Número 002
6 Conhecendo o Inimigo.
Acordei com um travesseiro que acertou a minha cara. Senti a raiva começar a tomar conta de mim e rapidamente me sentei sobre a cama. Minha vontade naquele momento era socar e arrancar sangue de quem me acordou daquela forma estúpida.
– Está maluco, Kun? – Perguntei super irritado
Gai apenas riu e então sentou na sua cama. Olhei pra ele e então me lembrei de onde estava e em qual situação estava. E nesse momento bem longe de Kun.
– Que horas são? – Eu disse baixo e então bocejei.
– Não temos muita noção de horas aqui. Não temos relógio dentro do jogo, Akise. Mas pela luz do sol, eu diria que agora deve ser umas sete e trinta da manhã. – Ele me estudou sério. – Dormiu bem?
– Bom, dormi em uma cama, não muito nova e confortável, mas ainda assim uma cama, então sim... – Dei uma pausa e bocejei novamente. – Dormi bem sim, e você?
Gai riu novamente e aquilo estava começando a me irritar. Por que ele tinha de ficar rindo o tempo todo e me deixando com cara de lesado?
– Você me chamou de Kun. Ele é seu namorado? – Gai perguntou sério enquanto puxava uma mecha do seu cabelo negro.
Senti meu rosto arder. Ele estava louco? Ele estava me perguntando esse tipo de coisa por quê?
– O-O-O que? – Perguntei engasgando.
Gai riu novamente.
– O tal do... Kun, não é mesmo? Ele é seu namorado? – Ele repetiu mais devagar dessa vez.
Meu rosto deveria estar super vermelho nesse momento, e eu estava com vontade de pular pela janela e me quebrar todo lá em baixo. Além de me fazer uma pergunta constrangedora ele a repetiu.
– Kun é o meu melhor amigo. – Eu disse baixo e irritado.
– Não parece! – Gai disse sorrindo maliciosamente.
– Por que não parece? – Indaguei sério.
– Você ficou super preocupado em se separar dele. Como se aquilo fosse super importante pra você. Como se dependesse dele pra viver. E agora... Você chamou o nome dele. – Gai disse rindo.
– Está com ciúmes, Gai? – Eu perguntei bravo.
É, funcionou. As bochechas de Gai ficaram tão vermelhas que ele estava parecendo um tomate. Eu sorrio maliciosamente.
– Eu não sou maricas, idiota. – Ele respondeu e então desviou o olhar do meu.
Eu ri alto dessa vez.
– Está rindo do que? – Gai falou sério.
– Nada, ora! Só é divertido zoar com você! – Eu disse sério, e então cai na gargalhada.
– Tu merece umas porradas, Akise Kane! – Ele falou sério e então partiu pra cima de mim. Fechei meus olhos me preparando para um soco, realmente achei que ele iria me bater, mas ao invés disso ele começou a me fazer cócegas.
Comecei a rir e então cai na cama.
– Para... – Ri mais alto e tentei segurar as mãos de Gai, mas ele era mais forte.
Ouvi então quando a porta se abriu. Olhei rapidamente pra porta e vi Laura que olhava nós dois com uma cara maliciosamente, por sua feição podia perceber que ela estava louca pra sorrir.
– É eu volto depois que os pombinhos tiverem acabado! – Ela disse tentando soar séria e sem demora fechou a porta.
Ouvi a risada de Gai preencher o quarto. Olhei sério pra ele.
– E-Ela... – Eu comecei.
– Relaxa. Ela só não perderia a chance de nos zoar. – Gai disse com sua voz grave.
– Pode sair de cima de mim agora? – Eu perguntei sério e senti Gai sair de cima de mim.
Gai caminhou até sua cama e então puxou de baixo da mesma uma caixa preta. Ele a abriu e então tirou algumas fotos de dentro da mesma. Ele voltou até a minha cama.
– Chega pra lá! – Ele disse, e quando dei passagem ele sentou do meu lado.
– O que é isso? – Eu perguntei sério.
– Fotos de alguns dos participantes do jogo. Você precisa conhecê-los. – Gai disse.
– Está bem. – Falei.
Gai me mostrou a primeira foto. A mesma mostrava uma menina de cabelos loiros na altura da orelha. Os olhos vermelhos e um sorriso de assassina procurada pela policia. Os olhos da garota pareciam me penetrar. Lembrei então do que Gai tinha dito ontem à noite, essas pessoas estão me caçando.
– Essa é Kirill. – Gai disse me tirando dos meus pensamentos.
– Kiri o que? – Eu perguntei tentando não rir.
– Kirill, a garota lebre. – Gai respondeu seco.
– Garota lebre! – Repeti e então fiquei pensativo. – Por quê?
– Ninguém consegue correr mais que ela. Ela é muito rápida. E depois que pega sua presa, ela costuma usar dois ossos que ela arranca do próprio pulmão. – Gai disse.
– O que? – Eu disse de supetão. – Está de brincadeira, né?
– Infelizmente eu não estou. Faça de tudo para se manter longe dela, se for pego não sairá com vida. – Gai disse e então me deu outra foto.
Era um garoto asiático. O cabelo preto e liso em forma de conchinha. Os olhos puxados e vermelhos e um sorrisinho de nerd. Ele não me parecia tão assustador. Mas depois de ouvir falar da garota que arranca ossos do pulmão. Acreditar que talvez esse aqui cuspisse fogo não me surpreenderia.
– Kaká. – Gai pausou. – O mais inteligente que o jogo tem. O garoto consegue traçar mapas, descobrir códigos, saber a velocidade e a força que os monstros vão atacar e tudo isso em segundos.
– Ah pelo menos ele não arranca ossos do corpo. – Eu disse tentando zoar.
– Não apenas usa as agulhas que ele tem. – Gai me olhou nos olhos.
Balancei a cabeça negativamente tentando arrancar o pensamento que tinha me invadido.
– Isso mesmo, ele enfia as agulhas em baixo das unhas de suas vítimas. – Gai falou e então me deu outra foto. – Tome. Essa é Jazem.
Peguei a foto, essa era uma garota negra de cabelos bem negros e cacheados longos. Seus olhos vermelhos não pareciam tão vermelhos por causa do seu tom de pele. Olhei bastante a foto.
– Eu a conheço. – Eu disse sério.
– O que disse? – Gai perguntou.
– Eu conheço essa garota, ela costumava brincar todos da escola. Era a popular e capitã do time de líderes de torcida. – Eu falei e então olhei pra Gai.
– Isso então explica o fato de ela conseguir lutar e saltar também. – Gai disse. – Eu já a vi pular mais de 5 metros.
Fiquei espantado. Mas a comparar com os outros, isso era nada.
Gai me entregou outra foto era uma garotinha pequena, muito pequena. Ela parecia ter 6 anos de idade e tinha uma carinha fofa.
– O que essa criança... – Comecei.
– Essa é Jane. Ela é o único número 004, ainda viva. Não se engane com ela. O que ela não tem em tamanho, ela tem em maldade. Jane tem um dom incrível. Ela toca nas coisas ou pessoas e consegue passar descargas elétricas.
Olhei para ele meio sem entender.
– Ninguém sabe porque ele mandaram uma garota tão forte e incrível como o número 004. – Gai disse sério.
– Mais alguém que eu precise conhecer? – Eu disse sério.
– Esses são os mais perigosos, tome muito cuidado com eles. Os outros são menos perigosos e você vai conhecer com o passar do tempo.
Olhei sério para ele.
– Você falou do dom de algumas pessoas, como funciona isso? – Eu perguntei.
– O dom de todo mundo desperta em algum momento, Akise. O de Laura despertou assim que ela entrou no jogo. Uma chuva de insetos caiu sobre ela e seu grupo. Laura ficou tão apavorada que seu dom despertou, ela soltou rajadas de fogo com as mãos, mas não matou só os insetos. – Ele pausou e me olhou no fundo dos olhos. – Os outros três membros da sua equipe foram mortos.
Olhei para ele assustado. Meus olhos com certeza estavam arregalados, Gai riu.
– Não se assuste hoje em dia ela controla isso muito bem. Mas no inicio foi difícil demais, até porque ela se culpava por ter matado todos os membros de sua equipe. Eles eram seus amigos.
– O seu dom vai despertar no momento certo, Akise, não se preocupe com isso. – Gai falou sério e trouxe a mão até a minha perna e apertou de leve.
– Não estou preocupado com isso. – Eu disse sério e fingindo indiferença. – E então, qual o seu dom?
Gai me avaliou por um tempo e então sorriu, o seu sorriso era cativante e malicioso ao mesmo tempo. Eu estava acostumando a vê-lo sorrir.
– O meu dom? – Ele me perguntou rindo.
– É! – Falei sério.
– Eu leio mentes, Akise. – Então ele gargalhou.
Fiquei chocado com isso, esperava qualquer coisa, menos leitura de mente. Fiquei olhando pra ele hipnotizado. Então ele sabia tudo que eu pensava? Ele sabia tudo que eu tinha pensado desde que entrei no jogo? Fiquei vermelho.
– V-Você sabe o que estou pensando agora? – Perguntei sério.
– Não. Os seus pensamentos vêm em código pra mim. – Ele parou e ficou me olhando.
– Como assim? – Eu perguntei sério.
– Os pensamentos vêm em forma de som na minha cabeça. Eu consigo ouvi-los em minha mente. Quando meu dom despertou, eu achei que estava ficando louco, Akise. Eu ouvia as vozes de todos ao mesmo tempo. Mas com o tempo eu aprendi a controlar. Hoje em dia eu escolho de quem eu quero ouvir. – Ele sorriu. – Mas você veio com defeito. Eu não ouço os seus pensamentos. Eles vêm em código e em imagens, meu cérebro vê as imagens, mas eu não consigo decifrar o que é.
Senti um alívio imenso, mas disfarcei.
– Ah dom bobo, hem? – Falei indiferente. – Perto da garota que usa os ossos do pulmão, é claro. – Eu completei rindo.
Gai riu também e então levantou da cama.
– Tenho algumas coisas pra fazer com Laura. Você ficará cuidando do W. Não saia de casa e não abra a porta pra ninguém, hem? – Ele disse rindo.
Mostrei o dedo do meio. Era ótimo saber que ele não podia ouvir meus pensamentos, mas nesse momento eu queria que ele pudesse só pra ter noção dos xingamentos que eu estava pensando pra ele.
Gai saiu do quarto me deixando sozinho. Eu ficaria sozinho com W. Sem problemas, lidar com criança não era problema pra mim. Havia cuidado da Yuno por muito tempo. Lembrei então da minha irmã e resolvi olhar meu pulso. Minha tatuagem estava lá. Só com um problema, o nome de Kun estava piscando em meu braço. Apagando e reaparecendo.
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