Ouço algo se aproximando pela escuridão, procuro a origem do som e vejo três pares de olhos cintilando à luz da fogueira. Hati se aproxima da fogueira junto de Artemis e Aura. Acompanho com o olhar esta ultima aproximar-se de sua dona e deitar-se ao seu lado com intenção de aquecê-la, Grace se encontra encolhida em seu saco de dormir próximo à fogueira. Ela está muito fraca desde que foi atacada há alguns dias no banquete do, agora falecido, Burgomestre Arken e se não fosse pelos cuidados dos criados de Merrick minha amiga teria sofrido o mesmo destino de Bartolomeu.

Kyra se encontra mais distante de nós e nem nota a aproximação de Artemis, ela está abalada por não ter conseguido proteger o Burgomestre. O único que parece ter a cabeça no lugar é Merrick, depois do atentado, ao chegar de um passeio noturno descobrir o que houve ele logo enviou um pássaro com as noticias, informando que nos levaria pessoalmente de volta a Yiethgnar. Neste momento ele prepara o nosso jantar, um peru selvagem que encontrou no bosque, contudo ele parece preocupado com algo. Quando fica pronto nos alimentamos e nos preparamos para descansar, me ofereço para ficar com a primeira vigia enquanto os demais se preparam para dormir, mas como em todas as noites desde que começamos a viagem Merrick se embrenha na floresta e nos deixa a sós, ele tem hábitos um tanto peculiares.

Não há muito com o que me preocupar durante minha vigia, mas por precaução deixo a espada sobre minhas pernas. Vez ou outra ouço um uivo lupino ao longe, e assim minha mente vaga em busca de respostas.

O assassino foi enviado por sombras... para conseguir a chave da lua? Ou quem sabe evitar que essa chave da Lua fosse usada? O que isso quer dizer?

Levanto o olhar para a Lua, está na fase minguante, algumas nuvens a encobre vez ou outra, mas é possível ver sua luminosidade como um fiapo no céu estrelado, procuro encontrar respostas, mas é em vão. Quando dou por mim Kyra se levanta e toma meu lugar na vigia.

Acordo com o cheiro que exala do bacon e a gordura dos restos peru selvagem que caem nas chamas, porém quem está preparando a comida desta vez é Kyra, pois Marrick está preparando sua montaria para a viagem, que devido ao estado de saúde de Grace está levando mais tempo. Observo o homem montar os arreios do cavalo com mãos hábeis, isto junto à tantas coisas que notei me dizem que ele não é apenas um aristocrata querendo mudar o lugar em que vive. Ele olha por cima do ombro em minha direção e volta ao que estava fazendo. Como em toda manhã ele apresenta um ar de cansado, em alguns dias parece pior do que outro, mas nesta manhã ele está com um aspecto melhor que nos dias anteriores.

Me encaminho até Grace que acabara de acordar e tentava se levantar com certa dificuldade, apesar de ter perdido o aspecto doentio que havia adquirido após ser atacada, ainda não havia recuperado suas forças e isto é minha culpa, por tê-las abandonado aquela noite. Os verdes olhos de Grace acompanham-me quando pego os suprimentos para tratar de seu ferimento, além da concussão ela havia sido esfaqueada no abdômen e por sorte não havia atingido nenhum órgão, mas ainda assim havia perdido muito sangue. Então com cuidado retiro as ataduras do ferimento e limpo a pele ao redor do ferimento para em seguida trocar por bandagens limpas.

—Como está se sentindo?- pergunto um tanto preocupado, seus olhos perderam parte do brilho de antes.

— Um pouco melhor a cada dia, mas ficar ao relento não tem ajudado. Talvez quando chegarmos eu me sinta melhor.

Kyra se aproxima neste momento trazendo consigo um pedaço de pão juntamente com bacon e peru para cada um de nós.

— Coma, Grace, Merrick quer chegar o quanto antes na montanha, sabe-se lá o motivo. — Ela vira a cabeça para observar o homem e em seguida sussurra para nós. — Ele é meio estranho, não acham?

— Ele é apenas um homem reservado.

Grace... sempre procurando ver o melhor nas pessoas.

— Talvez, mas de toda forma ele não nos deu motivos para duvidar dele, é devoto a ordem.

Kyra balança a cabeça inconformada e volta até o fogo para pegar um pedaço para si e para Merrick.

Depois de alimentados, desmontamos o acampamento e seguimos viagem por cerca de três horas, até que os grandes lobos pararam e começaram a farejar o ar, logo em seguida passaram a agir de forma estranha, como se o ar carregasse uma ameaça a eles.

— O que há de errado com eles? — Kyra pergunta, segurando firme o pescoço de Artemis.

Desço do lombo de Hati e tiro a adaga da manopla, que ainda uso, observo com atenção ambos os lados da estrada a procura de algum movimento por detrás das árvores.

"Algo que é capaz de causar esse tipo de reação a esses animais não pode ser algo bom". Penso ao me dirigir a lado do bosque no qual os animais parecem querer se afastar, com a adaga em frente ao corpo preparado para me defender. Avanço por cerca de dez metros e um odor forte e azedo invade minhas narinas, fazendo-as arderem. Então mais a frente eu os vejo, dois corpos no chão.

Um deles com as costas apoiadas numa árvore e o outro sobre a grama, corvos se amontoam sobre eles, se alimentando de seus restos mortais, ao me aproximar as aves crocitam para mim e voam para as árvores de onde observam com olhares famintos. Logo noto, que a grama ao redor está coberta de sangue, e o corpo no chão tem a região abdominal completamente aberta com as tripas esparramadas para fora, ferimentos de garras cobrem os braços. O outro se encontra em condições similares, barriga aberta exalando odor acre, mas diferentemente do esparramado na grama, este tem a garganta cortada e o braço direito amputado na altura do cotovelo e não muito longe do corpo há uma aljava e um arco.

A cena é nauseante e me lembra de uma velha estória que costumavam me contar quando era mais novo, de um doppleganger que vivia no interior desta floresta e teve seu fim após encontrar uma garota vestida com capa vermelha e um Fenrir selvagem. O som de galhos quebrando às minhas costas me arrancam do meu devaneio e me viro pronto para atacar, esperando ver a criatura que matou essas pessoas, mas encontro Merrick pálido com uma expressão que acredito ser de horror e nojo, diante daquela cena.

— Não há nada que possamos fazer por eles, Kirhen guie suas almas. Vamos antes que um urso ou algo pior sinta o cheiro, quero me distanciar o máximo que deste lugar.

Depois de encontrar aqueles corpos, todos pareceram querer chegar o quanto antes à montanha, até mesmo Grace fez um esforço para prosseguir viagem. Desta forma, ao anoitecer chegamos ao sopé de Yiethgnar.

— Vamos acampar aqui esta noite, melhor do que arriscar que um dos animais quebre a pata ou mesmo um de nós quebre o pescoço. — disse Kyra enquanto desmontava de Aura.

—Tudo bem. — Disse Merrick, em seu rosto havia uma expressão de que haviam lhe arrancado algo que almeja e estava muito próximo de ser conquistado. — Mas eu vou prosseguir a viagem, e mandar fazer os preparativos para a vossa chegada no Refúgio.

E dizendo isso virou sua montaria em direção a montanha, sua sombra longa na luz do ocaso. Kyra lançou-lhe um olhar feio antes de começar a montar o acampamento. Havia comida suficiente para passar mais uma noite, fiquei então com a tarefa de acender a fogueira e preparar a comida. Usando uma pedra de sílex e uma adaga faço a faísca que faz com que a lenha se incendeie, posiciono galhos para forma um suporte para assar a comida. Depois de comer e contar algumas histórias que ouvimos ainda crianças Kyra assumiu a primeira vigília.

Estou novamente correndo pelos telhados da cidade, perseguindo o homem que havia tentado assassinar o Burgomestre saco a adaga escondida na manopla, mas dessa vez a arremesso no antebraço fazendo com que o frasco contendo o veneno que o mataria caísse no chão quebrando-se. Aumento a velocidade para alcança-lo, quando estou prestes a agarrar o falso cavalariço ele olha para trás com um sorriso zombeteiro cruzando seu rosto, é então que ecoa pela noite um rugido ensurdecedor. Olho ao meu redor procurando a fonte daquele som, e vejo que já não estou nas vielas de Svellburg, estou no meio de uma floresta densa, tão densa que nem mesmo a luz da Lua é capaz de penetrar as folhagens das árvores. Começo a vagar pelo lugar, pensando em alternativas de onde estou ou o que pode ter emitido aquele som, não demora e começou a ver vultos ao meu redor, sombras vindo de diversas direções sempre me rodeando. Vejo então uma clareira inundada pela luz prateada da lua, um lugar ideal para poder enxergar o que acontece naquela estranha floresta.

Ao entrar sob a luz do luar não posso ver ou ouvir qualquer movimento vindo da floresta por onde vim, contudo logo ouço algo grande às minhas costas, espreitando, sinto o olhar em minhas costas. Ao me virar vejo olhos vermelhos perversos olhando diretamente para mim. Uma sensação de frio toma conta de mim, parece que estou congelado e não posso me mover, estou em pânico. Posso ouvir a respiração pesada da criatura envolta nas sombras, mas ela parece não querer se revelar, neste momento respiro profundamente, dou meia volta e disparo correndo pela mata ainda em pânico. Galhos arranham meu rosto e atravessam o tecido de minha roupa, porém o único pensamento que percorre minha mente é: "TENHO QUE SAIR DAQUI". Não vejo um galho baixo e caio.

Alguém me dá uns tapinhas na cabeça e diz:

—É a sua vez de fazer a vigília.

Respiro aliviado, tudo não passou de um sonho. Me sento e balanço a cabeça, mandando o sono embora e olho ao redor e noto que diferente das outras noites esta parece mais calma, não há uivos ao longe, talvez tenhamos nos afastado demais do coração da floresta para ouvi-los ou quem sabe algo tenha acontecido. Parece até que a floresta está prendendo o fôlego, contudo nada de incomum acontece de forma que não estou preocupado.

Depois de algumas horas alguns filetes de luz dourada surgem no horizonte anunciando a chegada da alvorada, me levanto da árvore em que estava encostado e começo a preparar o desjejum, quanto antes começarmos a subida mais cedo chegaremos à ordem. Não demora Kyra se levanta e começa a fazer os preparativos, empacota nossos suprimentos e por fim vai até Grace que ainda estava dormindo. Ao se aproximar de nossa amiga vejo o rosto de minha prima adquirir uma expressão de preocupação.

— Ela piorou. — Diz Kyra colocando a mão na testa da garota. — ela está em chamas e seu ferimento voltou a abrir, precisamos levá-la o quanto antes para o Refúgio, mas preciso que ferva o vinho, ela não suportará a subida neste estado.

Tiro a comida de cima do fogo e em seu lugar coloco no lugar uma caneca de latão com vinho, para ferver o vinho. Kyra abre as vestes de Grace revelando bandagens empapadas de sangue que exalavam um leve odor adocicado e doentio, minha prima retira as ataduras revelando um pedaço de pele branca com um corte cujas extremidades estavam levemente esverdeadas.

— Preciso que a lâmina esteja em brasa. — minha prima diz, jogando sua adaga aos meus pés.

Faço o que ela pede, ao mesmo tempo o vinho começa a ferver. Com a adaga em brasa numa mão e o vinho na outra vou até elas e deixo o vinho ao lado.

— Ela vai precisar de um pedaço de pano para morder. — digo com a adaga em punho, preparado para retirar a pele infeccionada.

Kyra tem dificuldade em colocar um rolo de bandagens na boca de Grace que murmura coisas incompreensíveis.

— A febre... está fazendo-a delirar.

Depois de fazer o possível para evitar que Grace decepe sua própria língua, começo o delicado e preciso procedimento de tirar a pele que poderia espalhar a infecção. Depois disso feito, levo novamente a lâmina as chamas enquanto Kyra despeja o vinho fervido sobre o ferimento para evitar que voltasse a inflamar, é momento de fechar o ferimento. Pressiono o lado plano da lâmina sobre o ferimento, fechando-o. Ao menos, por ora.

— Temos que nos apressar. — diz minha prima depois de juntar nossas coisas.

Com isso tenho uma nova prioridade, levar Grace até a Ordem quase no topo de Yiethgnar. Pego a comida e divido entre nós e com assobio chamo os Fenrires, que nos ajudariam a chegar mais rápido ao nosso destino.

A primeira parte do percurso pôde ser feita ainda montados em nossos lobos uma vez que o caminho não é tão íngreme nem montanhoso dessa forma ganhamos algum tempo, mas em determinado momento somos obrigados a desmontar e deixar nossos animais para trás para subir a tempo de salvar nossa amiga, então carrego ela por boa parte do caminho e na outra parte do tempo a colocamos num trenó improvisado. Já é quase meio dia e já passamos da metade do caminho, devido a altura o vento cortante trás consigo o frio e a umidade, não tardará para a neve da altitude começar a cair é por isso que devemos ser rápidos, não podemos correr o risco de que Grace pegue um resfriado ou algo do tipo, não no estado em que ela está.

Estava tão preocupado em chegar ao Refugio, a base da ordem próxima ao topo da montanha, que quase não percebi a ausência dos lobos que deveriam estar nos seguindo, ainda que no ritmo deles deveriam estar nos acompanhando, não é da natureza deles se afastar desta forma. Passo a olhar sobre o ombro repetidas vezes a espera de algum movimento de nossas feras não há nem sinal delas. Nesse momento aguço minha audição, atento a qualquer som. A neve começa a cair formando uma camada branca sobre o solo pedregoso, somos obrigados a cobrir a cabeça e o rosto, a neve abafa todo e qualquer som possível de uma aproximação juntamente com o uivo do vento. A ausência de nossos animais me deixam neurótico.

É então que acontece. Ouço algo cortar o ar em nossa direção e logo em seguida Kyra soltar um grunhido de dor. Olho sobre o ombro e a vejo tirar uma flecha alojada no ombro esquerdo e pegar sua espada com a mão direita. Procuro o atirador, mas não o vejo. No momento minha prioridade é proteger Grace, então percorro cerca de vinte metros em direção ao topo, onde encontro um lugar para abrigar minha amiga.

— O que está havendo. — ela pergunta um pouco fora de si, ao ser colocada num lugar onde milhares de anos de vento erodiram a pedra formando um abrigo do vento e da neve.

— Nada com que se preocupar, Grace. Já volto com Kyra, tudo bem?- digo tentando tranquilizá-la.

Depois de receber um aceno de concordância cubro novamente o rosto e retorno o mais rápido possível até onde deixei minha prima. Após tirar a lâmina da bainha a deixo em riste, esperando qualquer que seja a ameaça. Ao chegar me deparo com Kyra com uma nova flecha alojada no antebraço direito e de frente a três homens armados um deles tinha o tamanho de um muro, mas nenhum deles carregava um arco. Meu olhar percorre o ambiente e vejo que um arqueiro está posicionado a alguns metros de altura com a corda tensionada, pronto para atirar.

—Ei, chefe! O fujão voltou.- diz o arqueiro, sua voz é esganiçada como se estivesse sendo ameaçado.

O homem do meio, vestido com couro e peles do que parece ser um urso, olha em minha direção e sorri, um sorriso feio com dentes amarelados. — Voltou para salvar sua namorada?

Kyra começa a responder, mas o homem de voz esganiçada dispara uma flecha de aviso aos pés dela. Me aproximo de minha prima, os homens estão a cerca de dez passos de distância e observam minha aproximação.

— Suba a montanha, tente levar Grace até o Refúgio enquanto eu resolvo esse problema aqui.- digo inclinando a cabeça para ela.

— Tem certeza que não quer minha ajuda?- Ela parece um pouco preocupada, mas um pouco aliviada. O sangue que escorre pelo braço dela pinga escarlate na neve branca.

Confirmo com a cabeça e giro a espada na mão, encarando os três homens a minha frente e atento ao que está em posição elevada com arco.

—Chefe,- diz o magricelo a direita. — a garota está fugindo.

—Está tudo bem, Ricster. Assim que matarmos esse imbecil que quer se passar de herói vamos atrás dela e vamos nos divertir um pouco. — diz o líder do saqueadores, um homem robusto com rugas ao redor dos olhos negros, lambendo e mordendo os lábios.

Os demais riem do comentário, mas eu apenas sinto nojo daqueles indivíduos desprezíveis com pensamentos repugnantes. Giro a espada com desdém esperando eles fazerem o primeiro movimento, eles fingem não querer começar, mas sei que na realidade eles querem acabar com isso o quanto antes. Então o líder do bando e o magricelo investem com suas espadas erguidas contra mim, contudo eu estava ciente do que poderiam fazer e giro para fora do caminho das lâminas. Ouço um assovio e com a parte plana de minha espada desvio uma flecha que se espeta na neve atrás de mim, volto minha atenção para os dois que me atacaram, pois o brutamonte não parece querer entrar na luta.

Ricster é do tipo inconsequente e parte sozinho para cima de mim. Ele faz um movimento de cima para baixo na direção da minha cabeça com força, com certo esforço consigo bloqueá-lo com minha própria espada e percebo que ainda que seja magro, o rapaz é forte, contudo seus golpes não possuem técnica nenhuma deixando diversas brechas de contra ataque.

— Quando eu acabar com você, vou atrás daquela sua namoradinha e quem sabe não engravido ela. — diz ele dá um sorriso com seus dentes tortos e amarelados,um sorriso de quem está se divertindo.

Deixo minha mente se esvaziar de todas as dúvidas e inseguranças, as únicas coisas quem ficam são a raiva que tenho acumulada e sentimento de impotência, contudo ainda há uma calma em meu interior que impede que eu me descontrole. Vou me esquivando dos ataques de Ricster que ataca sozinho, pois ao que tudo indica o líder do grupo prefere observar o desempenho de seu cupincha que parece acreditar que estou acovardado.

— Vamos, lute como um homem! Ou terei que buscar sua namorada para te ajudar?- ele gargalha.

Eis a abertura perfeita, quando ele fecha os olhos enquanto ri dou um soco diretamente na traqueia, o que o deixa completamente desnorteado em seguida dou um chute no peito e me preparo para usar desferir um golpe de espada, mas o arqueiro intervêm atirando flecha atrás de flecha, fazendo com que eu tenha que rolar.

— Adonan, é melhor você ajudar o Ricster. Quero acabar com isso para dar um jeito naqueles lobos.- diz o arqueiro para o chefe ainda que não pareça entusiasmado com isso. O chefe se aproxima com cuidado, observando-me atentamente.

Então eles capturaram os lobos! Penso avaliando o panorama geral da batalha. Um arqueiro bem posicionado e pronto para atirar; dois espadachins, um ainda zonzo e o outro atento; um brutamontes desinteressado. É possível que eu os derrote, mas apenas se fizer tudo corretamente.

Adonan, o líder chega mais perto e tenta algumas investidas que defendo firmemente, andamos em circulo nos avaliando. Em determinado momento tenho no meu campo de visão dois dos quatro homens, ciente que Ricster estava novamente de pé às minhas costas o que poderia parecer a eles uma oportunidade para me matar. Ele se aproxima sorrateiramente por trás de mim ataca num golpe em arco que, se não tivesse me abaixado, teria arrancado minha cabeça, contudo antes mesmo da lâmina do saqueador completar o arco me ergo e atinjo o braço dele com toda a força que possuo. Ricster grita e agarra o cotovelo, de onde sai muito sangue. Por um momento não entendo o motivo de tanto sangue, então vejo, caído na neve o braço decepado com a espada ainda entre os dedos frouxos da mão.

O arqueiro, que possui cabelos loiros e pele pálida, parece aturdido com o que acabara de acontecer, mas é só ele. Se aproveitando do meu descuido Adonan me ataca, acertando a lâmina em minha manopla, fazendo sua lâmina retinir, contudo a força do golpe faz com que eu solte minhas espada, em seguida ele acerta dois socos em meu rosto. O gosto de ferro invade minha boca. Sangue. Seria este meu fim? Se eu não fizer nada, sim. Olho ao redor procurando minha espada e a vejo atrás de Adonan.

—Acabe logo com isso, estou cansado de esperar e o Elrry ali em cima parece impaciente.- diz o brutamontes que observa tudo a distância.

Uma das coisas mais importantes que aprendi no período em que treinei é que você deve sempre descobrir que tipo de pessoa é o seu inimigo, pois uma vez que tenha feito isso você descobrirá suas fraquezas e poderá se aproveitar delas.

Adonan é o tipo de homem que quando se irrita, não se torna inconsequente, não, se torna sádico e não se contenta apenas com matar tendo que ver e sentir prazer na dor do seu inimigo nos momentos finais.

— Não me diga o que fazer Mithen.- diz Adonan para o brutamontes.

Em seguida o líder dos fora da lei dá mais um soco que acerta o topo da cabeça quando tento desviar. Com o choque cambaleio para trás o que cria uma distância entre nós. Nos encaramos nos olhos enquanto percorremos um círculo até parar de costas para Elrry, que com toda certeza possui uma flecha em posição.

Elrry, o arqueiro, devido ao tipo de arma que usa é o tipo de homem que quando entra numa batalha entra para vencer. Com seus olhos atentos analisa a batalha como um todo, podendo avaliar se deve ou não se retirar, é astuto e a única coisa com que se importa é si mesmo.

Adonan se aproxima calmamente, como se degustasse cada segundo que antecede o que pode ser a minha morte, contudo no momento, aprecio muito a minha vida para aceitar deliberadamente esse destino. Quando ele se aproxima o bastante para um golpe ele para e diz.

— Pode fechar os olhos se quiser, rapaz, será rápido.- Ele diz, mesmo sabendo que ele estava mentindo.

Ele ergue a espada, com ambas as mãos no cabo, preparado para acertar um golpe contra o meu pescoço. Não fecho os olhos, não pretendo morrer hoje então olho atentamente para os músculos tensionados de seu corpo esperando o momento correto para me defender. Quando a espada desce, me curvo e me jogo contra o saqueador usando todo o meu peso derrubando-o na neve, a queda faz com que ele largue a espada. Por um momento parece que tenho o controle da situação, mas Adonan utiliza toda sua força e me joga para longe.

Estamos ambos desarmados agora e cobertos de neve e lama, mas ainda assim não será uma batalha justa, não com Elrry preparado para atirar em minhas costas e para ser sincero, é exatamente com isto que estou contando. Me levanto e finjo estar descontraído, limpo a roupa coberta de sujeira e aceno para o arqueiro que observa tudo com muita atenção, como se estivesse recebendo instruções ainda que pareça um pouco ansioso.

Volto meu olhar para Adonan que parece irritado quando ele se encaminha em minha direção rapidamente com os braços preparados para me agarrar, contudo isto foi um erro. Salto para fora do caminho e o homem passa por mim como uma carroça descontrolada e acaba caindo novamente, mas desta vez quando se levanta ele tem uma surpresa; estou atrás dele e com os braços aplico um golpe de estrangulamento. Ao se dar conta do que estou fazendo Elrry puxa uma flecha para salvar seu companheiro de crimes, mas é tarde, dou um puxão para trás fazendo soar um "crack". Mesmo com seu líder morto o arqueiro dispara, tenho que ser rápido para utilizar o corpo como escudo, fico encolhido sob o corpo do homem até que arrisco olhar novamente e vejo o arqueiro descendo montanha abaixo, fugindo.

— É... parece que eu é quem vou ter que resolver isso. — bufa Mithen que me encara e vem com as mãos nuas.

Arranco uma das flechas que perfuraram o corpo de Adonan com a mão esquerda e observo a enorme massa de músculos se aproximar, Mithen deve ter cerca de dois metros de altura e me observa cautelosamente.

Não posso esperar muito mais tempo, tenho que ter o controle da situação e chegar o quanto antes ao Refúgio.

Dou um soco na boca do estômago do brutamontes que se curva para frente, aproveito o momento e desfiro um chute no joelho esquerdo fazendo com que ele se ajoelhe com apenas uma das pernas então uso a outra perna de Mithen para me guindar para seu torso e encravar a flecha diretamente em um de seus tendões e outra em seu pescoço.

Desta forma há apenas um problema a resolver; encontrar Elrry, salvar os lobos e chegar ao Refúgio antes do anoitecer.

Depois de vagar por algum tempo pela neve encontro o que acredito ser o acampamento dos bandidos. Uma tenda grande o bastante para abrigar os três homens estava armada, revestida com pele do que parece ser um urso próxima a uma reentrância na encosta da montanha e não muito perto dali havia um local para a fogueira e suprimentos, observo tudo com atenção. Ouço sons a certa distância e vou até a origem, ali vejo Elrry de costas, desarmado e com alguns bocados de carne crua dando aos enormes lobos que pertencem a minhas amigas e a mim.

—Se vai me matar faça rápido.- ele diz ao se virar.

Toda cena me pega de surpresa, nenhum dos animais parece ferido ou maltratado. Abaixo o capuz e a proteção de nariz e boca, não creio que seja capaz de assassinar um homem desarmado, mesmo sabendo que é um saqueador.

Assobio para os três animais que se aproximam de mim com os focinhos úmidos de sangue, neste momento o arqueiro recua alguns passos, assustado. É então que o observo mais atentamente, suas roupas toda esfarrapadas, os cabelos sujos e mal cortados a pele do rosto pálida e macilenta.

— Você está com sorte hoje, garoto. — Digo com uma voz tão fria quanto o gelo que se forma na encosta da montanha.- Nunca mais coloque os pés nesta montanha novamente.

Quando chego ao refúgio a recepção não é muito calorosa, não diante das circunstâncias atuais. As sentinelas abrem as enormes portas de carvalho escurecido e do outro lado do arco há um salão, grande o bastante para uma festa com toda a população de Svellburg, pessoas andam de um lado para o outro, alguns carregando pergaminhos e mapas, outros levando espadas e minérios para o arsenal e forja. Ali postado em meio a toda aquela gente, Merrick me aguarda, ao me ver ele sinaliza para que eu o siga, atravessando todo o salão em direção a um dos cavernosos corredores laterais que percorrem o interior da montanha com ele sempre na dianteira sem falar nada.

— Então... as garotas estão bem?- quebro o silêncio que estava me incomoda profundamente.

Merrick apenas acenas com a cabeça e continua a me conduzir pelo labirinto de túneis que é o interior da montanha. Após mais alguns minutos de caminhada ele finalmente para em frente a uma porta sem detalhes, feita de carvalho e rebites de ferro.

—Entre.- diz o homem de meia idade que nos conduziu em Svell.

Olho para a porta, não há maçaneta nem aldrava, as dobradiças rangem quando empurro e me deparo com uma sala em sua maioria vazia com exceção de uma longa mesa de pedra, cheia de entalhes e, iluminando a sala, há o que parece ser cristais presos na parede. E ali, sentadas a mesa estavam Grace, Kyra e outros dois homens, que reconheci como Lisandro, um grande guerreiro, e Nicolas um grande estrategista e sábio. Ambos eram importantes grão-mestres da ordem. Observo atentamente Grace, ela está com uma aparência mais saudável do que antes, os curandeiros da Ordem devem ter dado a ela algo para deixá-la sóbria e consciente por tempo bastante para resolver o que quer que seja isto.

Merrick fecha a porta atrás de si e em seguida ouço cliques da tranca da porta. -Sente-se Erethon, temos alguns importantes assuntos a discutir.

Me dirigi para o local ao lado de minhas companheiras ficando de frente para Merrick. Todos os superiores ali presentes estavam com expressão muito séria.

— Antes de começarmos, tudo o que será dito nesta sala deverá continuar aqui, quando tivermos acabado vocês entenderão o motivo. — Começa Lisandro. — Merrick irá lhes explicar a situação.

—Como sabem, houve uma conspiração para matar o Burgomestre e infelizmente está conspiração foi bem sucedida. Recebemos a informação de um de nossos irmãos recentemente e enviamos vocês para protegê-lo...- Merrick diz, antes de eu interromper.

—Não fui culpa delas senhor, eu deveria ter ficado depois do primeiro assassino escapar e garantir a segurança do Burgomestre Arken.

O homem ergue uma de suas mãos e prossegue.

— Ninguém neste recinto está culpando vocês, o que houve foi resultado de um plano muito bem arquitetado, contudo algumas coisas não fazem sentido a menos que consideremos que soubesse da presença de vocês...

—O senhor está insinuando que nós traímos a ordem? Porque minha amiga foi ferida lá!- Não fui capaz de me conter.

Merrick me encara com seus olhos, que com a luz do ambiente estão num tom escuro de cinza, como uma tempestade. Neste momento percebo que ele não era um simples conselheiro da Ordem, era alguém deveras mais importante.

— Cale-se e escute, Erethon.- Ele diz de forma suave, mas que demonstra imponência de um líder.- Como eu dizia, esses homens que atacaram durante o baile sabiam que vocês estariam lá e a única forma de possuírem essa informação é se um de nossos irmãos tê-lo feito.

—Exatamente. — Diz Nicolas em tom pensativo — Algumas pessoas são capazes de qualquer coisa para conquistar o que almejam.

— Desta forma, acreditamos que a morte de Bartolomeu não foi um simples ato de ódio.

Grace era quem ouvia tudo atentamente e parecia compreender.

— Se vocês suspeitam de que alguém da ordem esteve envolvido não seria mais prudente que mantivesse isto apenas entre vocês? E tomassem providencias necessárias para encontrar os responsáveis?

— Você tem toda razão, Gracenys, contudo, acreditamos que talvez sejam membros poderosos da ordem que estejam envolvidos. — diz Merrick que cerra o punho.

— Não estaríamos lhes contando estas coisas se não confiassemos em vocês. Desde antes de se tornarem irmãos, vocês têm se mostrado fiéis aos seus princípios, é o motivo de termos lhes escolhido para este trabalho. — acrescenta Lisandro.

Kyra com seus olhos púrpura encara nossos superiores, avaliando-os.

—Que trabalho é este? E se resolvermos não nos envolver?

Lisandro se vira para Kyra e a olha nos olhos, algo que poucos poderian fazer diante daquela expressão que ela tinha no rosto e então respondeu. -Se não aceitarem o trabalho teremos de silenciá-los, seriam um risco à nossa sobrevivência.

Ele diz isso com toda a naturalidade e não demonstrou sinal de que estava brincando.

— Entendam garotos, talvez haja algo maior em jogo e precisamos dos melhores guerreiros que temos certeza de que podemos confiar, e Merrick nos garantiu que podemos confiar em vocês. — intercede Nicolas.

Reflito sobre o que foi dito na sala e os recentes acontecimentos em Svëllburg, sobre o que aquele homem havia dito antes de sua vida se esvair. Pensar nessas coisas causa um arrepio que percorre minha espinha, um mal presságio.

— Tudo bem... precisamos saber no que estamos nos metendo antes. Que trabalho seria este?

Todos olhamos para Merrick, que parecia perdido em seus próprios pensamentos até perceber o silêncio que se instaurou, retorna ao mundo real e nos olha como se fosse a primeira vez que nos visse. Por um instante ele parece frágil, mas retorna à posição de autoridade que conhecemos.

— Vocês provavelmente não sabem, mas o Grande conselheiro Byron de Vindrburg irá realizar uma grande celebração em que seu filho mais velho irá assumir a posição de Burgomestre da cidade, enquanto ele toma as decisões que envolvem toda Astéria. Os líderes políticos de todos os burgos estarão presente, infelizmente, com a morte de Bartolomeu quem irá representar Svell será Barstan Liewk.

Merrick continua falando, mas não dou muita atenção. Ouvir aquele nome faz com que velhas feridas se abram, minha prima me tira do estupor quando coloca levemente suas mãos enluvadas sobre as minhas e sorri tranquilizadora.

—... E vocês iriam juntamente dos pequeno batalhão de escolta para caso aconteça algo. E não precisam se preocupar, Vergil estará por lá e sabe de tudo, podem confiar nele. Como vocês ouviram tudo, presumo que tenham aceitado o trabalho, estou certo?

Acenamos com a cabeça se muito ânimo. — Mas e quanto a Grace? Ela ainda está muito fraca, se alguma coisa acontecer...

— Não se preocupe Erethon, garanto-lhe que ela não correrá nenhum perigo e estará bem para isto. — diz Nicolas, que logo continua a dizendo com entusiasmo. — Seus quartos antigos estão preparados para vocês, vão, vocês têm que descansar e se preparar para a viagem daqui a dois dias.

Entro no meu quarto, as paredes de rocha cinzenta escavada, não há muito no interior, apenas uma cama como cobertores feitos de peles, uma escrivaninha, uma prateleira onde guardo alguns livros, minha espada e pedras de amolar e um simples guarda roupa com os trajes negros da Ordem. Me dirijo diretamente para cama, onde me largo olhando para o teto sobre minha cabeça.

Uma missão que pode acabar em mais morte, talvez a minha, numa terra em que nunca sequer coloquei os pés protegendo Barstan Liewk, aquele homem ignorante, bruto, Insensível aos sentimentos alheios, obcecado por trabalho e sua família perfeita e... meu pai.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.