O Último Por do Sol
1 Único.
Notas iniciais
É sempre bom escrever sobre este casal, porém tive um pouco de dificuldade por não ser em universo alternativo.
Não foi betada, perdoem eventuais erros.
Aqui tem o link da música: https://www.youtube.com/watch?v=UlkTcaZSCMQ
Boa leitura!
O último por do Sol
A onda ainda quebra na praia, espumas se misturam com o vento
No dia em que você foi embora eu fiquei sentindo saudades do que não foi
Lembrando até do que eu não vivi, pensando em nós dois
Era um fim de tarde ensolarado, resolvi dar uma volta na praia próxima do santuário. Os últimos acontecimentos haviam me esgotado de uma maneira inexplicável. Sentindo a areia fria em meus pés descalços, olhei a imensidão do mar a minha frente e não me contive em lembrar-me de ti, da tua falta tão recente. Costumávamos fazer longas caminhadas nesta praia, conversando sobre tudo. O lugar me parecia o mesmo, mas as ondas já não traziam a paz que sentia quando aqui vinha contigo, e o aroma característico do mar estava carregado de melancolia. Não foram poucas as vezes que quis aproveitar deste belo cenário para lhe dizer algo que eu sempre soube, que acho que também sabias, mas que nunca saíra das entrelinhas.
Eu lembro a concha em seu ouvido, trazendo o barulho do mar na areia
No dia em que você foi embora eu fiquei, sozinho olhando o Sol morrer
Por entre as ruínas de Santa Cruz, lembrando nós dois
E então um dia tu me perguntaste, fitando o mar, se as coisas eram pra ser do jeito que eram; se em infinitas possibilidades de destinos, não importando qual rumo escolhêssemos, acabaríamos estando ali naquela tarde, como cavaleiros. A pergunta não era muito do teu feitio, sempre vistes as coisas de um modo lógico e objetivo. Creio ter-lhe respondido que não saberia dizer, mas que não importava, se fosse para ter a oportunidade de conhecê-lo, qualquer destino valeria a pena. Mas o que mais me surpreendeu foi quando pegaste uma concha na areia e a levaste ao ouvido, dizendo que talvez ela pudesse respondê-lo, com a sabedoria contida no ressoar do mar. Se o respondera eu nunca soube, mas tua imagem com ela ao ouvido, tão inocente, com os raios de sol a incidir por teus longos cabelos avermelhados, iluminando-os em aspecto divino, ficou gravada eternamente em minha memória. Uma versão tua que poucos, senão somente eu, tive a oportunidade de conhecer. E eu me senti maravilhado por dividir esse teu eu comigo, sabia o quanto significava. Sentei-me na areia e me pus a observar o Sol tocando o horizonte, logo após tu sentaste ao meu lado, e muito discretamente pousaste a mão sobre a minha. Ficamos velando o céu em silêncio até que este fosse inteiramente salpicado de estrelas, nossas mãos sempre juntas.
E agora cá estou eu sozinho, sentado em um antigo banco dessa praça em ruínas, contemplando os últimos raios de Sol desaparecendo por entre as montanhas, deixando um céu rosado para trás. E embora soubesse que em nossa condição não poderíamos nos dar ao luxo de um relacionamento, eu sempre sonhei com isso. E quero acreditar que você também.
Mal a dor da tua perda foi sofrida, já me preparo para outro confronto. Esse boato que alguns invasores novamente aqui querem adentrar excita meu coração, é uma forma de expurgar um pouco da mágoa que anda me consumindo. Lamento por aquele que tiver o infortúnio de se por em meu caminho hoje.
Os edifícios abandonados, as estradas sem ninguém
Óleo queimado, as vigas na areia
Subindo para minha casa, passo por Gêmeos, Câncer e Libra, estas vazias, e me preocupo se o santuário estará seguro com estes pontos sem guardiões. As coisas começam a ficar mais agitadas, sussurros abafados são ouvidos e por alguma razão, sinto que esta não é uma invasão normal, há um clima mais pesado ainda do que quando os garotos de bronze trouxeram Athena para cá. Chegando em Escorpião, uma amazona vem me avisar que os intrusos já haviam chegado e estavam em confronto com Mu em Áries. Fiquei em alerta e realmente pude perceber cosmos agressivos vindo de lá, mas algo estava estranho, me pareciam cosmos familiares. E havia um odor diferente no ar, me lembrava óleo queimado. Seria Shaka com algum ritual indiano se preparando para a batalha? Era possível.
Sei que não deveria deixar minha casa, mas precisava checar se Athena estava bem, afinal, sua segurança era nossa prioridade. Chegando a seu aposento, fui ter com ela, e me disse que um novo guerreiro havia se prontificado a seu serviço. Quando soube quem era fiquei perplexo, um homem que tanto mal causara, agora queria se reconciliar e arriscar sua vida em nome da deusa para expurgar seus pecados. Eu não duvidava que isso era possível, mas precisava ter certeza de que seus atos eram totalmente honestos. E foi isso que fiz, o julguei à minha maneira, com minhas habilidades tanto quanto tortuosas e com meu senso de justiça que era referência no santuário, provei a mim mesmo e aos outros cavaleiros que Kanon era digno de nossa confiança e que lutaria ao nosso lado nessa batalha.
A lua nascendo por entre os fios dos teus cabelos,
por entre os dedos da minha mão
passaram certezas e dúvidas
Shaka havia morrido. Com um assombro reconheci teu cosmo à distância. Incrédulo, e sem entender o que se passava, fui averiguar em Virgem a origem dessa inquietação em meu peito. E lá chegando, te avistei. Estava acabado, muito ferido e o mais chocante, usando uma sapuri, assim como os outros dois. Os ouvia discutindo com os outros cavaleiros, Aiolia estava possesso, mas eu não conseguia assimilar muito bem. Me encostei em uma parede nas sombras e me pus a raciocinar, deixando a alegria e a surpresa de te ver novamente de lado. A morte de Shaka foi um choque. Haviam perdido completamente a honra, como ousaram utilizar a técnica proibida! Ainda mais você, Camus, um dos cavaleiros mais exemplares... Não conseguia imaginar o porquê disso tudo, mas uma raiva e desespero percorreu meu corpo. Um companheiro fora abatido, tinha o dever de vingar sua morte, assim como o de proteger o santuário e a deusa de quem os ameaçasse, não importando quem fosse. Respirei fundo, contendo um pouco minha exasperação e lentamente me revelei. Meu sentido de justiça está acima de qualquer relação, e agora os puniria, desta vez sem misericórdia.
O que os sustentava tanto? Estavam todos mutilados, mas ainda assim resolutos a levar aquela loucura até o final. Seria melhor acabar o quanto antes, e levaríamos tudo conosco. A Exclamação de Athena novamente fora usada, e se não fosse pela interferência dos cavaleiros de bronze teríamos realmente acabado com tudo ali. Porém a deusa falou-nos e pediu que levássemos os intrusos até sua presença. Mesmo relutantes, obedecemos sua ordem. Quando cheguei até onde estava caído, tudo me pareceu tão errado. Pela segunda vez presenciaria você morrendo, desta vez não gloriosamente, mas vergonhosamente, como um traidor, com uma sapuri. Contive as lágrimas de pesar e raiva e me aproximei de ti, levantando seu corpo já tão surrado. Sua expressão era de dor, porém sustentou meu olhar por alguns segundos e pude ver todo o seu sofrimento se pronunciar com uma única lágrima. Afastei uma mecha de cabelo que cobria seu rosto, estava mais pálido que o normal, o luar evidenciava suas sardas. Nova onda de emoções se passou por mim e dessa vez a raiva foi mais forte. Carreguei-te até Athena em silêncio, ainda inconformado com o comportamento insano de vocês.
Pois no dia em que você foi embora eu fiquei,
sozinho no mundo sem ter ninguém
o último homem no dia em que o Sol morrer
Kanon trazia consigo uma caixa, e Athena ordenou que a oferecesse à Saga. A adaga, qual fora usada anos atrás na tentativa de Saga matar Athena, esta noite cumpriria seu fado. É claro, isso não poderia acontecer, como deixaríamos Athena acabar com a própria vida? Era insano, porém assim aconteceu. A deusa que tanto tentamos proteger estava agora morta, bem diante de nossos olhos, e vocês haviam cumprido sua terrível missão. Não conseguia calcular meu desespero perante tal situação, alguém deveria ser punido por isso, me sentia inútil! Agarrei seu pescoço, Camus, e entre lágrimas extravasei um pouco de minha dor.
Entretanto, em meio ao caos compreendi o que havia acontecido. O propósito de suas ações, o fardo tão pesado e nobre que escolheram carregar. Era necessário. E aceitaram isso mesmo sabendo das consequências. Nos encontrávamos em uma situação sem volta agora. Deveríamos ir até o mundo dos mortos para proteger Athena em sua batalha mais arriscada. A perspectiva de nossa morte era certa, iríamos lutar até não restar mais nada, em nome da deusa. Cada qual com sua batalha, em nome de seus princípios.
E então, quando enfim tudo terminar e a vitória de Athena se consagrar, talvez teremos a oportunidade de acordar em um lugar maravilhoso, onde não existirão compromissos que nos impeçam de estarmos juntos. Poderemos concretizar nossos mais íntimos desejos, renegados em vida por conta de nossa condição. Deitará com seus cabelos de fogo em meu colo, e veremos o por do Sol, sem preocupações, apenas com a eternidade se estendendo em nossa frente. É nisso que acredito, e por isso me encaminho à morte sem medo, tendo você em mente como meu último e eterno desejo.
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