"...O que sabe sobre Lord Byron?" Surpreendentemente, é Arya quem quebra o silêncio.

"Nada..." Ele responde rápido, pego de surpresa quando a cena veio perfeitamente clara na sua memória...

O homem caindo ao chão, choque marcando sua face enquanto ele olha para sua barriga gorda como se não entendesse que um punhal estivesse cravado nela. Ele segurou o ferimento com as duas mãos, cerrou os dentes e antes que pudesse gritar profanidades Arya já estava agachada ao lado dele, e como se ele já fosse um corpo, revirou os bolsos de seu casaco, roubou-lhe o relógio e arrancou-lhe os anéis com uma eficiência mecânica.

"O que sabe sobre Lord Byron?" Ela perguntou, enquanto revirava as gavetas de sua escrivaninha, jogando os papéis no chão e apenas parando para abrir caixas ou envelopes e despejar tudo tilintava dentro de um rude saco de palha.

"Guardas!" O duque de Brahma grita, seus olhos girando pelo aposento como se esperasse ver seus seguranças surgir de algum canto. Quando ele olha para a porta entreaberta de seu escritório, seu olhar cruza com o dele por um instante.

"Você !" Ele urra, entendendo o que aconteceu, que o seu empregado tinha facilitado a entrada de uma assassina.

Kyle imediatamente se encolhe.

"Droga, vá guardar a porta de entrada...!" Arya grita para ele.

Mas Kyle não se mexe. Na sua cabeça ele só consegue pensar mas, os guardas estão mortos, você os matou. Arya parece ter se esquecido disso.

“Quer se sejamos pegos, droga?! Vá logo!" Ela grita de novo, e eh tudo muito estranho, porque ele nunca a viu gritar antes ou parecer tão furiosa.

Ele continua paralisado. Então de repente, ela para, colocando as mãos na cintura, e sua expressão muda. Ela tem um sorriso divertido no rosto, e piscou para ele com um olho.

Coloque minhas coisas na carruagem, ela forma as palavras sem produzir nenhum som, depois volta a gritar e a parecer exasperada.

Kyle faz o que ela pede, sem entender porque ela estava fingindo ter perdido o controle da situação.

Só muito depois ocorreu lhe que sua intenção so poderia ser dar momentânea falsa esperança ao duque. Se ele pensasse que ainda poderia ser salvo, que ela seria logo morta, ele despediria as informações que ela desejava, a menor ameaça de ter mais dor infligida a ele. Mas se ele estivesse certo que seria morto nos próximos minutos, talvez tortura não o intimidaria tanto quanto morrer sem qualquer dignidade frente a seu algoz, fazendo com que ele levasse seus segredos para o além túmulo.

Que cruel e eficiente, ele pensou, apesar de não sentir qualquer compadecimento com o duque. Ele gostaria de estar presente quando ele soube que a ajuda nunca esteve a caminho.

Kyle desperta do seu flashback quando ouve folhas se despedaçarem sob as costas de Arya. Ela tinha se esticado contra o chão e erguido os braços para apoiar sua cabeça sobre suas mãos, parecendo perfeitamente casual naquela posição indolente.

O que ela descobriu do duque? Ou será que ele não sabia nada a respeito de Byron?

Kyle pensa olhando para ela, mas ao invés de ver a jovem camponesa sobre as folhas, ele a visualiza como naquela noite, capaz de matar sem qualquer hesitação.

"Quem é lord Byron?" Ele pergunta, tentando se lembrar de suas lições sobre as dinastias reais mas não conseguindo lembrar se de ler sobre esse nome em particular.

Minutos passam enquanto ele aguarda uma resposta. O vento balança mais as folhas, um pássaro canta, e ele tem certeza que ela preferiu ignorar sua pergunta quando ela sorri para as nuvens.

Ele exala audivelmente, tentando manter a calma. Eles deveriam ficar parados por mais 40 minutos. Ele a faria falar nesse tempo, ele só precisava aturar como ela parecia gostar de fingir que ele não estava lá.

"O que você sabe sobre ele?" Ele repete, subindo seu tom. Paciência, paciência...

"Não muito..." Arya confessa, com um suspiro. Outra longa pausa. "Esse é justamente o problema...." E assim ela deixa a frase esvanecer em silencio contemplativo que nada faz além de irritar Kyle.

Foi um delírio meu, pura pretensão tirar respostas dela, ele pensa, quando percebe que ela nao vai elaborar.

"Por que é um problema?" Ele pergunta, sentindo que se existisse um título martir de causas perdidas, ele deveria ganhá-lo.

E mais uma vez Arya o ignora ou nem parece ouvi-lo, como o fez muitas outras vezes desde que se conheceram, parecendo perdida em seus próprios pensamentos.

Ela se levanta para trançar seus cabelos, realizando a tarefa lentamente. Ela completa sua tranca a amarrando fortemente com uma fita branca, vai a carruagem, passa longos minutos produzindo todos os tipos sons enquanto revira seus pertences, retorna com um lenço branco amarrado sobre a cabeça, e para, quando encontra Kyle de pé, lançando-lhe um olhar decidido.

No intervalo em que Arya angustiava se sobre ter esquecido ou não o seu lenço favorito com que cobria suas orelhas, Kyle lidava com seu dilema existencial.

Ora, se ela fosse me matar, ela já teria feito a muito tempo, ele pensou, deixa de ser um covarde... Nao é como eu tivesse nada a perder— foi o que ele concluiu.

"Quando eu te pergunto alguma coisa..." Ele começa rispido, o que a faz erguer uma sobrancelha. "... é porque eu realmente quero saber, não porque gosto de ser ignorado. Eu sei que você e a grande autoridade aqui porque tem varias coisas afiadas que podem me cortar e porque eu sei que você nem pisca para tirar uma vida, mas meu deus, você me irrita."

Arya agora parecia comicamente surpresa, o que só estimulou a continuar.

"...Mesmo assim, mesmo assim estou considerando que você tenha algo a me oferecer em Ravena, não só porque você prometeu quando eu a ajudei infiltrar-se na casa dele, mas porque, também, é o que eu gostaria que aconteçesse. Prefiro um mal conhecido, ao mal desconhecido, como dizia Maquiavellis... Aposto que você não conhece esse autor, porque sinceramente nao sei se sabe ler, mesmo se soubesse, nao acho que faria qualquer diferença já que parece resolver as coisas na violência — Talvez por isso seja frustrantemente impossivel conversar com você, sabe, usar o intelecto! Nem sei porque estou tentando, mas seria incrivelmente gratificante se você me respondesse o que diabos pensa em fazer a partir de agora, se eu me encaixo nisso ou nao."

Pronto, sou um homem morto. Ele pensa, fechando os olhos por um instante, enquanto recupera seu fôlego. Ele nunca foi bom em ficar calado... Pelo menos nao se arrependeria das suas últimas palavras em vida.

"Haha."

Ele ergue a cabeça de súbito, seus olhos arregalados, como se precisasse da confirmação visual para processar o fato de ela estava rindo. Sim, ela estava rindo, nos princípios de um gargalhada, para ser exato, jogando a cabeça para trás e balançando seus ombros enquanto ria. Ele fica paralisado diante da reação inesperada e ao mesmo tempo esperançoso. Ela não poderia ser o tipo de maluca que ri antes de matar alguém que a insultou...

"Você me acha irritante." Ela repetiu, com a voz ainda trêmula de humor, como se o adjetivo a intrigasse. "Olha... Se eu soubesse que você poderia ser tão engraçado assim teria te dado mais atenção. Pela primeira vez me parece que você tem uma personalidade, porque tudo o que fazia até agora era agir como um rato assustado."

Kyle solta um grunhido em protesto, chocado com o rumo que a conversa estava tomando. Nao lhe ocorreu que ela iria o insultar de volta.

"Além disso" Ela diz com finalidade. "Se você começasse uma conversa mais interessante do que a que está acontecendo aqui..." Ela bate duas vezes na própria cabeça com os dedos. "... Eu ia responder, já que, sabe, prefiro usar o meu intelecto para atividades mais estimulantes!" Ela termina em uma nota alta, e sorri triunfante, como que orgulhosa de usar as suas próprias palavras contra ele.

Isso só faz você parecer infantil, Kyle pensa incrédulo. Ele tinha 14 anos, ele tinha o direito de ser infantil. Ela nao poderia parecer muito mais idade mas isso era com certeza uma consequência do sangue élfico, e até onde ele se importava, ela era uma velha. Uma velha discutindo com um garoto, quem está perdendo aqui, huh?

"Esse é o melhor que você pode fazer?" Ela provoca, enquanto balanca a cabeca como que desapontada.

Kyle sente uma veia pulsar na sua tempora.

"Inacreditável..." Ele resmunga. "Estou dividido entre achar você patética e ter pena. Quanto tempo passou nas-terras-sem-ninguém, mesmo? Será que o calor te afetou o cérebro? Você parece não perceber que tem algo muito errado com seu comportamento."

Será que exagerei? Ele se pergunta assim que vê a expressão dela ficar séria. Quando ela avança na sua direção com passos largos ele se arrepende imediatamente de seu ego inflado. Ele quase recua, temeroso, mas antes que ele pudesse reagir ela o surpreende rindo de novo.

"Calma, eu só mato se for pra ser lucrativo." Ela diz, como que lendo seus pensamentos anteriores. Ela estende o braço, oferecendo-o um aperto de mão.

"Vai ter que superar esse medinho se quiser trabalhar comigo."

Ele olha ela, estupefato.

"Mesmo?" Ele pergunta incrédulo. Se soubesse que dizer o que lhe passava pela cabeça iria conquistar o respeito dela ele já teria feito há muito tempo!

"Mesmo." Ela confirma, sorrindo. "Eu sempre levo a sério minhas promessas quando faco negócios. E também vou precisar de você pra esse próximo trabalho."

Kyle já estava apertando sua mão, antes que pudesse pensar duas vezes. O alívio o fez agir assim. Era fácil escolher naquele momento, simplesmente porque não tinha outras escolhas.

"Ah." Kyle exala quando ela começa a apertar muito sua mão, até doer. Óbvio que ela tinha que fazer isso. "Fico feliz que está entusiasm- ai! ai!" Arya finalmente o soltou rindo, enquanto ele massageia sua mão exasperado.

"Você precisar ficar mais forte, também. Essa minha força não é nada." Ela diz, a expressão séria de repente. "Vá preparar os cavalos que sairemos em breve. Quando voltar vai ter sua primeira aula, aprendiz."

Pela primeira vez ele não se importa de corrigi-la com o seu nome.

Vinte minutos depois ele estava na parte de trás da carruagem, sentado sobre uma caixa, olhando as costas dela enquanto eles aceleravam pela estrada. Arya bateu nas rédeas ininterruptamente até ela fica satisfeita com a velocidade e então ela começou a falar, com as tiras e couro frouxas na mão.

"Quando chegarmos a cidade, talvez sejamos parados pelos guardas das muralhas. Para quem perguntar você é meu irmão e eu nao sou elfa. Nós estamos voltando para vender produtos no comércio de nosso pai, Barumir. Você entendeu?"

"Sim."

"Ótimo. Nós vamos ficar em uma de minhas casas, se ela ainda existir, e você vai descarregar meus pertences da carruagem. Não abra nada." Ela pausa para olhá-lo por cima do ombro.

"Nada." Repete.

"Sim."

"Você vai limpar o lugar e pode se alojar onde quiser. Quero que cuide dos cavalos no quintal. Enquanto isso eu vou sair e só vou retornar a noite."

"Sim. O que você vai fazer?"

Arya olha por um instante para a estrada antes de virar se para olhar para ele. "Vou visitar uma pessoa desagradável e depois vou a uma festa."

E então ela acrescenta com um sorriso estranho.

"Claro que não fui convidada."

Notas finais
continua no proximo capitulo! OBS: Eu machuquei o meu dedo, entao vou demorar um pouco mais para atualizar :/