visão do ser que encontrara ontem. “Um sonho? ” Pensou se levantando, “não” negou, sabendo que no fundo ele era real, viu por entre as arvores a luz do sol o chamar de volta, guiando até a mansão, aquele era o último lugar que o garoto queria ir, e para seu pesar era o único que tinha.
Andou com os pés aos tropeços pelo caminho, se enroscando no arbusto, enquanto as mãos absorviam a queda, antes que batesse com tudo no chão, mas não era o fato de ter caído que surpreendeu o garoto, e sim a ausência de algo que já estava acostumado, a ausência da dor, desenrolou apressado o pano vendo o corte da mão já cicatrizado, mas... Como?
Balançou a cabeça descrente, de um lado para o outro, enquanto sentava-se na grama úmida, tocou com os dedos o local sentindo apenas a pele lisa, sem nenhum grunhido de dor nem nada, apenas uma cicatriz de tom mais claro que sua pele.
Ao se levantar novamente pode ouvir o pequeno barulho no chão, como se uma pedra tivesse caído, abaixou-se apanhando o diamante escondido entre as folhagens, os olhos verdes chamuscaram admirados, algo tão brilhante e belo. E o mais incrível era a semelhança daquela pedra azul escura brilhante com os olhos daquele ser, que nada sabia, que não conhecia, e que mesmo não tendo trocado mais que algumas frases com ele já conseguira deixar Hiroshi tão admirado, e encantado.
Ele era belo, selvagem, único, e acima de tudo era livre, sem donos, mestres, ou servos, era como um anjo que abria as asas e zarpava voou, voando livremente, sem regras, sem nada, apenas vivendo. Colocou a pedra novamente no bolso da calça com um sorriso, enquanto ia para a mansão
Dilan já acordara a algumas horas, os pés pisavam firmes no chão de madeira, enquanto caminhava de um lado para o outro, irritado. Noite passada após ordenar que Hiroshi fosse pegar lenha recebera uma carta. A carta avisando que no dia seguinte o príncipe Toriam viria visitá-lo.
Nem era preciso dizer que Dilan odiava sair da rotina, já estava entre seus hábitos diários maltratar o irmão, mas com outro nobre no recinto teria que manter as ações e a lábia controlada, o que o desagradava, e muito.
Além do que Toriam era conhecido pelos maus hábitos, metido e esnobe tinha pavio curto quando contrariado, um mimadinho da nova rainha, a única coisa que não tornava tudo pior era o soldado Gors, que sempre o acompanhava para que o príncipe não abusasse demais da autoridade que possuía, praticamente uma babá.
Dilan já ouvira falar bastante de Gors, a única parte boa nisso tudo era a possibilidade de poder o chamar para um duelo de espadas, a ideia o excitava, como seria derrotá-lo na frente do príncipe metidinho?
Avistou a longe Hiroshi se aproximando, o ruivo ergueu o olhar encontrando o de Dilan que o encarava da janela, engoliu em seco já se preparando para o pior, apesar de sempre ser castigado, ainda não havia conseguido se acostumar com as punições, e o corpo sempre se encolhia em pavor ao relembrá-las.
O ruivo mal se aproximara da mansão quando o guarda se aproximou irritado.
—Quantas vezes vou ter que falar que é para colocar os trajes que lhes foi entregue? —Esbravejou.
—Eu não recebi nada... —Começou Hiroshi se encolhendo, o guarda lhe bateria pela resposta se não estivessem próximos de a qualquer instante receber a visita.
O homem apanhou um traje qualquer no cesto e entregou ao ruivo, que se curvou em respeito antes de se retirar as pressas para vesti-lo. Hiroshi retirou a blusa que vestia com dificuldade, mostrando as costas que de tantas cicatrizes, mal dava para notar a pele natural. Era apenas ali, naquele único ponto que estavam reunidas as cicatrizes, marcas de castigos e punições marcadas com o árduo chicote.
O garoto colocou a roupa entregue, e diferente dos outros empregados que pareciam apenas mais um com o uniforme, Hiroshi ficava perfeitamente bem nela, os bordados reais de primeira classe haviam sido depositados nos tecidos, roupas preparadas para dias raros que recebiam visitas, tentando até mesmo mostrar superioridade perante o outro nos trajes dos empregados.
Os olhos verdes se destacavam-se na pele pálida, junto com os cabelos ruivos, qualquer um que olhasse pensaria que era um nobre por sua beleza, qualquer um que não conhecesse sua historia, qualquer um que não soubesse de seu passado, qualquer um de fora, que não morasse naquele vilarejo aonde era desprezado.
Hiroshi entrou na mansão e antes mesmo que percebesse Dilan veio ao seu encontro, os dedos longos passaram pelo fio ruivos do menino, até segura-los firmes em sua mão e puxá-los, obrigando Hiroshi a inclinar a cabeça para trás e fechar a cara.
Os lábios do irmão ficaram na altura da orelha de Hiroshi, fazendo questão de sussurrar o recado.
—Temos visitas, não suma como ontem, ou me faça passar vergonha —Advertiu erguendo a outra mão e passando-a pelas costas do menor, fazendo o menor se encolher ao toque do outro em seus machucados —Ou então... Acho que você já sabe —Disse Dilan soltando uma risada baixa —Estamos entendidos?
—Sim... —Disse o ruivo entre os dentes, segurando os palavrões que estavam na ponta da língua.
—Majestade eles chegaram — alertou o guarda, Dilan soltou os cabelos de Hiroshi que ainda permanecia imóvel.
—Não se esqueça, em hipótese alguma tente fugir novamente, você me pertence, não me faça colocar uma coleira para te lembrar disso—Disse Dilan se virando.
—Não sou um animal de estimação —Reclamou Hiroshi baixo, fazendo o loiro soltar mais um riso pela audácia do menor, a vontade de vê-lo se ajoelhar e pedir desculpas estava cada vez maior. Se conteve, os empregados fizeram uma fila, lado a lado, e se curvaram assim que a porta foi aberta, em reverencia ao príncipe que entrava.
—Dilan —Disse Toriam abrindo os braços com um sorriso falso, os cabelos castanhos claros estavam arrepiados, enquanto era seguido por Gors, o jovem tinha cabelos longos negros, presos por uma fita.
Toriam andou na direção de Dilan, parando alguns passos antes, virou o rosto para encarar o empregado ainda curvado ao seu lado, os cabelos ruivos se destacavam entre os outros, um ponto vermelho no meio do tão castanho e negro casual.
—Ora, ora —Exclamou Toriam se abaixando, a mão tocou o queixo de Hiroshi o erguendo, olhando diretamente para os olhos verdes do menino, que de tão brilhantes pareciam safiras —Quanto custa? —Perguntou animado para Dilan.
O loiro o encarou sério, os olhos azuis fulminaram o outro irritado pelo abuso, ninguém além dele próprio tinha direito de tocá-lo, pelo menos não sem sua permissão.
—Meus empregados não estão à venda —Ladrou impaciente. Gors colocou a mão sobre o ombro de Toriam, o afastando do menino, sabendo que se continuasse a tocá-lo, Dilan não manteria mais os bons modos —Estão dispensados — Disse enquanto todos se retiravam.
—Precisa de mais alguma coisa majestade? —Perguntou Hiroshi, o ruivo apesar de odiar o loiro sempre fora colocado como o servo próximo do irmão, então em todas as visitas deveria ser o empregado que mais o servisse, era apenas uma desculpa para não sair do campo de visão do outro.
—Não —Respondeu Dilan irritado, o ruivo se curvou novamente e se retirou pela porta da frente, enquanto passava por Gors deixou escapar um sorriso travesso ao ver a face mal-humorada de Dilan. Sabia que em nenhum momento teria a chance de fazer o outro sofrer, mas pelo menos poderia deixá-lo irritado sem ter como o punir.
Toriam andou alguns passos até a janela e viu o ruivo partir, os olhos cheios de cobiça chamuscavam com a luxuria de seus pensamentos, sim ele era mimado, e exatamente por isso, quando queria algo, conseguia.
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