A morte do Rei Arthur. O quadro não era o original, claro. Mesmo esbanjando dinheiro ao menor indício de que queríamos determinada coisa minha mãe nunca soube que eu adorava a pintura. Morgan sabia e me dera uma cópia que era tão bonita quanto a original, mas por ter suas pinceladas menos densas e melancólicas nunca me despertara a tristeza como a obra de James Archer. Até agora. Sentindo meu coração lentamente desacelerar me obriguei a enxergar a verdade. Era uma pintura. Uma pintura como outra qualquer sobre as lendas arturianas e não poderia me machucar. Demonstrava a morte de Arthur, não minha. A minha cama era por si só um alento e mergulhei nas cobertas, o que me dava uma visão direta do quadro. O encarei de um jeito completamente novo. Sob os pisca-piscas de natal que eu decidira usar como uma rede luminosa no teto o rosto moribundo de Arthur estava plácido, complacente. Era o rosto de um homem que havia aceitado o seu destino. Havia uma figura solitária na praia que me lembrava desconfortavelmente do velho lunático que me perseguira. Merlin. Como o Merlin que eu conhecia o da pintura também não havia conseguido cumprir sua tarefa. A magia não fora suficiente para salvar seu rei. Peguei-me imaginando como seria. Sentir sua missão de vida escapando entre seus dedos sem poder fazer nada. Como Merlin deveria ter se sentido.

As batidas contra a porta vieram em uma sequência curta.

– Vina? — exigiu minha mãe. E quando não respondi voltou-se para uma abordagem mais insistente – Avina Marie Pendragon abra essa porta agora!

– Não estou afim. – respondi sem conseguir tirar os olhos do quadro. Era como se estivesse envolvido em um feitiço particular. As cores, o pesar nos semblantes de todos, como algo tão triste poderia ser meu quadro favorito? Ou talvez o fosse justamente por isso?

Do outro lado da porta a senhora Pendragon soltava um suspiro exasperado.

– Muito bem, fique enfiada neste quarto como um bicho! Quando sair vamos ter uma conversinha. – ela desistia facilmente, mas nunca esquecia. Meu deslize me renderia semanas de reclamações e indiretas nas costas. Mas como com tantas outras coisas que eu não amava em minha mãe, também com isto eu havia me acostumado.

Como não me dei o trabalho de responder momentos depois ouvi o barulho de seu salto contra o piso de mármore. Correria para consertar o que eu tinha estragado, para agradar Mordred até que se esquecesse do papelão que sua filha a tinha feito passar. Minha mãe era forte defensora de que a última expressão é a que fica, então tinha tomado como hobby varrer para debaixo do tapete meu pouco talento com as visitas. Suspirei, finalmente desprendendo meus olhos das pinceladas precisas do meu irmão. A ideia de mudá-lo de lugar me pareceu bastante boa, mas não havia realmente espaço nas outras paredes. Uma parte estava ocupada com estantes de livros, outra com prateleiras onde Catherine sempre insistia em pôr meus troféus, mas que eu prontamente substituía por figuras de cavalos e cavaleiros que vinha ganhando do meu pai em meus aniversários. Havia também a grande janela escondida atrás das cortinas que eu achara nas nossas últimas férias em Nova Deli enquanto meus pais discutiam se mais um tapete persa era realmente necessário. Morgan, claro, tinha se separado de nós durante as compras e descoberto lugares completamente fascinantes e antigos que às vezes me mostrava. Era um talento seu, imagino, como o meu era me arrastar atrás dos meus pais porque de uma maneira ou de outra, não conseguia dizer não a eles.


As fotos de Nova Deli também estavam no grande quadro de lembranças. Era assim que Jodie o chamara quando surgiu com ele alguns anos atrás em uma das minhas fases particularmente difíceis. Algumas tachinhas pregadas depois e uma Jodie dez anos mais nova me encarava sorridente enquanto uma garotinha a olhava através de uma franja arruinada. A foto fora tirada quando eu descobri que nascera para ser cabeleireira, como minha mãe estava viajando meu pai achou por bem guardar o momento para quando ela voltasse. Catherine ficara indignada, mas Jodie apenas sorrira e tirara a tesoura da minha mão. Tantos anos depois o quadro não tinha mais um centímetro livre e a Jodie e a versão mini de mim haviam se juntado a Morgan e seus dentes quebrados quando andara em um cavalo pela primeira vez, Dianne e eu em diversos momentos com o ponto alto a foto que tiramos quando decidimos fazer uma viagem por toda Grã-Bretanha com nada mais que nossas mochilas nas costas e algum trocado. Anna, Christie e Amber também me encaravam com olhos brilhantes na foto da nossa formatura. Sentia falta delas de verdade, mas para o desespero da minha mãe nossa amizade não se estendeu ao período pós-escolar. Estavam em Ibiza durante as férias da universidade e mesmo depois de dois anos ainda me convidavam para me juntar a elas. Na noite anterior recebera uma mensagem de Christie com uma imagem delas farrando em um iate rodeadas por homens que eu tenho certeza serem strippers “Olha o que está perdendo! Sentindo sua falta!” ela escrevera. Eram boas amigas e ótimas pessoas, mas eu simplesmente não tinha ritmo para acompanhar a maratona de festas que faziam todas as noites.

Felix também estava lá. Com seu sorriso estúpido e covinhas adoráveis. E eu estava lá com ele, parecendo mais idiota estúpida que o normal enquanto o observava. Tinha sido tirada em um dos pubs badalados, depois de um show de sua banda. Foi a noite em que me beijara pela primeira vez, me fazendo sentir como se fosse um balão de felicidade prestes a explodir. Talvez fosse hora de jogá-la fora, pensei, mas era tão bonita. Ao lado também havia uma foto que pensara diversas vezes em arrancar. Mostrava os Pendragon em toda sua glória. Era de uma sessão de fotos que minha mãe insistira em fazer e era a típica imagem de nobreza que ela queria passar para todas as pessoas do universo. Ela e meu pai estavam sentados e atrás dos dois estávamos eu e Morgan. Meu irmão estava impecável em um terno que arrancou do corpo assim que o fotógrafo se deu por satisfeito, meu pai usava algo parecido e nem Catherine pôde reclamar de sua aparência daquela vez.

Poderia ser um rei, pensei novamente quando meus dedos passaram pela fotografia. E minha mãe era sua rainha. Imponente e orgulhosa em seu vestido rubro exuberante não ficava atrás de qualquer atriz famosa que desfilava por eventos em Hollywood. Para Catherine, a vida era um tapete vermelho. Por último me forcei a olhar para mim e pela enésima vez fui tomada pela sensação de autopiedade que tanto desprezava. Era de quando meus cabelos ainda eram longos, então o time de cabeleireiros e maquiadores fez o possível para me transformar na imagem mais próxima de uma boneca que seu talento permitia. Sentia-me sufocada cada vez quando tentei usar maquiagem e o desconforto era bem visível. Os cabelos caíam sobre meus ombros e uma tiara delicada de fios de ouro entrelaçados estava sobre minha cabeça. Lembro que os cabeleireiros haviam implorado para que os deixasse fazer um estilo mais elaborado, mas eu havia declinado com teimosia. Todos pareciam quase etéreos, até Morgan com suas grossas sobrancelhas ligeiramente arqueadas em desafio. Eu parecia apenas completamente perdida, com meus grandes olhos azuis arregalados como se esperasse o disparo de uma arma e não o de uma câmera. O pior, claro, tinha sido o vestido. Em alguns dias acho que jamais serei capaz de perdoar minha mãe por ter me enfiado nele, depois espalhado as fotos para todos os conhecidos e pedir uma versão grande o suficiente para emoldurar e pendurar no corredor principal. Era azul turquesa e tão horrivelmente feio que continuava a pensar que era uma versão grande daqueles vestidos que as garotas usam nas competições de beleza norte-americanas.

Suspirando deixei-me cair na cama. Tentei redirecionar meus pensamentos para coisas boas como a terapeuta havia aconselhado há tantos anos. O festival medieval daqui a poucos dias era uma tentativa fácil. Estava ansiosa para entrar na competição de justa, porque havia me esforçado durante os treinos com Leon e também por ser uma área em que meu corpo bizarro representaria uma vantagem. E porque era boa, muito boa. Fechei os olhos e imaginei o peso da armadura sobre os ombros, a visão limitada que o elmo possibilitava e a espada de treinamento na mão direita. Talvez um escudo na esquerda. Os movimentos do pulso, o girar da espada, o dançar dos pés. O suor descendo, o escudo levantado no segundo exato.

Aconteceu de repente, a sensação de estar caindo de uma ponte enquanto durmo e então eu não estava mais em meu quarto. A respiração descompassada denunciava cansaço, na minha mão pesava uma espada, meu escudo de madeira estava a metros de distância, estraçalhado. Era uma arena, eu acho. Uma multidão gritava e havia areia em minha boca quando rolei para o lado, impedindo meu oponente de me rachar ao meio. Girava a maça no ar e estava certa de que morreria, mas meu corpo se esquivou sem que eu movesse um músculo. Era como assistir TV ou um daqueles jogos em primeira pessoa, o que não tornava nada menos aterrorizante. Eu vou morrer pensei diversas vezes. Mas meu corpo se esquivava, atacava e girava de uma forma que parecia impossível e toda a multidão ao redor acompanhava cada movimento. Espere... Aquilo era um castelo? O homem grande e com expressão pouco amistosa parecia estar perdendo a paciência, ataca cada vez com maior força e insistência até abrir um espaço que meu corpo com piloto automático explorou para pôr fim à luta. Os espectadores entraram em um júbilo uníssono, que tamborilava em meus ouvidos. Meu coração batia descompassado, a adrenalina fluindo em minhas veias como uma droga. Arranquei o elmo e libertei minha visão, tendo uma ideia da arena em que estava. O público estava de pé e sob uma tenda havia um grupo de pessoas que devia ser realmente importante. O homem estava no meio e uma coroa brilhava em sua cabeça, mas foi até a mulher ao seu lado que eu corri. Era alta e esbelta, resplandecente em um vestido esmeralda. Estendeu a mão pálida para mim, com os cabelos escuros acompanhando sua inclinação em minha direção e um sorriso no rosto bonito. Beijei sua mão e quando ergui os olhos para os dela foi como se uma flecha me atravessasse. Eram os olhos de Morgan.

Meus dedos estavam agarrados às cobertas, tão fechados que começava a doer. As batidas do meu coração ecoavam em meus ouvidos enquanto a respiração tentava em vão voltar a ritmos constantes. Certo, este havia sido o sonho mais estranho que já tivera. Estava ao menos dormindo? Me ergui da cama, olhando ao redor com olhos arregalados apenas para ter certeza de que aquele era mesmo meu quarto e esta era a realidade.

– Avina? — Morgan. Ótimo.

–Sim? — respondi e tive um acesso de tosse para corrigir minha voz – O que foi?

Meu irmão demorou algum tempo para responder.

– Mo, quero dizer, Mordred já foi. Você pode sair se quiser.

–Acho que lidarei com a fúria de lady Catharine amanhã, obrigada. – falei e ao não ouvir uma resposta, acrescentei – Está tudo bem Morgan, só preciso dormir bem.

– Quer que Jodie faça um chocolate quente? — veio sua voz do outro lado da porta.

Declinei novamente e assegurei da melhor forma que podia que tudo estava bem. Morgan sabia que não estava, mas diferente de todos nesta casa também sabia que o melhor a se fazer era me deixar em paz durante algum tempo. Revirei na cama durante mais alguns minutos e quando o sono veio ainda pensava em duelos, magia e a jovem que parecera tão real que me dava arrepios.

–-x—

– Você teve um sonho estranho, me conte alguma novidade. – a voz de Dianne veio cortada através do celular. Desviei de uma criança que se soltara da mão do pai e tive que segurar bem o guidão da bicicleta para não perder o controle. Quem leva crianças para passear praticamente de madrugada? Balancear o aparelho entre meu ombro e orelha também não estava sendo exatamente fácil.

– Obrigada pela consideração. – falei com uma voz exageradamente ferida – Não é você que teve que fugir de casa ao primeiro raio de sol para escapar de uma possível atentado contra sua vida.

– Você está exagerando.

– Não, não estou.

– Sua mãe entenderia se tivesse contado tudo para ela. – Dianne analisou as próprias palavras por um instante, depois acrescentou – Não, não entenderia. Eu já estou tendo dificuldades.

– Eu amo sua sinceridade. – dei a curva para a entrada do parque que havia virado meu refúgio depois de Catherine ter descoberto a clareira por trás dos altos arbustos em nosso quintal e enchi meus pulmões com o frio das primeiras horas da manhã. Tinha acordado antes de o sol nascer e depois de tentar dormir novamente em vão por meia hora decidi que era tempo para um passeio. Sair sorrateiramente de casa não havia se mostrado um problema, já o tinha feito antes. E mesmo não sendo a sela de um cavalo, a sensação do vento assobiando em meus ouvidos era o suficiente para deixar os meus problemas para trás. Por enquanto.

– Tem algo a mais que você queira me dizer depois de ter me acordado de madrugada?

– São seis e meia Diane. De um dia de semana.

– Madrugada.

– Não, ah, na verdade sim. Mais tarde vou dar uma passada nos preparativos do festival, quer ir comigo?

Pela primeira vez durante toda a conversa Dianne pareceu acordar.

– Festival? Com aquele ruivo de olhos hipnotizantes e sorriso tímido?

Revirei os olhos, não deixando de sorrir.

– É só Leon, Dianne. E sim, ele provavelmente vai estar lá.

Dianne ficou em silêncio por alguns segundos, o suficiente para me fazer pensar que tinha caído no sono.

– Me busque às duas. – veio a resposta finalmente – Você já tomou café da manhã? Se quiser pode dar uma passada por aqui, afinal, se certificou que eu estivesse acordada.

– Estou pensando em comer uma panqueca com porção dupla de molho de chocolate e sorvete de baunilha.

– Me comove como você leva a sua dieta de atleta a sério. Diga um “oi” para Brian por mim.

– Não sei se seria uma boa ideia. Da última vez já ficou encarando você enquanto atrasava o pedido de propósito. – havia sido desconfortável, ao menos para mim.

A risada alta e contagiante de Dianne causou uma careta em meu rosto. Lembrar de comprar fones de ouvido que durem mais que uma semana. Adicionei à lista de coisas a fazer naquele dia que mal começara.

– É bom dar uma pequena dose de esperança de vez em quando.

Uma vez que estava acordada, calar Dianne era algo que poderia se provar muito exaustivo. E por este motivo ainda me despedia dela ao atingir o grande gramado do parque. Era um gramado limpo, ótimo para piqueniques ou simplesmente brincar com crianças ou coisas do tipo. Um dia eu tinha sido atingida por um frisbee jogado por um grupo de pré-adolescentes barulhentos que não ficaram muito felizes com a minha reação de lançar o objeto para o lado oposto com todas as minhas forças. O gramado era rodeado por árvores que também se erguiam de ambos os lados dos caminhos que levavam ao centro do parque, rodeavam a grande área verde e levavam às duas entradas principais. Havia entrado por uma delas e pretendia sair do outro lado, onde o lugar que servia as melhores panquecas da cidade ficava a poucos minutos de pedalada. Parei minha bicicleta para libertar minha orelha quente do celular e guardá-lo em algum bolso. Havia passado por um casal de idosos caminhando de braços dados e um senhor de meia-idade que fazia sua corrida matinal respirando como se fosse cair duro no chão a qualquer momento. Gostei da solidão, decidindo que talvez, talvez não fosse assim tão ruim acordar mais cedo às vezes para aproveitar o ar fresco que a madrugada havia deixado para trás, o orvalho brilhando no gramado como se este fosse feito de milhares de pequenas pedras preciosas e os pássaros cantando enquanto o barulho do trânsito ainda não os suplantava. Estava com todos esses pensamentos positivos e calmantes em minha cabeça o que totalmente justificou quase ter largado a bicicleta quando o vi.

Digo “o” vi, mas assim que o percebi achei que se tratava de uma estátua. Uma enorme estátua de bronze de algo que parecia ser a mistura estranha de uma águia e um leão. Um grifo. Estreitei os olhos, a estátua estava no meio do campo com as quatro enormes patas felinas cravadas na grama e o bico tão afiado que deveria cortar qualquer coisa. Deveria ter pelo menos dois metros de altura, sem placa de homenagem ou que a identificasse de qualquer forma, estava apenas lá. Inclinei a cabeça, prestes a encostar a bicicleta em um dos bancos que estavam espalhados por todo o parque e me aproximar quando a estátua inclinou a cabeça de volta. Meus dedos se apertaram tanto ao redor do guidão que deixei de senti-los, o que era o menor dos meus problemas porque a criatura de bronze deu um grito que fez gelar todo o sangue que circulava em meus pobres vasos e com um salto deixou para trás um terço da distância que nos separava. Estalou o bico se estivesse se certificando de me partir ao meio no primeiro ataque e foi tudo que eu precisei para me jogar na sela e pedalar pela minha vida. Mais tarde descobri que Merlin pode ter salvado a minha vida nesse dia sem ao menos estar por perto. Se nada tivesse acontecido no dia anterior, se um velho mendigo não tivesse me falado todas as suas ideias lunáticas e dito que algo ou alguém poderia me perseguir ainda que fosse claramente fruto de alucinações, não sei se teria reagido da forma correta. Provavelmente teria ficado parada imaginando como algo assim poderia estar acontecendo. Mas depois do episódio com os postes de luz, a velha no metrô e Merlin meu corpo simplesmente não precisava de tempo para processar o que estava se passando, pulando para a ação ao primeiro sinal de perigo. E nessa hora a ação consistia em pedalar em uma velocidade que achei ser impossível enquanto um monstro de bronze com patas e bico mortíferos me seguia soltando gritos que poderiam significar tudo, menos uma tentativa de fazer amizade.

Os pequeninos grãos de areia que formavam o caminho do parque voavam ao redor dos pneus da bicicleta, mas o barulho das patas da criatura contra o chão era estímulo suficiente para não perder o fôlego. Meu coração bombardeava minha cabeça com seu pulsar descontrolado e quando passei praticamente voando por um instrutor de ioga e seu pequeno grupo de alunos ansiosos me perguntei quão ridículo aquilo deveria parecer. Mais ainda porque não pareciam perceber o motivo de minha pressa. Um homem com calças verde-limão gritou algo sobre a velocidade permitida dentro do parque e foi o bastante para saber que não tinham a mínima ideia do que me perseguia. Ou sequer o viam, o grifo. A única pessoa que se importaria com limites de velocidade quando se estava sendo perseguido por uma criatura mitológica desembestada era meu professor de história contemporânea III, o senhor Hawkes. Era um senhorzinho ranzinza que deveria dormir com um livro de legislação ao lado e que provavelmente se sentia mal por não estar dando aulas para alguma turma que cursava direito cada vez que ninguém respondia alguma pergunta sobre a conduta correta perante uma pessoa que joga chicletes mastigados nas ruas de Havana. Ele não deveria estar em meus pensamentos na situação atual, mas talvez se sobrevivesse deveria contar quão penetrante seus modos rígidos eram. Foi só então que me dei conta do silêncio. Nada de patas de bronze do tamanho de bacias ou gritos de fazer o coração de qualquer um pular uma batida. Arrisquei uma olhadela sobre o ombro, nada. Diminuía a velocidade quando algo terrível me ocorreu. Grifos tinham asas, não tinham?

O barulho veio com o som de um vento forte, tive um segundo para olhar para cima e outro para fazer uma curva fechada para o lado direito, quase caindo da bicicleta enquanto me tirava do lugar onde as garras do bicho se fecharam no ar um piscar de olhos depois. Não esperava que eu escapasse porque se desequilibrou com a velocidade que atacara e derrapou num caos raivoso e frustrado.

– Você nem ao menos deveria voar! – exclamei pessoalmente insultada pelas leis da física que aquela criatura havia acabado de mandar para o espaço.

Não fiquei para olhar o estrago e deixá-lo se recompor, claro. Pedalei o mais rápido que minhas pernas bambas aguentaram, quase atropelando uma adolescente distraída com fones nos ouvidos pelo caminho. Gritei um pedido de desculpas para trás, vendo a saída do parque erguer-se em um arco antigo com uma onda de alívio percorrendo o meu corpo. Talvez a criatura desistisse uma vez que não estivéssemos mais em um campo aberto. Ou poderia me enfiar em um contêiner de lixo e me esconder até que resolvesse matar outra pessoa. O grifo parecia notar a esperança crescente porque gritou em fúria e com um impulso se jogou no céu novamente, pronto para não errar o segundo ataque. Mais duzentos metros. Conseguia ouvir o barulho de uma metrópole acordando e se jogando no trânsito, o que parecia uma mudança quase alentadora. A criatura fazia uma nova investida, podia ouvir suas asas cortando o ar e aposto que seus olhos estavam brilhando em triunfo. Porque havia vencido, seria apanhada enquanto passava pelo arco e talvez carregada para um ninho onde pequenos bebês grifos se alimentariam de mim até se fartarem. Ou talvez simplesmente me matasse com um golpe no pescoço. Fechei os olhos e desejei que fosse uma morte limpa, o urro do monstro a poucos metros de distância.

Um grito de aviso, buzinas e pneus cantaram num intervalo inexistente e de repente fui jogada da sela contra a parede de uma pequena butique. O vidro aguentou, milagrosamente. Meu celular nem tanto. Estranhos se aproximaram para gritar que era louca e ofertar ajuda, mas meus olhos estavam pregados no arco do parque. Era de pedra antiga, coberto de musgos e cabeças de dragões esculpidas no alto encaravam a rua movimentada que eu havia cruzado enquanto esperava a morte certa. Entre os intervalos dos carros que lentamente voltavam a se movimentar vi que o grifo havia parado. Chapinhava a terra com as garras afiadas e jogara o pescoço para o alto, soltando um lamento que me traria pena se não estivesse tentando me matar nos últimos dez minutos. Meus cotovelos ardiam e deveria ter rasgado mais um casaco o que era um novo tipo de recorde. Ergui-me em sobressalto, tão rápida que a moça que se abaixara ao meu lado se afastou confusa.

– Por que não vem pra cá? — perguntei à criatura de bronze e se aquelas pessoas precisavam de um último sinal de que minhas faculdades mentais não eram lá muito estáveis o poderiam riscar da lista.

O grifo estalou o bico, me fuzilou com os olhos de bronze uma última vez e levantou voo em direção ao centro do parque.

– Okay, adiaremos minha morte então. – conclui e depois de assegurar que não precisaria ir ao hospital ou contatar qualquer pessoa responsável levantei minha bicicleta do chão, decidindo que andaria o restante do caminho.

A caminhada era curta, mas suficiente para mostrar que não havia resposta lógica para o que havia acabado de presenciar. Era a primeira vez que havia passado por uma perseguição quase fatal, se deixasse de lado o bugue que Morgan tentara dirigir naquelas férias no Caribe. Grifos eram algo novo. Uma surpresa desagradável e não conseguia me livrar do pensamento que Merlin tinha algo a ver com isso, afinal não ficara muito satisfeito com nossa conversa. Por um momento imaginei se não fora ele quem havia mandado aquela criatura atrás de mim, para me dar alguma lição porque rira de seu dragão imaginário. O problema era que se não estivesse mesmo enlouquecendo e se aquele grifo magicamente só era visível para mim, dragões não deveriam estar muito atrás. Feiticeiros poderosos também não. Balancei a cabeça para me livrar dessas ideias e do zumbido incômodo que as buzinas haviam produzido em meu ouvido. Provavelmente deveria falar com alguém a respeito. Alguém que não assentiria sorrindo e depois me mandasse para alguma clínica psiquiátrica assim que virasse as costas. O que, para meu desprazer, diminuía muito a lista de pessoas disponíveis. Na verdade a restringia a apenas uma.

Notas finais
I'm so sorryyy. Quando vi a data da última postagem quase tive um troço de vergonha. Na verdade nem tanto, porque não senti tanta pressão para continuar postando de qualquer forma. Então se gostam do rumo da história até agora, tem alguma hipótese sobre o que pode acontecer ou simplesmente querem me dar suas opiniões em geral sobre personagens e pás, à vontade. Porque por mais que goste e seja divertido escrever fanfics, fica meio "méh" quando não se tem algum retorno. Vou continuar postando, claro, mas se o retorno não for bom o farei na maior calma, quando tiver vontade. Bjs bjs e obrigada pela paciência!