Não sou à prova de bala!
1 Capítulo 1 - Run
[Carla P.O.V]
—CATARINA CORRE CARALHO!
—Espera não fechei a mochila!
—EPAH CORRE!
Corremos o mais rápido que conseguimos, saímos pelo outro lado da sala, saltámos por cima do que penso ser mesas de vendas, empurrámos o máximo de pessoas possível e entrámos na primeira porta que avistei.
—Ah, PORRA! As coisas estão a cair-me pelo caminho! – a Catarina tentava fechar a mochila enquanto corria.
—Caga nisso!* Se formos apanhadas é que não irá sobrar nada! – agarrei-lhe a mão e corri a uma velocidade que pensei que o meu corpo nunca seria capaz de atingir.
Quando íamos chegar ao fundo do corredor onde a porta nos levou, uma outra porta abriu-se à nossa frente, saindo de lá um rapaz de aparência asiática, que parou e nos olhou estaticamente.
Ele gritou alguma coisa que penso que devia de ser coreano, olhou para os seguranças que nos perseguiam e lançou um olhar de "apanhem-nas, estão à espera de quê?". Foi aí que o meu olhar se cruzou com o da Catarina e percebemos que tínhamos de sair dali.
Mas antes disso, deixem-me explicar como tudo começou.
Chamo-me Carla, eu e a minha melhor amiga, Catarina, vivemos por conta própria. E, bem, digamos que não da melhor forma. Como não tínhamos forma de sobreviver, acabámos por começar a roubar. Com o dinheiro que fomos conseguindo ganhar ao vender o que roubamos, arranjámos um apartamento. Dá para pagar a renda, e, quando temos sorte, conseguimos comer um bife em vez de comida enlatada ou instantânea. Quer dizer, quem lê isto sem estar dentro do assunto pensa que somos umas mendigas, mas na verdade não. É praticamente como ter uma vida normal, mas mais divertida. A adrenalina está sempre presente, podemos ir para onde queremos e fazer o que quisermos. Nunca desejaram ser livres? Nunca desejaram acordar e pensar que querem fazer algo, e fazerem? Pois bem, eu não me deixei apenas pelo querer, eu fiz. Claro que corro o risco de ser apanhada a qualquer momento, mas se continuar a fazer as coisas bem feitas como sempre tem sido, acredito que não. E mesmo que acontecesse, ao menos seria presa a ser feliz. Ao menos teria feito a maior parte das coisas que queria fazer. E para mim esse é o sentido da vida. Não é ser bem sucedido, casar, ter um bom carro ou uma boa casa. O sentido da vida é estar quase a adormecer, e não temer que aquela seja a última vez que iremos fechar os olhos. É acordar cada dia a sentir-nos mais realizados que no dia anterior. É não adiar a felicidade. É viver ao máximo.
Este é o tipo de coisa que gosto de escrever para as letras das minhas músicas. A maior parte dos poetas, músicos e escritores escrevem coisas que eles imaginam, aventuras, lugares que nunca foram e que, no fundo, gostariam que fossem reais. Eu, pelo contrário, escrevo o que evidencio, os lugares que visitei, e o que deixei de guardar no lugar da imaginação, para passar a guardar no lugar da memória. Garanto-vos que não é o mesmo.
Mas não me vejam como uma escritora toda profissional ou assim, se me tivesse de descrever, eu provavelmente diria apenas que escrevo umas musicazitas porque me resta muito tempo sem nada para fazer.
Já levo esta vida à dois anos, e posso afirmar que foram os melhores anos da minha vida.
A rotina foi quebrada quando descobrimos um bom alvo para roubar: Um concerto. Os concertos geram sempre mais dinheiro que o normal, a pior parte é mesmo entrar.
Era de noite, estávamos a subir a rua da EXPO pelo lado junto ao rio Tejo a caminho do MEO Arena, onde estaria a decorrer o concerto. Tentámos planear tudo da melhor forma possível, pois este é um dos maiores desafios que já tivemos, o MEO Arena tem imensa proteção.
—Espero bem que não te tenhas esquecido dos bilhetes.
—Porque haveria de me esquecer? – a Catarina tira a mochila e abre-a, olhando-me como quem não gostou do que ouviu. – Toma. – ela entrega-me os bilhetes.
—Porque te esqueces sempre de tudo. – digo, pegando num dos bilhetes. – vamos.
Seguimos caminho, chegando finalmente ao pavilhão. Aquilo estava inundado de gente.
—Gente do céu, olha para isto... Tanta gente e isto só vai começar daqui a três horas. – a Catarina estava estupefacta.
—Realmente, com tanta coisa divertida para fazer, perdem tempo em filas de concertos – suspirei.
Dirigimo-nos à entrada, passando à frente do resto das pessoas. Elas já estavam a olhar-nos como lobos enraivecidos, tenham calma, é só um estúpido concerto...
Os seguranças já estavam a preparar-se para nos barrar, mas assim que mostrei os bilhetes VIP abriram-nos passagem. É tão bom conseguir destas coisas sem ter de pagar um balúrdio.
—Tens a certeza de que os bilhetes não são falsos? – a Catarina perguntou, já quando estávamos dentro do pavilhão.
—Se forem a Jess vai ter de se haver comigo.
A Jess, ou Jéssica, arranja-me praticamente de tudo. Foi ela que me arranjou o apartamento também. Não sei como é que a gaja* faz, mas ela arranja cenas* que valem imenso e vende-as a menos de metade do preço. Claro que ter uma amiga destas me sai muito útil, não é fácil arranjar tudo sozinha. A forma como a conheci foi engraçada, talvez um dia isso venha ao assunto.
—Acho que é aqui. – depois de andarmos no meio das pessoas que, como nós, já tinham entrado, encontrámos aquela portinha de metal que diz "Não entrar". Provavelmente sabem do que estou a falar, a portinha que abre aquele apetite de entrar por ser proibida. Bem, eu já entrei, e sabe ainda melhor do que imaginamos.
—O caminho está livre. – disse, de seguida, entrámos sorrateiramente. Por momentos pensei que algum alarme fosse começar a tocar com uma luz vermelha, como no filmes, mas tal e qual como das outras vezes, nada aconteceu.
—Caralho, estou nervosa. – a Catarina limpava as mãos suadas às calças. Depois, colocou umas luvas nas mãos.
Eu atei o cabelo num rabo de cavalo, e igualmente calcei as minhas luvas. Fomos corredor fora, passámos por camarins, e, depois, finalmente chegámos ao armazém onde guardam os brinquedos, luzes e t-shirts que só são vendidos caso os outros esgotem todos.
—Rápido, temos de guardar o máximo que conseguirmos. – tirei a minha mochila e abri-a.
—Cala-te, eu sei. – a Catarina fez o mesmo.
Roubámos tudo o que vimos pela frente. Quando as mochilas estavam cheias, guardei dois chaveiros pequeninos no bolso. Tínhamos de tudo, incluindo coisas autografadas. Só pensava na quantidade deliciosa de dinheiro que íamos ganhar.
—Já está tudo, vamos. – levantei-me, indo já em direção à porta.
—Espera, a estúpida da mochila não está a fechar. – as mãos da Catarina tremiam, o que dificultava ainda mais o que ela estava a tentar fazer.
Foi então que ouvimos o que parecia ser passos, que se aproximavam a uma velocidade assustadora.
—Catarina anda caralho, vamos ser apanhadas! — O meu coração quase me saltava pela boca.
Ela levanta-se, ainda a tentar fechar a mochila. Ao mesmo tempo, a porta abre.
—CATARINA CORRE CARALHO!
E a partir daí já sabem o que aconteceu. Por isso, vamos saltar para onde estávamos.
Empurrámos o rapazinho, abrimos a porta ao fundo do corredor, e corremos para onde as nossas pernas nos levaram. Quando demos por nós tínhamos descido a rua da EXPO inteira. Exaustas, atirámos-nos para cima de um mini campo verde que lá havia e ficámos deitadas, imóveis. Apenas se ouvia a nossa respiração ofegante.
—Foi por pouco. – levantei-me, ficando sentada. – Quando vi aqueles gorilas a entraram porta adentro acho que até o meu cu fechou.
—Nem me digas nada, só mesmo isto pra me fazer correr desta maneira – ela ria-se enquanto passava a mão pelos cabelos suados.
—Então, – tirei uma garrafa de água da minha mochila e bebi. – O que é que te sobrou?
—Ahm... – a Catarina tirou a mochila das costas e virou-a ao contrário. Caíram apenas três t-shirts e uma luzinha da banda. – Só tenho isto...
—Puta que me pariu, tamos lixadas*.
—Ainda podemos vender o que tu conseguiste roubar. – ela tentava consolar-me.
—Achas? Nós mal nos sustentamos com os nossos melhores dias, isto não vai dar pra nada!
—Já tivemos dias piores e não morremos por causa disso. Podemos sempre aumentar os preços.
—Claro, nós já nem tentámos fazer isso antes nem nada. – respondi num tom sarcástico. – Epah, é melhor vermos isso em casa, eu estou a morrer de fome e os gorilas ainda aparecem aqui com a polícia.
A Catarina concordou, colocámos as mochilas às costas e apanhámos o primeiro autocarro que apareceu.
—Estou exausta. – ao entrar no apartamento, atirei a mochila para um canto e deitei-me em cima do colchão que usamos como cama.
—Não penses que vais ficar aí deitada, há massa de ontem no frigorífico, se quiseres comer aquece.
—Tsk, bela merda, isso nem dá pra uma de nós, achas que vai dar para as duas?
—Bem, não é muito seguro sairmos à rua agora, amanhã vamos à drogaria no final da rua e compramos mais comida.
Terminámos de comer. De seguida, fomos ao site oficial da banda para compararmos preços. Contámos e gerimos o dinheiro numa estimativa do que conseguiríamos lucrar. Não foi mau de todo, dá para o resto do mês. E enquanto isso, eu só penso em dormir para amanhã ir comprar comida. Apesar de ter acabado de comer, o meu estômago ronca de fome.
Quando dei por mim já era meio-dia. Fui à janela e as nuvens estavam a juntar-se no céu. Era melhor despachar-me antes que começasse a chover, o caminho de casa até à drogaria não é muito grande, mas é o suficiente para apanhar uma molha.
Tomei um banho um pouco frio, o gás é tipo ouro cá em casa, não podemos abusar com banhos quentes. Depois vesti qualquer coisa.
—Queres vir? – gritei para a divisão do lado.
—Sim, estou só a calçar-me.
—Okay, não te esqueças de trazer o chapéu de chuva, acho que vai começar a chover.
Saímos de casa e comprámos comida suficiente para hoje e amanhã. Nada de muito caro, obviamente. Quando acabámos de pagar, já estava a chover a potes*.
—Argh, já sabia – pus o carapuço na cabeça – Abre o chapéu.
—Ahm... – a Catarina olhava para mim com um olhar culpado. – esqueci-me.
—E pronto, eu nem sei porque é que ainda te peço coisas. – bati com a mão na testa. – Prepara-te para apanhar uma molha.
Saímos a correr do estabelecimento, eu ainda pisei algumas poças e os sacos das compras ficaram completamente encharcados.
Chegámos a casa e tiramos tudo o mais rápido possível.
—Merda, o tabaco ficou todo amachucado, deves-me um novo. – tirei os cigarros que ainda davam para utilizar e atirei o resto para o lixo.
—É que nem penses, talvez seja da maneira que deixas de fumar.
—Please, não te armes em minha mãe.
—Não é armar em mãe, sabes bem que – a Catarina foi interrompida pelo toque de um telemóvel.
—Shh cala-te – pus o indicador por cima dos lábios. – É a Jess. – atendi.
—Atão* puta, como é que é?
—Ya*... ahm... não tenho boas notícias.— a Jess respondeu do outro lado do telemóvel.
—Então tropa*? – acendi um dos cigarros.
—Epah, ficavas muito fodida se te dissesse que os bilhetes que te dei eram falsos?
—COF COF – engasguei-me com o fumo do tabaco. – O QUÊ?
—Juro-te que só descobri agora.
—Jess eu vou-te dar um soco quando te vir. – a Catarina estava inquieta para saber o que se passava e eu fiz-lhe sinal com a mão para ela esperar. – Então foi por isso que os gorilas vieram atrás de nós no concerto e nos apanharam... Tens noção que por causa disso a bófia* deve tar atrás de mim certo?
—Claro que sim Carla, estão atrás de mim também.
—É bem feito cabra. E agora?
—Agora vou ter de pegar na caravana e pisgar-me pro Porto. E vê lá a linguagem que eu não tenho a tua idade.
—Vais-me é levar contigo. Também tenho de bazar* de Lisboa.
—Mas eu não tou em Lisboa.
—Estás onde?
—Setúbal.
—Tu também nunca estás cá quando é preciso. Jess tou-me a cagar, vens-me buscar a Lisboa, a mim e à Catarina, antes que isto fique feio entre nós duas.
—Okay, tasse bem*. Eu subo e quando passar por Lisboa passo aí. Ainda estás a viver no apartamento que te aluguei?
—Sim.
—Fixe* então. Chego aí dentro de duas horas no máximo.
—Okay, vá, fica. – desliguei.
—Estamos fodidas não estamos? – a Catarina atira-se para trás no colchão, pondo as mãos por cima da cara.
—Mais do que fodidas. A Jess vem-nos buscar na caravana dela praí daqui a hora e meia. Faz as malas. –apaguei o cigarro.
—Espera, já? – ela levanta-se.
—Já? E ainda é muito tempo. A polícia ainda nos aparece porta adentro. – tirei as malas de viagem que deixamos em cima do nosso armário, como sou alta chego lá em bicos dos pés.
Fizemos as malas, guardámos roupa, medicamentos e as compras de hoje. As horas passaram e a Jess já estava lá em baixo à nossa espera. Podíamos ouvir buzinadelas impacientes, a Jess às vezes esquece-se que existe uma coisa chamada "dar espiga"*.
—Mas vamos bazar daqui assim? Nem sequer falamos com o senhorio? – ela diz enquanto fecha a porta do apartamento.
—Catarina isto é uma fuga, não vamos de férias.
Descemos as escadas, guardámos as malas na caravana da Jess e entrámos no carro. Cumprimentei-a com um toque de punho fechado.
—Então, preparadas? – pude ver a Jess sorrir pelo retrovisor, até parecia entusiasmada com tudo isto.
—Nem por isso. – a Catarina respondeu, não percebendo que era uma pergunta de retórica.
A caravana arrancou, e quanto mais o tempo passava, menos preocupação eu tinha.
Decidi escrever uma letra pelo caminho:
"Todos me dizem que acabou, mas eu não consigo parar
Eu não consigo dizer se isto é suor ou lágrimas
O meu desejo é resistente
Eu só consigo correr com todo meu coração
Me deixe correr mais
Por favor, deixa-me correr mais
Mesmo admitindo que os meus pés estão cheios de cicatrizes
Eu quero continuar a correr
Vamos correr, correr, correr, mais uma vez! Eu não consigo parar
Vamos correr, correr, correr, mais uma vez! Eu não consigo evitar
A única coisa que quero é seguir os meus sonhos
A única coisa que irei fazer é correr atrás deles
Vamos correr, correr, correr, mais uma vez! Está tudo bem se cairmos
Vamos correr, correr, correr, mais uma vez! Está tudo bem se nos magoarmos
Mesmo sem conseguir alcançar tudo o que quero, eu estou bem feliz
Esse destino tolo amaldiçoa-me
As minhas lembranças estão a desmoronar como
folhas de flores secas
Na ponta do meus dedos e debaixo dos meus pés
E nas minhas costas
Assim como perseguir borboletas ou imaginar nos sonhos
Eu sigo a linha da estrada
Por favor, guia-me. Por favor, para-me
Por favor, deixa-me respirar
Vamos correr, correr, correr, mais uma vez! Eu não consigo parar"
Então pousei o caderno, encostei a cabeça ao banco e fechei os olhos enquanto sentia o vento a bater-me na cara. Coloquei as mãos nos bolsos do casaco. Senti algo dentro deles, eram os chaveiros que tinha guardado no concerto. Estendi um deles no ar, enquanto o observava. A luz do sol batia na parte metálica e fazia reflexo nos meus olhos.
Pus-me a pensar se algum dia nos voltaremos a encontrar.
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