O Último Nascer Do Sol

1 Capítulo 1 - Último Crepúsculo


Notas iniciais
Primeiro de muitos, é claro se vocês gostarem.

Capítulo 01 – Último crepúsculo.

Me vejo parado em frente a cova que acabo de cavar e para falar a verdade, não tenho a mínima ideia de como farei para por esse caixão lá embaixo usando somente a força de meus braços e nada mais. Estou a pelo menos dois dias nessa tarefa e confesso que mesmo que eu ame a pessoa que está dentro do caixão, duvído que ela faria uma coisa dessa magnitude por mim. Justamente por ser sensível e por não ter muita força em seus braços.

Olho para o crepúsculo que outrora olhei com ela, como será o outro lado da vida? Será frio? Será que é gostoso? A única certeza que tenho é que esse crepúsculo sinaliza o inicio da noite, esse será o último que verei com minha amada. A partir de agora, estou literalmente sozinho no mundo, nada de almoço pronto, nada de carinho na cabeça. Só eu e o mundo.

Você deve estar se perguntando qual o motivo de meu drama, ou o motivo de não querer colocar esse caixão a sete palmos de profundidade, pôr terra sobre ele e seguir minha vida. A resposta meu amigo, é simples. Essa pessoa que enterro é a penúltima pessoa do mundo. Sem exageros, sou o último humano na terra e creio que agora estou ficando louco também, pois passei a escrever para ninguém ler.

Eu não sei como explicar o que aconteceu, para que você não fique nervoso e feche esse texto, digo que tudo o que está nesse registro é a mais pura verdade e que empenho minha honra nisso. Um belo dia, a maioria das pessoas que eu amava e mesmo a que eu não gostava simplesmente desapareceram.

Estou eu aqui, terminando minha gambiarra para poder descer o caixão, agora que eu olho e vejo que vai funcionar, encaixo o caixão em meu mecanismo e vejo que sim, chegou ao fundo do buraco, ela está lá, pronta para o descanso eterno.

Pá após pá de terra, noto que junto com minha linda... mulher, estou também enterrando um pedaço de mim, junto com ela vai uma parte do bom e velho Orfeu. Desculpe não ter me apresentado antes, mas me esqueci. Bem, esse é meu nome, Orfeu, como o herói grego que desceu ao Hades buscando sua amada. Mas agora, no entanto, eu não desço a lugar nenhum, estou realmente jogando minha amada rumo ao Hades ou ao Elísio, mandando ela para o Inferno ao para o Céu, não sei exatamente onde, mas entendo que não conseguirei, como meu “xará” tira-la dessa condição.

Cavar um buraco no chão é muito mais difícil do que devolver a terra no lugar, o que eu demorei três dias cavando, por causa de minhas costas, levei horas para terminar por causa de minha determinação. Quando acabei, suado, fedido e sujo só consegui soltar uma frase:

-Obrigado, velha amiga.

Voltei para nossa casa de madeira no campo e olhei para o lugar que costumava ser minha cidade, tínhamos escolhido morar fora da cidade por entendermos que nada lá era nosso e que queríamos contruir algo só nosso, vi prédios caindo, construções que homens estavam terminando mas devido ao descaso começaram a perecer, senti um frio em minha espinha, parecia que aquilo era um sinal.

Entrei em nossa casa, passei pela sala, vi a cama desarrumada, e fui a cozinha, lá preparei um café, sentei no sofá da sala e liguei a televisão. A estática tomou conta da tela uma vez que nenhum ser humano tomava conta das redes de TV e ninguém fazia programas chatos no domingo há muito tempo. Fiquei olhando a estática. Quinze minutos, trinta minutos, quarenta minutos, uma hora, duas horas, cansei-me, preparei uma fogueira na chaminé e sentei-me em frente a ela. O fogo queimava, consumindo a lenha que pegara na parte da manha. E então adormeci.

Acordei na manha seguinte e fui até o mato, primeiramente caçar e pegar lenha e depois esfriar minha cabeça. Decidi que das duas tarefas a segunda era mais importante. Fui até o lugar onde dormia minha falecida esposa e vi a beleza do lugar, ela o amava, era realmente lindo. No fundo sabia que meus dias estavam acabando, e que não haveria ninguém para me sepultar, seria um corpo apodrecendo sobre o chão. Não sei o motivo, a noção de morte me agradava, me dava conforto. Sem lenha, sem comida para a manha seguinte resolvi voltar para casa e sentar em minha poltrona de sempre e esperar o tempo passar. Como as coisas podem ficar tão vazias sem aqueles que amamos, todas as memórias ficaram brotando em minha mente. Comecei a lembrar de como eu cheguei até aqui e quais lições aprendi.

Estou sozinho. Que lições eu posso tomar disso?

Amigo, preciso te confessar, sinto a vida saindo de mim, indo embora e não posso deixar minha sanidade ir antes de minha alma. Para isso vou te contar tudo o que aconteceu até eu chegar aqui, como último dos homens.

Minha vida não faz mais sentido, amigo, do nada, sete bilhões de pessoas sumiram do mundo, deixaram o mundo somente para mim e Helen. Minha esposa e eu éramos os únicos dois humanos na terra. Por favor não me deixe aqui sem ouvir toda minha história.

Notas finais
Aceitando perguntas :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!