Nós e os muros
6 Transforma-te!
Os dois amigos estavam atirando pedras contra o lago e desfrutando da calma do fim de tarde de um domingo enquanto conversavam sobre os eventos de recentemente enquanto mantinham-se sentados sobre uma rocha.
— O que você acha que fez aqueles monstros invadirem a cidade aquele dia? – disse Crowley enquanto arremessava uma pedra.
— Talvez procurassem por comida. Trolls não são criaturas muito inteligentes, sabe? – e lançou uma pedra contra o mar.
— Eu tenho uma teoria. Acho que os feiticeiros fizeram eles virem até aqui através de algum encanto.
— Isso não tem coerência. Nós fomos salvos por um.
— É exatamente assim que eles querem que pensemos. Os feiticeiros são ardilosos, você viu nas aulas de história. E eles também são mal vistos na Bíblia.
— Você sabe que eu não gosto das nossas aulas de História. Tenho a impressão de que o professor só ensina o que ele quer que aprendamos. E a Bíblia para mim é um livro bastante controverso.
Após dizer isso, Abraham admirou a pedra em suas mãos e a arremessou longe contra o lago. Em seguida, sorriu para o amigo e propôs:
— Vamos comer umas maçãs! Fique aqui enquanto eu vou colher algumas.
Conforme Abraham se distanciava, o menino de cabelos encaracolados continuou a lançar pedras no lago. Os minutos voaram e conforme o tempo passou, Crowley se viu preocupado com a demora do amigo.
— Não deve ser nada... – pensou.
Concluindo essa frase mentalmente, o jovem viu sair do lago um gigantesco dragão d’água de dentes intimidadores. O jovem deu pra trás e tropeçou. Levantou-se e começou a correr, mas se viu cercado pelo veloz corpo reptiliano da criatura.
— Ai, caramba! O que é forte contra dragões d’água? Forte contra dragões d’água... Malditas aulas entediantes de Biologia!
Enquanto o garoto divagava, o monstro raivoso mordeu profundamente sua perna e o lançou longe até atingir o tronco de uma árvore. Semiconsciente, o rapazinho viu seu amigo chegar por alguns instantes, enquanto sua visão embaçava progressivamente e ele desmaiava.
Abraham irritou-se conforme via o sangue escorrer pelas pernas de seu amigo, e então lançou uma maçã para ter a atenção do bicho. Em seguida, correu na direção contrária a que seu amigo estava.
Sem saída contra o imponente dragão, respirou fundo, olhou rapidamente para seu amigo que dormia. Logo após, puxou a ponta de seu cachecol e o desenrolou de seu pescoço, gritando:
— TRANSFORMA-TE!
O cachecol branco solidificou-se, reduziu de tamanho e tornou-se um bastão fino de madeira — uma varinha — semelhante a do misterioso rapaz do outro dia. Abraham adequou seu corpo em posição de batalha e então...
— Quem te invocou?! – bradou Abraham, sem aparentar medo ou hesitação.
O jovem Canário sabia muito acerca das criaturas. Pudera. Passou boa parte de suas vidas em meio a páginas e páginas de tudo que era científico e de tudo que não se explicava.
— Responda!! — disse com os dentes a ranger.
O dragão nada disse, mas como resposta atirou sua cabeça contra o jovem e o lançou longe com o impacto. Com movimentos ágeis, o loiro teleportou várias vezes entre as margens do rio para desviar das sucessivas investidas do bicho e, à medida que seu corpo rematerializava-se em outro local, via-se cada vez mais encurralado. Foi mais uma vez acertado em cheio pelas cabeçadas de seu adversário e, ao sentir que não poderia mais manter a defensiva e ao perceber que seria atacado com uma mordida dessa vez, exclamou:
— Eu congelo-te!
As palavras ecoaram pelas árvores e, combinadas com o manejar hábil de sua varinha, um vento frio tomou lugar e cristalizou todo o dragão em imediato. Abraham aproveitou-se da falta de locomoção de seu inimigo para encarar bem aquilo com o que estava lidando. Se fez milhares de perguntas que não poderia responder. Estando certo de que o gelo não o seguraria por muito tempo e de que a criatura era tão perigosa quanto rara, inclinou sua cabeça para trás em sinal de desgosto e proferiu silenciosamente palavras que lhe doem pronunciar.
— Aniquilo-te.
E nesse momento o monstro sucumbiu, rápida e silenciosamente.
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