O Último Caçador
1 Prólogo
A escuridão da noite se estendia sobre o rio Içana, envolvendo o navio em uma cortina de silêncio e mistério. A vastidão da Amazônia parecia engolir tudo, deixando para trás apenas o suave ronco dos motores e o sussurro do vento nas árvores. A embarcação cortava as águas do rio como um espectro solitário, seu casco de aço refletindo a luz tênue das estrelas, que surgiam apenas entre as brechas das nuvens escuras que se agrupavam no céu. O curso era claro, mas a sensação de estar perdido no infinito de águas e matas era inevitável.
A tripulação do Soares de Meirelles, um navio de assistência hospitalar da Marinha Brasileira, mantinha uma vigilância constante sobre a região, patrulhando uma das áreas mais remotas e inexploradas da Amazônia. Seus oficiais e marinheiros estavam acostumados com a rotina de patrulha, mas havia algo naquela noite que pairava no ar, algo inexplicável que fazia com que os sentidos estivessem mais aguçados, como se a própria floresta estivesse observando o navio passar.
O capitão Lopes, um homem de cabelos grisalhos e rosto severo, caminhava pela ponte, seus passos vagamente abafados pelo barulho dos motores. Ele parou por um momento e observou a escuridão à sua volta. A vegetação nas margens do rio era densa, nada parecia se mover, nem mesmo os pássaros, que em outras noites costumavam cantar em coro ao anoitecer.
— Algo estranho no ar, não acha, Alvarenga? — Perguntou ao seu oficial de plantão, o tenente Alvarenga, que estava no timão.
O tenente, um homem jovem com menos de 30 anos, ergueu a cabeça, parecendo ainda absorver a pergunta. Ele estava acostumado àquelas perguntas casuais do comandante, mas naquela noite sentia que algo de fato estava fora do lugar. Ele olhou para a margem do rio, mas tudo estava imerso na escuridão. Apenas o som distante de algum animal desconhecido ecoava.
— Sim, senhor. Não sei explicar, mas parece que há algo fora do lugar. A floresta… Ela não está tão viva quanto de costume.
O comandante assentiu lentamente e se afastou para continuar sua inspeção. Ele também sentia. A Amazônia tinha uma maneira de se comunicar com quem estava acostumado a escutá-la, mas aquilo estava diferente. O silêncio era profundo demais. Mesmo para aquele rio distante de qualquer cidade, o habitual zumbido da vida selvagem parecia ter desaparecido.
Enquanto isso, o tenente Alvarenga permanecia concentrado na direção que o navio tomava. Seu olhar fixava-se na linha do horizonte, tentando penetrar na escuridão, mas nada além da vastidão do rio e da floresta se apresentava. Apesar da rotina militar, havia aprendido a respeitar aquela floresta — um mundo que parecia observar de volta cada homem que ousava cruzar suas águas. E, naquela noite, algo estava diferente.
Não era apenas silêncio. Era um vazio. A selva parecia ter se retraído, como se houvesse prendido a respiração diante de algo maior, invisível. Alvarenga sentiu um arrepio correr pela nuca. Seus instintos, moldados por anos de navegação, sussurravam que havia algo à frente.
Ele estreitou os olhos, tentando atravessar o breu. A corrente leve do rio refletia apenas pequenos fiapos de luz das estrelas, tornando impossível distinguir formas. Ainda assim, alguma coisa — uma mancha imóvel contra o movimento natural das águas — chamou sua atenção.
Por um instante, pensou que fosse apenas um tronco arrastado pela correnteza, mas a forma parecia demasiado rígida… demasiado humana.
Seu coração acelerou. Os dedos apertaram com mais força a madeira do timão. Deu um passo à frente, inclinando-se para a borda da ponte, os olhos fixos no ponto enegrecido que oscilava na superfície.
A dúvida pesou sobre seus lábios, até que ele murmurou quase para si mesmo:
— Aquilo… parece um corpo.
O frio percorreu sua espinha. O que estaria fazendo ali, no meio do rio, em um trecho tão remoto?
Ele recuou um passo, respirou fundo, e então sua voz irrompeu pelo convés com a autoridade da urgência:
— Alerta! Objeto à frente! — E, após um segundo de hesitação, completou com a certeza que já o dominava — Corpo à vista!
O grito ecoou pelo navio, arrancando os marinheiros da rotina sonolenta. Passos apressados soaram sobre o convés, vozes se ergueram em murmúrios, e o comandante Lopes surgiu de volta, com o rosto fechado em seriedade.
— O que temos, Alvarenga? — A voz dele cortou o ar, firme.
O tenente apontou com o braço estendido, ainda sem desviar os olhos da figura inerte que boiava.
— Lá, senhor. Um corpo… não resta dúvida.
O comandante rapidamente se aproximou do timão, olhando para o ponto indicado. O corpo estava a uma boa distância do navio, mas poderia ser alcançado. Algo sobre a situação o incomodava. Era incomum ver um corpo em uma área tão isolada, longe de qualquer assentamento humano.
— Parada total. — Ordenou o capitão — Vamos trazê-lo a bordo. Preparem o guincho da popa e os homens para o resgate.
Rapidamente a tripulação seguiu as ordens do comandante. O tenente Alvarenga reduziu a velocidade do navio e comandou a liberação da âncora para imobilizá-lo. Na popa, com o auxílio do guincho, o corpo foi retirado das águas e colocado no deque. Os poderosos holofotes da popa foram acesos e direcionados para o cadáver. O marinheiro que o puxou parecia desconfortável, mas cumpriu a tarefa sem hesitação. Ao aproximar-se, o capitão Lopes observou o morto com mais cuidado. Ele parecia ser um homem de meia-idade, com roupas simples e desbotadas, provavelmente um ribeirinho ou alguém perdido nas margens do rio. Mas o que realmente chamou a atenção foram as marcas em seu corpo.
A carne do pescoço estava rasgada, como se tivesse sido dilacerada por lâminas longas e afiadas. O ferimento era profundo, indo até os ossos. Havia sinais de luta, hematomas e arranhões ao longo dos braços e peito, como se o homem tivesse tentado se defender, mas os ferimentos pareciam ser de algo com força descomunal.
— O que é isso, Alvarenga? — Perguntou o comandante, sua voz tensa, ao ver o outro se aproximar.
O tenente Alvarenga, com a mão cautelosa sobre o corpo, examinava os ferimentos.
— Não sei, senhor. Parece que foi atacado por algum animal muito grande… mas nunca vi nada como isso na região.
— Preparem a enfermaria, precisamos examinar o corpo mais de perto — Disse o comandante, com uma expressão grave. O caso estava muito além do que se podia considerar um simples acidente de caça ou um ataque de onça. Era algo mais.
Assim que o corpo foi levado para a enfermaria, o médico da tripulação, o doutor Ferreira, foi chamado para avaliar os ferimentos. Ele examinava as marcas com atenção, a luz da lanterna refletindo nas feridas profundas.
— Isso não é obra de uma onça, senhor. Nem mesmo uma sucuri teria dentes tão largos. Isso… Isso parece coisa de algo muito maior.
O comandante Lopes se aproximou, observando o médico com um olhar sério.
— O que está sugerindo, doutor?
O médico não respondeu imediatamente, mas continuou seu exame minucioso. Seus dedos tocavam as cicatrizes, e ele fazia uma expressão de confusão.
— Não sei ainda, senhor, mas o tamanho da mordida é algo fora do comum. Se eu tivesse que arriscar um palpite, diria que foi um ataque de jacaré, mas... — Ele passou o dedo indicador por um dos cortes no peito do cadáver — O mais estranho é que a vítima não parece ter morrido de imediato. Os sinais de luta indicam que o homem ainda tentou resistir após o ataque. Isso é muito raro para um animal que normalmente mata com um golpe rápido.
O comentário pairou no ar como um espectro. Nenhum dos homens ousou acrescentar palavra. Até a lâmpada da enfermaria parecia oscilar menos, como se a própria luz tivesse medo de se mover.
O comandante Lopes respirou fundo, quebrou o silêncio e puxou o rádio do cinto de sua calça. Com voz grave, apertou o botão e deu a ordem:
— Tenente Alvarenga, retome o curso. Vamos em frente.
— Sim, senhor. — Respondeu o oficial, erguendo o queixo com firmeza, mas sem conseguir esconder o peso da tensão na própria voz.
Lá fora, ouviu-se o som das correntes da âncora roçando o casco enquanto eram recolhidas. Logo depois o ronco das máquinas voltou a pulsar, e lentamente o navio retomou o movimento, rasgando as águas negras do rio. Os marinheiros voltaram aos seus postos em silêncio, cada um com seus pensamentos inquietos, como se qualquer palavra pudesse atrair aquilo que espreitava na escuridão.
O comandante Lopes permaneceu por alguns instantes na enfermaria, fitando o corpo imóvel sobre a maca, e então voltou-se para a escotilha. Ao sair para o convés, a noite amazônica o envolveu. O ar parecia mais pesado do que antes, e o silêncio da floresta era quase antinatural. Nenhum coaxar, nenhum farfalhar, nenhum zumbido. Apenas o ruído surdo das águas contra o casco.
Ele ergueu os olhos para a escuridão que cercava o rio e pensou, com a certeza instintiva de um homem que já vivera tempo demais naquelas terras:
O que quer que tenha matado aquele homem ainda estava lá fora.
Observando.
Esperando.
E era a sua presença que calava a floresta, sufocando a vida, impondo um silêncio de medo tão profundo que até a selva, em sua imensidão selvagem, parecia conter a respiração.
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