Não uso palavras bonitas.
30 Vinte e nove
Notas iniciais
–Você tava fazendo era a roupa é?! — Fala Felipe, sorrindo, assim que volto a cozinha. — Demorou hein!
Não falo nada, já que realmente tinha demorado. Percebo que ele também tomou banho, visto que trocou de roupa e seu cabelo estava úmido.
–Bom...Iaí, já tá pronto?! — Digo, me aproximando dele devagar.
–Se com todo esse tempo ele não não tivesse, seria estranho. — Ele retruca, ainda com aquele irritante sorriso de canto nos lábios.
–Hm...
De repente Felipe começa a me fitar por alguns instante, ele me olha com bastante atenção enquanto também encaro ele meio confusa.
–Você tá bem?! — Ele pergunta, pondo sua mão na minha testa como se quisesse sentir minha temperatura.
–Tô!-Me afasto, corando automaticamente. — Porque isso?!
–Tô achando você diferente. Nem um insulto, nenhum golpe vingativo, nem um grito, nenhuma raiva. Só fica me tratando bem o tempo inteiro. O que tá planejando?
–Nada! — Digo, com as bochechas ainda rubras. — Eu só estou tentando te tratar melhor...
–E o que fiz pra merecer isso?! — Ele pergunta, se aproximando de mim como sempre faz. Até que abre um sorriso. — Ah, não precisa responder. Só de eu existir é o suficiente pra você né?!
–Sem essa! — Me afasto com pressa e vou pra sala. — Quer saber, desisto de te tratar melhor. Faço isso por alguns minutos e você já acha que quero algo com você.
–E não quer?! — Ele pergunta, também vindo pra sala trazendo dois pratos do tão esperado nhoque nas mãos. — Foi só nossos pais saírem que você já tenta um de seus truques pra me seduzir. Você é rápida não é?! Acha que sou tão fácil assim?! — Ele ri, se sentando no sofá e me entregando um dos pratos.
–Ân?! Você só pode tá brincando! — Lhe encaro, também sorrindo.
Se com Léo era só tranquilidade, está com Felipe era só sorrisos, de alguma forma, era impossível não rir e gostar das suas brincadeiras por mais insuportáveis que fossem.
E pensar que ontem descobri um lado de Felipe que ainda não conhecia. Ter visto ele tão diferente, tão inferior e medroso, me fez pensar em como ficamos mais próximos, e que como a cada dia, conheço mais um pouco desse garoto brincalhão e sorridente que tanto admiro.
–Iai, o que achou do gosto?! — Pergunta Felipe, me olhando com uma cara esperançosa, como se eu fosse a mais cruel jurada de programas culinários.
–Bom, tá melhor que a aparência! — Sorrio, lembrando de como foi difícil ter coragem pra experimentar.
Passamos um tempo assistindo e trocando algumas palavras, tudo ocorria perfeitamente bem pra quem não queria nem olhar pra cara de dele há algumas horas atrás.
O tempo foi passando e o sono não vinha, Felipe parecia sonolento mesmo que não dissesse, eu por outro lado continuava ativa, assistindo um filme atrás do outro sem parar.
–Não tá com sono?!
–Não muito... — Falo, meio interessada na televisão.
–Hmm...
Mesmo estando só nós dois naquela casa, Felipe ainda não tinha tentado mas nada comigo. Claro que não deixo de ficar feliz com isso, mas que dizer que ele se cansou de brincar comigo?
Olhei pra Felipe sem que ele percebesse, as vezes ele bocejava, outras vezes ele pegava no sono por alguns instantes, mas por mais que eu perguntasse se ele estava com sono, sua resposta era não. Permanecia ali, me fazendo companhia. O que será que passa em sua cabeça? O que será que ele sentia por mim?
–Eu já vou dormir! — Falei, enquanto me levantava e subia a escadas. — Não vai ficar a noite toda aí viu!
Entrei no quarto e me joguei na cama. Fiquei alguns minutos lá, olhando pro teto, antes de finalmente ficar com sono e dormir.
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Acordei com uma mensagem de Léo dizendo que iria passar dois dias na casa de sua vó, além de um aviso dizendo “Seja compreensiva” respondi a mensagem mesmo sem entender, e fui tomar um banho, assim que saí, a campainha tocou.
Cheguei na sala, e me deparei com Felipe já atendendo a porta.
–Quem é?! — Pergunto curiosa.
–É pra você! — Ele diz, se afastando e deixando a pessoa entrar.
–Oi Anny! — Diz Mitty.
–Ah, oi! Entra! — Forcei um sorriso. Enquanto Felipe voltava pro seu quarto.
Nós sentamos no sofá e ficamos alguns minutos em silêncio. Eu não sabia o que se passava na cabeça da Mitty, e se o que ela iria começar falar seria verdade mesmo.
Mesmo com tudo que ela fez eu não queria perder uma amiga, ela fez parte de quase tudo na minha vida, e independente do que ela falaria nesse momento, acho que estaria disposta a perdoá-la.
–S-sabe... — Mitty começou a falar. — Há quatro anos atrás, um garoto tinha acabado de se mudar pra casa ao lado da minha. E sei que eu era nova, e não tinha idade pra pensar em amor. Mas achava que era isso que sentia por esse tal garoto. Por ele ser meu vizinho nos falávamos de vez em quando e bom, aquele sentimento só aumentava. — Ela parou um pouco e me fitou por alguns segundos. — Eu gostava do seu jeito de falar, de como se comportava...Do seu sorriso, do seu nome...
–Diego?! — Murmurei baixinho, enquanto ela apenas confirmava com a cabeça.
–Eu fiquei com vergonha de dizer pra você sobre ele. A gente ainda tava no sétimo ano! Então eu guardei aquilo só pra mim...Quando oitavo ano chegou eu ainda não sabia que estava na mesma escola dele, e só descobriu...Quando você me mostrou. — Ela parou novamente. Podia sentir o quanto estava difícil dela falar tudo aquilo. Mas ela continuava...Ela também não quer perder uma amiga. — Você sabe o quanto foi difícil saber que você estava gostando do mesmo garoto que eu?! Eu ficava me perguntando “Mas eu me apaixonei primeiro, ela não pode simplesmente ficar com ele!” Foi quando eu fiz uma das coisas mais idiotas que poderia fazer...Eu preferi perder uma amiga à abrir mão de um garoto que achava amar.
Eu não sabia o que dizer, ela poderia ter errado em muita coisa, mas eramos novas, eu também tinha uma parte de culpa.
–Foi quando seus pais se separam e você teve que se mudar. Eu não pude deixar de ficar um pouco aliviada. Quando você voltasse iria finalmente se confessar à ele, mas eu teria a certeza de já está bem mais próxima de Diego quando isso acontecesse. — Ela finalmente me encara, os olhos vermelhos, foi quando eu percebi...Ela não conseguia se perdoar.
–Não fica assim. — Me aproximei dela e a abracei. — Não precisa se preocupar, você não tem culpa. Nós eramos muito imaturas, você não precisa se culpar assim. — Deve ter sido duro não ter ninguém pra se abrir, ser rival da sua melhor amiga. Mitty era realmente forte, tinha passado por tudo isso, totalmente sozinha.
–Você não sabe o quando eu fui imbecil pra aquele idiota! — Ela dizia ainda me abraçando, pude sentir gotas quentes de suas lágrimas em minha roupa. Finalmente ela podia dizer tudo que passou. — Ele ficava comigo, mas me tratava como uma idiota, e eu tola, apenas continuava a segui-lo por todo canto sem parar. Você não devia ter chorado tanto por ele Anny, ele não merece uma garota como você.
–E nem como você Mitty... — Falei, me afastando devagar dela e lhe encarando. — Eu não deveria ter ficado com raiva de você. Me desculpa.
–Desculpa também Anny... — Ela limpou as lágrimas com a manga da camisa e sorriu. Ficamos nos encarando por um tempo até que ela pôs a mão na cabeça por alguns segundos e de repente caiu do sofá, desacordada.
–Mitty?! Mitty?! — Corri para o chão afim de acordá-la. — Acorda! Mitty?! — Balancei ela com força, ainda sim ela não abria os olhos.
Comecei a chorar desesperada, enquanto fazia de tudo pra acorda-la, Felipe saiu do quarto por ter escutado os gritos, descendo as escadas com pressa.
–O que aconteceu?! — Ele perguntou, indo em direção a Mitty e eu.
–É a Mitty, ela não quer acordar!
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