Não tão clichê
6 Cinco.
Notas iniciais
16 de Agosto de 2008,Sábado, 20:11
Querida Nina,
Acabei de entrar no meu novo apartamento.
Não é grande coisa, sendo sincera. Meu quarto é um pouco menor do que os quartos aí em casa e eu dividirei um banheiro e a cozinha com uma outra garota que mora por aqui. Ela parece ser legal. Um pouco...extravagante, por assim dizer, cheia de roupas pretas e um cabelo inteirinho laranja, mas aparentemente gente boa. E é isso que mais importa, não?
Lembrei de você, porque bem aqui na frente da minha casa tem um Starbucks. É muito grande, Nina! Bem maior e mais bonito do que aqueles que se espremem nos corredores dos shoppings de gente rica aí do Brasil.
Meu apartamento é pertinho da faculdade também.
Londres é...tudo aquilo que nós duas costumávamos sonhar, Nina. Ainda me lembra uma São Paulo bem mais organizada, só que tem algo de mágico nessa cidade. Pelo menos para mim. Nas pessoas, no inglês, no frio, nas ruas...tem algo a mais.
Eu estou muito feliz por estar aqui. É meu sonho. Estou radiante.
Porém sei que sentirei saudades do Brasil também. De brigadeiro, das praias, do calor, do português e de todos vocês. Aqui não tem ninguém para falar português comigo, o leite condensado é quase impossível de achar, as praias são diferentes e o calor não existe, pelo menos não agora. E aqui também não tem vocês.
Prometi que escreveria primeiro para você, e é o que eu estou fazendo. Ah, minha irmãzinha mais nova. Minha princesinha. Quando foi a última vez eu demonstrei esse carinho todo?
Meu Deus, eu estou muito melosa! Nem parece que estou realizando meu sonho. Mas entrar nesse apartamento, estar sozinha e olhando a chuva pela janela me deixou nostálgica.
Eu lembro do dia que você nasceu, Nina. Mamãe jurou de pé junto que era a última filha que teria. Mamãe nunca foi boa com promessas, não é? Lucas esta aí para provar isso...hahahahaha
O tempo passa muito rápido, Nina. Eu acabei de perceber que cresci. Que tudo que eu já conhecia foi embora no momento que entrei naquele avião.
Você tem só 8 anos, o que mais quer é crescer. Eu sei.Mas Nina, não corra tanto. Ande devagar. Aproveite cada momento. Porque depois que a gente cresce, não dá para voltar atrás. Você só pode andar para frente. E descobrir coisas novas é animador, mas ter que deixar algo para trás é horrível.
Eu acho que acabei de aprender isso.
Me deseje boa sorte, irmãzinha
Com amor,
Elisa
P.S : Eu sou sua irmã mais velha, Nina. Sempre vou ser. Sempre vou estar com você.
9 de Novembro de 2015, Segunda-feira, 19:21
A primeira coisa que eu pensei foi que a Elisa parecia um cosplay fracassado da noiva cadáver.
O elegante vestido branco já não estava mais tão branco assim. Os cabelos presos em o que antes deveria ter sido um coque, pareciam mais um amontoado de fios embaralhados um nos outros. O gloss rosa clarinho que ela sempre adorou estava mais espalhado pelo queixo do que espalhado pelos lábios. O rímel escorria pelas bochechas, fazendo- a parecer um panda.
A segunda coisa que mais me assustou foi que Elisa parecia magra. Muito mais magra do que antes já era, agora ela parecia doente.
A coisa que mais me assustou foi o olhar. Mesmo de longe, eu conseguia ver os olhinhos azuis brilharem de raiva. Uma raiva destinada a mim.
– Elisa, eu...
– Eu vou te matar, sua vadia!
Por mais distante que a mesma seja, receber uma ameaça de morte da sua irmã nunca é legal.
Dei um passo para trás, recuando, quando ela se levantou e veio avançando em minha direção.
Ela ia me matar mesmo. Pelo menos, ia tentar. Toda a calma e indiferença que emanavam de Elisa desde sempre se foram. A olhando, eu só conseguia ver raiva, muita raiva e uma pontinha de mágoa através das lágrimas que escapavam de seus olhos.
As lágrimas podiam ser de raiva também, Leitor – era bem mais provável, sendo sincera – mas eu preferia pensar que elas eram de mágoa. Não sei bem explicar o porque.
– Elisa, love, please... – implorou com uma voz leve um homem que eu não conhecia, a segurando pelo braço.
–I will kill you too,Henry, when i get the chance! So shut up now!– ela gritou em resposta.
Eu tinha que admitir que uma gritaria em inglês é bem mais interessante que uma em português, só que também mais assustadora.
O cara recuou como um cachorrinho assustado.
Elisa deu duas passadas para mais perto de mim novamente e outra mulher que eu não reconheci a segurou pelo braço. Dessa vez, ela falou mais suavemente, porém ainda com um tom de voz firme:
–Don’t you try keep me away from her – Elisa praticamente cuspiu “her” ( ela), como se eu fosse algum tipo de bicho ou doença contaminosa. Tudo, menos sua irmã mais nova – I won’t kill her.
A mulher virou a cabeça levemente, olhando para mim. Elisa não era a única me olhando como se eu fosse um bicho de zoológico. A mulher me olhava desse jeito também e eu nem sequer a conhecia. Mulher não, menina. Ela não parecia ser tão mais nova do que eu. Usava um vestido simples de festa, mas elegante. Ela me lembrava o cara que Elisa tinha gritado um pouco antes, o tal de Henry. Será que eram irmãos?
– I’m not so sure about that right now – a menina respondeu.
– I have to talk to her – Elisa disse.
A menina pareceu pensar por um tempo, como se não tivesse certeza se deveria deixar Elisa chegar até mim.
– Just remember who you are, Elisa. Better than her or him.
Essa doeu. Melhor que eu?
A menina soltou o braço da Elisa.
Ela veio em minha direção lentamente. Cinco passos, eu contei. Ela olhava no meu olho com intensidade e eu sustentava orgulhosamente esse olhar.
Eu desejei poder entender tudo que se passava dentro de Elisa, mas ela sempre construiu muralhas ao seu redor.
Eu sentia sua respiração acelerada. Estávamos muito perto uma da outra. Tínhamos a mesma altura. Olho no olho. Corações batendo forte. Segundos nos encarando. E ela disse:
– Eu não tenho nem o que dizer para você direito, Nina.
Então veio. Com todas as forças que ela tinha. Um belo de um tapa contra a minha bochecha direita.
Senti a ardência instantaneamente, por dentro e por fora.
A ardência dentro de mim pela vergonha de levar um tapa da minha irmã mais velha na frente de muitas pessoas, que não tive tempo de reconhecer, mas sabia que estavam ali. Uma ardência por sentir que eu merecia aquele tapa, mesmo sem tendo nenhuma ideia do porque. A ardência de lembrar das palavras da carta que Elisa me escreveu anos atrás “ Eu sou sua irmã mais velha, Nina. Sempre vou ser.Sempre vou estar com você” e de agora essas palavras parecerem mais distantes que nunca.
E a ardência por fora de mim, na minha bochecha direita. Elisa sempre fora forte, e aquele tapa realmente veio de dentro dela. Não caí no chão que nem uma mocinha de novela porque, bem, isso seria completamente clichê, e tem um motivo para essa história se chamar “Não tão clichê”.
Quando o tapa veio, eu apenas cambaleei para trás. Levei minha mão até a bochecha e senti algo molhado. Sangue. Elisa me arranhou com as unhas de bruxa que ela sempre teve.
Massageei levemente a pele dolorida do meu rosto.
– Você tá maluca? – Gritei com todas as forças dos meus pulmões e com a boca muito aberta pelo choque.
Ah, Leitor, eu estava revoltada.
Eu não fiz nada para merecer aquilo. Não! Pelo contrário, sempre fui uma irmã bem melhor que a Elisa. Se alguma coisa aconteceu, se a Nina fez algum mal para ela, não fui eu. Não foi essa Nina. Não, eu não merecia aquilo.
E, Leitor, ela teria ido para cima de mim de novo se braços fortes não a tivessem puxado pela cintura. Ainda massageando a bochecha, a cena de minha irmã tentando escapar dos braços do Rodrigo mexeu com algo dentro de mim. Eu não sei bem o que.
Talvez meu coração, meu cérebro, meu orgulho. Eu não sei. Só sei que aquilo era tudo muito doido.
Dando passos para trás, recuado feito uma menininha assustada, apoiei minhas costas na porta . Relaxei minhas pernas, e escorreguei pela superfície de madeira até estar sentada no chão, com a cabeça entre os braços.
Senti as lágrimas vindo como numa enchente, molhando todo meu rosto, limpando o sangue na bochecha e ao mesmo tempo fazendo arder aonde Elisa tinha me arranhado.
Chorei. Discretamente, mas verdadeiramente. Eu não entendia o que estava acontecendo com Elisa, com aquelas pessoas na sala, comigo mesma até. Só entendia da dor que eu estava sentindo dentro de mim.
Ouvi vozes ao meu redor começarem a falar depois de um tempo silenciadas, e eu jurava que alguém da minha família iria vir me amparar.
Mas, Leitor, nenhum deles veio.
Depois de alguns minutos, senti braços reconfortantes me abraçando. Não era algum parente ou alguém que era sangue do meu sangue.
Mas era família.
Era a Lívia. Me abraçando com todas as forças que ela tinha.
(...)
Aquele quarto era meu.Mas de uma versão bem diferente da minha versão original.
Não se parecia nada com o quarto minúsculo cheio de fotos e pôsteres espalhados pelas paredes em que eu cresci.
Aquele quarto era simplesmente gigante. Provavelmente do tamanho de umas três salas da minha antiga casa, sem contar o banheiro em que Lívia estava. A cama em que minha melhor amiga me deixou sentada era uma king size, com vários travesseiros, uma colcha azul marinho e um colchão muito macio.
As paredes eram brancas, assim como os móveis. Era uma explosão gigante de branco. Apenas alguns detalhes com algumas cores gritantes cortavam todo o branco.
Pelas paredes, eu tinha espalhados vários quadros e porta-retratos. Eu estava curiosa para observá-los e tentar conhecer a história da outra Nina. Mas minha cabeça doía tanto que eu não tinha coragem de sair do lugar.
– Como se sente? – Lívia me perguntou, saindo do meu banheiro.
– Quebrada – Gemi.
Ela me deu um sorriso cúmplice, como se dissesse “ É, dá para perceber”.
Analisando-a rapidamente, Lívia não parecia nada diferente do que eu me lembrava. Um pouco mais arrumada, com toda a maquiagem, a trança delicada descendo pelo seu ombro e o vestido azul marinho liso. Ela carregava um pouco de algodão em uma das mãos e um copo com água na outra.
Lívia molhou um primeiro algodão na água e se aproximando com cuidado, encostou na minha bochecha direita. Recuei um pouco devido a ardência. Ela abaixou o braço e disse para mim:
– Não se mova, tá?
Assenti levemente com a cabeça.
Por alguns minutos, ela repetiu o mesmo processo: molhava o algodão, o encostava na minha pele e delicadamente limpava todo o meu machucado.
Depois de finalizado, eu me sentia um pouquinho melhor.
Encarei todo o algodão sujo de sangue que Lívia usou para limpar minha bochecha, meu pescoço( parece que o arranhão era bem maior do que eu achei inicialmente) e minhas mãos.
– Porque ela fez isso comigo? – perguntei.
Ela não me respondeu automaticamente, continuando por alguns segundos apenas recolhendo os algodões do chão e limpando a água que ela deixou cair no chão sem querer. Então suspirou e me olhou nos olhos, dizendo:
– A sua irmã mereceu, Nina. Eu te disse isso desde o começo. – ela afirmou com convicção – Mas beijar o noivo da sua irmã durante o casamento e na frente de toda a igreja, bem...continua não sendo muito legal.
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