Não pare a Música

41 Capítulo 41 - Vida


Ino respirou fundo, ouvia as instruções de Hanabi e soltou o ar conforme a contagem dela. Estavam sentadas no chão, se acalmando para o grande desfile.

— Inspira — Hanabi falou.

E Ino obedeceu.

A Chunin de fato não havia pedido sua saída do desfile, e Konan parecia muito calma. Claro que tinham conversado após o ocorrido, Konan e Pain pediram que ela explicasse o que havia acontecido e todos chegaram a um acordo sobre como proceder. A mídia com certeza pediria por mais detalhes, Gaara tinha lhe avisado, ela já havia dado algumas entrevistas para revistas de moda e até mesmo aparecido em um programa de televisão, tudo sob autorização da agência e de forma a esclarecer o incidente da melhor maneira possível. Recusou-se a mentir, manteve sua posição contra Sasori e não poupou o veneno ao falar sobre ele e Orochimaru.

— E solta devagar — Hanabi instruiu.

O ar saía de seus pulmões como o peso de seus ombros. Fora da companhia, com seu contrato seguro na agência e já alguns desfiles e fotos agendados, era como sentir sua vida entrando finalmente nos trilhos. Seu pai e Madara coordenavam o processo contra as pessoas que a tinham atacado, difamado e humilhado na internet, e Konan ofereceu apoio uma vez que aquilo poderia repercutir na empresa. Orochimaru, ao que tudo indicava, seria julgado, as investigações ainda aconteciam e alguns novos alunos apareceram para prestar queixas. Tudo encaminhado… e pensar que em um mês e meio ou dois ela ainda teria que fazer as provas para o vestibular.

— Acho que temos que começar a nos maquiar, Ino — Hanabi falou, e Ino bocejou ao abrir os olhos. — Podemos almoçar agora porque depois não vai dar tempo de comer nada e você não almoçou que eu sei. Konohamaru me disse que viu você chegar direto lá da aula.

Ino riu do bico inconformado que Hanabi tinha nos lábios enquanto tirava da bolsa o almoço delas.

— Sua irmã caprichou, hein? — falou ao sentir o cheiro da comida.

— Hinata se empolga na cozinha. — Hanabi riu. — E depois que contei para ela… bem… sobre tudo, ela acha que me ensinar a cozinhar um pouco pode ajudar. A psicóloga e a terapeuta concordaram, disseram que era uma forma de eu me reconciliar com minha alimentação.

— E como você tá? — Ino perguntou com cuidado, e Hanabi deu de ombros.

— É… — Hanabi olhou para o alto procurando as palavras. — difícil ignorar os comentários dos outros sobre nós, mas é ainda mais difícil ignorar os nossos próprios, sabe?

— Sim…

— Mas estou confiante. Sei que vai levar um tempo e que não é fácil…

— Mas você vai conseguir — Ino assegurou. — Quem é a dona da porra toda? Hum?

Hanabi riu incrédula e apontou o garfo para Ino.

— Nós somos as donas da porra toda — respondeu antes de levar a comida à boca e tentar não rir enquanto mastigava.

— Esse é o espírito.

* * *

Sasuke olhou, impaciente, para o painel no elevador, contando cada andar que descia do consultório da psicóloga até o térreo onde Naruto o esperava. Olhou mais uma vez o relógio, teria pouco tempo para passar em casa, se arrumar e então sair de novo. Bufou. Apesar de entender que a importância de suas consultas e de esse ter sido o único pedido dos tios depois das denúncias feitas contra Orochimaru, já fazia quase um mês, mais de oito sessões, Madara podia pelo menos tê-lo deixado remarcar aquela para que não tivessem que sair correndo para o desfile de Ino.

Respirou aliviado ao ver Naruto na porta já à sua espera. Ele sorriu, como sempre, como se o mundo ao redor não existisse e nada mais importasse que eles dois ali, e isso quase o fazia esquecer a pressa. Quase.

— Vamos — pediu, e Naruto riu ao entrelaçar a mão à sua antes de apertar o passo e apoiar a mão em sua cintura.

— Sim, senhor. Como foi a consulta? — perguntou ao chegarem no carro e ver Sasuke colocar o cinto depressa.

— Bem.

Naruto rolou os olhos pela resposta, mas a verdade era que já estava acostumado. Perguntava por preocupação e por saber que Sasuke apreciava o cuidado, apesar de não admitir, mas nunca tinha tido uma resposta concreta. Não achava ruim para ser sincero, não precisava que Sasuke falasse o que ele próprio podia notar, a mudança que vinha no dia a dia, nos detalhes. O escândalo com Orochimaru tinha trazido algo de bom, era visível como o apoio recente fazia bem a Sasuke, sentia-o menos na defensiva, mais relaxado, como se não houvesse mais o que esconder ou motivo para isso.

— O que foi? — Sasuke arqueou a sobrancelha ao perceber Naruto o observando.

— Minha mãe quer que você vá jantar em casa de novo. — Sorriu de modo aberto. — Meus pais te adoraram. Me sinto levemente enciumado.

Sasuke gargalhou ao se lembrar do último jantar, a memória de Naruto derramando a travessa toda de macarronada no chão logo na hora de colocá-la na mesa seria algo por que choraria por não ter gravado. O melhor de tudo tinha sido a expressão incrédula de Kushina enquanto Minato enterrava o rosto nas mãos e o olhava envergonhado. Por sorte, conhecia um restaurante perto e havia um generoso limite em seu cartão de crédito (cortesia de Mito). Depois disso, a mãe de Naruto não parou mais de contar sobre os momentos “engraçados/trágicos” do filho e, daí em diante, foi como se qualquer formalidade já não existisse.

— Não é minha culpa se você é um filho desajeitado — provocou. — Alguém tinha que ser o cérebro desse relacionamento.

— Eu sou muito inteligente, okay?

— Naruto, colocar açúcar no feijão porque está salgado não é prova de inteligência. — Riu ao lembrar o que Kushina tinha contado ser a primeira experiência culinária do namorado.

— Eu tinha doze anos e fazia todo o sentido na época. — Naruto bufou e estacionou o carro na frente da casa de Sasuke. — Eu vou buscar minha mãe e Hinata pro desfile. Te encontro lá?

— Não se atrase — enfatizou. — Vou com meus tios. E é sério, Naruto, não se atrase.

Naruto sorriu ao concordar, inclinou-se na direção de Sasuke que se livrava do cinto e retirou a franja da frente dos olhos negros antes de deslizar a mão até a nuca dele e beijá-lo. Sentiu o suspiro, o relaxar, a mão de Sasuke indo até seu cabelo para a boca dele começar a correspondê-lo, entregue. Deslizou a boca até o ouvido dele e conteve-se muito para não brincar com o brinco recém colocado.

— Não se atrase você, Teme.

Sasuke sorriu de canto e se afastou com um palavrão que fez Naruto rir até acenar e dar partida no carro. Sasuke não esperou que ele sumisse, nem mesmo que virasse a esquina, não tinha tempo para isso mesmo que ainda estivesse com o sorriso bobo estampado na cara ao entrar em casa.

— Neji já te ligou três vezes — Madara avisou. — Corre para não nos atrasarmos.

— Ele deixou recado?

— Só falou que vai dar uma carona para Sakura — Mito explicou enquanto arrumava a camisa de Madara e revirava os olhos por ele não conseguir ficar um segundo parado.

Sasuke assentiu e correu para o banho. Havia passado um mês desde o escândalo. A escola mantinha-se aberta, Tsunade estava sendo investigada para saber até onde ela estava envolvida nos casos de abuso e assédio sexual, fora a negligência com os próprios alunos. Enquanto isso, ela estava afastada, tinha deixado alguém de confiança na administração e, segundo Sakura, estava fazendo o possível para contribuir nas investigações. Orochimaru havia sido denunciado por mais de dez alunos, bem mais… e a imagem deformada do professor nos jornais não chegou nem mesmo a ser uma surpresa. Madara, Hashirama e Mito não tocavam muito no assunto, mas Sasuke via a satisfação nos olhos deles toda vez que Orochimaru aparecia na televisão com as marcas e os hematomas que tinham feito. Até mesmo o advogado olhou para eles com incredulidade quando Madara narrou o que tinha acontecido, o que tinha feito e como havia se preparado para não ser pego...

Saiu do banho depressa, vestiu-se, arrumou o cabelo com cuidado para não bater no brinco (outra vez) e olhou-se no espelho. O brinco era algo que ele e os amigos tinham feito, logo após prestar queixa contra Orochimaru na delegacia e Sakura fazer o mesmo. Os quatro haviam furado na parte de cima, um acordo silencioso de estarem mais presentes e confiarem mais uns nos outros. De todos eles, não era de se estranhar que Sakura estivesse mais abalada, mas pelo menos Mito a tinha convencido a começar as consultas com a mesma psicóloga que agora frequentava. Era um início, trauma algum desaparecia do dia pra noite, levaria tempo para que as feridas cicatrizassem, mas… Olhou-se de novo no espelho, tocou o brinco e suspirou. Estava otimista. Influência de Naruto talvez? É… mas estava otimista.

Saiu do quarto e terminou de dar o nó na gravata, não se surpreendeu quando Hashirama surgiu ao seu lado para ajustá-la melhor. Mito rolou os olhos antes de se aproximar e retirá-la de seu pescoço, abriu o primeiro botão de sua camisa e ajeitou o colete escuro.

— Bem melhor. — Ela piscou.

Sasuke suspirou aliviado sem o tecido o sufocando, mas xingou em voz alta quando Madara passou por eles e bagunçou o cabelo que ele tinha passado mais de cinco minutos arrumando na frente do espelho.

— Deixe Hashirama ser o velho da casa, moleque — o tio provocou, e Mito riu ao deslizar os dedos por suas mechas tentando ajeitá-las.

— Prontinho — ela falou com um sorriso caloroso. — Seu cabelo está comprido. Vai cortar?

Sasuke tocou os fios que quase atingiam os ombros e desviou o olhar conforme o rosto ficava quente ao se lembrar de Naruto brincando com as mechas pela manhã.

— Não muito, gosto assim.

— Certo, todos prontos? — Madara perguntou ao pegar as chaves do carro. — Sasuke, não esqueça os convites.

— Estão comigo — Mito respondeu.

— Perfeito. Pro carro então.

* * *

Neji trocou a música do carro e arrumou o cabelo pela terceira vez antes de Sakura enfim entrar no carro. Ela estava morando com os avós depois de toda a confusão, e ele podia ver que ela parecia um pouco melhor que antes.

— Desculpa a demora, eu não achava meu celular. — Ela sorriu ao colocar o cinto.

— Estamos no horário.

— Ino nos mataria se nos atrasássemos.

— Ino com certeza nos mataria — ele concordou com um sorriso de canto e então arqueou a sobrancelha quando percebeu que Sakura ainda o encarava com uma mal contida animação. — Que foi?

— Estou curiosa! Me conta! — ela pediu, e ele franziu o cenho.

— Contar o quê?

— A resposta! Vocês vão aceitar, não é?

Neji soltou uma exclamação de surpresa e tamborilou os dedos no volante.

— Você também recebeu um convite? — perguntou primeiro, e havia cuidado na voz.

Sakura pareceu surpresa, um pouco da animação se convergiu em dúvida enquanto ela encostava melhor no banco, sentada de lado quase para poder continuar olhando para o amigo. Ela havia pintado o cabelo, retocado o rosa, a face parecia mais saudável, sem olheiras, e ele apostava que era porque os avós a estavam fazendo comer e dormir direito. Ele esperou, em silêncio, como já tinha aprendido que deveria fazer com ela. Depois de todas as revelações, havia se sentido na obrigação de procurá-la, sentia-se culpado, não só pela exposição, mas por todos os anos durante os quais ele sabia que havia algo errado com Sakura e se permitiu apenas montar uma opinião errônea sobre ela, sobre os motivos dela, sobre quem ela era e porque agia como agia. A vida tendia a nunca ser tão simples quanto imaginava, e Sakura havia lhe ensinado isso de uma forma dolorosa.

Aproveitou o semáforo fechado para conferir a hora e ouviu o suspirar que antecedeu à fala.

— Recebi, mas não vou aceitar.

— Quer falar sobre isso?

Sakura riu baixo.

— Não, não. Quer dizer, não tem muito o que dizer, Neji. — Ela deu de ombros. — Tobirama fez a oferta para nós porque sabe que estamos no meio desse furacão, mas acho que esse ciclo da minha vida eu já fechei, sabe? O ballet é algo que vou levar comigo pra sempre, mas quero me concentrar em outras coisas, me dar novas chances. Diferente de você e Sasuke, eu não me vejo mais nesse mundo, aulas, apresentações, carreira, não é mais para mim, não me faz feliz. Nossa, faz tanto tempo que isso já não me fazia mesmo feliz… — Ela sorriu com os olhos fechados, e ele sentiu o alívio com que ela botava aquilo pra fora. — Eu agradeci Tobirama e me desculpei com ele também, sabe? Ele não teria perdido o emprego se eu tivesse feito algo antes. Mas fiquei mesmo feliz por ele estar em uma das grandes filiais do Bolshoi, senti que foi uma forma do universo recompensá-lo depois de tudo. Bobo, eu sei, mas é no que eu acredito.

Neji sorriu.

— Não é bobo. Já tem planos para o que vai fazer então?

— Nhaaaa. — Ela se espreguiçou. — Viajar, férias, dormir, não sei. Vou me dar um tempinho antes de voltar à vida corrida. E vocês? Vão aceitar o convite para a audição?

— Eu vou. Sasuke ainda não deu a resposta dele.

— Acha que ele vai parar também? — Sakura perguntou preocupada, e Neji riu sarcástico antes de balançar a cabeça descrente. — Okay, verdade, é do Sasuke que estamos falando. Por que ele ainda não respondeu então?

— Porque a cidade fica a duas horas daqui, uma e meia se for de carro.

— Naruto? — Sakura pareceu lembrar.

— Naruto, Madara, Mito, Hashirama. Ele ainda não falou com Naruto, mas os tios não gostaram muito da decisão. Sasuke disse que Hashirama abriu crise de meia idade achando que ele tava querendo sair de casa e se afastar deles.

— Meu Deus… — Sakura riu sem acreditar.

— Bota Deus nisso. — Neji revirou os olhos. — Mito controlou a situação.

— E Madara já deve estar vendo a melhor forma de fazer isso acontecer, não é?

— Sasuke disse que ele só balançou a cabeça, fez algumas perguntas e não tocou mais no assunto. Mas não duvido que ele apareça a qualquer momento com, sei lá, um apartamento para o Sasuke na outra cidade, papéis para a transferência da faculdade, um carro e não sei mais o que.

— Não duvido nadinha também. Quando ele vai falar pro Naruto?

— Hoje, depois do desfile acho, ele não entrou em detalhes.

Sakura assentiu e ajustou o terno claro e a maquiagem ao perceber que tinham chegado ao evento. Era algo grande, maior do que estava esperando, o que só ressaltava um pouco a hipocrisia do porque Chunin havia permitido que Ino os convidasse. Era óbvio que só estavam ali devido às entrevistas em que Ino tinha explicado tudo sobre o ballet, Orochimaru, Sasori, e toda a pressão que sofriam. A Chunin tinha se pronunciado oferecendo os assentos para o desfile, mas era como já estavam cansados de saber: a empresa só estava se aproveitando do momento para uma dose de publicidade positiva.

Não foi difícil achar a mesa em que ficariam, o pai de Ino conversava com Madara e ria alto, Hashirama falava com Sasuke em um tom mais baixo, parecendo sério e só parando quando Sasuke os percebeu se aproximando.

— Pontuais. — Hashirama sorriu e deu dois tapinhas nas costas de Sasuke antes de ceder o lugar para que Sakura se sentasse. — Você está linda, menina!

— Obrigada. E Ino? Nervosa?

Inoichi riu e mostrou o celular.

— Nada! Essa garota está mandando fotos escondidas desde que começaram a maquiagem.

Sasuke sorriu sem estar surpreso, e Neji apontou com a cabeça para a entrada onde Naruto ria com Hinata ao seu lado extremamente vermelha.

— Não baba — Neji provocou.

— Não me confunda com você, Ten-Ten já te emprestou o babador do filho dela para quando você for de novo nos torneios dela? — Sasuke sorriu sarcástico.

— Pelo menos eu não troco a senha do celular a cada semana com medo de verem que você colocou uma foto de vocês dois no plano de fundo.

— Eu não coloquei. — Sasuke engasgou ao responder.

— Colocou sim, eu vi.

— Eu também. — Sakura deu de ombros.

— Todo mundo já viu, querido — Mito comentou e olhou Sasuke com falso pesar. — É uma foto bonita, eu gostei.

— Meu Deus, sério? — Madara riu.

— Você não tem moral para falar, Madara — Hashirama respondeu.

— Ok, vamos parar antes que isso fique mais constrangedor — Sasuke falou em choque.

— Quem aposta que ele não consegue esperar o desfile acabar para ir falar com Naruto? — Neji segurou o riso.

— Vai se foder, Neji!

— Meninos! — Mito os repreendeu. — Que tal os dois se comportarem até o fim do desfile, hum?

Neji assentiu e arqueou a sobrancelha para Sasuke em desafio. Sakura sorriu de leve e suspirou ao observar a cena. Certas coisas nunca mudariam, haviam sido feitas para permanecerem preciosas à sua maneira, uma amizade meio torta com falhas, acertos, risos, lágrimas, um grupo esquisito que se completava sabe-se lá como! E ela seria eternamente grata por isso.

* * *

Era uma sensação diferente, nova, completa. Hanabi apertou a mão de Ino, e ela sorriu em agradecimento. A ansiedade estava a mil, competindo com o coração batendo loucamente a cada segundo que se passava. Seria a vez delas, reconhecia a música, a moça gentil com a prancheta na mão (no momento não tão gentil) já sinalizava para que se aproximassem, e Ino não tinha imaginado que seria de fato grata pela jogada de marketing da Chunin ao fazê-la entrar de mão dada com Hanabi na passarela.

— Quem é a dona da porra toda? — Hanabi sussurrou antes de piscar-lhe um olho, e Ino soltou o ar dos pulmões e ergueu a cabeça ao sorrir.

— Nós somos as donas da porra toda.

A música alta era convidativa, lembrava o momento em que tinham cantado Queen no desfile anterior, mas tudo naquele dia contribuía para que o sentimento final fosse diferente. Seu sorriso foi o mais verdadeiro possível ao ver os amigos e reconhecer os gritinhos de Sakura, Sasuke estava de pé aplaudindo e Neji faria o mesmo se não segurasse a câmera cara que seu pai tinha levado só para aquele momento especial. Tadinhos, se soubessem que Gaara daria um jeito depois de ter acesso à cobertura do desfile e pegar uma das filmagens…

Gaara estava estrategicamente posicionado, aliás, já acostumado com os desfiles, preparado para conseguir seguir as modelos e esperar pelo melhor momento para ser eternizado. Conhecia tão bem aquela lente, era como ser transportada mais uma vez para o estúdio, quando só os dois importavam. Apagou o mundo, deixou-se ser dele e somente dele enquanto os clicks se seguiam, olhou para a lente de modo a atravessá-la, a imaginar os olhos verdes do namorado a seguindo pela passarela. Sabia que ele estava atento, que não perderia oportunidade alguma de fotografá-la naquele dia de vitória, e ela então lhe daria seu melhor. Sem insegurança, sem cabeça baixa, sem medos ou dúvidas, apenas a mais plena e gostosa felicidade por compartilhar aquela conquista com quem amava e por quem era amada.

Ainda se lembrava da conversa com o namorado no fim de semana, quando seu pai o questionou sobre o estágio. O fim do ano se aproximava, e isso significaria que ela talvez fosse para a faculdade, e ele para fora do país no estágio que tanto sonhava, mas… tinham sido sinceros um com o outro quando conversaram mais tarde a respeito. Amavam-se, e iriam viver aquilo pelo tempo que durasse. Talvez a distância os separasse, mas talvez não, não saberiam sem tentar e de nada valia sofrer antes da hora.

Sorriu para a câmera, os olhos brilhando pela emoção; o som dos aplausos e dos gritos dos amigos fez com que muitos os olhassem em reprovação, mas Ino acenou, mandou um beijo na direção deles mesmo sendo contra as regras do desfile, e voltou a posar para as câmeras antes de trocar de lugar com Hanabi. De costas para as câmeras, elas pararam, deram as mãos e as ergueram o mais alto que podiam para, só assim, deixarem a passarela.

* * *

O fim do desfile foi lindo, e Naruto esperou pacientemente. A casa de Hinata abrigava muito bem a todos, Hanabi ria com Konohamaru enquanto Neji os olhava em choque ao tentar explicar pela décima vez algo que, levando em consideração o tanto que ele tinha bebido, já não fazia o menor sentido. Ino estava com Gaara, em algum canto da casa que nem tinha ideia e Sakura dormia no sofá a despeito da música e das vozes alteradas. Sasuke estava sóbrio, conversava com um dos convidados de Ino que tinha chegado depois do desfile e, apesar de parecer ser algo sério, Naruto manteve-se distante. Sasuke não parecia desconfortável, nem mesmo recusou ou pareceu querer afastar o outro quando foi abraçado e teve a testa beijada. Havia cuidado, carinho, e, apesar do leve ciúme, conhecia Sasuke o bastante para não dar asas à imaginação ou aos pensamentos infundados.

Sasuke esperou Shikamaru se afastar e sentar-se com Neji e franziu o cenho, contrariado. Por que Shikamaru sempre parecia estar certo em tudo? Bufou. Conversar com ele clareava sua mente de uma maneira inexplicável, ainda mais depois de terem conversado sobre o passado e tudo que o envolvia. Bagunçou o cabelo e percebeu Naruto a observá-lo de longe, a postura sempre ereta, uma elegância questionável para alguém tão agitado e desajeitado como Naruto. Aproximou-se, percebendo-se derreter passo a passo conforme o sorriso de Naruto se iluminava.

— Não me atrasei no desfile, viu? — Naruto comentou, orgulhoso.

— Com certeza graças à Hinata — provocou.

Naruto riu sem se importar se chamava ou não atenção. As mãos já estavam na cintura de Sasuke sem que de fato soubesse quando havia começado a puxar o namorado para mais perto, os olhos azuis o admiraram, sem esconder a alegria ou o encanto. Sasuke era bonito, não importava como se vestisse ou o que fizesse… Tinha contado os segundos para poder ficar perto dele daquele jeito, não queria estragar a comemoração de Ino, sabia o quanto a amizade deles era importante e não era justo dividir a atenção de Sasuke, mas agora… era tão bom finalmente tê-lo em seus braços.

— Você está lindo, sabia?

— Não. Comece.

— Por que não? — Naruto se fez de desentendido.

— Porque Neji está perto e vai com certeza tirar uma foto e me infernizar depois.

— Vou adorar que ele me mande então essa foto, você está mesmo muito bonito para eu não ter uma única foto nossa hoje.

Sasuke desviou o rosto para esconder o sorriso envergonhado e limpou a garganta antes de voltar a encarar Naruto. O coração acelerou quando sentiu os dedos dele em seu rosto, o olhar apaixonado enquanto colocava uma das mechas atrás de sua orelha, o sorriso bobo que o fez suspirar sem dar-se conta.

— Eu te odeio — sussurrou derrotado, e Naruto deslizou a mão até sua nuca, aproximando os rostos de forma que Sasuke já fechava os olhos quando os lábios se tocaram em um beijo leve e discreto.

— Duvido. — Naruto sorriu de canto. — Relaxa, ele está bêbado demais para prestar atenção na gente.

Sasuke bufou.

— Nunca duvide da filhadaputagem dos meus amigos.

Naruto deu de ombros, e Sasuke arfou quando sentiu mais uma vez os lábios serem tomados em um beijo um pouco mais profundo que o anterior. Passou os braços pelo pescoço de Naruto e sorriu ao acariciar o cabelo loiro e deslizar a mão pelo rosto dele. Fechou os olhos, o ritmo com que seu coração batia era uma melodia viciante, a mais harmônica, a mais bela, a que ele desejava ouvir dia após dia, implorando para que nunca chegasse ao fim. E foi com esse pensamento que abriu os olhos e encarou Naruto, as palavras de Shikamaru ainda frescas na memória, a decisão tomada e a insegurança tão visível que Naruto o observou preocupado.

— Algum problema, Sasuke?

— Recebi um convite para fazer uma audição em uma das filiais de Bolshoi — falou depressa.

Naruto arregalou os olhos, o sorriso tão verdadeiro que Sasuke engoliu em seco.

— Uau, isso é incrível, Sasuke! Quando vai ser a audição? Se você passar, começa a estudar lá no próximo ano ou nesse ainda?

— A audição vai ser daqui duas semanas, eu e Neji iremos, Sakura e Ino recusaram.

— Se me disser o dia, eu te levo para fazer a prova e te espero para podermos comemorar porque você sabe que eles não têm como te recusar!

— Naruto — Sasuke chamou, e o tom mais sério fez Naruto piscar confuso. — Você sabe onde a escola fica?

A compreensão pareceu enfim chegar, e Naruto tomou alguns segundos para observar como Sasuke o olhava ansioso, como os olhos negros pareciam buscar uma resposta além daquela para a pergunta feita. As mãos dele mantinham-se em sua nuca, sentia a forma como os dedos enrolavam-se em suas mechas como Sasuke fazia quando nervoso, a tensão era palpável, e foi por isso que segurou o rosto dele com as duas mãos e fez questão de olhá-lo nos olhos.

— Sei e está tudo bem, Sasuke. É o seu sonho, Teme… — enfatizou e a mão desceu para buscar a de Sasuke, sem desviar o olhar quando os lábios tocaram o anel que o bailarino usava em um beijo delicado. — Não vai se livrar de mim por causa por causa de uma hora de distância. Eu te avisei, não foi? Não sou de desistir fácil.

— Uma hora e meia ou duas — corrigiu, e Naruto riu ao revirar os olhos e passar os braços de novo pela cintura de Sasuke.

— Sasuke, podia ser um dia de distância e, ainda assim, você teria que arranjar um motivo muito melhor para me chutar da sua vida. — Deu de ombros, e Sasuke estreitou o olhar, desconfiado como sempre, o corpo relaxando à medida que o coração aceitava aquelas palavras e o fazia corar. — Eu já disse o quanto eu te amo hoje? — Naruto sorriu contra a boca dele, e Sasuke riu anasalado.

— Não.

— Mentiroso… mas eu repito. Eu te amo, Sasuke, mais do que você imagina, mais do que eu consigo explicar ou expressar. E, enquanto você me amar, eu vou fazer o possível para isso dar certo e para você ser feliz.

Sasuke apertou Naruto contra si, os olhos fechados enquanto o sorriso se espalhava pelo rosto e não restava mais peso algum sobre os ombros. Tocou o rosto de Naruto com carinho, com uma leveza similar ao beijo que depositou sobre os lábios dele antes de abraçá-lo com força.

— Pra sua sorte ou azar, Dobe, esse “enquanto eu te amar” não tem previsão alguma de chegar ao fim, então, você acaba de assinar um contrato bem longo.

— Essa foi a forma mais simples que você achou de dizer que também me ama? — Naruto arqueou a sobrancelha.

— Não estraga o momento, Dobe.

Naruto riu, e Sasuke o acompanhou, incrédulo, enquanto repousava a cabeça no ombro dele e suspirava com a carícia em seu cabelo. Permaneceu no abraço que tanto amava, ouviu a melodia composta pelos corações a se acalmar, pelas respirações que convergiam a um único ritmo, e apreciou o momento até que, tal qual em uma música, as notas finais chegaram, cabendo a ele o último e mais belo acorde:

— Também amo você...



Notas finais
OLÁ!!! Então, gente, chegamos ao fim!!! Ahhhhhhhhh eu nem acredito hahaha A história provavelmente terá um Epílogo, então vou deixar para ter o surto final no próximo hahahaha Beijoss Espero que tenham curtido ♥