O Último Olhar

3 O Diálogo com a Eternidade


O céu de Kyoto estava pintado de tons dourados e cor de carmim quando Hana regressou ao pequeno parque junto ao rio Kamo. As folhas de outono dançavam com o vento, criando um tapete multicolorido no chão, enquanto o reflexo do sol poente brincava na água calma do rio. O seu corpo estava cansado, mas a mente sentia uma estranha necessidade de compreender o que se tinha revelado no dia anterior. Ele voltaria, sentiu, e havia algo dentro dela que ansiava por essa presença silenciosa.

Não precisou de esperar muito. Ele estava sentado num banco, imóvel, como se o mundo à volta pudesse desaparecer sem que ele se importasse. Hana aproximou-se, sentindo o coração acelerar, não de medo, mas de antecipação. Quando chegou a alguns metros, ele levantou o olhar, e os seus olhos encontraram os dela com a familiaridade de algo que sempre existira, mas que só agora era possível ver.

— Voltas-te. — disse Hana, sentando-se com cuidado no banco ao lado dele.

— Estava à tua espera. — respondeu ele, com aquela calma serena que a desconcertava e tranquilizava ao mesmo tempo. — Nem todos podem sentir isso. Alguns passam a vida a fugir do inevitável.

Hana respirou fundo, encarando o reflexo do sol no rio. Durante meses, a sua doença tinha sido uma companhia silenciosa, uma sombra constante que consumia cada fragmento de energia, mas nunca uma presença com quem pudesse conversar. Agora, diante dele, sentia que finalmente podia compreender.

— Mas… porquê agora? — perguntou, com a voz trémula. — Há meses que me sinto assim… e só agora nos encontramos de verdade.

Ele inclinou a cabeça ligeiramente, observando-a com atenção.

— Porque só agora é que está pronta para olhar para mim. Antes, a tua mente estava demasiado ocupada com a resistência, com o medo de perder algo que já estava a perder aos poucos. Agora aceitas que há limites e que não se mudam.

Hana sentiu uma pontada no peito, não de dor física, mas de reconhecimento. — Sempre soube que isto viria… — murmurou. — Sempre soube que a minha vida não seria longa. Mas fingia que poderia controlar tudo, que podia enganar o tempo.

— É humano — disse ele. — E mesmo sabendo da inevitabilidade, continuamos a resistir, a tentar prolongar aquilo que é finito. Mas há beleza em aceitar, em olhar para a vida e compreender que cada momento que passa é único e insubstituível.

Hana olhou para o rio, vendo as folhas que flutuavam na corrente. Cada uma parecia carregar consigo uma história, uma memória, um instante que nunca mais voltaria.

— Tenho medo — admitiu finalmente. — Medo de partir sozinha, de não ter mais tempo para… para dizer tudo.

Ele permaneceu em silêncio por um instante, deixando que o seu silêncio fosse resposta. Depois, disse.

— Não partes sozinha. Nunca esteves-te. Cada memória, cada gesto, cada pessoa que te amou permanece contigo, mesmo quando o corpo falha. E mesmo eu, que venho buscar-te, não sou um inimigo. Apenas uma passagem, um guia, alguém que ajuda a transformar o medo em aceitação.

As palavras dele não eram frias nem ameaçadoras, eram como uma ponte que unia o presente à eternidade. Hana sentiu as lágrimas surgirem, não de desespero, mas de compreensão. Durante tanto tempo, resistira ao inevitável, tentando agarrar-se a cada fragmento de vida. Mas agora, com ele ali, começou a perceber que aceitar não significava desistir, significava apenas libertar-se do peso da luta inútil.

— Então… não é demasiado tarde? — perguntou, num sussurro.

— Nunca é tarde para compreender — respondeu ele. — Cada instante que vives-te, cada sorriso, cada lágrima… tudo faz parte do que é. E é isso que levas contigo.

Por alguns minutos, permaneceram em silêncio, observando o sol descer lentamente, tingindo a água de ouro e laranja. Hana sentiu a paz entrar no seu peito, um sentimento que há meses lhe era negado. Pela primeira vez, olhou para a sua morte não como um inimigo, mas como algo inevitável e natural, um último capítulo da sua história, tão importante quanto todos os anteriores.

E assim, naquele banco à beira do rio, entre folhas caídas e reflexos cintilantes, Hana e a Morte conversaram. Sem pressas, sem medo, como se o tempo fosse deles e apenas deles. E naquele momento, ela começou a aceitar que o seu destino não era um fim, mas uma passagem, um encontro inevitável com a eternidade que sempre a esperou.