Número 002
4 Eu conheço o senhor dos pântanos.
As coisas não estavam nada fáceis, mais cobras começavam a surgir vindo de outras direções, e aquele deserto parecia não ter fim. Eu tinha de pensar, tinha de pensar urgentemente em algo para fazer, não podia deixar minha equipe morrer ali. Eu não queria morrer ali, as palavras do meu pai vinham em minha mente. “Viva” Era essa a única lembrança real que eu tinha dele. E era isso que eu tinha de fazer, eu tinha de viver, não iria morrer em menos de trinta minutos de jogo. Eu não queria perder.
– Não está adiantando correr! – Disse Kun. – Elas estão nos alcançando.
– É eu to vendo. – Eu bufei irritado. – Pelo que eu lembre você é o número 001. O líder e não está fazendo nada para tentar nos salvar.
– E nem você, Akise. – Kun devolveu.
– Eu pelo menos sugeri que corrêssemos, e você? O que tu está tentando fazer mesmo? – Eu estava realmente começando a me irritar. Kun era o líder, mas não estava fazendo nada.
– Ah, me ajudem. – Ouvir Armani gritar.
Olhei para trás rapidamente e pude ver a garota que tinha caído ao chão.
– Anda, levanta logo. Nossas amiguinhas não muito simpáticas estão chegando. – Eu disse sério.
– Não consigo minha perna está machucada. – Ela resmungou.
– O que? – Kun disse irritado. Ele voltou a pegou nos braços e voltou a correr.
Senti Yuno se aproximar de mim.
– O que você acha que são essas coisas? – Yuno me perguntou séria.
– Sério que você não reparou que são cobras, e que elas estão com fome? – Eu disse sem paciência. Não estava me reconhecendo, nunca tinha sido rude com minha irmãzinha antes, mas dessa vez era diferente. Estava a beira da morte e ela me fazendo perguntas estúpidas, dessa forma eu não poderia pensar.
– Droga, droga, droga... Essa menina pesa demais. – Kun resmungou.
– Está me chamando de gorda? – Armani perguntou séria.
– Parem com a briguinha e tentem salvar suas vidas. – Yuno falou baixo, mas sabia que os dois tinham ouvido.
Continuamos correndo das cobras, e então eu pude ver uma cidade, involuntariamente um sorriso se abriu em meus lábios, estávamos salvos, poderíamos entrar em alguma casa, ou subir em alguma coisa e fugir daquelas cobras. Mas como alegria dura pouco, logo me dei conta de que uma grande buraco estava separando o deserto da tal cidade.
– Droga. Como passamos? – Yuno perguntou.
– Não sei, mas não há muito tempo para descobrir, as cobras estão se aproximando rápido demais. – Eu disse enquanto olhava em volta, a procurar de uma ponte de alguma coisa. Avistei uma madeira que pela forma que estava colocada na fenda, deveria ser usado como ponte. – Ali. – Gritei apontando.
Todos olharam e correram junto comigo até a “ponte”.
– E como passamos nisso? – Armani perguntou.
– Passando, ora. – Yuno respondeu irritada. Acho que o medo e a aproximação com a morte estavam deixando todos nós alterados. Ou será que tudo esse sentimento estava sendo implantando em nossas mentes? Yuno sem demora passou rápido, mas com cautela sobre a madeira, não demorou muito e ela saltou caindo do outro lado.
– Consegui, venham! – Ela gritou.
– É a sua vez, Kun. – Eu disse.
– E a Armani? Ela não vai conseguir passar isso sozinha. – Ele respondeu preocupado.
– E você não vai conseguir passar comigo nos braços. – Armani respondeu seca.
– Ela tem razão, anda logo Kun. – Eu gritei. As cobras estavam mais perto de nós.
Kun então colocou Armani no chão e correu para a madeira, de um jeito rápido e gracioso, Kun passou pela longa madeira e chegou ao outro lado. Como eu iria fazer aquilo? Era considerada a pessoa mais atrapalhada.
– Armani... – Eu comecei.
– Ande, Akise. Passe essa madeira. – Ela falou baixo.
– Eu não posso deixar você aqui sozinha! – Eu disse agora me esquecendo da raiva sentida antes.
– Anda logo, Akise. Você precisa atravessar a droga da madeira e ficar salvo. – Ela disse séria e então me olhou nos olhos, pude ver lágrimas escorrendo por sua face.
– Mas... – Eu comecei.
– Mas nada. Lembra do que a Taylor falou? Eu estou aqui apenas para divertir. Talvez seja isso. Eu precise morrer para aumentar a audiência dessa palhaçada. – Ela disse baixo. – Agora atravesse número 002. Viva! – Ela disse.
“Viva!”
Olhei assustado para ela, as cobras estavam a menos de 2 metros de nós agora, sem demora corri para a madeira e atravessei a mesma, com dificuldade, mas o mais rápido que eu conseguia. Cheguei ao outro lado e olhei para Armani. Usei toda a minha força e empurrei a madeira, a mesma logo começou a escorregar e cair naquele abismo.
Virei à cabeça pra cima e vi as cobras pulando em cima de Armani. Como mágica uma fumaça vermelha apareceu cobrindo a cena. Não ouvi gritos ou sons nenhum vindo de Armani.
– Que porra aconteceu? Nós poderíamos ter... – Yuno começou.
– Não, não podíamos. – Eu respondi sério e então levantei e encarei minha irmã e meu melhor amigo que me olhavam sérios.
– O que faremos agora? – Kun perguntou.
– Eu não sei. Nós precisamos... – Eu comecei a falar, mas ouvi ruídos estranhos. Sem demora peguei minha arma e apontei para onde tinha vindo o som.
– O que... – Kun começou a falar.
Apenas coloquei meu dedo nos lábios em sinal de silêncio e o encarei. Ele balançou a cabeça afirmativamente e ficou em silêncio. Continuei olhando para onde tinha vindo o som. Algo deveria estar ali. O som veio mais forte dessa vez, e então eu senti um arrepio percorrer meu corpo. O som então parou. Olhei em volta procurando um lugar para ir.
Avistei uma torre que não ficava muito longe de onde estávamos, talvez se corrêssemos chegássemos em quinze ou trinta minutos.
– Precisamos chegar até aquela torre. – Eu comecei baixo e então apontei para a torre. Os dois olharam para onde eu havia apontado. – E precisamos ir... – Não pude terminar minha frase, três cachorros pularam de trás de um prédio e pararam, ficaram nos olhando.
– Que porra, é essa? – Kun disse baixo.
– Parecem cachorros... – Eu respondi. – E pela saliva em suas bocas, parecem estar com raiva.
Os cachorros eram pretos e tinham olhos vermelhos. Eram cachorros de porte grande.
– O que faremos agora, Akise? – Yuno me perguntou.
– E-Eu não sei. – Falei baixo e então fiquei pensativo por um tempo. – Nós temos de fugir agora, eles vão atacar.
Mal terminei minha frase e os cachorros saltaram em nossa direção.
– Corram! – Kun gritou com todo o ar que tinha nos pulmões.
Obedeci, precisávamos sair dali com urgência. Mas correr não adiantou, um dos cachorros pulou e passou a nossa frente, ficou nos encarando e rosnando. Tirei minha arma e disparei três tiros contra o animal. As balas não fizeram nem efeito no mesmo. Ele latiu e então rosnou mais bravo ainda.
– Que merda foi essa? – Eu perguntei para mim mesmo. Então olhei para Kun. – As balas nem fizeram um arranhão na coisa.
– Eu percebi... – Kun disse sério e então me olhou. – Vamos ter de nos separar. E talvez, se tivermos sorte apenas um cachorro vai atrás de cada um de nós.
– Isso é loucura! – Eu disse entre dentes. – A Yuno...
– Eu vou ficar bem, Akise. Esse plano pode dar certo, só precisamos nos separar e tentar encontrar algo para nos escondermos.
– E então nos encontramos na torre. Nós temos até o amanhecer para chegar na torre, se não chegarmos lá, os que estiverem lá podem seguir caminho e entender que o outro foi morto. – Kun disse.
– Isso não é uma boa idéia. – Eu disse.
– Você tem uma melhor? – Ele disse e então me olhou sério, seus olhos vermelhos estavam ainda mais vermelhos. – Eu fui escolhido como líder lembra, e posso garantir que isso não foi em vão, Akise.
Então me lembrei que Kun havia ganhando o jogo beta. Ele deveria ter no instinto algo que o fizesse ganhar novamente.
Balancei a cabeça afirmativamente e então falei baixo. – Seguimos o seu plano, no amanhecer eu quero encontrar vocês dois lá, entenderam?
– Pode deixar maninho, eu prometo que vou me virar. – Yuno disse séria, mas pude ver a incerteza em sua voz.
– Eu te amo, Yuno. Cuide-se! – Falei olhando em seus olhos. Então me virei para Kun. – Faça um bom trabalho. – Disse para ele.
– Viva! – Ele me respondeu.
Não tínhamos mais tempo. Sai correndo em uma direção qualquer. E como Kun tinha previsto um dos cachorros começou a me seguir. Droga, como conseguir se livrar de um cachorro maluco, cheio de raiva e morto de fome? Corri pelas ruas e então pulei em uma lata de lixo e subi num muro pulando em outra rua. Cai no chão, quase perdendo o equilíbrio, mas me mantive forte, olhei para trás e então corri. Olhei para trás novamente e nada do cachorro. Sorri talvez eu o tivesse despistado. Mais uma olhada e então vi o cachorro pular o mesmo muro que eu havia pulado e começar a correr em minha direção. Atirei no cachorro, como antes as balas não serviram para nada.
– Droga. – Falei e então troquei de rua. Deparei-me com uma rua sem saída. – Não, não, não, não! – Berrei e olhei para trás. O cachorro estava bem próximo de mim agora.
Comecei a atirar no cachorro e nada de surtir efeito. Em meio a todo o meu desespero pude notar que as balas da minha arma não pareciam acabar. Comecei a caminhar para trás, mas continuei a atirar no cachorro. Logo senti meu pé bater em alguma coisa e cai no chão. No mesmo momento que cai o cachorro pulou em minha direção. Fechei meus olhos, com certeza morreria ali, mesmo com todos aqueles avisos para que eu vivesse.
Continuei de olhos fechados esperando o meu fim, mas então ouvi o cachorro grunhir, abri meus olhos e pude ver o cachorro desaparecendo como as cobras que matei tinham feito. Estava assustado demais, mas pude ver um garoto. Ele então guardou um grande machado em suas costas e se virou pra mim.
– Oi, Akise! – O garoto falou.
Continue olhando assustado para aquele garoto. Ele era um pouco mais alto que eu. Magro, mas com um corpo atlético, a pela era tão branca que até a branca de neve sentiria inveja dele. Os cabelos negros e lisos chegavam até a altura dos ombros. Ele tinha um sorriso maldoso, mas que não me assustava. Os olhos eram como os meus vermelhos. Ele sorriu mais e então estendeu a mão para mim.
– Vamos, não tenha medo de mim. – Ele disse sério e seu sorriso desapareceu.
Continue imóvel, não queria me mexer.
– Vamos lá, confie em mim. Se eu quisesse ter matar já teria feito, ou nem o teria salvado daquele lobo da cidade cinza. – Ele disse mais sério ainda, mas por trás daquilo eu podia sentir que ele estava se divertindo com minha expressão de assustado.
– Q-Quem é você? – Eu disse por fim.
Ele demorou um pouco para responder.
– Gai, o senhor dos pântanos. – Ele disse sorrindo maliciosamente.
– O-O que? – Eu perguntei mais assustado do que estava antes.
– O senhor dos pântanos é uma piadinha interna. – Ele resmungou para mim. – Agora vamos, levante daí logo. Os lobos não são as piores coisas que a cidade cinza guarda.
Eu levante do chão e olhei para ele.
– Vamos. – Ele disse e começou a caminhar.
– Como assim? Para onde você vai me levar? – Eu disse baixo.
– Você vai ver Akise! – Ele sorriu.
Quem era aquele cara e como ele sabia o meu nome?
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