É claro que eu não esperava que ao abrir os olhos, estivesse na

“Praia de Nóron?” exclamei, em voz alta.

Estava deitado e quase limpo em meio a areia. Nenhum sinal de água nas proximidades, nem , apenas areia e dois homens que estavam em pé alguns metros atrás de mim, conversando em sussurros indistinguíveis. Eles me espiavam hora ou outra e, numa dessas ocasiões, consegui ouvir trechos da conversa:

“Deve ser alguém de fora” disse um deles, que parecia ser um pescador local.

“Provavelmente algum arruaceiro vindo de Hazzara” disse o outro, que eu identifiquei como sendo um de meus professores. Pelo visto, eu não era um de seus alunos favoritos, afinal ele não parecia sequer lembrar de mim.

“Senhor Finninger?” chamei, tentando por-me em pé aos poucos, com a mão sobre os cabelos. Minha cabeça latejava intensamente, minha boca e garganta estavam secas.

O mais baixo dos dois homens era Seamus Finniger, professor de história. Seus cabelos escuros à altura do pescoço esvoaçavam ao vento úmido da praia. Trajava roupas escuras e formais, dignas de alguém respeitável. Foi a ele a quem havia me dirigido.

“Quem é você?” retrucou. Seu rosto ficava um pouco sombrio ao dizer essas palavras, pois usava óculos que deixavam seus olhos maiores do que realmente são; além disso, graças a luz do sol, as lentes brilhavam, parecendo dois círculos brancos e vazios. Meu estômago embrulhou-se – não sei se pela sua pergunta ou pela sua aparência de alguém severo, prestes a me lançar ao mar enfurecido (ele sempre fora assim), ou ainda pela fome com que estava na hora.

“Eu sou Jin Freaks, um de seus alunos” respondi com o máximo de calma que consegui.

“Receio” disse o homem, enquanto ajeitava os óculos que escorregavam em seu nariz “nunca ter ouvido falar de um pupilo com esse nome. Tem certeza de que está tudo bem?”

Olhei para ele, incrédulo. Talvez eu estivesse louco, mas se não me falha a memória, eu já havia trocado algumas palavras com Seamus Finninger, há pouco mais de uma semana. Talvez não recordasse o meu nome, mas como teria se esquecido de quem eu era? Não que eu prestasse muita atenção às suas aulas, história nunca foi meu ponto forte, mas mesmo assim era impossível se esquecer de alguém com tanta facilidade. Ele não tinha tantos alunos assim e sua inteligência e memória eram conhecidos por serem bem acima da média.

“Você é de Hazzara, garoto?” perguntou-me o pescador.

“Sou de Killera” respondi secamente.

Os dois homens trocaram olhares insatisfeitos. Desisti naquele momento de continuar com nossa conversa sem rumo e, tirando um pouco do excesso de areia em minha roupa e pegando minha bolsa que estava no chão, segui para Killera. A estrada era asfaltada e poucos minutos separavam a praia da cidade. Andei sobre ela e sob o sol matinal, sentindo dois pares de olhos curiosos e analíticos, sempre a espreita nas areias de Nóron, fitarem-me até que não fosse mais possível enxergar. A esse ponto, não havia mais resquício algum de grão de areia, apenas asfalto, calçadas e, anexado a elas, prédios, casas e algumas tímidas árvores.

Nas proximidades da entrada ficava uma praça que costumava ser vazia. Quando eu cheguei até ela e sentei-me em um dos bancos, rodeados por algumas plantas e um poste-de-luz ainda iluminado, percebi que havia algumas pessoas andando por ela. Alguma coisa dava a impressão de que algo estava diferente, mas visualmente era o mesmo lugar de sempre.

Debruçado sobre o banco e com a mochila ao meu lado, fiquei por alguns momentos olhando para ela, delirante. Minha cabeça doida e estava difícil pensar em qualquer coisa que fosse. Mas finalmente, com um clique, lembrei-de do meu celular que estava em meu bolso. Sacando-o, observei hesitante as horas: quinze para as sete, anunciava o visor.

“Querendo ou não, eu preciso fazer isso” disse, pousando a mão na testa e esfregando-a de leve, como se tentasse acalmar a mim mesmo e o fluxo de pensamentos que começavam a correr às pressas, apesar de pouco significarem.

Com toques rígidos e desanimados no celular, disquei o número de James Freaks, meu pai. E então, trémulo ao imaginar a possível encrenca a qual me metera, e com algum medo inexplicável que surgira desde o encontro recente com o professor de história, apertei o botão de fazer a chamada.

Tudo o que eu podia ouvir era o som de minha própria respiração, passos pesados de alguns passantes e o som de 'bip' que vinha do outro lado da linha, indicando que ninguém atendia a minha ligação. Provavelmente estavam dormindo, pensei. Apesar de que isso não era algo usual; eles costumavam acordar um pouco cedo devido ao trabalho. Não teriam sequer percebido ainda que eu havia sumido? Sim, pensei, talvez eu devesse voltar pra casa o mais rápido possível e, voltando para o meu quarto, fingir que estava dormindo. Assim, isso não passaria de um pesadelo qualquer, que logo seria esquecido. Que ingênua ilusão..

“Alô?” Disse uma voz feminina. Pelo tom, parecia uma garotinha.

“Oi? Quem é você?” perguntei, confuso.

“Você quer falar com meu pai, né?”

“Hein? Do que está falando? Devo ter ligado para o número errado, desculpe.”

E então desliguei. “Estou tão fraco que até digitei o número errado”, disse. Erguendo a cabeça, tive uma visão das redondezas: havia uma lanchonete bem próxima, atravessando a rua. Sem pensar duas vezes, segui até lá.

“Está aberto, que sorte” sussurrei e então abri lentamente a porta de vidro. Por uma ou duas vezes eu já havia ido alí: era, como todos chamam, um “cafè” com 3 mesas redondas, cada qual com 4 cadeiras e uma mesa retangular, maior, posicionada no canto ao final. Era um lugar muito estreito; do lado esquerdo havia um espelho que recobria a parede, na tentativa de passar uma impressão de um lugar maior, mas não funcionava tão bem. À direita ficava o balcão onde, naquele instante, havia uma mulher aparentando estar nos seus 30 anos, com um ar incrivelmente animado – ou nem tanto.

Assim que dei o primeiro passo para dentro, ela levantou a cabeça de sua revista e me lançou um olhar de desinteresse. Depois, sem prestar mais atenção, voltou a lê-la. Eu escolhi por sentar na mesa mais próxima da entrada, que era impossível de ser vista pela lado de fora, pois havia um cartaz de propaganda do lugar que recobria a entrada, toda de vidro, bem como a porta.

Sentando-me em uma das cadeiras e jogando a bolsa em uma outra, peguei mais uma vez meu celular. Chequei na agenda de números só para ter certeza de que aquele era o certo. Liguei novamente. Chamou por várias vezes até que enfim responderam:

“O que você quer?!” disse a menina.

“Quero falar com James, meu pai. Você roubou o celular dele?!”

“James é meu pai!” exclamou a menina. “Quem é você?”

“Eu sou Jin Freaks!.” respondi “E deixe de brincadeiras, seja lá quem você for.”

“Mamãe” disse a menina, com um baque. Sua voz estava mais baixa, o que indicava que ela devia ter derrubado o celular em alguma mesa e ido chamar sua “mãe”.

Eu esperei por um ou dois minutos, mas que pareceram horas. Meu coração estava disparado, alguma coisa estava bastante errada. Essa foi a mesma sensação que eu havia tido no início, ao acordar na praia e não ser reconhecido. Talvez seja essa a sensação de não existir...

“Seu estúpido!” gritou a menininha, com a voz chorosa “Deixe de brincadeiras sem graça!”

“Como assim? Passe o telefone para seu responsável.”

“Lilian está chorando por sua causa!”

Todo o mundo pareceu congelar. Lilian era mesmo o nome da minha mãe. Como aquela ladra poderia saber disso? Pensei. Será que o que ela dizia era verdade?

“Mas...”

“Não se deve brincar com os mortos!”

“Mas eu...”

“Jin é o nome do primeiro filho de minha mãe. Ele morreu há 7 anos, você deve saber! Seu estúpido!” … “Pare de fazer piadinhas sem graça! Deixe a gente em paz! Mãe!”

“Não chore” continuou a menininha, com uma voz penosa, mas tranquilizadora, esqucendo-se de desligar o celular “está tudo bem. Você tem a mim e ao papai. Nós não vamos te deixar nunca!”

Sem perceber o celular se soltou de minha mãe caindo na mesa quando ouvi soluços de uma voz feminina.

“Não...”

Pela segunda vez alguém negava que eu existia. Dessa vez, porém, eu fui muito bem lembrado, mas não da forma que esperava. O que significava isso tudo? Eu... estava, estou morto? Mas então como eu estava ali naquele momento, e como consigo pensar?

Com ambas as mãos segurando a cabeça, que voltava a doer, fui surpreendido com um ataque que me veio da lateral. Não consegui segurar um salto da cadeira:

“Você quer alguma coisa?!” exclamou a atendente da lanchonete com uma voz tão doce e calma quanto uma tempestade de areia furiosa.

“Eu? Hein?” respondi, ou ao menos tentei. Ao olhar para a mulher, sua expressão de tédio parecia contagiante.

“Vai comer alguma coisa ou vou ter que pedir para se retirar no toró que está lá fora?”

“Ah, sim, espere” disse. Foi só então que eu percebi que estava sem dinheiro. E não tinha mais casa, então o que devia fazer? Desviei o olhar da moça e abri todos os bolsos de minha mochila em busca de qualquer coisa que pudesse ser útil para aquela situação.

Eu não sabia como mas havia dinheiro solto. Pela quantia, seria bem mais do que possível pagar pelo menos alguns lanches – apesar daquela lanchonete ser mais cara – talvez por ser chamada de “cafè”. Pouco importa.

“O que você me recomendaria?”

“A julgar pela sua cara de fome, garoto, eu diria que você está no lugar errado.”

“Eu tenho dinheiro para pagar, se é isso que quer dizer.”

“Então te recomendaria um sanduíche completo com suco. Que acha?”

“Pode ser” respondi.

No momento em que a atendente deu as costas, eu deitei minha cabeça por cima dos braços cruzados e tentei entender a situação. Era inútil. Minha mente estava um completo caos de informações sem sentido e com nenhuma ligação entre si. O que acordar subitamente numa praia, ser ignorado por um professor, roubar dinheiro dos pais (afinal de que outra forma eu teria conseguido?), fugir de casa sem ter consciência e de repente ser dito como morto por uma garotinha que diz ser filha dos meus pais teria em comum? Certamente nada e essa é a minha resposta final. O mundo é louco, e há coisas inexplicáveis que simplesmente acontecem...

“Acorda!” gritou novamente a mulher com sua voz agoniada, batendo com o avental na minha cara.

Abrindo os olhos devagar eu me lembrei que estava no cafè. Tinha pegado no sono. A moça me encarava furiosamente, com braços cruzados e batendo o pé no chão freneticamente.

“Até que enfim!” disse “Você ficou dormindo por um bom tempo! É bom você saber que aqui não é hotel, entende?!”

“Desculpe” disse.

“Seu sanduíche está aí na mesa, junto ao suco, na bandeja. Um deles está frio e o outro deve estar quente. Você já deve saber quais serão, certo?!”

“Eu posso ficar mais um tempo por aqui mesmo ao terminar de comer?” perguntei.

A mulher me lançou um olhar severo, mas com um suspiro e com ar de desistência, disse:

“Sim, claro. Já são mais de doze horas e fechamos às sete. É melhor que já tenha ido embora até lá, sim?”

Acenei, e então me voltei par a comida a frente. A fome era tanta que nem esperei para saborear o gosto do sanduíche e do suco; apenas os engoli o mais urgente que consegui. Logo em seguida voltei a me debruçar sobre a mesa, enquanto tentava bolar uma ideia sobre o que fazer a partir de então, afinal, se o que me disseram era verdade, eu não teria mais casa e nem família, estaria abandonado a minha própria sorte. Sorte... será que eu a tenho? Afinal de contas o que eu mais queria até o dia de ontem era que as coisas mudassem. Eu desejava sair da rotina dos dias vazios que se repetiam em Lammina, mas não esperava por uma coisa tão radical a esse ponto, nem tão rápida. As coisas estavam se passando mais rápido do que eu podia suportar. Mentalmente já estava exausto como se tivesse passado dias e dias estudando para uma seção de testes, dos quais a minha vida está dependendo.

De repente, apaguei.

A próxima vez que minhas pálpebras ousaram abrir, a entrada de vidro mostrava claramente que já estava anoitecendo chovia forte. A atendente olhava para sua revista, desinteressada, e trocava-a vez por outra por uma pequena televisão que estava agora no balcão de madeira a seu lado. Aparentemente estavam passando notícias dizendo que a noite possivelmente seria chuvosa e muito fria. Bom, isso qualquer um teria notado se botasse a cabeça para fora da janela de sua casa confortável.

Eu já me levantava a um ritmo preguiçoso para ir pagar a conta quando alguém abriu a porta com força, forçando-a para frente. Era uma garota completamente ensopada, com grandes óculos que brilhavam à luz do recinto, tomando quase que todo o espaço de seu rosto. Ela também andava com uma mochila, vermelha, posta à sua frente, enquanto ela surgia pela porta curvada, como se tentasse evitar que a chuva molhasse suas coisas.

No momento em que ergueu o rosto, foi como se algo se acendesse dentro de mim.

“Layla!” exclamei para ela, que parecia estar prestes a dizer algumas palavras de desculpa, com seu jeito típico desengonçado.

Ela olhou para mim. Eu passava o dinheiro para a atendente que me olhava com um sorriso um pouco mais polido do que antes, e entregava-me o troco. Parecia ter se interessado pela mudança no clima, pois já estava com a cabeça jogada sobre as palmas das mãos, que estavam sustentadas pelos cotovelos apoiados no balcão. Seus óculos mostravam que por trás deles havia dúvida.

“Sou eu, Jin.”

Eu não precisava sequer dizer, ou assim parecia em sua fisionomia. Ela já estava fazendo seu tique nervoso de costume: o canto do lábio superior esquerdo tinha um movimento tremido sempre que ela ficava em dúvidas sobre alguma coisa, afinal, a melhor forma de definir Layla Yuna era com uma única palavra: nerd. Ela era o tipo de garota que ficava dias e dias trancada em um quarto para ler e estudar. Layla estudou comigo desde a nossa infância e desde cedo, sempre moramos em lugares próximos, mas não eramos muito chegados um ao outro, pois ela era reservada. Suas notas eram sem dúvida alguma as melhores de toda a escola. Era impossível superá-la em nível de inteligência.

E apesar de toda essa loucura, ali estava ela, na minha frente, me encarando com sua expressão de que seus conhecimentos estavam sendo postos a prova. Não vou negar que era divertido vê-la assim, o que me fez soltar um riso rápido.

“Sou eu, o Jin” tentei outra vez afirmar, com o máximo de convicção que tinha.

“Jin?” perguntou, como se a si mesma, com uma voz fraca. Seu tique nervoso a essa altura já estava mais forte e perceptível. Largou a mochila em cima do tapete da entrada e passou a me analisar com um suspiro demorado, mas inconformado. Apesar de que eu sabia que ela não acreditaria em mim, alguma coisa em seus olhos me dizia que talvez ela fosse a única ali que pudesse me entender. Eu teria que provar a ela que sou eu mesmo. De algum jeito.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.