Nós
1 Nós
Em São Paulo, em janeiro, todo ano era muito quente. Marina tinha uma tradição muito interessante. Ela enchia a casa de potes de água. Grandes, pequenos, médios. Cheios, meio cheios e vazios. Fato interessante esse. Heitor sempre tentou entender. A explicação dela era sempre a mesma:
— A casa fica mais fresca.
A casa deles em si não era muito grande. Era apenas os dois que dividiam aquele teto. Não havia mais ninguém naquela casa vazia. No começo, era cheia de amor, carinho e confiança. Aos poucos, ela foi se esvaziando disso também. Aos poucos ela foi ficando cheia de ódio, de rancor e de tristeza. Choro disfarçado pelos cantos. Mensagens trocadas sem que o outro visse. Horas extras que foram apenas ditas e nunca feitas.
Quando Heitor finalmente saiu de casa, com seu mundo desabando, Marina não parou. Via o amante constantemente, mas, ao chegar em casa, a encontrava vazia e sem vida. Ela tentou contornar a situação, mas, o amante não queria nada sério. Pouco tempo, ela descobriu que ele também era casado.
Heitor morava no outro lado da cidade agora. Longe o suficiente para nunca mais precisar ver Marina. Despedaçado, ele nunca conseguiu entender como quatro anos de casamento não foram o suficiente para fazer com que ela ficasse. Com que ela fosse só dele. Com que ela não visse a necessidade de procurar o paraíso em camas de motéis baratos. Em bocas de outros homens. Em conversas vazias. Não é como se ele não estivesse lá, como se ele não amasse mais ela. Era o contrário, ela que, de um dia para o outro, não quis mais amá-lo. Ao todo foram oito anos que eles estiveram juntos, e ainda assim ele nunca conseguiu entendê-la completamente. Nunca entendeu de onde ela tirou coragem para fazer o que fez.
Marina, que até então, estava inteira, começou a despedaçar-se também. Coisa triste de se ver. Afogando as mágoas com quem quer que fosse. Bebendo até dormir. Deixando milhões de mensagem na caixa postal. Milhões de “eu te amo”. Milhões de “volta”. Mensagens sem fim.
Com a quantidade de mensagens aumentando, Heitor foi obrigado à tentar conversar.
— Eu não vou voltar, Marina.
Mas, Marina estava obstinada. Ela o queria. Queria ele só pra ela. Ela havia desistido de encontrar o paraíso, pois já sabia onde ele estava. Entretanto, esse paraíso, aparentemente, estava se fechando. Ela o rejeitou. Sabia que era tarde demais. As tentativas eram vãs.
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