Não pense antes de agir
1 Capítulo único
Notas iniciais
Ela apenas gostava dele porque era um poeta. É, devia ser isso mesmo. Mas algo que eu não entendia era como alguém (como ela) suportava ouvir as merdas que saiam da boca dele? Se saiam! Tão tímido que nem sei se conseguiria falar com sua nova namorada. Com ela.
Não que eu fosse melhor. Ou talvez sim. Muito pretensioso? Ou realista?
Mas enfim. Eu não entendia. Ela era tão bonita, tão cheia, tão viva. E ele era aquele cara estranho que escrevia coisas em metáforas e dizia escrever amor.
Amor é dizer cara a cara, olho no olho, com suor escorrendo no pescoço e seu estômago se revirando. Ou pode ser uma olhadela, uma pegada na mão, uma pergunta ou uma resposta. Ele não sabia nada de amor! E ainda dizia escrever ele... Isso é um insulto a quem ama. Mas para ela... Era arte, era lindo.
Não me surpreendi. Ela sempre via o lado lindo das coisas. Mas parecia que ela se recusava a ver o meu... Talvez eu tivesse sido rude com aquele nerd estranho quando vi ele colocando uma cartinha no armário dela, ou quando empurrei ele na cantina, ou quando... É. Talvez. Mas seria tão difícil? É difícil, certo? Demonstrar amor. Eu tento. Tento... Chegar perto dela, sorrir para ela, dizer algo bonito, expressar meus sentimentos. Nunca disse que o amor era fácil.
É só ela olhar para mim que perco o jeito. Os olhos claros, focados, as sardinhas marrons, os dentes da frente um pouco maiores. O solitário fio de cabelo preso nos cílios, a pintinha no cantinho da boca. É tanta coisa só dela que me faz perder o ar, embaralhar o cérebro e falar algo sem sentido. Às vezes uma piada desajeitada, às vezes um cumprimento estúpido ou até um elogio que mais parece um insulto.
Então a reação acontece lentamente na minha frente e não posso fazer nada. Sua sobrancelha desce, fazendo sombra nos olhos. Agora eles ficam escuros. A língua molha os lábios rapidamente, enquanto sua cabeça se inclina um pouco para a direita. Ela me olha como se eu fosse louco. Nesse momento, tudo dentro de mim é uma bagunça. Sorrio, me viro e corro.
Eu não queria admitir, mas odeio aquele estranho.
O motivo principal, obviamente, é ele ter os sentimentos da garota dos meus sonhos na sua mão. Mas não é só isso. É o fato dele ter conseguido esse feito com o uso das palavras escritas. Não ditas, não interpretadas, não sentidas fisicamente.
Escritas.
Enquanto eu estava lá no campo de batalha tendo ataques de ansiedade toda vez que sentia o perfume dela. Não sei quantas vezes quase morri de ataque cardíaco!
O que ele escreveu para ela ainda é um mistério para mim. Foi rápido de mais. Descobri que meus esforços tinham sido em vão em um segundo. Virei um coadjuvante da história deles. Talvez nem isso. Arqui-inimigo, figurante... Observador?
Eu estava focado demais em como chegar perto dela, mas não percebi o que acontecia ao seu redor. Mas talvez eu nem tivesse uma chance. Popularidade, dinheiro, amigos... O que adianta eu ter tudo isso enquanto sou um merda? O cara estranho pensava nas suas palavras antes de escrever, antes de falar. Eu nunca pensei nas minhas atitudes antes de agir. Deve ser por isso que não tenho ela ao meu lado.
Agora, nessa noite de sexta, eles devem estar juntos na orla da cidade, no lugar favorito dele. Ele dita as constelações para ela, enquanto ela, encostada de costas no peito dele, no meio de suas pernas, olha para cima admirada. Ele olha para baixo e sorri envergonhado. Ela se vira de frente para ele e o beija no canto da boca, só para não exagerar. Eles juntam as testas e ouvem calmamente a respiração do outro. Ele sente o hálito do chiclete de morango dela, os cabelos cacheados fazendo cócegas nele. Ela treme e ele abraça-a, envolvendo-a no casaco gigante dele. Os dois ficam ali, ouvindo o som abafado que vem do rádio do carro tocar uma música do Maroon 5, Lost stars.
Abro meus olhos e me encontro no sofá de uma sala desconhecida cheia de pessoas estranhas e música alta. A garota do meu lado passa a mão na minha coxa enquanto sorri inclinada em minha direção. Eu sorrio desajeitado e levanto. Coloco a lata que eu estava segurando na primeira mesa que vejo. Tento encontrar minha saída naquele mar de gente. Algumas pessoas me agarram, outras me chamam. Mas eu sigo em frente. Preciso continuar.
O ar fresco da noite entra em mim, me refresca. Um cara vomita no canto do jardim, duas pessoas se pegam no gramado. Saio e vou direto para o meio da rua. Nem sei que horas são.
Não quero saber.
Passo pelo meu carro e continuo andando. E andando. E andando. Não sei onde vou parar. Só quero fugir. Mas infelizmente não consigo fugir de quem mais repudio:
Eu mesmo.
Então eu continuo a andar. E ela e ele voltam para a cidade. Os raios do sol vão aparecendo. Ele estaciona na porta da casa dela.
Eu vejo uma ponte.
Ele pega na mão dela e gagueja. Ele quer ver ela de novo.
Eu olho para baixo.
Ela abre um sorriso lindo.
A água parece funda.
Ele olha para o chão e depois para ela.
Eu me penduro na coluna da ponte.
Ela se aproxima. Um passo.
Um passo e meio...
Eles se beijam.
Eu penso.
E volto para a calçada e faço meu caminho de volta. Vou seguir o conselho do nerd estranho e pensar antes de agir, só por uma vez. Uma única vez.
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