Número 002
13 Seja bem vindo!
– Me promete uma coisa? – Gai pediu.
“Minta!”
– Sim! – Eu respondi tentando soar o mais sincero possível.
– Não use o seu poder, e não acredite em ninguém além de mim, nem em sua mente. – Gai disse sério.
“Minta novamente.”
– Eu prometo!
Gai sorriu e ficou me olhando por um tempo.
Eu menti para Gai, mas não me senti culpado. Eu disse que não usaria meu poder, mas aquela noite eu saí para matar.
―
A escuridão existe.
A escuridão não está apenas onde não há luz.
A escuridão está em todos os lugares.
Sejam eles claros ou escuros.
A escuridão quer dominar tudo que existe.
A escuridão quer o meu cérebro.
A escuridão sou eu!
―
A noite estava sendo longa, matar aqueles robôs não tinha sido difícil, mas o jogador com quem eu estava lutando agora era forte.
“Não desista, ninguém pode nos vencer!”
– Argh! – Gritei enquanto me jogava contra um garoto alto e corpulento que segurava duas lanças nas mãos. – Morra!
Passei a espada no garoto, mas ele desviou o que fez com que minha espada passasse de raspão sobre seu rosto lhe fazendo um corte leve no rosto. Ele me olhou com cara de vitória e sorriu.
– O que, cavaleiro? Achou que me matar séria tão fácil quanto foi matar meus robôs? – Ele gargalhou.
Para ser sincero ele era o cara mais feio que eu tinha visto em toda a minha vida, apesar do corpo grande e forte, seu rosto cheio de espinhas não era nada interessante, ainda mais quando se tem olhos vermelhos e agora um corte. Eu cuspi sangue no chão e olhei para o meu oponente.
– Você está me proporcionando diversão. – Eu disse sério.
“Isso, majestade. Humilhe-o e depois o mate!” A voz em minha mente gargalhou.
– Nunca tinha encontrado um adversário a minha altura, obrigado por isso, mas está na hora de morrer. – O garoto riu.
– Eu que agradeço! – Eu disse sorrindo maliciosamente, mesmo que ele não pudesse ver isso me deixava com cara de mal. Parti para cima dele e chutei sua barriga, o garoto saltou para trás.
– Nada mal! – Ele gargalhou.
Parti para cima dele novamente, dessa vez com mais vontade de matar.
“Isso, majestade.”
“Mate-o!”
Minha espada estava em posição, e estava perto do coração do garoto, mas ele desviou minha espada com as adagas. Olhei pra ele e o mesmo sorriu. Atacou-me com suas adagas, mas eu consegui defender com minha espada. Então chutei a canela do garoto, e o derrubei. Olhei para ele no chão e apontei minha espada no pescoço dele. Ele se manteve imóvel.
– E então... Quem vai morrer?
– Desgraçado! – O garoto cuspiu as palavras pra mim.
“Isso”
Chutei a perna do garoto com força. Seu grito foi alto.
“Torture!”
Pisei na perna do mesmo com força. Ele gritou novamente.
“Machuque!”
Passei a ponta da espada no pescoço dele sentindo a carne ser cortada com a lâmina afiada da minha espada.
– Não... Por favor! – O garoto começou a gritar.
Sorri maliciosamente e então tirei meu capuz.
– Olhe nos olhos de quem matou você, e se tiver sorte, vingue-se um dia!
– V-V-Você? – Ele pareceu procurar algo na mente. – Akise, não é? O criador! O rei! O possuidor da coroa do pecado!
“Eu quero gritos, eu quero dor. Eu quero audiência.”
Lembrei-me então que as câmeras estavam filmando, apesar de nunca as vermos, elas estão sempre captando os movimentos dos jogadores.
– Dê um tchau para a câmera! – Eu disse sorrindo e então puxei a espada do pescoço do garoto e enfiei em seu peito. Ele não gritou, mas lágrimas escorreram por seus olhos.
O que eu fiz?
Que porra eu fiz?
Não!
Eu não fiz isso.
Não!
Comecei a procurar a voz em minha mente.
“Por favor... Não me deixe! Não!” Eu forçava meus pensamentos a encontrar, mas não vinha nada.
Eu estava sozinho. Olhei para minha espada enfiada no peito do garoto.
– NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO! – Gritei.
Dois dias se passaram desde a morte do garoto, e nada da voz voltar a se comunicar comigo. “Eu não sou nada sem essa voz.” Eu repetia em minha mente o tempo todo. Gai parecia estar preocupado comigo, mas eu não ligava, eu estava incompleto, sozinho.
“Eu sou você!”
“Viva”
Eu lembrava quando a voz me disse isso. Mas agora eu estava sozinho. Eu estava sozinho.
Era tarde da noite e eu estava tentando dormir.
“Majestade?”
Sentei-me sobre a cama ligeiramente e esperei.
“Majestade? Responda!”
“Akise...”
“Sim!” Eu pensei, era só isso. Eu pensava nas palavras e a voz podia me ouvir.
“A partir de hoje, nossos ataques acontecerá semanais. De preferência nas quintas feiras.”
“Por quê?” Eu perguntei.
“A audiência é maior. O mundo lá fora vibra por você. Os adultos querem ser como você. Os velhos querem ter você.”
“Do que você está falando?”
“As coisas nesse jogo vão mudar, você só precisa esperar.”
“O que?”
“Eu ficarei um tempo sem me comunicar. Você precisa guardar forças para as mudanças, Akise.”
“Por quê?”
“O jogo vai virar, as coisas serão diferentes.”
“Quem é você?” Eu perguntei.
Ouvi uma risada em minha cabeça.
“Eu já disse, majestade. Eu sou você!”
Fiquei calado.
“Mas lembre-se do aviso. As coisas vão mudar...”
Então eu senti como se algo tivesse sido desconectado da minha mente. Fiquei em silêncio e então deitei sobre a cama.
“Eu sou você.” “Eu sou você.” “Eu sou você.” “Eu sou você.”
O que isso significava? E o que significava as coisas que iriam mudar?
Peguei no sono sem perceber. Quando acordei Gai não estava em sua cama, o que era bom. Desde o dia que havia prometido para ele que não usaria mais meu poder ficar com ele era insuportável. Eu queria contar a verdade. Mas algo me impedia minha voz não saía. Era como se me faltasse o ar, só em pensar em contar algo sobre isso pra Gai. Lembrei-me então sobre o que Gai tinha dito. Hoje era o dia de uma nova equipe entrar no jogo. Sentei sobre a cama.
“As coisas irão mudar.”
Ouvi em minha mente e me assustei.
“Estão prontos? Abram os portões.”
Vozes aleatórias soavam em minha cabeça, coisas sem sentindo ou coerente, alguns falavam sobre o jogo. Outros falavam sobre as mudanças, mas o que mais me assustou foi uma voz. Uma voz muito familiar pra mim. Uma voz que disse.
“Está quase na hora, está quase na hora do rei começar a usar seu poder. Vamos dar inicio a terceira parte do jogo logo!”
Eu conhecia aquela voz perfeitamente, não tinha erro. Era a minha voz.
Sai correndo do quarto. Eu só queria fugir, queria fazer com que as vozes parassem, eu tampava meus ouvidos com as mãos. Não sei por quanto tempo fiquei ouvindo as vozes sem noção na minha cabeça, mas parecia ser muito tempo. Corri pelo pântano, entrei no grande bosque e continuei correndo, queria que as vozes parassem. Corri sem rumo, até que me choquei com o corpo de alguém. Cai para trás e as vozes pararam.
– Droga! – Uma voz masculina falou.
Um jogador! Levantei-me rápido e fiquei em posição de luta. Olhei para o meu oponente. Era um garoto loiro de cabelos nos ombros, olhos vermelhos e pele branca. Roupas pretas como as de Gai. Para falar a verdade, ele me lembrava muito Gai. Só que ainda mais lindo. Seu rosto era comprido proporcionalmente. Os cabelos loiros lisos, os olhos grandes, expressivos e lábios bem desenhados. Era menor que Gai, mas ainda assim mais alto que eu. Senti uma coisa estranha dentro de mim. Senti algo novo, mas que não era tão novo era o que eu sentia quando pensava em Kun. Só que bem mais forte.
Então o garoto riu.
– O que? – Eu falei sério.
– O que um garoto de ceroulas está fazendo aqui? – Ele perguntou.
Olhei para mim e então reparei que estava apenas de cuecas.
– Droga! Não olhe! – Eu disse seco.
Ele continuou rindo.
– Qual foi não precisa ter vergonha. Eu sou Anúbis. Acabei de entrar no jogo! – Ele sorriu. O sorriso mais lindo que já tinha visto em toda minha vida.
– Eu sou Akise. Seja bem vindo ao inferno. – Respondi sério.
– É, pelo que passei a uns minutos atrás da pra perceber. – Ele disse e então olhou pra trás.
Eu sorri pra ele.
Existia algo em Anúbis que me fazia bem, eu o havia acabado de conhecer, mas tinha certeza, que tinha algo de especial.
“Tudo vai mudar!” Ouvi em minha mente, mas pela primeira vez naquele dia, não me importei, continuei encarando Anúbis.
Fale com o autor