O Último Reino da Terra

14 Capítulo 13: A noite das bruxas


A cidade ardia.

O ataque começou no meio da noite, sem aviso, sem reivindicações. Um grupo desconhecido invadiu o laboratório subterrâneo, quebrando portas, desativando trancas, destruindo os sistemas de segurança. Não houve organização, apenas fúria e desespero. Quando as celas se abriram, as criaturas não saíram imediatamente. Algumas hesitaram, suas mentes quebradas após anos de confinamento. Outras avançaram às cegas, tropeçando, sentindo o cheiro do mundo que há tanto tempo lhes fora negado.

Então, um grito cortou o silêncio. Um som gutural, primal, que reverberou pelos corredores escuros. Como uma única entidade, os deformados avançaram—correndo, rastejando, saltando com membros torcidos e inumanos. Os invasores se afastaram, horrorizados. Aquilo que haviam libertado já não pertencia ao mundo que conheciam.

Quando as criaturas emergiram das entranhas da cidade, os primeiros cidadãos mal tiveram tempo de entender o que estava acontecendo. O caos veio em ondas. Alguns monstros, cegos e confusos, apenas tentavam fugir, esmagando quem estivesse no caminho. Outros, famintos, atacavam sem distinção. As ruas se tornaram um campo de batalha onde ninguém sabia quem era o inimigo—os soldados atiravam em tudo que se movia, os civis corriam para qualquer direção que parecesse segura, e os gritos de dor e pânico se misturavam ao cheiro de sangue.

June, Ethan, Maddy e Alex assistiam às transmissões nos telões espalhados pela cidade, seus rostos iluminados pelo reflexo das chamas. Eles tinham planejado expor os horrores do Casulo, mas não daquela forma. Pessoas estavam morrendo. Crianças foram esmagadas nos tumultos. Pais eram despedaçados na frente de seus filhos. A cena era grotesca e irremediável.

— Isso não foi a gente... — murmurou Maddy, a voz falhando.

— Mas fomos nós que começamos isso, de um jeito ou de outro — Ethan respondeu, tenso. Seu punho se fechou ao ver mais uma criatura ser abatida a tiros pelas forças do Domo. Algumas, mesmo completamente deformadas, gritavam como crianças.

— Não pode ser... — June apertou os olhos. — Quem faria isso?

A resposta veio horas depois, quando seus pais chegaram em casa, exaustos, com a roupa manchada de poeira e sangue seco. Eles haviam lutado para atravessar a cidade em meio ao massacre, e agora estavam lá, no centro da sua sala de estar, encarando o que parecia ser um pesadelo materializado.

Quatro figuras grotescas se encolhiam nos cantos do cômodo, escondendo seus corpos deformados da luz. Dois tinham braços extras, que se contorciam em espasmos involuntários. Outro não tinha olhos, apenas fendas vazias onde deveriam estar. O último era apenas um vulto esquelético, sua pele quase translúcida esticada sobre ossos frágeis.

— O que diabos é isso? — A voz do pai de June saiu entrecortada.

Sua mãe deu um passo para trás, instintivamente se agarrando ao braço do marido.

— Vocês fizeram isso? Vocês libertaram essas... coisas?! — O olhar dela oscilava entre June e Ethan, cada vez mais acusatório.

— Nós não... — June tentou explicar, mas sua mãe a interrompeu.

— Eu vi, June! Eu vi tudo! O horror lá fora, as mortes...! As criaturas atacando pessoas inocentes! Nós mal conseguimos chegar aqui vivos! E agora elas estão dentro da nossa casa? Como você pôde? — Os olhos dela estavam marejados, e sua voz soava como uma súplica, como se esperasse que June negasse tudo e desfizesse aquele pesadelo.

Os seres se encolheram ainda mais. Eles não atacavam. Não tentavam machucar ninguém. Apenas tremiam, como se temessem ser rejeitados novamente.

— Não fomos nós — Ethan disse, sério. — Alguém invadiu o laboratório e os soltou. Um grupo que a gente não conhece.

— Mas vocês divulgaram as imagens. Vocês revelaram a existência deles! — A mãe de June soluçou. — Foi isso que causou tudo isso, não foi? Se vocês tivessem ficado quietos... se nunca tivessem mexido nisso... nada disso teria acontecido!

O silêncio pesou no cômodo. As palavras dela eram como facas cravando fundo em cada um deles. Ethan engoliu seco. Maddy desviou o olhar, envergonhada. Alex apertou as têmporas, tentando conter a dor de ver tudo aquilo acontecer tão lentamente em sua percepção distorcida.

June hesitou antes de falar.

— E se fossem vocês? — Sua voz era baixa, mas firme. — E se fosse eu? Se eu tivesse sido levada para o Casulo e voltado assim? Vocês diriam que eu merecia morrer só para que o Domo continuasse confortável na sua mentira?

Os pais dela empalideceram. O pai desviou o olhar. A mãe abriu a boca, mas nada saiu.

— O problema nunca foi a gente expor a verdade — continuou June, o peito subindo e descendo rapidamente. — O problema foi que vocês preferiram viver na ilusão até que fosse tarde demais.

A mãe dela caiu sentada no sofá, as mãos tremendo. O pai suspirou e passou a mão pelo rosto.

— Então o que vamos fazer agora? — Ele perguntou, resignado.

— Vamos protegê-los — June respondeu, olhando para os seres encurralados na sala. — E descobrir quem fez isso. Porque seja lá quem for, eles não fizeram isso por justiça. Fizeram por vingança."


A cidade ainda ardia quando as telas dos telões mudaram subitamente. A imagem estática do brasão do Domo foi substituída pelo rosto severo de Andreas. Ele usava um terno impecável, sua expressão era solene, mas seu olhar fervia com indignação controlada.

— Cidadãos do Domo — sua voz ecoou pelos alto-falantes —, hoje fomos atacados. Hoje, a cidade que construímos com suor e sacrifício foi manchada pelo sangue de inocentes. E a pergunta que devemos fazer é: quem fez isso? Quem soltou essas abominações em nossas ruas?

Ele fez uma pausa, permitindo que o silêncio pesado fosse absorvido.

— O governo quer que acreditem que foram rebeldes. Que os traidores que se escondem nas sombras são os culpados. Mas eu pergunto: faz sentido? Por que libertariam criaturas tão monstruosas? Não, meus amigos. Essa tragédia tem um responsável claro. O próprio governo, que quer nos manter aterrorizados! Eles soltaram essas coisas para justificar mais controle, mais repressão, mais medo!

As imagens da destruição começaram a rodar ao fundo, enquanto Andreas cerrava os punhos.

— Não nos deixemos enganar! Não permitamos que usem o medo para nos submeter! O Domo pertence a nós, ao povo! E não permitiremos que nos usem como peões nesse jogo cruel!

A transmissão cortou abruptamente, mas o estrago estava feito. O caos agora tinha um novo foco. E a resistência teria que decidir rápido qual seria sua resposta.

Ethan ainda encarava a transmissão na TV, os olhos estreitados. A voz que ecoava na tela era firme, convicta, carregada de indignação teatral.

Andreas.

Ele acusava o governo de ter soltado as criaturas para aterrorizar a população. Suas palavras inflamavam os cidadãos, pintando um quadro onde o Domo manipulava o medo para justificar mais repressão. Mas havia algo mais. A postura, a escolha cuidadosa das palavras, a forma como ele se colocava como um líder nato... Ethan sentiu um arrepio na espinha.

— Não — murmurou para si mesmo.

— O quê? — Maddy perguntou, olhando para ele.

— Andreas... ele não está só acusando o governo. Ele está se promovendo. Ele quer ser visto como a única opção segura, como o líder inevitável da revolução.

Maddy franziu o cenho. — Você acha que ele pode estar envolvido nisso?

Ethan passou a língua pelos lábios, a mente trabalhando rápido. — Se alguém libertou essas criaturas sem se preocupar em deixar rastros... talvez por que soubesse que todos os envolvidos morreriam no processo?

O peso daquelas palavras fez o ar na sala parecer mais pesado. Se Andreas tivesse calculado tudo, manipulando o caos para ganhar poder... então eles tinham mais um inimigo dentro da própria revolução.

A sede da resistência estava deserta, quase silenciosa. O cheiro de fumaça e a tensão que permeavam o ar pareciam intransponíveis, como se a própria casa sentisse o peso do que acabara de acontecer. Ethan e June estavam ali, no centro da sala, imersos em pensamentos profundos, tentando processar o caos que haviam ajudado a desencadear. Os outros haviam partido. Maddy já estava no palácio, onde Lisa a teletransportara para a segurança. Maddox foi a próxima, levada em segurança por Lisa. Alex, por sua vez, correra o mais rápido possível para sua casa, torcendo para que nenhuma das criaturas conseguisse ultrapassar sua velocidade superior.

Ethan e June ficaram ali, entre as paredes da sede vazia, suas mentes à deriva, tentando entender onde haviam errado. A sala que antes fervilhava de planos e estratégias agora se encontrava em um estado de vazio desconcertante. O que começou como uma revolução pela liberdade agora parecia ter se transformado em um pesadelo, e tudo parecia fora de controle.

Ethan esfregou as têmporas, sentindo o peso das opções diante dele. Ele pensou, por um momento, em expor os podres de Andreas — revelar tudo o que ele sabia sobre o líder revolucionário. Mostrar quem ele realmente era, um manipulador, um ambicioso que usou a dor de tantos para se promover. Mas algo o fez hesitar. Se fizesse isso, ele sabia que só daria mais munição para Andreas. Faria com que ele fosse visto como uma vítima, mais uma vez perseguido pelo governo, quando na verdade era o próprio Andreas quem estava jogando o jogo sujo.

June estava quieta ao seu lado, olhando para a mesa, o olhar perdido, como se estivesse tentando juntar as peças de um quebra-cabeça que agora parecia impossível de montar. Ela sentiu o peso da culpa, mas também da inevitabilidade. Havia cometido um erro crítico ao dar atenção a Andreas, ao alimentá-lo com poder e voz. O líder da resistência, que deveria ser um símbolo de liberdade, agora estava tornando-se a maior ameaça para todos. A revolução que ela imaginara como algo puro, algo que poderia mudar a realidade, havia se transformado em um jogo de poder e manipulação.

— Perdemos o controle... — June murmurou, a voz um sussurro, mas carregada de uma tristeza profunda.

Ethan olhou para ela, seus olhos pesados. Ele sabia que ela estava certa, mas a realidade daquela constatação não fazia o peso desaparecer. A revolução já não era mais o que havia sido. Eles haviam jogado a luta na mão errada, e agora o jogo estava nas mãos de Andreas.

O silêncio se instalou novamente entre eles. Nenhum dos dois sabia o que fazer. A cada pensamento, novas dúvidas surgiam. Como poderiam corrigir aquilo? Onde estavam os próximos passos? Não havia respostas fáceis, e o tempo estava contra eles.

O som de uma batida na porta dos fundos os arrancou de seus pensamentos. O ruído quebrou o transe pesado em que estavam imersos. Eles olharam um para o outro, sem saber o que esperar.

A porta se abriu lentamente, e Dalila apareceu, os olhos estreitos de quem estava tentando entender o que estava acontecendo. Sua postura, normalmente imponente, agora estava tingida de uma frustração visível. Ela parecia estar mais fora de controle do que qualquer um deles, como se ela soubesse que algo muito errado havia acontecido, mas não entendesse completamente.

— O que diabos aconteceu aqui? — Dalila perguntou, a voz carregada de indignação e cansaço. — Como isso saiu tão do controle? O que foi que vocês fizeram?

June e Ethan se entreolharam, ambos cientes de que não tinham uma explicação simples para dar. Eles haviam sido manipulados, mas como poderiam explicar isso? Como contar a Dalila que a revolução tinha sido corrompida por um homem que parecia estar mais interessado no poder do que na liberdade?

Ethan respirou fundo, sentindo o peso da pressão. — Não sei por onde começar.

Dalila avançou para o centro da sala, seus olhos passando por tudo ao redor, examinando os rostos dos dois, como se esperasse encontrar uma resposta pronta. Ela estava furiosa, mas também preocupada.

Ethan e June se entreolharam, cada um tentando encontrar as palavras certas. Não sabiam como explicar a calamidade sem parecerem completamente impotentes. O que aconteceu estava além de tudo o que haviam antecipado.

— Dalila, a gente não sabia — disse Ethan, a voz tensa. Ele respirou fundo, lutando contra o peso do erro. — Nós realmente não imaginamos que isso pudesse acontecer. Não previmos que alguém fosse libertar as criaturas daquele jeito... nós só queríamos expor a verdade, mostrar o que estava acontecendo dentro do Casulo.

June olhou para Dalila, o olhar sincero, tentando transmitir a gravidade do que eles estavam dizendo. — A ideia era chamar atenção para o que o governo estava fazendo, não... isso. As imagens que vazamos eram apenas o começo de algo que precisava ser revelado, mas nunca pensamos que poderia desencadear esse caos.

Dalila os observava, seu olhar desconfiado, mas algo em sua expressão suavizou. Ela sabia que a resistência, especialmente Ethan e June, sempre agiram com a intenção de mudar o sistema. Mas havia uma falha crítica. Uma falha que Dalila agora reconhecia também. Ela olhou para o chão, processando as palavras deles.

— Então você está dizendo que não sabiam? — ela perguntou, a voz agora mais baixa, com uma mistura de incredulidade e frustração. — Não imaginaram que essa situação poderia ser, na verdade, o que o governo queria? E que agora há um caos total nas ruas? Mortes? Crianças sendo esmagadas? Isso é o que vocês conseguiram...!

June, sentindo o peso da responsabilidade, olhou para Dalila com sinceridade. — Eu não queria que isso acontecesse. Nós não queríamos... — ela parou, sentindo o nó na garganta. — Mas, na verdade, eu começo a achar que... que fomos manipulados.

Ethan não hesitou em completar o raciocínio. Ele olhou Dalila com intensidade. — Eu comecei a pensar a mesma coisa. Andreas... — Ele se calou por um momento, observando as reações de Dalila e June. — O que se tornou claro agora é que ele talvez tenha manipulado a situação para tomar o controle da revolução. Ele estava de olho no poder o tempo todo, não é só uma acusação contra o governo. Ele queria que isso acontecesse, e sabia muito bem como usá-lo a seu favor.

Dalila estreitou os olhos, uma expressão de surpresa e desconfiança surgindo em seu rosto. — Você está dizendo que ele planejou tudo isso? Que ele estava esperando que as criaturas fossem soltas para manipular a situação?

Ethan assentiu lentamente, sentindo o peso de suas próprias palavras. — Pense bem, Dalila. Se ele sabia que as criaturas seriam soltas e que o caos iria se espalhar, por que ele não fez nada para impedir isso? Por que ele não tentou alertar ninguém? Em vez disso, ele usou o pânico e as mortes como uma plataforma para se posicionar como o único líder capaz de restaurar a ordem.

June olhou para a tela, onde a imagem de Andreas ainda estava transmitida, seu discurso inflamado ecoando pelas ruas. Ela sentiu um arrepio. A maneira como ele se posicionava, com seu olhar confiante, uma postura de quem tinha as respostas, tudo isso começava a parecer mais suspeito.

— Ele sabia o que estava fazendo — June disse, sua voz carregada de um peso que ela nunca imaginou carregar. — Ele se aproveitou da nossa falta de controle. E agora, com isso tudo acontecendo, ele pode se apresentar como a única solução viável. E nós... nós caímos na armadilha.

Dalila ficou em silêncio, olhando para os dois, ainda processando o que acabara de ouvir. A revolução, que eles tentaram construir com a esperança de mudar a realidade, agora estava sendo manipulada por Andreas. Eles haviam sido usados, como peões em um jogo maior.

— Então... agora o que fazemos? — Dalila perguntou, a frustração misturada com uma angústia que ela ainda não queria admitir. — O que resta para nós?

Ethan se levantou, a mente funcionando a mil por hora. Ele sentia que ainda havia algo a ser feito, mas agora era preciso agir com cautela. — A revolução não pode ser tomada por ele. Não dessa maneira. Precisamos expor o que ele fez, sem que ele tenha o controle da narrativa. Mas, acima de tudo, precisamos encontrar um jeito de salvar as pessoas que ainda estão no meio desse caos.

June olhou para Dalila, suas palavras firmes. — Não podemos deixar ele assumir o comando sem resistência. Mas para fazer isso, precisamos ser mais estratégicos do que nunca. Ele está manipulando todos ao nosso redor. Nós precisamos de uma forma de pará-lo sem nos tornar mais uma peça do jogo dele.

Dalila olhou para os dois, o semblante sério, mas agora com uma nova determinação nos olhos. — Então vamos parar ele. Vamos garantir que ele não consiga manipular mais ninguém. E vamos mostrar que a revolução, a verdadeira revolução, não tem dono.

A tensão no ar ainda era palpável, mas havia agora um novo senso de propósito. A guerra pelo controle da revolução estava apenas começando, e agora eles precisavam ser mais inteligentes do que nunca.