Não pare a Música

35 Capítulo 35 - Resgate


Notas iniciais
[AVISO - POR FAVOR LEIAM PORQUE É IMPORTANTE] [GATILHO]: O capítulo e a fic em si não tem nada com estupro. O capítulo 35 vai trazer o tema assédio sexual nas companhias de dança (bem como ocorre com ginastas, modelos, etc). Não vai ter uma narração detalhada da cena que ocorreu no passado do Sasuke (15 anos), como muita gente tinha já percebido, será um único parágrafo, sem muitos detalhes. Eu considero um tema pesado pela carga emocional também, por isso estou avisando. Boa leitura a todos.

Gaara sorriu ao reconhecer o cabelo loiro de Ino à distância. Mesmo entre tantas pessoas naquele aeroporto lotado, Ino era fácil de ser reconhecida, afinal, ninguém era tão bonita como ela, nem o fazia querer tirar a câmera da mochila para registrar como Ino parecia ansiosa. Ansiosa para a chegada dele… E era reconfortante observar como os olhos azuis corriam pelo aeroporto enquanto o buscavam.

Tinha ficado fora uma semana, o projeto havia sido maravilhoso, e ele tinha certeza que as fotos agregariam e muito em seu portfólio. Konan tinha razão, havia sido uma oportunidade que ele agora se arrependeria e muito se a tivesse perdido. AInda assim, a satisfação por ver Ino o esperando com Sasuke ao lado era maior do que tinha imaginado.

Encontrou o olhar dela. A conexão ia além dos olhos, porque os sorrisos cresceram quase que um em reflexo do outro, e Gaara voltou a andar e arrastar a mala quando Ino correu em sua direção.

Seus braços a receberam já tão familiarizados com ela que foi como reaver uma parte sua que faltava, e ele sentiu o rosto esquentar ao ser beijado.

Erro dele, é claro, deveria também se lembrar da impulsividade de Ino, bem como da indiscrição e da facilidade com que ela demonstrava o que sentia.

— Oi… — Ela sorriu, os braços em torno de seu pescoço, a altura compensada pelo salto.

— Oi… — Riu baixo, e Ino selou os lábios mais uma vez com calma e um suspiro contente.

— Senti sua falta. E seu voo atrasou muito...

— Desculpe, esperou muito?

— Não, chegamos faz pouco tempo — ela respondeu, mas Gaara viu a expressão de Sasuke desmenti-la. — Vamos te deixar em casa antes de irmos pra aula, Sasuke está de carro hoje.

— Obrigado — Gaara agradeceu Sasuke. — Deu tudo certo nas últimas fotos? Você não comentou muito, fiquei preocupado.

— À toa. — Ino revirou os olhos e sorriu quando ele segurou a mão dela enquanto caminhavam. — Eu disse que sabia lidar com Sasori. Eu devia ter gravado a cara dele quando mandei que ele desse o cu em vez de cuidar da minha vida. — Ela riu alto, e Sasuke sorriu de canto diante da expressão chocada de Gaara. — Eu vou te contar tudo depois, temos grandes notícias na verdade. Você vai adorar!

— Vamos ter tempo. — Ele sorriu. — Mas está mesmo tudo bem? Konohamaru me mandou uma mensagem perguntando se você havia falado comigo, ele parecia preocupado.

Ino congelou o passo, e Sasuke notou como o sorriso dela precisou ser mantido à força. Ela negou com a cabeça, disfarçando e então deu de ombros.

— Deve ser porque eu meio que forcei o Sasori a mudar a posição das modelos em uma campanha. Foi incrível — ela mentiu, e Gaara percebeu que havia algo errado quando ela mordeu o lábio e fingiu olhar ao redor.

Ele olhou para Sasuke, na esperança de que ou ele soubesse o que havia acontecido ou que Ino apenas não estivesse lhe contando porque o amigo “super protetor” estava por perto. Mas não sabia dizer… Deixou o assunto morrer, era até que fácil ser distraído quando Ino tinha tanto para contar. A felicidade dela era contagiante, e era engraçado como ela parecia empolgada com as chances de ele conseguir o estágio.

Agradeceu pela carona e se despediu de Ino com a vontade de não se afastar e assistir ao ensaio que teriam, mas Ino arregalou os olhos e recuou dois passos quando deu a ideia. Ela abriu a boca e voltou a fechá-la algumas vezes, sem saber o que dizer, desconfortável, pior do que quando a tinha fotografado nas primeiras vezes e ela estava insegura.

— Não é um momento agradável para espectadores — Sasuke respondeu de repente. — Além disso, os ensaios gerais não são abertos ao público, a menos que a dona da companhia autorize. E nós não somos os alunos preferidos dela — acrescentou com ironia, e Ino riu sem humor ao concordar.

— Prometo que te arranjo um ingresso muito bom para a apresentação. — Ino ajeitou seu cabelo e o beijou. — Agora, tenho que ir. Até depois.

Gaara suspirou e beijou Ino com carinho, odiava a sombra daquela insegurança que havia trazido sobre ela com apenas uma sugestão.

— Bom ensaio — desejou, e ela sorriu animada mais uma vez.

Sasuke ligou o carro quando Ino se sentou e fechou a porta. Esperou que ela parasse de morder o lábio e enfim dissesse o que a estava incomodando, mas o silêncio prolongado o fez revirar os olhos.

— Ino… — chamou, impaciente, e ela suspirou.

— Não quero que ele me veja lá — ela falou, depressa. — Não quero que ele me veja sendo humilhada pelo Orochimaru ou qualquer um daqueles idiotas. Não é uma parte da minha vida que eu quero que ele veja…

— E vai mentir então? — Sasuke a olhou de canto, e Ino se virou para ele, indignada.

— Não estou mentindo! Eu só-

— Vai fingir que tá tudo bem, que seu dia foi ótimo mesmo depois das merdas do Orochimaru, que está sempre feliz e saltitante — Sasuke a interrompeu. — É esse o relacionamento que quer?

Ino respirou fundo e não respondeu até que Sasuke estacionasse na escola.

— Eu vou deixar o ballet, Sasu — sussurrou quando ele tirou a chave da ignição.

— O quê? Por quê? — ele arregalou os olhos, como se não tivesse ouvido certo o que ela havia dito.

— Porque eu quero ser valorizada — ela respondeu com firmeza, a cabeça erguida e os olhos nos dele, sem desviar. — Eu amo dançar… Meu Deus, é o que eu mais amo fazer, mas… Por enquanto, não dá mais. Eu quero focar na minha faculdade, quero me sentir bem, me sentir bonita, me sentir completa. Pela primeira vez na minha vida, eu fui reconhecida em um ambiente que tem tudo para me desfavorecer. — Ela fechou os olhos ao sorrir. — Eu estou há anos aqui, e é tanta humilhação… eu nem tenho cabeça para isso agora… E eu sei que vai mudar, um dia vai mudar, mas eu quero estar bem e inteira para viver esse dia, e isso não vai acontecer enquanto Tsunade for conivente com Orochimaru e outros professores.

— Você vai passar da idade, Ino — Sasuke pontuou, e Ino riu.

— Eu amo dançar, Sasuke, não há idade para isso. — Ela sorriu e deu de ombros, leve. — Eu quero ter prazer ao dançar, desfilar, posar. Quero me sentir bem fazendo isso. Em todos esses anos de ballet, eu tive que aturar um ano inteiro de humilhação para algumas horas de prazer durante os espetáculos. É muito tempo sendo pisoteada para pouco tempo sendo aclamada… Não é justo comigo mesma permitir que isso continue. Não pense que estou desistindo, isso não é uma desistência. Desistir seria abandonar tudo e me esconder no quarto, porta trancada, cabeça baixa, boca fechada. Eu estou fazendo o oposto, Sasuke. — Ela respirou fundo, os olhos brilhando em certeza. — Estou escolhendo aquilo que vai me fazer bem, vou fazer Orochimaru e todos esses professores passarem raiva porque eles serão obrigados a ver o meu rosto, o meu corpo, em campanhas, desfiles, em tantos lugares que eles não vão conseguir entrar nem mesmo em um café sem ouvir o meu nome. E, para isso acontecer, eu preciso estabelecer minhas prioridades, cortar o que não me faz bem.

Ela soltou o cinto e se inclinou na direção dele, segurou-lhe o rosto e deixou um beijo singelo na bochecha antes de se afastar.

— A arte faz parte de quem somos, Sasuke, a dança é algo que nasceu conosco. Ela é minha, está em mim, e nenhuma companhia do mundo pode arrancá-la. Deixar a companhia é deixar para trás pessoas, não a minha arte. Eu vou continuar dançando, porque a dança é a forma mais pura e bonita que eu tenho de mostrar quem sou. Eu só estou trocando de palco e optando por um mais… privado.

Não houve resposta, e Ino entendia. Sasuke levaria um tempo para digerir o que ela havia falado, e outro ainda maior para compreender sua escolha. O ballet era a vida dele, era bonito de ver como ele se entregava à dança, mas também era trágico, triste, porque ela sabia que, para Sasuke, abandonar a dança era o mesmo que parar de respirar. Ela sairia, ele nunca, e por isso era tão difícil aceitar a escolha dela, ainda que não se dissesse nada para se opor…

* * *

O modo como Sasuke dançava naquele dia estava muito mais fluido que os demais, Naruto notou, todos notaram. Havia uma mudança na forma como o corpo se expressava e uma certa melancolia na expressão dele que Naruto não soube dizer o motivo. Neji estava quase da mesma forma, e Sakura também, como se os três compartilhassem o lamento.

Orochimaru estava irritado, e não disfarçava isso. Naruto podia sentir o olhar do professor queimando em suas costas, podia ouvir o desprezo em sua voz ao disparar as instruções, e odiou tê-lo enfrentado no outro dia, já que agora, mais uma vez, Sasuke pagava o preço a cada repetição injusta. Mas, naquele dia, Sasuke não parecia se importar, ele estava aéreo, sem responder às provocações do professor e se dignando a olhar o relógio apenas, como se tudo o que desejasse fosse sair daquela sala o quanto antes.

Estranhamente, a sala foi dispensada no horário correto, sem castigos extras, sem que Orochimaru tivesse paciência para continuar a gritar com eles. Naruto viu os alunos saírem primeiro, Sasuke passou pela porta sem olhar para ninguém, e Neji, Ino e Sakura foram atrás. Naruto demorou-se arrumando o piano. Cobriria o outro professor na manhã do dia seguinte e queria deixar as partituras separadas para as classes mais novas. Não se despediu de Orochimaru ao sair e sussurrou um pedido rápido de desculpas ao esbarrar em Kiri quando ela entrou sem olhá-lo para as aulas extras.

O vestiário ainda estava repleto dos alunos que resmungavam ao entrarem para tomar banho, muitos preferindo ir embora e fazê-lo em casa, mas Naruto já conhecia Sasuke para saber que ele não. Sentou-se, Neji estava com os fones de ouvido do outro lado, a toalha no ombro enquanto esperava que algum dos vestiários fosse liberado. Em vinte minutos, muitos já haviam saído. Naruto permaneceu olhando o celular enquanto isso. Sasuke ainda não havia saído e, quando fez, apareceu já vestido, a toalha em mãos para secar o cabelo enquanto conversava com Neji.

Os dois pareciam irritados, insatisfeitos, na verdade. A conversa se mantinha em voz baixa, ainda que não tivesse muitas pessoas no recinto. E Naruto soube que havia algo extremamente errado quando Neji se sentou e enterrou a cabeça nas mãos antes de xingar alto e passar a se vestir de qualquer jeito.

— O que houve? — perguntou ao não aguentar a curiosidade.

Sasuke suspirou ao se virar para ele.

— Depois conto — ele respondeu breve.

— Tem a ver com Orochimaru?

— Por que teria, não é? — Neji o olhou por sobre o ombro, a sobrancelha arqueada e a voz irônica.

— Ele estava bem irritado hoje. — Naruto suspirou. — E… Sasuke… acho que a culpa foi minha.

Sasuke franziu o cenho, mas foi Neji que perguntou:

— Que merda você fez?

— Ei! Eu não fiz nada — Naruto respondeu indignado. — Ele discutiu comigo e eu acabei respondendo. Só isso. — Olhou para Sasuke e garantiu: — Não falei nada demais, mas vocês sabem que ele não aceita nada além da opinião dele! O professor de vocês é louco, eu nem sei como vocês aguentaram a aula de hoje, muito menos como a Kiri vai aguentar agora. Tenho dó daquela garota… Orochimaru vai com certeza descontar a raiva nessa aula.

Sasuke parou de arrumar a mochila, e Neji viu os olhos dele se arregalarem antes de ele dar um passo na direção de Naruto.

— Que garota? — Sasuke perguntou, sério, sério demais para que Neji não percebesse a mudança de tom na voz.

— O quê? — Naruto o olhou confuso e deu de ombros. — Acho que uma do terceiro ano, não lembro mais. Ela iria avançar de turma, e ele se ofereceu para ajudar, ensinar o que faltava para que ela pudesse acomp-

— Quando? — Sasuke o interrompeu, e Naruto recuou ao perceber a surpresa e o horror nos olhos dele.

— Sasuke, o q-

— Quando isso? Quando foi que ele começou a dar essas aulas? — ele perguntou alto, Neji e Naruto se entreolharam sem entender, e Naruto balançou a cabeça confuso.

— Foi bem no começo do ano… eu-eu ouvi ele combinando com ela depois das aulas e-... Ei! — Naruto arregalou os olhos quando viu Sasuke sair correndo do vestiário. — Sasuke! Sasuke!

Neji correu junto, mesmo que não soubesse o motivo. Não, ele sabia, ele tinha entendido segundos antes de Sasuke sair desesperado do vestiário. A máscara tinha caído; naquele breve instante, a máscara, o personagem, que Sasuke tanto se esforçava para manter havia se quebrado em vários pequenos pedaços, e Neji soube ler exatamente o que o pânico e o horror nos olhos negros tanto vinham escondendo. Seu estômago estava revirado. Enquanto corria atrás de Sasuke, podia sentir os olhos úmidos ao passo que o estômago o fazia sentir ânsia pela verdade que ele estava há algumas semanas querendo negar.

Sasuke abriu a porta da sala de aula sem qualquer cerimônia, o barulho da madeira batendo contra a parede ressoou por um longo momento e fez Orochimaru se sobressaltar. Havia ódio em cada passo de Sasuke, havia o mais puro e indisfarçável nojo enquanto ele caminhava a passos duros até a barra em frente ao espelho.

— Sai de perto dela — a voz saiu firme, baixa, mas perigosa o suficiente para que Neji sentisse seu sangue gelar e então olhar para a garota que estava ali. — Sai de perto dela agora! — ele repetiu, e Orochimaru ergueu as mãos ao dar um passo para trás.

Doze anos, treze, não sabia, cabeça baixa, mãos juntas e trêmulas, olhos presos no chão. Sasuke havia se colocado entre ela e Orochimaru, o braço ao lado como se a escondesse atrás do próprio corpo.

Não…

Não…

Seu cérebro não queria processar aquilo, ele não queria acreditar, mas a expressão debochada de Orochimaru ao olhar para Sasuke fazia com que tudo se encaixasse tão malignamente bem… Ouviu os passos de Naruto e viu Orochimaru se virar para olhá-los.

— Sasuke — Naruto chamou, e Neji temeu pela raiva que enxergava no outro.

— Cala a boca — Sasuke gritou ao apontar para Naruto, e nem mesmo Neji se lembrava de ter ouvido Sasuke tão furioso antes.

— Posso saber o motivo desse escândalo? — Orochimaru perguntou, e Neji quis vomitar diante da postura fria que ele mantinha. — A sua aula já acabou se bem me lembro, a menos que queira repassar a sua coreografia comigo.

Sasuke arregalou os olhos, e todo o sangue que tinha em seu corpo pareceu sumir de súbito, deixando-lhe a sensação horrenda de estar mais uma vez diante de um animal pronto para destroçá-lo. Tudo foi rápido, o choque e o horror se transformaram em ação, e Naruto não entendeu por que Neji não o ajudou a impedir aquilo, mas percebeu rápido o erro de empurrar Orochimaru para o lado e segurar o punho de Sasuke quando o bailarino riu, amargo, e o olhou com um ódio tão frio e palpável quanto aquele que o tinha visto dirigir ao professor.

— Sasuk-

— Não me toque! — ele gritou ao soltar a mão da de Naruto com asco e só engoliu as demais palavras porque ouviu o soluçar baixo, o choro que a criança atrás de si tentava conter e disfarçar.

Virou-se para ela, o coração na boca enquanto as mãos tremiam.

— Vem, vamos sair daqui, vem — sussurrou, as palavras atropelando-se na própria boca enquanto sentia a garota agarrar-se ao seu braço, paralisada. — Vem comigo, ele não vai fazer nada com você, ele não vai fazer nada com a gente, vem comigo, eu não vou deixar ele fazer nada com você, vem... — As mãos tremiam ao se abaixar e pegá-la no colo simplesmente porque não sabia outra forma de fazê-la andar, porque queria tirá-la dali o mais rápido possível. — Tá tudo bem, tá tudo bem, tá tudo bem….

E se havia outra forma de confortar aquela garota, ele não sabia, ele não havia sido confortado por ninguém, ele não tinha tido ajuda, ele não tinha tido o treino “extra” interrompido por ninguém, ele não havia sido resgatado. Então, só sabia repetir aquelas três palavras, só conseguia abraçar com força aquela criança enquanto invadia o vestiário feminino vazio, e ela desabava no choro.

Tinha se sentado no chão de um dos chuveiros sem perceber, ligado a água fria sem saber como, e ouvia o choro da garota como se fosse o próprio. Perdeu o chão, os braços dela o abraçavam com força, machucava, mas ele não se importava com a dor.

Sentiu o vômito subir pela garganta, e o corpo tensionou ao ponto de doer ao se lembrar do passado. Orochimaru era esperto, nunca produziria provas contra si mesmo, então ele era discreto… As carícias vinham disfarçadas durante os castigos, as aulas fora do horário, os ensaios extras para revisar as coreografias… Os toques se alongavam mais do que nas aulas, os apertos em seu corpo eram mais fortes, e havia sorrisos e suspiros que demorou para sua mente de quinze anos entender a que se referiam. Sempre perto, sempre tocando e acariciando demais, sempre exigindo posturas e observando com um interesse vulgar… Achou que fosse imaginação sua, ninguém nunca dizia nada, ninguém nunca estranhava nada, achou que estava vendo demais, que a culpa era sua por duvidar demais… Havia se culpado! Tinha pensado que estava louco! Até que sentiu, o corpo dele contra o seu, a mão subindo por sua perna na barra até o shorts, até onde não deveria nunca tocar. Paralisou, o reflexo de Orochimaru a observar como uma víbora o pânico e o asco que tomavam sua expressão antes de conseguir reunir forças para sair do choque e afastá-lo para correr para casa. Havia chorado no colo de Mito por horas naquele dia… não só pelo que tinha acontecido, mas pela certeza de que ninguém acreditaria, pela certeza de que, se falasse, arruinaria todo o seu futuro…

— Sasuke…

Abriu os olhos. Neji estava agachado em frente à porta aberta do vestiário, os olhos sempre sérios do amigo estavam úmidos, e Sasuke odiou-se por ter colocado mais aquele peso sobre os ombros do amigo. Era óbvio que Neji tinha ligado os pontos, ele era inteligente demais para não entender, e se culparia por ter demorado tanto, Neji não conseguiria não se culpar…

— Os pais dela estão lá embaixo… vieram buscá-la… e eu… liguei para Madara, ele está a poucos minutos daqui.

A menina abraçou Sasuke com mais força, Neji viu e cerrou os punhos sem conseguir encarar a cena.

— Já desço com ela…

Neji concordou, deixou a bolsa da garota sobre um dos bancos e se retirou do vestiário para encontrar Naruto prestes a entrar.

— Não — negou com veemência.

— Olha, nós já passamos dessa fase, ok? — Naruto bufou, mas Neji o empurrou para trás. — Mas… que merda! O que tá acontecendo aqui?

— Agora não — Neji frisou irritado e segurou Naruto pelo colarinho quando ele tentou mais uma vez passar. — Escuta aqui, Naruto, não é mesmo uma boa hora nem para testar a minha paciência, nem para você chegar perto do Sasuke. Então, se faça um favor e some daqui agora.

— Por quê? Por que eu tenho que sair e você pode ficar? Você nem ao menos impediu ele de arruinar a carreira dele! Sabe o que Orochimaru faria se Sasuke tivesse dado aquele soco?

— Você ainda não entendeu? — Neji gritou incrédulo e arrastou Naruto até o vestiário masculino.

Naruto tropeçou quando Neji o soltou do nada, viu Neji conferir se estavam sozinhos e não abaixou a cabeça nem por um segundo quando ele voltou a se aproximar desconfiado.

— O que acontece depois da aula, Naruto?

— Orochimaru vira um imbecil e sente prazer em ficar torturando os alunos até não dar mais. Já vi isso. Ele fez o Sasuke saltar tanto no meu primeiro dia aqui que achei que ele fosse desmaiar!

Neji estreitou o olhar, queria tanto acreditar que Naruto não estava envolvido naquilo, tanto acreditar que ele não estava acobertando Orochimaru como agora achava que todos os outros professores estavam… Tsunade… ela tinha que saber, era por isso que odiava Sasuke, não era?

— Isso com você na sala, não é? Deixa eu mudar a pergunta então — fechou os olhos e respirou fundo, Naruto aguardava irritado e confuso, e Neji se forçou a encarar os olhos azuis atrás da verdadeira resposta ao perguntar: — Sem você ou qualquer um lá, o que você acha que Orochimaru faz com os alunos?

Naruto sustentou o olhar enquanto a pergunta era absorvida. No começo, Neji viu confusão, como se o pianista não visse lógica alguma em sua pergunta; depois, estranhamento e incredulidade, como se Naruto achasse absurda a resposta que a mente lhe jogou; em seguida, foi como assistir às luzes da compreensão sendo acesas uma a uma, um dominó caindo e derrubando todos os demais até que o último trouxesse o desespero nos olhos azuis.

— Sasuke… — Naruto não chegou a dizer, mas Neji leu os lábios dele e o segurou no exato momento em que Naruto tentou correr até o outro vestiário. — Me solta! Me solta porra! Ele… isso…

— Você não vai lá agora! — Neji gritou de volta. — Me escuta, seu idiota, porque, acredite ou não, eu to tentando te ajudar!

— O quê? Me ajudar com que? — Naruto o empurrou enfim. — Eu preciso ver o Sasuke, ok? Então, sai da frente!

— E quem disse que eu quero te ver?

Naruto ergueu os olhos ao ouvir a voz de Sasuke na entrada do vestiário.

— Sas-

— Você sabia — Sasuke vociferou. — Você sabia que ele estava sozinho com aquela garota desde o começo do ano!

— O quê? — Naruto arregalou os olhos e deu um passo à frente assustado quando entendeu onde Sasuke queria chegar. — Não, Sasuke, eu só sabia das aulas, eu não fazia ideia…

— Não fazia ideia do quê? Do monstro que Orochimaru é? Você de verdade deixou uma criança sozinha com ele e achou que estava tudo bem? Ou você simplesmente não se importou? — Sasuke gritou, o rosto vermelho de raiva, as lágrimas correndo sem que ele reparasse ou se desse ao luxo de dar importância a elas.

— Sasuke — Neji tentou.

— Não fala isso… — Naruto pediu, e a voz dele soou tão quebrada que Neji acreditou nele. — Sasuke, me escuta…

— Nem mais um passo — Sasuke ameaçou. — Você defendeu ele… você...

— Não, não, Sasuke, eu não sabia disso, eu não… eu te impedi de socar ele porque achei que você tinha perdido a cabeça, era a sua carreira, era dar pra aquele bastardo o motivo para te prejudicar! Sasuke, eu juro que não sabia, eu juro...

— Ninguém nunca sabe, ninguém nunca vê, ninguém nunca acredita. É assim, não é? — Ele riu, amargo, doído. — Eu… acreditei que você não fazia parte disso… — O riso saiu histérico, e Naruto perdeu o ar com o peso daquelas palavras.

— Sasuke, me ouve, por favor, eu juro que não sabia de nada disso… Você precisa acreditar em mim!

Sasuke balançou a cabeça enquanto recuava o mesmo passo que Naruto dava em sua direção.

— O que eu preciso é de você bem longe de mim — disse entredentes, e Naruto sentiu a mão de Neji segurá-lo quando Madara apareceu atrás de Sasuke.

— O que aconteceu aqui? — Madara perguntou confuso ao notar o estado de Sasuke. Neji tinha pedido urgência, mas não tinha lhe dito o motivo.

— Vamos embora — Sasuke falou, baixo, e saiu apressado do vestiário.

Neji segurou Naruto e assentiu para Madara. Sentia Naruto tremer sob sua mão, via de perto o desespero dele e o quanto ele estava perdido com o que tinha acontecido. Era muita coisa para entender… coisas que não queriam aceitar que fossem verdade…

— Não é o melhor momento, Naruto — sussurrou. — Espe-

— Cadê o Orochimaru? — Naruto perguntou, o choque desfeito, a raiva visível.

— Foi embora antes mesmo dos pais da garota chegarem.

Neji o soltou, e Naruto pegou depressa seus pertences, a chave do carro já na mão enquanto saía do vestiário e parava apenas para se voltar a Neji e perguntar:

— Vou até Tsunade. Vem comigo?

— Não vai adiantar… — Neji se odiou por responder aquilo.

— Se você acha que eu não vou fazer nada sobre isso, está muito enganado — Naruto rebateu irritado, e Neji respirou fundo.

— Ah é? E como você acha que tá aqui agora? Como você acha que Tobirama foi demitido? Hein? — Neji perdeu a paciência. — Pare de agir como se fosse o único que está puto, como se fosse o único a se importar! Se você acha que eu vou ficar parado, é você que está enganado. A diferença é que eu tenho a porra de um cérebro e sei que agir impulsivamente não vai ajudar ninguém. Pelo contrário, só vai fuder ainda mais a vida do Sasuke! Então, se você quer ir até Tsunade e perder a chance de fazer algo útil, vá em frente.

Naruto grunhiu, as mãos no cabelo enquanto andava de um lado para o outro sem saber o que fazer. Sentiu a mão de Neji em seu ombro, firme, os olhos do bailarino estavam fixos à frente, num ponto qualquer, e Naruto xingou baixo ao notá-los tão perdidos, frustrados e enfurecidos quanto os seus. Fechou os olhos e respirou fundo.

— Vou pra casa dele hoje. Te mantenho informado — Neji disse, e Naruto assentiu embora a vontade que tivesse era de negar e ir até Sasuke naquele exato momento para esclarecer as coisas. — Eu acredito em você.

— Obrigado — sussurrou.

Neji foi embora e, nos minutos que se passaram, Naruto não conseguiu sair do lugar, o corpo deslizou pela parede até o chão no meio do corredor do andar, mas ele não se importou nem um pouco. Os ponteiros do relógio nada significavam, não eram suficientes para amenizar a dor que sentia, o desespero que o tomava, o ódio que crescia. Ouviu o celular tocar e atendeu.

— Fala.

Preciso de você no hospital, agora — a voz de Hinata estava apressada, e ele ainda a ouviu disparar ordens. — Seu pai não me atende. Sua mãe estava na academia e acho que faz esforço do que podia. Naruto? Você está me ouvindo? Naruto?

É claro… o mundo nunca poderia lhe oferecer uma desgraça de cada vez, não é? Tinha que mandar tudo junto só para ver se ele ainda conseguiria levantar a cada queda.

— Já estou indo. Obrigado. Faça o que for preciso, Hina — respondeu depressa e se levantou.

Não ficaria no chão, não mudaria nada ficando ali. Permaneceria de pé, caminharia sempre em frente, um passo após o outro. E que Orochimaru não cruzasse o seu caminho... porque não pararia. Por mais que soubesse que era errado, não pararia nem mesmo por um segundo... Afinal, o ódio é algo difícil de conter quando já destruiu todas as barragens que a mente constrói para detê-lo...