Notas iniciais
Espero que gostem :)

Ele não está mais lá, de uma virada para outra simplesmente desapareceu. Estou cada vez mais nervosa com tudo isso, mas não quero ligar para os meus pais e preocupar eles, provavelmente voltariam pra casa na hora. Minhas pernas não param de balançar e eu passo a mão na trança de cinco em cinco minutos, todos devem estar me achando uma maluca – não que eu seja muito diferente disso.

— Senhorita Locke, se importa de me dizer a resposta do número sete, por favor? – O professor Diggory me chama, mas estou distraída encarando a janela. – Senhorita Locke!

— Presente! – Viro-me rapidamente para ele que me observa de braços cruzados, as risadas da turma são iniciadas por Jake lá no fundo. Dou de ombro, depois de um temo você aprende que não importa quem seja, a turma sempre vai rir.

— A chamada já foi feita. – O professor revira os olhos e aponta para o livro de matemática em minha mesa. – A resposta. Da sete.

— Ah... Deu 56?

— Isso é uma pergunta ou uma afirmação?

— Afirmação, eu acho. – O professor desiste de me questionar ao ver que hoje estou muito distraída e confirma a resposta, dando continuidade a aula. Mesmo depois disso não consigo me concentrar. E parece que sou a única, pois nem as duas garotas atrás de mim – que normalmente falam igual matracas – estão conversando hoje.

Resolvo escrever alguma coisa, talvez ajude a me concentrar. Penso por alguns segundos sobre o que escrever e uma ideia surge na minha cabeça.

“O bandido acelera cada vez mais e a detetive é obrigada a fazer o mesmo, se ela não se apressar o bandido irá fugir. Atravessando vários semáforos fechados e desviando de carros no caminho ela perseguia ele por toda a cidade.

— O bandido está na minha reta, essa é minha única chance! – Ela aponta a arma para a roda da moto do homem e atira, o gancho dispara e se prende com firmeza. – Isso! – Em seguida a detetive freia o carro com força, impedindo a moto de avançar. O veículo enganchado derrapa no chão, lançando o bandido longe.

Mas a vitória não pode ser comemorada, ele levanta do asfalto mancando e aponta uma arma para ela, mas ela pula do carro que é atingido pelo disparo.

— Corram! Vai explodir! – Ela grita para os civis paralisados com a cena. – Corram! – As pessoas parecem finalmente se tocar e correm desesperadas. A detetive aproveita que o bandido manca e consegue imobiliza-lo, jogando-se junto dele para trás de um muro.

Um barulho de explosão invade a rua e pedaços de vidro voam para todos os lados. O alarme de incêndio da escola local dispara. Droga, a explosão tinha ocasionado um curto circuito no colégio e feito o local pegar fogo também.”

O alarme da escola soa quase ensurdecendo todos. Cinco segundos de tensão se seguem dentro da sala e de repente todo mundo se levanta desesperado. As luzes se apagam, fazendo as de emergência piscarem.

— Acalmem-se e façam fila! – O professor vai para a porta para impedir que todos se atumultuem. Fico ainda algum tempo em choque com a situação. É coincidência demais.

— Acorda garota. – Jake esbarra na minha mesa me fazendo levantar num pulo. – Não, não, tem razão, morrer queimado deve ser muito divertido. – Diz irônico.

Pego minha mochila e vou atrás dele. Todos estão numa fila meio organizada e apressada para o corredor. Olho em volta e vejo todas as outras turmas fazerem o mesmo, nunca eu tinha visto o corredor tão cheio como está agora. Sou a última da fila e minha turma também é a ultima a conseguir entrar no mar de alunos no corredor. Estranhamente não estou aflita com incêndio, ele me parece tão fictício, como se realmente fosse obra da minha escrita.

De repente uma fumaça espessa me separa do restante da fila, não consigo enxergar nada. Uma pessoa sai lentamente da nuvem de fumaça. É o cara estranho. Ele agora usa uma roupa muito diferente de todas as outras e que me parece ainda mais familiar.

Um dia, em uma de suas caminhadas literárias, essa menina encontrou um velho comerciante que estava de passagem na cidade...”, o sonho se volta a minha mente.

Era ele! Aquele perseguidor era o comerciante do meu sonho. O velho sorri pra mim, ele abre as mãos como se me chamasse para um abraço, esse gesto faz o gigantesco casaco roxo que usa se abrir, revelando vários bolsos internos. O homem enfia a mão em um dos bolsos internos do casaco e tira de lá uma caixinha de madeira.

— Um presente precioso para uma mente preciosa. – Ele põe a caixinha na minha mão e fecha o casaco novamente.

— Mas... – Assim como no sonho, quando vou recusar o presente o homem desaparece na nuvem, fazendo-a se dissipar.

Assim que a nuvem dissipa vejo a turma já bem avançada no corredor. Dessa vez não fico tentando entender o que aconteceu – provavelmente morreria queimada antes disso acontecer – e corro para tomar meu lugar na fila. Um professor aparece para torna-se o último e garantir que nenhum aluno fique para trás.

Chegamos ao lado de fora com um pouco dificuldade, mas não levou muito tempo. Alguns pais já começavam a aparecer. Chocada, vejo o carro pegando fogo e ali próximo a detetive prendendo o bandido.

— O bandido estava com uma arma de alta potência que foi capaz de explodir o carro. – Danny, a repórter do jornal local fala com a câmera. Agradeço por meus pais não conseguirem ver o jornal no set de filmagens, eles ficariam muito preocupados e provavelmente voltariam correndo.

O corpo de bombeiros chega com louvor, eles primeiro dão um jeito no carro e depois se dirigem até a escola. O fogo na escola deve ter foco em algum lugar interno, pois não consigo ver uma chama se quer daqui de fora.

— Achei você. – Hanna aparece na minha frente e me abraça, ela parece realmente abalada com isso tudo. Aliás, não só ela, as outras também. Clarice está chorando nos braços do namorado, Jenny e Stephanie estão sentadas nas bordas de concreto de um canteiro parecendo muito assustadas.

— Vocês estão bem? – Pergunto a elas tentando mostrar empatia à situação delas, já que não estou nem um pouco abalada com incêndio. O incêndio é a última coisa que me assusta agora.

— Eu pensei que íamos todos morrer. – Jenny diz estupefata.

— Quanto drama, mal deu fumaça. – Um dos amigos de Tony resmunga, Jenny apenas vira a cara para ele.

Encaro o garoto, ele realmente não parece nada abalado, em seguida encaro Jenny. Pergunto-me se eu reagiria de forma parecida com algum dos dois. Provavelmente mais com Jenny que ele – não tenho ideia de qual poderia ser seu nome, observando o modo como me caguei de medo com os barulhos estranhos.

Mas, mesmo morrendo de medo, eu fui com o taco de beisebol a procura do perigo. Então, talvez eu não seja tão medrosa assim. Talvez eu seja uma ótima espiã, na verdade, que irá lutar contra vilões terríveis... Acho que eu já imaginei o suficiente por hoje.

Enquanto todos estão espalhados na frente da escola de forma bagunçada, o diretor sobe num grande bloco de pedra da decoração e – usando um mega fone – anuncia que os danos aparentam ser bem pequenos e o perigo bem baixo, mas, por questão de segurança, todas as aulas do dia estão suspensas. Apesar de definitivamente não ser o momento certo, consigo ouvir o coro comemorativo de alguns alunos. O diretor ainda avisa que se precisarmos pegar alguma coisa nos nossos armários podemos pedir para algum professor nos acompanhar.

— Alguém precisa pegar alguma coisa? – Clarice pergunta ao grupo, mas todos balançam a cabeça. Lembro dos meus patins no armário.

— Eu preciso.

— Vai lá. Eu te espero. – Diz Hanna, ela ainda não parece muito bem, então digo a ela que vou até a casa dela acompanhando-a, para ter certeza que ela vai ficar bem e depois uso meus patins para voltar para casa. Ela se oferece para vigiar minha mochila, e só ai reparo que ainda estou com a caixinha de madeira na mão. Resolvo guardar ela na mochila e abrir quando não tiver ninguém por perto.

Corro até a porta onde alguns professores estão parados. Algumas alunos se aproximam também, por isso acelero um pouco o passo, não quero ter que enfrentar uma fila e deixar Hanna plantada me esperando. Consigo chegar enquanto ainda tem professores disponíveis e o professor de química dos calouros me acompanha até o meu armário.

O professor é legal. Tem um bigode que o faz parecer ter saído de um filme inglês e tem um sotaque diferente que não me lembro de ter ouvido em nenhuma outra pessoa. Ele puxa assunto enquanto atravessamos o grande corredor. Ele parece se lembrar de mim do ano passado, pois me pergunta se minhas notas ainda continuam sendo uma das melhores. Dou de ombros, respondendo que nunca comparo minhas notas com ninguém e que não sei o desempenho da turma, mas que eu ainda tiro bastantes notas altas.

O professor me ajuda segurando os patins para mim enquanto tranco o cadeado do armário – que é um cadeado de senha, já que eu perder a chave é uma probabilidade gigante.

— Foi bom revê-la senhorita Locke. – O professor se despede.

— Igualmente. – Sorrio e aceno, enquanto vou de encontro com Hanna que está bem inquieta de esperar.

A gente vai até o carro dela e tentamos sair do estacionamento, algo bem difícil levando em conta a multidão. Durante todo o caminho vamos falando de coisas fúteis, mas nem um pouco desinteressantes.

Hanna me chama para entrar quando paramos em frente a sua casa, tia Teresa acena pra mim da janela. Contudo recuso, se alguém ligar falando alguma coisa pros meus pais prefiro estar em casa. Ela aceita, mas me faz prometer que venho jantar com ela e a mãe dela um dia desses.

Coloco meus patins sentada em um banco no quintal da Hanna e me levanto, jogando a mochila nas costas. Saio da frente da casa com um pouco de dificuldade, já que a passagem da calçada até a porta é feita de várias pedras bonitas sobre uma grama macia.

Ainda demoro um pouco para pegar o jeito, tinha muito tempo mesmo que não patinava, mas depois que me acostumo consigo andar acelerada. Estou ansiosa para chegar em casa. A caixa na mochila pesa e não por ter uma massa elevada. Ela demarca presença, impõe sua importância, mesmo que ainda nem saiba com certeza o que tem dentro.

A única coisa que sei é que, não importa o que estiver ali dentro, vai mudar minha vida completamente.

Notas finais
Comentem, isso ajuda bastante.